Subsídios para o estudo da cultura da calúnia em Portugal

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Não podia ser mais oportuno este livro, nem estar a sua organização em melhores mãos. Mas há que não perder, igualmente, a oportunidade de anotar o fenómeno do Entroncamento que surge por arrasto: ele junta quatro notáveis da cultura da calúnia em Portugal – Ferreira Leite, Pacheco Pereira, Lobo Xavier e Miguel Frasquilho – a uma ranchada dos mais retintos e perigosos socráticos. É o mesmo que levar os lobos às ovelhas sob a desculpa de que se tornaram vegetarianos de repente.

Claro que a tipologia da calúnia em cada uma destas poderosas personalidades públicas varia segundo as díspares circunstâncias, indo desde a aparentemente mais inócua, onde vimos Frasquilho a contradizer-se a si mesmo a respeito do Governo socialista conforme assinava relatórios internacionais pelo BES ou declarações políticas pelo PSD, ou habitual, onde vimos e vemos Lobo Xavier em exercícios oligárquicos de assassinato de carácter, até à mais desvairada, obscena e canalha, aquela que Ferreira Leite e Pacheco Pereira desenharam como estratégia para as eleições de 2009 e que os foi deixando literalmente possessos.

Recordemos:

Eu compreendo que o Presidente da República, até pelas coisas graves que tem certamente para dizer face aos ataques que lhe têm sido dirigidos, não queira falar em período eleitoral. O que diria perturbaria e muito o período eleitoral. Mas temo que só depois das eleições é que se vá saber demasiadas coisas sobre esta governação e sobre o Primeiro-ministro. E temo que isso seja um fardo muito difícil de gerir, ganhe quem ganhar as eleições. Seja no caso Freeport, seja na questão da eventual espionagem aos seus opositores, seja no ataque à TVI e ao Público, seja nos múltiplos negócios que estão por esclarecer, da OPA da Sonae à crise do BCP e à interferência da CGD, seja no caso BPN e nos nunca esclarecidos movimentos do dinheiro da Segurança Social, seja na tentativa de compra da PT da Media Capital e etc,. etc. Um etc. demasiado grande.

Pacheco, pondo a carne toda no assador a poucos dias das eleições legislativas de 2009

Então eu já tenho medo de ouvir o telemóvel com medo de estar a ser escutada, agora ainda vou ter medo de sair de casa com medo de ser seguida?

Ferreira Leite, escolhendo Aveiro para se passar por vítima de eventuais escutas na precisa altura em que decorria uma operação de espionagem a Sócrates a partir de Aveiro

Já não há pachorra para perder sequer uma caloria a emitir juízos sobre o carácter, a ética e a decência destes infelizes. Já se disse no tempo próprio o que havia a dizer. O que importa realçar no contexto é a evidência de terem sido os ataques a Sócrates igualmente ataques a todo e qualquer um que estivesse ao seu lado. O ódio chegou a um tal paroxismo que o Pacheco se permitiu caluniar – e a troco de dinheiro – que em certos blogues escreviam funcionários e membros do Governo, mas sem disso ter a mais vaga prova e dessa mentira nunca tendo assumido a responsabilidade. Logo, se pessoas de quem ele tudo desconhecia, menos as palavras que livremente publicavam em registo particular, lhe apareciam como alvos legítimos para o seu alucinado fel, quão mais e por mais pungentes razões lhe devem ter surgido aqueles que estavam perto de Sócrates, alguns deles exercendo poder governativo.

Eis que nesta quinta-feira teremos o José Pacheco Pereira a ilustrar com a sua magnífica presença e supinos considerandos uma obra de sócraticos ferrenhos, daqueles com as unhas todas encardidas das socratices que andaram a fazer. Que vai dizer o nosso Marat da Marmeleira? Não faço ideia. Mas tenho uma absoluta certeza a respeito do que não vai dizer, isto:

“Peço desculpa, fui um traste com este, com aquela, com os outros, por isto e por aquilo. Agora, e com a vossa licença caso se considerem ressarcidos, falemos do livro.”

