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Quando o telefone não toca

Pedro Silva Pereira foi convidado para ir à SIC comentar o último número circense da figura que com maior aparato e simbolismo representa a decadência da direita em Portugal. O jornalista não estava interessado nas explicações que o caso suscitasse ao seu interlocutor mas em sacar uma assunção de culpa: Sócrates tinha mesmo sido desleal com Cavaco porque este não foi avisado do PEC IV. Logo no ano passado, depois de uns dias a ser sovado à direita e à esquerda face à ofensiva do Presidente de se dizer ferido na honra, o Governo agarrou-se ao aspecto supostamente informal da reunião em Bruxelas, onde apenas estaria em causa a apresentação das linhas gerais do novo programa de ajustamento ainda a precisar de ser finalizado e aprovado no Parlamento. Claro que o paleio não convenceu ninguém, até porque não tinha essa finalidade. Pura e simplesmente não era possível então, nem agora, contar a verdade: o Governo estava a lidar com um filha-da-puta que os queria comer vivos, o ambiente era de guerra aberta por Cavaco sem direito a prisioneiros. Qualquer tentativa de envolvimento do Presidente da República numa decisão governamental estratégica, depois do comício da tomada de posse que tinha correspondido a uma oficiosa e inusitada moção de censura, seria um exercício de supina hipocrisia e absoluta inutilidade. Cavaco usaria qualquer outro pretexto para levar ao derrube de Sócrates pela simples razão de ser aquele o preciso calendário para o fazer – depois da reeleição e antes que se vissem mais resultados positivos da austeridade nas contas públicas sem FMI a aterrar na Portela. Todavia, estas ilações não pedem mais do que dois neurónios para serem obtidas espontaneamente por quem passe os olhos pelos factos. Silva Pereira esforçou-se por relatar os acontecimentos sem recurso ao vernáculo, detalhando o contexto da situação. Até que o exasperado jornalista da Fox de Carnaxide aproveitou para dar um responso ao xuxa e saiu-se com esta maravilha:

Isso não teria sido tudo evitado com um telefonema, por exemplo?

Minuto 6:10

É sabido que as pessoas fazem qualquer coisa por dinheiro, e nem é preciso muito na enorme maioria dos casos. Podemos admitir, portanto, que o autor da pergunta recebeu uma encomenda e a despachou, ou que veste com tanto amor a camisola da SIC que se imagina um cruzado a combater os infiéis socialistas com as suas perguntas assassinas. Nestas hipóteses, ainda se manteria algum tipo de consciência a respeito do sentido psicadélico do que tinha acabado de ser dito. É que a pergunta estabelece que a falta de um singelo telefonema de S. Bento para Belém está na origem da crise política e subsequente queda do Governo, descalabro dos ratings da República, subida drástica e imparável das taxas de juro, perda da soberania, novo Governo apostado em ir mais longe do que a troika, corte de subsídios, aumento de taxas, diminuição de salários, desmantelamento do Estado social, destruição da herança positiva do anterior Governo, apelos à emigração, aumento descontrolado do desemprego, empobrecimento generalizado e ruína da economia por opção ideológica. Fazer de Sócrates o eterno e exclusivo responsável por qualquer mal que desça sobre esta terra teria aqui apenas mais um capítulo.

Há uma outra possibilidade, e é nessa que aposto. É a de o jornalista acreditar piamente que a tragédia com que se enche quotidianamente os ecrãs televisivos se deve à arrogância dos que foram antipáticos com o senhor Presidente da República, magoando-o tanto com o seu silêncio que Cavaco não teve outro caminho que não fosse este que nos trouxe aqui. Como ninguém se deu ao trabalho de fazer a chamada, como não quiseram gastar 1 minuto a falar com o choné no telelé, o homem amuou e resolveu foder esta merda toda de vez, mas os culpados são os cabrões que não fizeram o caralho do telefonema. Eis o que o pronome demonstrativo na sua abstrusa pergunta transporta com desolada angústia.

Sim, Portugal já esteve bem mais longe de se tornar num imenso Correio da Manhã.

