Todos os artigos de Valupi

Num universo paralelo algures perto de si

Perante protestos e apartes da bancada social-democrata, Teixeira dos Santos afirmou: «Há neste PSD um lado que defende propostas radicais e aventureiras. Radicais, porque saem fora do consenso europeu e da sua própria família política. É exemplo a sugestão de que não são precisas mais medidas para se cumprirem os objectivos orçamentais.».

«Aventureiras, porque entraram por caminhos desconhecidos sem explicitar os perigos que contêm. É exemplo a polarização populista contra o PEC IV como acordado com a União Europeia e o Banco Central Europeu», completou.

Sem se referir directamente ao presidente do PSD, Pedro Passos Coelho, o ministro das Finanças apelou: «Em tempos de crise e emergência o radicalismo e o populismo são perigosos. Quando os problemas são especialmente sérios, e é este o caso neste momento, torna-se tentador procurar soluções em jogadas de alto risco. Temos de resistir a essa tentação».

Segundo Teixeira dos Santos, «existe um outro lado no PSD, um lado moderado e herdeiro de uma orgulhosa linhagem europeísta», que tem «um sentimento de responsabilidade» e que «trará o PSD ao debate sobre o PEC IV».

O ministro das Finanças elogiou «a prudência, contra a tentação radical», e dramatizou: «Tudo será muito mais difícil se o nosso sistema político não souber resistir às tentações que enfrenta neste momento».

Universo gasparino

Um mal nunca vem só

A primeira entrevista da nova liderança bloquista não produziu qualquer novidade política que justifique o gasto de neurónios no seu armazenamento. O único ponto de interesse foi mesmo o do formato, apreciar os protocolos e minudências que uma dupla de dirigentes a discursar ao mesmo tempo iria exibir.

E o que se viu foi uma linguagem não-verbal e uma atitude interventiva onde a diferença de idade, mas também a de género, estava a condicionar a parelha. Assim, Semedo indicou subtilmente a Vítor Gonçalves que não queria ser ele a falar em primeiro lugar. Qualquer racionalização desta opção, seja para evitar aparecer como o elemento preponderante ou para se armar em cavalheiro com uma senhora e sua precedência em contexto social, o que revela é o mais clássico e entranhado machismo. E deste começo em diante a coisa só piorou, pois passou a mostrar zelo na protecção da sua companheira sempre que a via em apuros; sendo o caso mais óbvio aquele da temática bancária em que o jornalista estava a explorar uma fatal ignorância no argumentário da Catarina. Isto significa, então, que ao machismo temos de acrescentar o paternalismo.

As situações em que os dois coordenadores apareçam juntos para interrogatórios serão raras face ao conjunto das tarefas que terão pela frente, pelo que as suas prestações só tenderão a melhorar depois deste tirocínio. O que realmente estimula o cidadão apaixonado pela cidade é o seguinte corolário: a opção do BE pela liderança bicéfala faz do género a sua causalidade. Não há nenhuma outra razão para termos este casting a não ser a vontade do realizador em fazer um filme com actores seus predilectos que garantissem uma daquelas comédias românticas com obrigatório final feliz. Semedo e Catarina não tinham passado comum que justificasse a sua simultânea elevação à chefia do partido. Eles apenas se limitaram a aceitar o casamento que outrem lhes arranjou por correspondência e sem direito a namoro.

Louçã podia ter escolhido quem quisesse para a sua sucessão. Logo, já que estava com a ideia fixa nesta parolada de querer parecer moderno ou porque não confiava em ninguém o suficiente para o deixar sozinho à frente do barco, poderia ter escolhido dois homens, duas mulheres, dois idosos, duas moçoilas, um casal de bichas ou um preto e um cigano. Poder podia, mas, grande alquimista que é e para sempre será, quis ter um homem e uma mulher, e que esse homem fosse sábio e que essa mulher fosse fértil. Onde é que estamos? No Éden. A ver a tal comédia romântica. Uma fita onde a política desaparece no naturalismo. A história do Ocidente, aliás, não tem sido outra coisa – a fragilidade do político perante a constante tentação da sua substituição pelas abstracções cósmicas ou pelas forças ctónicas.