9 thoughts on “Subsídios para o estudo da cultura da calúnia em Portugal”

  1. mas a apresentação do livro teria de ficar adiada para dois dias mais tarde: havia que fazer manicure, pedicure, destartarização, e ainda uma regressão no divã.

  2. Porque é que não juntam ao pacheco, o louçã e o bernardino? À frente, comandando a tríade, poderia vir o bedel brespo envergando uma camisolinha contra a asfixia democrática e defendendo a liberdade de imprensa. Com toda a certeza este último não se importaria, tendo em conta a reconhecida qualidade científica da instituição organizadora da obra. Com toda a sinceridade, é uma pena não poder assistir a tão glorioso evento e degustar a caldeirada. No fundo estão lá muitos dos que contribuiram para que fosse possível a penosa e obscena comunicação de ontem do assessor do ministro das finanças, amesendando-se agora em circunspectos ágapes universitários. Enfim, a traição dos intelectuais e o seu mimetismo é um fenomeno de todos os tempos. Habituem-se.

  3. Val, expressei-me mal, pois ainda não estou refeito da última agonia televisiva.

    O projeto a que me refiro não é o livro, mas a tentativa de branqueamento a que o Pacheco se tem dedicado nos tempos mais recentes, da sua refinada maledicência dirigida diretamente ao ex-primeiro-ministro.

    O convite dirigido a tal personagem por parte dos escrevinhadores, não deixa de ser uma cumplicidade quanto a isso, e revolta-me.

  4. Val: «Já não há pachorra para perder sequer uma caloria a emitir juízos sobre o carácter, a ética e a decência destes infelizes».

    Permito-me discordar. Pela seguinte razão: muitas vezes as lições mais importantes a tirar de comportamentos como os que refere, não são as dos seus resultados a curto prazo, certamente para esquecer, mas antes as das suas influências mais profundas sobre a percepção da política pelo público em geral — especialmente num país de fraca cultura política em que a tendência para o anedotário superficial se sobrepõe à autonomia crítica.

    Eu juntaria até aos campeões da aldrabice e do «ouvi dizer» que enumera, figuras política e intelectualmente mais honestas, mas excessivamente pragmáticas, como a de Medina Carreira, perigoso pelo desprezo supostamente educativo que exibe com regularidade quanto às formas legais e judiciais próprias de um estado de direito, à preservação dos direitos individuais frente aos moralismos salomónicos etc.. O problema dos medinas é que muitas vezes a sua integridade é tal que chega ao ponto de cortar os bebés em dois mesmo a sério «para fazer justiça»…

    Teofilo M: «O projeto a que me refiro não é o livro, mas a tentativa de branqueamento a que o Pacheco se tem dedicado nos tempos mais recentes, da sua refinada maledicência dirigida diretamente ao ex-primeiro-ministro».

    Também tenho notado. Estou em crer que dentro em breve qualquer alusão às famosas escutas que tanta gente escutou, conheceu ou copiou, sem que, todavia, um único desses privilegiados se tivesse lembrado de tomar notas para a posteridade, bem como ao período pré-PECIV em geral, serão saudadas pela característica gargalhada, seguida de sonoros «ahhhhhs» e «ohhhhhs» bem humorados, com que habitualmente remete o seu perído pré-adolescente (era o que se chama um pré-adolescente a caminho da trintena) à sombra da ditadura do proletariado e seus amanhãs cantarolantes para o caixote do lixo das irrelevâncias. O problema é que também já lá cantam mais uns anitos e a auto-indulgência já enjoa.

    :^P

  5. o problema dos medinas é quererem mandar no país sem ir a eleições e depois dão nas vistas para ver se a incomodidade relativa é compensada com um cargo.

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