Faz hoje 1 ano que

Faz hoje um ano que o grande líder da esquerda grande considerou ser melhor para os interesses dos explorados, dos miseráveis, dos pobres, dos trabalhadores, dos professores alérgicos à avaliação e da direita que o Governo fosse derrubado sem alternativa outra que não fosse irmos para eleições. Louçã não o conseguiu à primeira com a moção de censura mas, após acertar uns pormenores com os aliados PSD, CDS e PCP, lá atingiu o desiderato poucos dias depois.

Faz hoje também um ano que Passos foi a S. Bento pela calada da noite falar com Sócrates a respeito do PEC IV. Saiu de lá com a decisão de viabilizar as medidas na defesa do interesse nacional, mas foi obrigado a mudar de opinião logo de seguida com a ameaça de ser a sua cabeça a rolar. O cocktail de “política de verdade” com “transparência com sabor a laranja” meteu Relvas a espalhar que Sócrates tinha apenas feito um lacónico telefonema para Passos e que nada tinha sido apresentado ao PSD e muito menos discutido previamente ao anúncio das medidas que se iam levar a Bruxelas para recolher aprovação europeia. Só em meados de Abril, depois do Governo ter caído e a maior operação de engano do eleitorado em Portugal estar em curso, é que Passos admitiu que o encontro aconteceu. De Sócrates, nunca se ouviu uma palavra sobre o episódio até hoje.

Há muita cena gira que vai ficar para a História

Recordemos este momento histórico, onde um histórico do PS aparece a proteger Cavaco e outro histórico do PS aparece a atacar o próprio PS. Absolutamente histórica a situação:

O presidente do PS e conselheiro de Estado manifestou o seu apoio à decisão do Presidente da República de não se pronunciar sobre as alegadas vigilâncias do Governo aos seus assessores.

“O Presidente está em férias e, com certeza, não as vai interromper para falar de coisas sem fundamento”, disse Almeida Santos ao “Diário de Notícias”.

O presidente socialista acrescentou ao periódico que não devem ser lançadas suspeitas sem estas serem melhor explicadas, sendo que toda a controvérsia entre São Bento e Belém é explicada porque “em período eleitoral tudo é expectável, mesmo que não seja razoável”.

O antigo presidente da Assembleia da República precisou que uma intervenção de Cavaco Silva e do Procurador-Geral da República só se justificariam se as suspeitas veiculadas nos media fossem provadas verdadeiras.

Nesse caso, nota, “era um caso muito sério”.

Já o histórico socialista Manuel Alegre, citado pelo ‘SOL’, considerou como “um erro grande” as tentativas de colagem do Presidente da República ao PSD por parte do PS, uma vez que o “combate” dos socialistas “é com Ferreira Leite e não com o Presidente”.

Fonte

Faz hoje 1 ano que

Faz hoje 1 ano que o Presidente da República escolheu a solenidade da sua tomada de posse para iniciar o processo que levaria à queda do Governo em poucas semanas. Fê-lo com um discurso comicieiro onde ofendeu toda a classe política e apelou à revolta popular nas ruas. Fê-lo nunca se referindo à problemática europeia e colocando no Governo o exclusivo ónus pelos constrangimentos financeiros. Fê-lo de modo tão desvairadamente rancoroso que nem lhe ocorreu naquele institucional e simbólico momento fazer uma mínima referência às Forças Armadas de que é Comandante Supremo, sequer aos militares que representam Portugal no exterior arriscando a vida em diversos conflitos internacionais. Fê-lo depois de ter consultado os principais responsáveis pela situação política e económica portuguesa, incluindo Durão Barroso, ao longo do mês de Fevereiro. Fê-lo na posse de todas informações de que precisava para decidir de acordo com os melhores interesses do País. Fê-lo do alto da sua propalada excelência em economia e finanças. Fê-lo sabendo que a abertura de uma crise política levaria a eleições, e que a ida para eleições arrastaria Portugal para um empréstimo de emergência em condições ruinosas. Fê-lo depois de ter prometido na campanha eleitoral vir a colaborar com o Governo para ajudar Portugal a sair da situação de pressão dos mercados. Fê-lo apesar de ter garantido aos portugueses que só ele poderia dar estabilidade ao País nos tempos mais próximos.