Sabemos que a água canalizada está cheia de drogaína quando…

“Posso bem com aqueles que pensam diferente de mim e posso bem com aqueles que acham que estamos a seguir um caminho de austeridade excessiva. Confio muito na inteligência dos portugueses”, declarou Pedro Passos Coelho no encerramento do XIV congresso regional do PSD-Madeira.

Segundo o responsável, o PSD tem de “saber ir contra a corrente e manter firmeza”, adiantando que o partido e o Governo “não quer alinhar na demagogia e no populismo que nos trouxeram até aqui”.

Pedro “Eu já ouvi o primeiro-ministro dizer, infelizmente, que o PSD quer acabar com muitas coisas e também com o 13º mês, mas nós nunca falámos disso e isso é um disparate” Coelho

Se existisse imprensa em Portugal

Se existisse imprensa em Portugal, os jornais, as rádios e as televisões estariam por estes dias cheios de políticos, comentadores, historiadores, psicólogos, psiquiatras, psicanalistas, neurologistas, antropólogos, parapsicólogos, serralheiros mecânicos, ventríloquos e um ou dois veterinários, todos a discutirem freneticamente o número de Cavaco na noite dos prémios Gazeta e o que o acontecimento obrigava a dizer dele e permitia dizer de nós.

Não havendo, é isto. Um país que se deixa humilhar por aquele a quem confiou a defesa suprema da Constituição. Um povo que não se sente.

Revolution through evolution

Women in Congress Outperform Men on Some Measures
.
More Female Board Directors Add Up to Improved Sustainability Performance
.
A More Peaceful World Awaits, Statistical Analysis Suggests
.
We’re in This Together: A Pathbreaking Investigation Into the Evolution of Cooperative Behavior
.
Turn on the TV? How telenovelas help people cope with real life
.
Scientists Probe Human Nature—and Discover We are Good, after All
.
Human Obedience: The Myth of Blind Conformity

Continuar a lerRevolution through evolution

Seguro também quer uma refundação: a do PS

O debate do Orçamento foi fértil em achincalhamentos do PS:

Atente-se: estava em discussão um plano que, tirando o núcleo apátrida do Governo, é unanimemente considerado injusto, inviável e irracional – talvez ainda inconstitucional. Dir-se-ia que, no mínimo, o PS iria levar ao tapete um Governo de alucinados cercado por todos os lados. Só que a estratégia do PSD foi a de criar uma manobra de diversão a respeito do Estado social enquanto ia repetindo à exaustão a cassete troglodita da culpa do PS por qualquer um dos inúmeros males da actualidade. Para quem era, chegava. Era para o Seguro.

Como este vídeo mostra, a sua recusa em falar do passado é absoluta. Nem sequer para defender a honra de Maria de Lurdes Rodrigues e demais centenas de participantes num dos mais complexos e ambiciosos programas de melhoramento da escola pública, a qual num momento de sã e louvável ingenuidade deixou sair a exclamação de que o projecto da Parque Escolar tinha sido “uma festa”. O modo canalha como a expressão de imediato passou a ser usada para a baixa política é um atestado da profunda decadência da direita partidária portuguesa.

Nunca o saberemos, mas podemos imaginar. Imaginar o que diria Francisco Assis perante ataques tão soezes – e tão broncos! – caso o partido tivesse reconhecido o óbvio a respeito dos dois candidatos a secretário-geral do PS. Um, é um tribuno de excepcional qualidade, alguém que nunca vacilou durante o tempo em que chefiou a bancada e alguém que alia a integridade ética com o pensamento da política e com a coragem cívica. O outro, é uma penosa imitação de um líder, alguém que tem um percurso cujo objectivo é ele próprio e alguém que pretende refundar o PS através do apagamento da sua história, da sua obra e da sua luta. Daí Seguro estar constantemente a remeter para afirmações suas em vez de assumir a responsabilidade de defender o partido e os seus quadros. E daí Seguro, como se vê acima, andar a implorar à direita para que não fale mais no passado. Pelos vistos, um passado que o envergonha ou do qual tem asco.

