Gonçalo Ribeiro Telles no Reino da Estupidez

«“A diminuição severa de água da chuva disponível no solo pode resultar na diminuição de disponibilidade de água dos rios e dos aquíferos, o que numa situação limite pode condicionar a quantidade de água disponível para consumo humano e do ecossistema”, alerta Paula Quinteiro, coordenadora do estudo e investigadora do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM), uma das unidades de investigação da UA.

“Na atualidade já se identifica alguma pressão nos recursos de água verde [água da chuva] sendo que esta pressão irá aumentar significativamente no futuro, dando a indicação de que em algumas situações, e dependendo dos requisitos de água necessários para garantir e maximizar o crescimento de vegetação, devem ser implementadas medidas de gestão/captação e eficiência de consumo dessa água”. Entre as medidas podem, por exemplo, “ser implementados sistemas de recolha de água da chuva por forma a garantir a respetiva disponibilidade para irrigações agrícolas e florestais”.»


Alerta: diminuição de chuva põe em causa ecossistemas

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Não sei, não entendo, qual a razão que o impede ou atrasa pois não frequento o meio partidário, parlamentar e governativo, mas sei, e entendo, que Portugal e Espanha (e também Marrocos e outros países mediterrânicos, quantos mais melhor) se deviam unir na criação de um centro de investigação capaz de liderar mundialmente a descoberta de novas metodologias, tecnologias e políticas em ordem a captar, distribuir e reutilizar a água da chuva no maior volume possível. Esse centro de investigação, com uma ambição tão alta, pede uma escala de investimento sem paralelo com as verbas usuais nas faculdades e institutos universitários. Deveria antes ser algo congénere do Projeto Manhattan e do Programa Apollo, mutatis mutandis. Dada a diversidade climática e meteorológica na Península Ibérica, e especialmente tendo em conta a previsão de vir a ser esta uma das regiões planetárias mais afectadas pelas alterações climáticas e pela ameaça de desertificação, temos todas as razões para começar anteontem a diminuir o impacto desse futuro já presente. Simultaneamente, uma tal iniciativa, onde o papel do Estado ao serviço do bem comum seria levado à sua pontencialidade máxima, ficaria como monumento glorioso para as gerações – para além de unir espanhóis e portugueses numa jangada de vanguarda científica e técnica.

Noutras partes do Globo avança a investigação de ponta a respeito do aproveitamento da água do mar, e não só, através da dessalinização. Também a tal teremos de recorrer, confirmando-se as previsões que os actuais modelos climáticos produzem e a repetição dos anos de seca que se têm registado. Todavia, é para mim escandaloso constatar como este alerta de Paula Quinteiro não gera qualquer sobressalto na opinião publicada, no discurso político, sequer no ecologismo inorgânico.

Esse alheamento exibe um país de ignorantes. Ignorantes em matérias científicas e ignorantes em vivência cívica. É o mesmo país que desprezou a inteligência, a paixão, a missão de Gonçalo Ribeiro Telles, alguém que anda há décadas a falar nesta e noutras questões agora assustadora e urgentemente vitais. Um país que quer ter cães e gatos em casa mas não suportaria ver uma galinha a ser morta para uma canja e que acha que os incêndios, também agravados pelas alterações climáticas em cima da desertificação e abandono rural, é uma cena que o Marcelo vai resolver obrigando os socialistas a demitir ministros.

É com melancolia dolorosa e revoltada, que se transforma em serena força de combate, que podemos assistir a um documento com 46 anos que só ganhou em actualidade com a passagem do tempo; tinha este português de lei 51 primaveras e o Marcelo-padrinho ainda era Presidente do Conselho:

10 thoughts on “Gonçalo Ribeiro Telles no Reino da Estupidez”

  1. depois logo se vê, a longo prazo estamos todos mortos , a “tragédia dos comuns” ???

    (há dinheiro para os políticos ? é que se não há, é escusado pensar no projecto)

  2. Então e os incêndios? Não contam?
    A história da gota de água. Já não faz parte do currículo dos putos? E os mais velhos também já esqueceram?
    Não será natural haver menos chuva porque cada vez há menos floresta?
    Por acaso estou curioso para saber se não houver floresta como é que o centro de investigação faz os barris para guardar a água das chuvas.

  3. já estou a ter aulas de dança da chuva , lá para o mês que vem obtenho o diploma e vou estagiar com São Pedro. comprem gabardinaa e barris , vai chover a potes.