Eis o que 1 ano depois sabemos:

– Cavaco mentiu com a intenção de enganar o eleitorado. Caso tivesse anunciado que pretendia correr com Sócrates na primeira oportunidade, provavelmente não teria ganhado as eleições ou, no mínimo, teria ido à segunda volta.

– Cavaco mentiu ao dizer-se apanhado de surpresa pelo PEC IV, o qual era assunto corrente na Europa, logo em Belém.

– Cavaco mentiu ao dizer-se incapaz de promover uma solução política que levasse à aprovação do PEC IV, posto que não deu qualquer sinal de a querer, antes pelo contrário.

– Cavaco sacrificou o interesse nacional com o único fito de afastar Sócrates e PS do poder.

Resultado? É perguntar aos portugueses que viram a sua vida a empobrecer abrupta e avassaladoramente logo a partir de Abril de 2011, ainda antes da troika e de Passos-Relvas, quando a economia fez aquilo que a Manela tinha inscrito como único objectivo no seu programa: parar tudo, meter travões a fundo no investimento e no consumo e o dinheiro desaparecer de circulação.

Para cúmulo da humilhação, os senhores responsáveis pela degradação irreversível da situação política e económica em 2011 dizem-se os salvadores da Pátria e continuam a despejar as responsabilidades pelas suas decisões para cima daqueles que estavam a fazer os possíveis, e até alguns impossíveis, para evitar este sofrimento absurdo e vil. Todavia, como se vê pelas sondagens, pelo comportamento da oposição e pela atitude das figuras públicas, temos o que merecemos. Temos precisamente aquilo que queríamos: um bode expiatório e milhões de borregos absolvidos de qualquer culpa.

Sê rei de ti próprio

MEP decide extinguir-se devido a resultados eleitorais mas mantém-se como movimento cívico

*

Máquinas montadas e afinadas para eleger os representantes das maiorias em sociedades verticalizadas, os partidos funcionam deficientemente em sociedades reticulares.

[…]

Tal como existem, os partidos deixaram de fazer sentido. Não falo das causas e da ideologia, apenas da estrutura. A desilusão das pessoas com os partidos e “os políticos” não tem a ver com as causas e as ideologias, que abundam na sociedade reticular. Tem a ver com práticas e rigidez de processos.

Paulo Querido

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Como se inicia um projecto político? Sou completamente leiga na matéria, mas alinho. By the way, é possível projecto político sem líder político?

edie

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O que é a política? 12 anos seguidos de ensino de acordo com um programa estatal deviam chegar para que se iniciasse a vida adulta na posse de uma definição universal. Contudo, esse mínimo denominador comum ou não existe ou, a existir, é decadente. A política não é aquilo que fazem os políticos que ganham a vida na política. Antes, é a realidade da política que permite a sua profissionalização por um fragmento dos seres políticos. Saber o que é a política para os restantes, os amadores, é uma das presentes urgências cívicas.

O nosso actual regime político, europeu e ocidental como ele é, tem as suas raízes numa geografia, numa cultura e numa época precisas. A facilidade com que os fenícios estabeleciam acordos comerciais com diferentes povos ao longo das margens do Mediterrâneo levou ao aparecimento das primeiras experiências de comunitarismo político, as quais viriam a consolidar-se na fórmula grega das cidades-Estado: a polis. O poder político, ao deixar de se fundamentar na arma e na terra, foi tomado pelos que estavam a criar riqueza. Os mercadores e os artesãos iam engrossando a sua importância como geradores de cidades, e o espaço urbano atraia populações e recursos em quantidades imparavelmente crescentes. Até que os latifundiários e a nobreza perderam o braço-de-ferro com uma nova tipologia de povo: os cidadãos. O que viriam a ser as sociedades modernas, com o triunfo das formas republicana e democrata, nasceu há 2 700 anos numa cultura que, em simultâneo, inventava a filosofia e a ciência. Não se trata de uma coincidência.