Reina no Parlamento um ambiente de taberna, onde os ministros e deputados da coligação estão em permanente algazarra infantilóide. O nível não pode ser mais baixo, porque já roça o palavrão e a estalada. Esta seria a oportunidade imperdível para os reduzir à sua miséria política e moral. Em vez disso, assistimos a trocas de risinhos entre Passos e Seguro, quais amigalhaços divertidos com o teatro onde simulam divergências sérias e brincam aos países.

Na São Caetano, no salão principal, nunca se apagam as velas por baixo do retábulo onde a imagem de Seguro é venerada sete vezes ao dia com os votos de longa vida à frente do PS.

Bafo de onça

Cavaco já tinha sido o autor da comunicação ao País mais aparvalhada de sempre, quando deixou a sociedade à beira de um ataque de nervos durante um dia inteiro só para aparecer a falar das normas do Estatuto Político-Administrativo dos Açores, normas essas que ele próprio não enviou para o Tribunal Constitucional para serem fiscalizadas. Uma tonteira que até levou figuras gradas da direita a ficarem de boca aberta.

Cavaco já tinha sido o mentor de uma nunca antes vista, nem sequer imaginada, golpada mediática com origem na Presidência da República cujo intento era a deturpação de dois actos eleitorais. Cavaco ficou em silêncio, assim alimentando a conspiração, até ao momento em que os protagonistas da operação foram denunciados. Mas, mesmo aí, ele deixou no ar a suspeição lançada. Quando finalmente foi obrigado a assumir uma qualquer responsabilidade pelo episódio, fê-lo de forma acintosa e afrontosa, pois não só manteve Fernando Lima em funções como continuou a justificar a golpada com a sugestão de ter a segurança das suas comunicações pessoais ameaçada. Este caso é o maior escândalo de sempre do regime em democracia, inclusive ultrapassando em dano moral o que se passou no BPN, pois a comunidade foi conivente com ele e premiou com mais um mandato a escabrosa violação constitucional.

Cavaco já tinha sido o primeiro Presidente da História a fazer um discurso de vitória rancoroso, de um fel e desvario ao nível dos linchamentos populares. Mais uma vez, os seus apoiantes e a imprensa rapidamente desvalorizaram a ocorrência. Todavia, o que ali se expôs era inegável: aquela indivíduo dava sinais de não estar à altura do cargo.

Cavaco já tinha sido o actor de uma nova e fatal golpada que arruinou o País. Ao fazer do seu primeiro acto oficial no segundo mandato o início do derrube do Governo, ao arrepio de tudo o que andou a prometer na campanha eleitoral, altura em que chegou a dizer que uma segunda volta faria subir os juros da dívida e que só ele poderia garantir a tão necessária estabilidade política num tempo crítico como aquele, o Supremo Magistrado da Nação mostrava que acima do interesse do País estava um plano de conquista do poder pelo poder e custasse o que custasse a quem custasse. Não se concebe qualquer outro dos anteriores Presidentes a levar a cabo tamanha conspurcação do seu juramento.

Eis que temos mais uma novidade absoluta no regime, as declarações de Cavaco na entrega dos prémios Gazeta. Há que desmontar desde logo a pretensão de se ter tratado de uma tentativa de humor, de um exercício de ironia ou não sei quê dessa tipologia. Tais predicados existiram nas suas palavras, sim, mas meses antes, quando partilhou com o povo a sua aflição por não ter reforma suficiente para as despesas. Agora, estamos perante alguma coisa que pode ser tudo e um par de botas mas sobre a qual temos a certeza certezinha de que não se trata de humor nem de ironia. Ver o Chefe de Estado a brincar com o empobrecimento, a miséria, a fuga de Portugal de centenas de milhares, o desespero de milhões, a irresponsabilidade governativa, a cobardia presidencial e o potencial descalabro do regime não pertence ao registo da comédia. Pertence à sua irmã grega.

