Jerónimo de Sousa foi uma boa escolha para o marketing do PCP. Aquele fácies telúrico, aquela verbosidade folclórica simultaneamente operária e rural de um Portugal hoje a desaparecer no envelhecimento, essa retórica a convocar o imaginário de António Aleixo, o timbre e o tónus veterotestamentários, foram características que suscitaram imediata e universal simpatia. Depois do choninhas Carlos Carvalhas, uma bizarra opção para substituir a lenda viva, Jerónimo aparecia como uma carnal pintura mural revolucionária pronta a servir a estratégia de estancamento da sangria eleitoral e de quadros por que passava o PCP em 2004. Iniciou-se um ciclo de acantonamento e conservadorismo que está para durar até que os votos lhes mostrem que a cassete tem de ser mudada.
Bom, que falta ao homem para ser primeiro-ministro? Certamente, não serão promessas que mais do que chegariam para dar ao PCP a maioria absoluta:
Devolver aos trabalhadores e ao povo os seus salários, rendimentos e direitos sociais, indispensáveis a uma vida digna.
Discurso de Jerónimo de Sousa na abertura do XIX Congresso do PCP
A promessa de devolução de salários, rendimentos e direitos sociais aos trabalhadores e ao povo é coisa para lhes garantir 9 milhões de votos sem precisarem de colar um só cartaz. E nem mesmo a ausência de um esboço de explicação por parte de algum comunista vivo, morto ou na clandestinidade a respeito do modo como essa devolução seria feita, e quando, e com que consequências, impede o apelo da proposta. Aliás, o vazio racional só reforça o seu enlace hipnótico, pois não nos confronta com aqueles aspectos sempre aborrecidos que aparecem associados à realidade. A oferta do PCP é maximalista e não perde tempo com dúvidas e condições. Com eles no poder, não faltará massa no bolso das massas e da terra brotarão empregos e serviços públicos. Porque lhes faltam os votos, então?
Os comunistas nunca se atrapalharam na justificação das suas invariáveis derrotas eleitorais, até porque eles são especialistas na utilização desses mesmíssimos processos:
O processo de concentração da propriedade no sector da comunicação social, traduzido na posse de um esmagador número de órgãos por um reduzido número de grandes grupos económicos, afecta irremediavelmente a qualidade, diversidade e pluralismo da informação, da cultura e do próprio regime democrático.
Discurso de Jerónimo de Sousa na abertura do XIX Congresso do PCP
Eis a fatal tese: os jornais, as rádios e as televisões nas mãos do imperialismo impedem que a salvação comunista seja anunciada entre os explorados e oprimidos. Bastaria alterar este cenário, oferecer uns jornais, umas rádios e uns canais TV à Soeiro Pereira Gomes e aí se veria sem demora as gentes a correrem para as sedes do PCP a filiarem-se em êxtase marxista. Ora, nós sabemos que o Jerónimo não é mentiroso. E também sabemos que ele diz sempre a verdade. Nesse caso, que nome vamos dar a um passarão deste calibre que se diverte a gozar com a inteligência dos vizinhos? Não só o PCP ocupa os meios de comunicação social de forma continuada e versátil como não será possível encontrar alguém que esteja a ser intencionalmente afastado da teologia comuna. Pura e simplesmente, se ainda não mandam nisto é só porque o seu paleio não convence mais de quatrocentos e tal mil votantes. Os restantes milhões têm preferido abdicar da devolução de salários, rendimentos e direitos sociais se o preço a pagar for o de ficarem sujeitos ao comunismo à portuguesa.
Claro, as coisas mudam. E, como dizem os franceses, shit happens. Numas próximas eleições, tal como o profeta Jerónimo anunciou à assembleia dos crentes, é inevitável que o comunismo desça sobre a terra e que o mal seja banido por toda a eternidade. Nessa altura, o que se verá é isto:
a conquista do poder pelos trabalhadores, a socialização dos principais meios de produção e circulação, a planificação da economia e, sobretudo, a construção de um sistema de poder que promova e assegure a participação empenhada e criadora das massas na construção do seu próprio destino
Discurso de Jerónimo de Sousa na abertura do XIX Congresso do PCP
Está muito claro: o PCP oferece aos portugueses uma sociedade onde ser trabalhador qualifica para a governação, onde se nacionalizarão indústrias, serviços e bancos, onde um grupinho de eleitos fará grandiosos planos económicos à prova de erro e onde o regime se transforma numa máquina de participação das massas, agora finalmente empenhadas na construção do seu destino quer queiram ou não, e habilitando-se ao devido castigo caso o destino que se lembrem de criar venha estragar, sequer manchar, essa maravilha que produz destinos perfeitamente iguais uns aos outros tal como manda o partido na sua luta contra o capitalismo, a exploração e o imperialismo.
Contem comigo para espalhar esta boa nova, camaradas!