Podemos ler a história da filosofia, desde Tales, como a prática da autonomia. O filósofo, partindo de uma consciência de perda, de falta, mas também de excesso e de deslumbramento, assume a responsabilidade de preencher esse vazio e dar sentido a essa presença. E a linguagem torna-se o instrumento da refundação do mundo. Por isso, os blocos textuais que o cercam passam a ser objecto de transformação. Os mitos revelam-se alegorias naturalistas ou morais, os deuses são metáforas, os costumes são escolhas. A confusão entre filósofos e sofistas – que a fortuna conservou intacta nas obras que nos chegaram de Platão, em especial – ilustrava a nova paisagem política: havia um espaço onde o saber, ou a sua aparência, ou a sua manipulação, dava acesso ao topo da hierarquia social, o poder pelo poder, ou à mais alta realização do potencial humano, o saber para poder. Esses dois caminhos eram ambos políticos, estando o primeiro omnipresente na concepção actual do que seja a actividade política e o segundo completamente esquecido – aliás, mais do que esquecido, é perseguido pelos cínicos, hoje como ontem e amanhã.

A política que podemos ser, porque é do que somos que se trata, nascerá da recuperação deste radical compromisso: sermos autónomos. A capacidade para exercer as nossas faculdades intelectuais e volitivas no seio de um grupo que partilha um problema em comum é a essência mesma da acção política. O cinismo, o tribalismo e o egoísmo são incompatíveis com este exercício do poder máximo que nos habita, essa experiência de nos sabermos reis de nós próprios.

Como seria uma organização com este princípio fundador? Seria algo ainda nunca visto.

Contre les femmes

Monsieur,

Je l’ai dit, je le dis, et je le répète: les femmes, je suis contre… tout contre. Pourquoi? Parce qu’il faut garder ses amis près de soi et ses ennemis encore plus. Les femmes ont été mes meilleures ennemies, les plus implacables et les plus adorables. Je ne peux m’en passer car la femme est une drogue des plus violentes et des plus coûteuses. Mais elles sont tellement adorables, charmantes et désirables, du moins celles qui vous les font regretter après, que l’homme, ce grand enfant malhabile et faible, je parle pour l’homme en général, il existe heureusement des exceptions, ne peut être que contre elles, tout contre elles, et prier le ciel d’y rester toujours.

Je vous prie néanmoins de noter que je ne crois pas faire preuve de bons sens, car celui-ci est proche du sens commun et que le mot commun m’a toujours laissé un goût désagréable sous la plume.

En espérant avoir éclairé votre lanterne par mon sens qui n’a jamais, malheureusement, été le bon avec ces dames.

Sacha Guitry

Marques Mendes tem exemplos para dar e vender

Como não existe imprensa em Portugal, Marques Mendes nunca terá de justificar o que escreveu aqui. Contudo, o currículo e protagonismo deste paradigma ambulante do modus faciendi como o PSD reduz a política ao moralismo merecia uns minutos de serviço público. Bastaria que algum jornalista, mesmo que estagiário daqueles sem remuneração, lhe pedisse a sua pessoal definição do que é a deontologia jornalística, do que é a moral pública, do que é a ética privada e em que consistirá, afinal, um Estado de direito. Só depois poderíamos voltar ao texto para aferir da sua honestidade intelectual – ou seja, da sua completa ausência de honestidade, intelectual ou outra, pois estamos perante mais uma pulhice.

Marques Mendes diz que as escutas foram divulgadas mas em momento algum se questiona a respeito da legalidade da sua divulgação, anterior conservação, anterior transcrição e anterior captação. Quer isso dizer que ele está na posse das razões judiciais que tornam lícito todo este longo e complexo processo, concordando com o argumentário e consequente violação da privacidade de um concidadão? Ou não quererá saber disso para nada, aproveitando o facto consumado para o explorar no seu interesse, qual ávido receptador que nem precisa de se esconder? Obviamente, na ausência da primeira, trata-se da segunda hipótese.

Marques Mendes diz que as escutas vêm dar-lhe razão porque, finalmente e graças ao Correio da Manhã, estamos agora na posse de detalhes inqualificáveis sobre o caso. Vamos esquecer a parte em que os detalhes inqualificáveis ficam literalmente sem qualificação por nem sequer aparecerem identificados, não sendo possível saber do que se fala. O autor está a ordenar-nos para acreditarmos na sua condenação, sem precisar de provar seja o que for. Muito bem, sigamos para bingo. Se as escutas validam as suas suspeitas passadas, premiando a sua perspicácia e coragem auto-elogiadas, então as escutas são benéficas para o exercício da política. São elas que permitem acabar com todas as dúvidas a respeito daqueles que arrastam indícios, sinais, vestígios de algum mal. No caso em apreço, as escutas correspondem a um julgamento sumário e inapelável: eis a documentação do que é um mau exemplo para a sociedade, tal como tinha sido antecipado pela gente séria, a gente dos bons exemplos.