Este episódio cria um berbicacho do camandro aos agentes políticos e demais figuras públicas congéneres, pois quem não o denunciar e exigir consequências será cúmplice. O concidadão que ocupa o Palácio de Belém não tem legitimidade moral, quiçá discernimento cognitivo, para continuar a representar Portugal a esse nível. E isto não é matéria de opinião, é uma básica questão de respeito próprio – o de cada um de nós, que o de Cavaco há muito se evaporou na sua soberba e ódio.

Alvíssaras, Louçã descobriu um socrático honesto!

Está a fazer muito bem ao Louçã a licença sabática. Atente-se neste incrível texto:

Afinal, havia dinheiro para salários e pensões

Tudo nele é incrível. Começa logo pelo seu começo:

Emanuel dos Santos foi Secretário de Estado do Orçamento dos governos Sócrates entre 2005 e 2011. Estão feitas as apresentações.

Que mais há para dizer de quem esteve ao lado de Sócrates? Nada. A sua experiência profissional, a sua formação académica, a sua produção intelectual, quiçá as suas fotografias de férias com a família e o cão, tudo isso se apaga por ter estado sob a influência do mafarrico.

Segue-se uma recensão didáctica e progressivamente empática do livro “Sem Crescimento não há Consolidação Orçamental” onde, incrivelmente, Louçã junta a sua voz à de Emanuel dos Santos no argumentário contra a atoarda da bancarrota iminente em 2011 por culpa do Governo PS. A conclusão, agora de ambos, é à prova de estúpidos: podíamos ter passado por 2011 sem precisar de recorrer a um empréstimo de emergência – portanto, sem ter perdido a soberania.

Aqui chegado, Louçã salta do comboio e vai abancar no apeadeiro do sectarismo. O esforço tinha sido tremendo e ele precisava urgentemente de descansar depois de tanta trepidação nos carris da boa-fé. E termina o escrito com o faduncho do “governo de esquerda” e seus miríficos poderes.

Ora, regressemos a Março de 2011: nem Portugal estava à beira da bancarrota, nem existiam gorduras no Estado, nem seria possível escapar ao contexto económico internacional, nem seria possível fugir do contexto político europeu, nem se desbarataram fortunas com aeroportos, TGV, PPP, auto-estradas e escolas. Pura e simplesmente, havia um Executivo que reunia alguns dos governantes mais capazes de toda a política nacional, todos eles confrontados com gigantescos e indomáveis problemas que nasciam tanto da caótica actualidade como da constrangedora longa história da economia portuguesa e da adesão ao Euro. Quer Louçã convencer-nos de que não se deu conta da conjuntura? Quer Louçã dizer-nos que não percebeu o plano da direita, ainda por cima uma direita mentirosa, decadente e incompetente como nunca se tinha visto antes, nem sequer com Santana Lopes? Quer Louçã garantir-nos que a responsabilidade de um partido de esquerda com representação parlamentar, perante aquelas e estas e outras evidências, se realiza no derrube de um Governo também de esquerda só porque este não correspondia ao tipo de esquerda que Louçã criou na sua brilhante cachimónia e do qual é o feliz proprietário monopolista?

É incrível o que o fanatismo faz à inteligência própria, mas ainda mais incríveis são as consequências devastadoras do que se passou na Assembleia da República no dia 23 de Março de 2011.

Como uma luva

Smartness is an ability to absorb new facts. To walk into a situation, have something explained to you, and immediately say, “Well, what about this?” To ask an insightful question. To absorb it in real time. A capacity to remember. To relate to domains that may not seem connected at first.