  4. Viva, Valupi!

    Fazes bem chamar ao debate sobre o território a abordagem de Ribeiro Telles. Outros houve, menos mediáticos, mas porventura ainda mais assertivos, que muito fizeram pela introdução e estrutura do debate ecológico entre nós. Entre eles, Cruz de Carvalho, Emidio Guerreiro, David Pimentel, Delgado Domingos, David Morais. Mas não faço ideia por onde andarão os seus discípulos. Pela UAveiro parece-me que não estão. Pelo menos a avaliar pelo “alerta” que nos deixam.
    Com efeito, a afirmação ” diminuição da chuva põe em causa ecossistemas” , contem em si um erro ecológico básico: sugere que os ecossistemas são estáticos. Não são. São dinâmicos. Cruz de Carvalho costumava dizer que “ uma das coisas que a natureza melhor sabe fazer , é mudar”. E quando falamos de “ecossistemas de substituição” ( que são os induzidos pela actividade humana , como a agricultura ou as cidades, ) o que a Ecologia Humana ensina para melhor gerir a mudança, é fomentar a resiliência.. É o que faz Ribeiro Telles na aula que recuperas.: contra a variabilidade natural dos elementos do clima sobre as cidades, propõe diversidade de soluções no uso do espaço . Uma proposta que segue a mesma lógica do afolhamento e rotação de culturas dos romanos, ou do pomar misto de sequeiro algarvio dos árabes. Mas faz mais: deixa subentendido que há limites fisicos para o sucesso destas soluções: no limite, por muito que seja feito no sentido de diminuir a velocidade de escorrimento numa bacia hidrográfica, a cheia poderá sempre acontecer. Consequência : a construção em leito de cheia é uma estupidez em qualquer cenário. Ou, noutra formulaçao: existem limites fisicos para o dimensionamento das cidades.
    O principio subjacente a este raciocinio elementar não é recuperado pela UA. Não critica o modelo instalado de consumo de água. Tudo o que faz é sugerir, com base num exercicio de futurologia questionável, o reforço das “ medidas de gestão/captação e eficiência de consumo dessa água”. Traduzindo: nada contra o aumento do turismo , dos campos de golfe, ou dos pomares de regadio no algarve, desde que se reforce a captação e melhor a eficiência do uso das quantidadrs obscenas de agua necessaria para suportar essas actividades.. Não considera a possibilidade de os actuais niveis de consumo de água instalados, já constituirem uma estupidez, em qualquer cenário. Do ponto de vista da abordagem do binómio população / recursos, essencial na ecologia humana, este é outro erro básico ( inaceitável numa universidade ) que, estou certo, mereceria duras criticas de Ribeiro Telles.

  5. JRodrigues, mas leste o texto todo? É que também lá estão esses elementos relativos à dinâmica dos ecossistemas. No entanto, o enfoque é relativo à chuva por causa das grandes alterações já registadas nos padrões de pluviosidade e seu previsível crescente agravamento. Isso introduz um quadro de emergência relativo à gestão das águas no solo e da água disponível para consumo humano (incluindo a agricultura).

  6. Valupi,

    Não li o trabalho original, não o encontrei on-line. Li apenas a noticia do teu link. Foi sobre essa que comentei e reitero a minha critica, pois, como fica bem patente no teu ultimo comentário,o essencial da mensagem passou, a saber: não fossem as alterações climáticas e a suposta diminuição de pluviosidade que virá com elas, e tudo estaria bem, não haveria nenhum ” quadro de emergência relativo à gestão das águas”. Não concordo. Penso que a gestão da água e da seca no sul, é um problema antigo ( abre isto, tendo em atenção que os desvios são relativos ao periodo 1971-2000, que foi particularmente chuvoso : https://www.ipma.pt/pt/oclima/observatorio.secas/pdsi/apresentacao/evolu.historica/index_link.html?page=os_series_longas_matriz.xml )
    Esse problema tem-se agravado na justa medida em que a modernidade criou novas necessidades e novos padrões de consumo. Hoje a escassez de água define-se mais pelo padrão das novas necessidades criadas do que pela alteração do perfil pluviométrico. Na agricultura Alentejana, p.e., a partir do momento em que as empresas agrícolas se reestruturaram, numa óptica de intensificação, passando do sequeiro ao regadio e decuplicando os encabeçamentos, é óbvio que qualquer oscilação duradoura na precipitação média que afecte as reservas, afecta o sistema. Mas, lá está, o problema não está na novidade do clima ( não há “grandes alterações nos padrões de pluviosidade” ) mas sim nos novos padrões de consumo. Diz-se muito por aí que bastará aumentar a capacidade de armazenamento ( tipo novos Alquevas ) e a coisa se resolve. Pois sim. Mas, ecologicamente falando, importa ter em conta que quando o lençol é curto, quando se tapa a cabeça, destapam-os os pés. Será que o declínio observado dos recursos piscícolas da plataforma continental algarvia não tem nada a ver com a diminuição no abastecimento de nutrientes induzido pelas barragens ?

  7. JRodrigues, estás a puxar a brasa à tua sardinha, e fazes muito bem. Mas erras o alvo. Desde os anos 80 que me recordo dos avisos do Gonçalo Ribeiro Telles para se pensar a longo prazo no aproveitamento da água da chuva em soluções subterrâneas. Foi exactamente por isso que cruzei a notícia oriunda da Universidade de Aveiro com a memória da RTP.

    Quanto a não haver grandes alterações nos padrões de pluviosidade, dá ideia que tens estado de férias em Marte nos últimos 20 anos. Também te recomendo este artigo:

    https://www.sciencedaily.com/releases/2019/11/191113075107.htm

  8. é completamente inútil discutir com pessoas com baixa auto estima dado serem incapazes de reconhecer os erros. vai andar aqui aos círculos , aviso já J:R: .. é pura perda de tempo. apesar de conhecer a honestidade intelectual em teoria o V. não tem carácter para a usar na prática.
    uma pessoa fica enervada , puxa.

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