Marques Mendes, portanto, se for coerente com esta lógica passará a promover a captação de escutas nos casos que entrem dentro da utilitária categoria Trapalhada, Contradição e Falta de Transparência. Tendo em conta que o enquadramento legal e constitucional da sua captação e divulgação é para ele irrelevante, e que os materiais obtidos nem precisam de ser explicitados ou defendidos pois basta a sua publicação para se obterem os efeitos pretendidos, temos aqui o paladino de uma próspera indústria de espionagem política para fins de higiene e decoro, a profilaxia e terapêutica das doenças que contaminam a sociedade.

No julgamento de Sócrates, não o de Paris mas o de Atenas, igualmente as acusações o denunciavam como um mau exemplo para os jovens e para o modo de vida da gente séria. Nem mais, nem menos. Anito, um dos três acusadores e aquele que ficou como o principal instigador do processo, tinha razões pessoais e políticas para querer a morte desse agente infeccioso que o desafiava com a sua liberdade. Tendo ele próprio um público historial de trapalhadas, contradições e faltas de transparência, foi o seu espírito que guiou a mão de Marques Mendes ao selar a filha-de-putice com este hino à suprema hipocrisia:

Cumpre-nos contribuir para os reintroduzir na vida colectiva obrigando, desde logo, a construir uma cultura do exemplo. O bom exemplo tem mais força do que as melhores leis que se aprovam e do que os discursos mais brilhantes que se fazem. Ao contrário, os maus exemplos envenenam a sociedade, contaminam a política e ameaçam a democracia. Afinal, a política não pode ser a arte do vale-tudo e palco de actuação de gente mesquinha e sem escrúpulos.

Quo vadis, PS?

O PS vai sobreviver a Seguro. E depois virá António Costa, o qual terá condições para voltar a reunir as melhores inteligências no partido. O que fará com esse capital vai depender da sua vontade e das circunstâncias políticas na altura, absolutamente imprevistas agora. O PS é o único partido que aguenta o regime, infelizmente, cercado como está pelo niilismo da esquerda e pela infantilidade da direita. Mas o PS não vive a sua melhor hora, por exclusiva responsabilidade do actual secretário-geral.

Militantes e simpatizantes conformam-se às lógicas tribais inerentes à vivência partidária, sacrificando eventuais dúvidas e reprovações no altar da unidade. Tanto é assim que nem sequer há uma oposição a Seguro. Não tem mal. Mas igualmente não tem bem. Já o cidadão independente pode ser implacável. Deve. Deve denunciar a estratégia do silêncio que Seguro assumiu antes e depois de ter chegado ao poder máximo no partido. Antes, contribuiu para o desgaste do Governo PS à custa da sua promoção pessoal. Depois, diminuiu drasticamente o escopo da oposição ao Governo PSD-CDS e validou as campanhas difamatórias que tinham sido e continuaram a ser feitas contra a governação passada e seus responsáveis. Há algo de inconcebível nisto de um partido mudar de líder e, concomitantemente, mudar de história por um apagamento sem direito a explicação. É que Seguro, o profeta da transparência, é radicalmente opaco quanto às razões pelas quais se opôs a Sócrates e abomina o seu legado. Ao calar a crítica, defende-se do contraditório e foge às responsabilidades. Pior, a sua negatividade é transferida e prolongada em actos.

Foi assim que passámos por um episódio que revela à saciedade o psicologismo anal que rege Seguro. Ao convidar Carrilho para a direcção do Laboratório de Ideias fez uma ostensiva provocação a Sócrates e a todos os que com Sócrates serviram o PS e Portugal. Foi a forma de utilizar um terceiro para expressar o rancor que lhe vai na alma. Isto porque Carrilho, para além da inépcia política e vulgaridade intelectual, é um animal corroído pelo ódio. Promovê-lo a mentor ideológico foi a forma asquerosamente sonsa que Seguro encontrou para repetir estas ideias:

Sócrates era um homem profundamente impreparado para a função.

Sócrates negou a crise com uma orientação completamente suicida.

Sócrates retomou no essencial mais uma inspiração cavaquista do que guterrista.

Sócrates foi determinado na asneira.

Sócrates nunca teve convicções socialistas.

Sócrates fez aldrabices na licenciatura na Universidade Independente.

Sócrates vive deslumbrado com o capitalismo financeiro, as novas tecnologias e os malabarismos da comunicação.

Sócrates deixou um longo rasto de oportunidades perdidas, de casos estranhos, de histórias mal contadas e de encenações inúteis.

Carrilho não está apenas a despejar o seu ilimitado fel para cima de um homem que persegue obsessivamente, igualmente pretende atingir os seus próximos, os militantes que o reelegeram secretário-geral com 93% de votos em 2011 e o milhão e meio de eleitores que votou PS em Junho. Foi a esta alucinada figura que Seguro enviou um convite para vir doutrinar as bases e aparecer nas televisões a botar sentenças em seu nome. Inacreditável.

No dia da demissão de Sócrates era tal o frenesim de cobiça que Seguro chegou a enganar os jornalistas no tempo que demorou a subir e descer num elevador. E acabou a noite a lembrar que tinha 31 anos de serviços ao partido – ou seja, que já tinha esperado tempo mais do que o suficiente.

Que move este ser? Talvez rigorosamente nada, e o seu comportamento não passe do enésimo caso em que o narcisismo e o ressabiamento são a fonte da vitalidade no organismo. O modo iníquo como o grande amigo de Passos e Relvas foi conivente com o actual poder, e chegou ele próprio ao poder dentro do PS, inscreve-se numa forma de fazer política que ofende o cidadão apaixonado pela Cidade.

Insúa, para além do milagre

O City é muito forte, como podemos constatar pela excelente época que está a fazer. Têm vários grandes jogadores, muitos deles internacionais, várias figuras de nome internacional, especialmente no ataque. Ainda assim, sabemos que não são invencíveis. Já perderam esta época por isso teremos as nossas possibilidades.

Insúa

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Por regra, é sempre inútil entrevistar jogadores de futebol. Eles não têm nada para dizer; e não têm que ter, obviamente. O mesmo com os treinadores, a maior parte proporcionando longos momentos penosos por exclusiva culpa dos jornalistas que insistem em fazer-lhes perguntas. Contudo, o Sporting está numa situação onde qualquer declaração dos seus jogadores e técnicos, por mais banal ou tonta que saia, desperta o maior interesse. É que vindos de perder com um dos últimos classificados do campeonato português e indo defrontar o primeiro classificado do campeonato inglês, equipa que deu 2+4 secos ao Porto, os leões poderão sentir-se felizes se levarem menos de 20 golos na soma das duas mãos.

Eis que Insúa deposita a sua fé nas equipas que já venceram o City esta época. Como é que tal vai ajudar o paupérrimo futebol do Sporting é algo que ninguém sabe nem faz assim muito mal não saber. Apenas uma coisa é certa: se os bifes forem eliminados, será imediatamente feita uma estátua do Sá Pinto para ser colocada no lugar da do Eusébio, e isto a pedido dos sócios do Benfica. Seria o único gesto simbólico capaz de representar aquilo que nem o carimbo de milagre chegaria para descrever.

Um micro-Estado policial para usufruto da direita e gozo da esquerda

A publicação e exploração – tanto para fins comerciais como para agendas políticas, simultaneamente – de escutas onde Sócrates é apanhado a tratar de assuntos privados sem qualquer ilicitude que justifique o registo permite tirar uma TAC ao País. Os raios emanados da pulhice atravessam todos os protagonistas políticos e todas as camadas sociais. O que revelam é aviltante: Portugal é uma terra de cobardes.

Que a direita da sarjeta, actualmente triunfante, use a calúnia como arma política preferencial não surpreende. Há razões históricas, culturais, psicológicas, sociológicas e até antropológicas para tal ser assim. Que a direita se cale perante o colossal roubo e ilegalidades no BPN, BCP e BPP porque é obra da sua elite, ou perante conspirações para perverter actos eleitorais vindas da própria Presidência da República porque está lá um dos seus, e que ainda pretenda criminalizar adversários políticos por causa das suas políticas, é a obscena normalidade. Pacheco Pereira e Helena Matos, dois caluniadores profissionais, tiveram o desplante de antecipar que o PS iria lançar uma campanha de assassinato de carácter contra Passos durante o período eleitoral, a qual chegaria para que o PSD perdesse as eleições. Estávamos no princípio de 2011 e estas duas lástimas, que emporcalhavam o espaço público com fervor fanático desde 2007, projectavam em Sócrates as práticas dilectas do PSD e CDS. Acima de tudo, davam como garantida a existência de material privado para explorar pelo exército satânico, parecendo-lhes impossível que não viesse a ser aproveitado como eles o aproveitariam. Ora, do PS nunca apareceu qualquer ataque fosse contra o cidadão Passos Coelho, fosse contra o Presidente da República. Houve um estoicismo que raiou o destino sacrificial – ou, como prefiro imaginar, houve uma nobreza, um escrúpulo, que respeitou a mais alta vocação política dos responsáveis ao tempo e a intemporal natureza democrática do PS.

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Um texto exemplar

Em 2007, quando o País começou a conhecer o imbróglio da licenciatura de José Sócrates, fiz questão – era então líder do PSD – de fazer uma declaração pública sobre o assunto, recriminando tamanha trapalhada, contradição e falta de transparência.

Recordo-me bem de que foram poucos os que, nessa ocasião, falaram sobre o assunto. No que me diz respeito, cheguei mesmo a ser criticado por algumas pessoas do meu próprio partido que optaram por se vergar ao poder de Sócrates e sancionar o seu obsceno comportamento. Agora que o Correio da Manhã deu a conhecer detalhes inqualificáveis sobre o caso, através das escutas divulgadas, já praticamente ninguém deve ter uma discordância em relação ao que então afirmei: este homem é um mau exemplo, e os maus exemplos contaminam a sociedade. Denunciá-lo não é uma questão política ou partidária. É um imperativo de higiene e decoro.

No que à educação diz respeito, em vez de dar aos jovens o exemplo de que tirar um curso superior é uma questão séria, que exige rigor, disciplina, esforço e mérito, a imagem que o ex-primeiro-ministro passou para a juventude foi o da habilidade, do truque, do chico-espertismo, da mera preocupação com o título académico. Em relação à vida política, o exemplo que irradiou para a sociedade foi ainda pior: foi o exemplo de quem usa o poder para pressionar, enganar, ocultar e manipular, através de métodos que são indignos de quem dirige um país e de quem serve o interesse público.

Não gosto de ser alarmista e de cultivar falsos moralismos. A verdade, porém, é que começa a ser tempo de sermos mais exigentes em relação à democracia que temos e aos políticos que elegemos. A crise que vivemos não é apenas económica, financeira e social. É também uma crise de valores. Cumpre-nos contribuir para os reintroduzir na vida colectiva obrigando, desde logo, a construir uma cultura do exemplo. O bom exemplo tem mais força do que as melhores leis que se aprovam e do que os discursos mais brilhantes que se fazem. Ao contrário, os maus exemplos envenenam a sociedade, contaminam a política e ameaçam a democracia. Afinal, a política não pode ser a arte do vale-tudo e palco de actuação de gente mesquinha e sem escrúpulos.

Marques Mendes

Louçã, o líder da esquerda grande, enorme, bestial

O coordenador do Bloco de Esquerda fez um apelo ao “juntar de forças na esquerda” e pediu ao líder do PS para que “clarifique” a sua posição em relação a leis que vão agravar o empobrecimento dos portugueses.

«Acho que é preciso recuperar a iniciativa e portanto tomar posições claras e abandonar, recusar convictamente, qualquer estratégia de empobrecimento e desemprego», afirmou Louçã, sublinhando que o país precisa agora de «investimento, capacidade, solidariedade».

Fonte

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Louçã, depois de ter contribuído decisivamente para a reeleição de Cavaco e para a suspensão da democracia pelo tempo em que a troika por cá andar, acha que está na altura de mais um número da sua ruinosa demagogia.

Mas não seria melhor que Louçã nos mostrasse primeiro os resultados da reunião que BE e PCP tiveram depois de se aliaram com PSD e CDS para derrubarem o Governo? É que sempre foi um encontro que demorou 1h e 15m, terão ocupado o tempo a dizer algumas coisas, aposto. O povo gostaria de conhecer o que foi feito entretanto nestes 11 meses passados e quais as propostas que os dois partidos da esquerda pura e verdadeira já acertaram para a anunciada alternativa que seja um governo de esquerda.

Ou será que estão a imitar Ferreira Leite e escondem as brilhantes ideias para que o PS não as imite?

Dos justos reza a História

O Procurador-Geral da República concorda com muitas das propostas legislativas que vão ser discutidas na AR nas próximas semanas e que decorrem dos trabalhos da Comissão Parlamentar de combate à corrupção. Pinto Monteiro volta a sublinhar, no entanto, que é a falta de recursos humanos que limita o progresso na investigação e, em particular, nos processos de corrupção.

8 de Abril de 2010

Até porque, diz ainda Pinto Monteiro, faltam meios técnicos e tecnológicos adequados. Por exemplo, o sistema informático tem problemas de segurança e de confidencialidade e não está articulado com a aplicação usada nos tribunais.

O PGR acrescenta que as diligências junto do Ministério da Justiça para tentar resolver o problema não tiveram qualquer resultado.

Com falta de meios e demasiados crimes na lista de prioridades, Pinto Monteiro admite que nem sequer conseguiu acompanhar a aplicação da lei no terreno.

27 de Fevereiro de 2012

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Não sou militante, simpatizante ou votante do PS em legislativas (tirando o caso de Junho último, para defesa da democracia) nem do PSD, CDS, PCP e BE (embora já tenha votado neles no passado distante). Por princípio, e salvo prova em contrário, não voto em partidos com responsabilidades parlamentares presentes. Cheguei a esta decisão graças a uma lenta reflexão, a qual correspondeu ao crescimento e amadurecimento da minha paixão pela política. Isto porque me aparece como inaceitável que o poder conferido pela Constituição e pelo Estado aos partidos e seus deputados não chegue para se enfrentar, e resolver, o maior problema em Portugal: a falta de Justiça.

Por falta de Justiça entenda-se a demora ou ausência de condições materiais para obter desfechos nos processos judiciais, não as eventuais polémicas relativas aos seus resultados casuísticos. Tal como não entra nesta primeira atenção a qualidade das leis nem as diferenças concretas no acesso e proveito da Justiça que a capacidade económica confere ou retira. Os ricos, para além de todas as benesses sociais, ainda contam com melhor justiça. Os pobres, apesar de todos os prejuízos sociais, ainda sofrem uma pior justiça. Este desequilíbrio só seria anulado numa sociedade que cumprisse plenamente os ideais da República. Até lá, seja qual for a distância e a demora, seja possível ou impossível esse objectivo, há que começar por querer lá chegar – ou para dele ficarmos mais próximos.

A Justiça, tirando as situações de catástrofe e emergência, é mais importante do que a Saúde. Se nos escandalizaria e deixaria revoltados saber que os hospitais públicos não possuem recursos humanos, técnicos e farmacêuticos para salvar vidas, porque deixamos passar meses, anos e décadas a ver vidas destruídas, algumas literalmente, por causa do que acontece – e, acima de tudo, por causa do que não acontece – na Justiça? Para além das tragédias individuais, o efeito da falta de Justiça é devastador na economia e na cultura, perpetuando a incompetência, a corrupção e o atavismo.

Nenhum partido, mesmo dos novos que têm surgido, colocou a Justiça como sua prioridade programática. Ainda pior: nenhum partido com presença na Assembleia da República foi capaz de dizer aos portugueses quais são as reais causas da falta de Justiça. Ainda muito, muito, muito pior e mau e horrível: nenhum político, seja de que partido ou ideologia for, foi capaz de mostrar um qualquer esboço de solução.

Sim, há muito espaço ao abandono na política portuguesa para quem quiser deixar o seu nome na História.