Bill Gates in The Rich and How They Got That Way, 2001

__

Obrigado, Jorge Xavier

Duarte Marques, um novo benchmark da chungaria

Vale bem a pena – pena no seu sentido de castigo e de sofrimento, mas também de tristeza e dó – ler a entrevista do Duarte Marques. Estamos perante o presidente da JSD, perante um deputado e perante um marmanjo de 32 anos.

Vou saltar por cima da cultura da calúnia de que é fervoroso praticante, por cima da activa tentativa de criminalizar ex-governantes socialistas, por cima das recordações psicadélicas a respeito de Merkel (neste último caso, com grande dificuldade) e por cima da oferta de porrada a Sócrates. Vou apenas comentar a seguinte passagem:

Não tem motivo para se manifestar?

Tenho imensos. Acho até que os portugueses se começaram a manifestar demasiado tarde. A indignação que está hoje na rua devia ter acontecido há quatro ou cinco anos.

Há quatro ou cinco anos estávamos em 2008 ou 2007, dizem. Duarte Marques lamenta não ter visto os portugueses na rua manifestando indignação igual à que exibem hoje, e não devemos duvidar da sua sinceridade. Infelizmente, a entrevistadora não lhe perguntou o que poderia ter causado essa comoção nacional in illo tempore. Seria o facto de o défice estar controlado e abaixo dos 3% pela primeira vez em décadas? Seria o facto de a pobreza e a desigualdade estarem a diminuir pela primeira vez em décadas? Seria o facto de se estar a fazer o maior investimento em educação, ciência e tecnologia da democracia? Seria o facto de se ter uma política de exportações de alto e crescente sucesso? Seria o facto de se ter uma estratégia vanguardista para o sector energético? Seria o facto de se estar a conseguir modernizar o tecido empresarial? Seria o facto de se ter conseguido a sustentabilidade da Segurança Social? Seria o facto de se estar a conseguir tornar muito mais eficiente o Estado? Seria o facto de Portugal e o Governo português irem acumulando prestígio e influência internacional?

De facto, razões não faltavam para a indignação dos cidadãos que se identificam com o Duarte Marques e que contam com ele para pôr isto na ordem. Lá isso, é factual.

Público adopta modelo do dr. Relvas

Das várias inovações no campo da comunicação social que a existência do dr. Relvas como ministro trouxe para a sociedade, desde a sua peculiar relação com a liberdade de imprensa e a privacidade dos jornalistas até à sua permanência no Governo estar agora indexada ao grande negócio da venda da RTP, uma das mais curiosas e mais rápidas decisões foi a censura de Estado sobre o património de intervenções públicas do anterior Executivo. Faça-se o teste: ir aqui e carregar em MENSAGEM DE NATAL DO PRIMEIRO-MINISTRO NA ÍNTEGRA. Depois aferir o resultado e tirar algumas conclusões (mas só se for caso disso, não é obrigatório).

Assim como o dr. Relvas tratou de boicotar o acesso de milhares e milhares de páginas às fontes para as quais tinham ligação, assim o Público acaba de imitar o feito e varreu milhões de links que ligavam milhões de pessoas. Como isto foi feito a propósito do lançamento da nova versão do seu website (já agora, uma desilusão), e como esse lançamento foi embrulhado em profecias de gurus que nos avisaram para radicais mudanças no que é hoje a Internet, é provável que no futuro a Internet abdique por inteiro do hipertexto e da interactividade e se concentre no trabalho de refundação do mundo como se não houvesse amanhã nem, em especial, ontem.

O reino da estupidez

Já tínhamos governantes que desconhecem por completo o programa e promessas eleitorais dos partidos a que pertencem. Já tínhamos ministros que estão contra as medidas que eles mesmos aprovam. Já tínhamos o Presidente da República desaparecido em rebate. Eis que chegam, finalmente, os secretários de Estado que estão em condições de contar a verdade aos cidadãos pela primeira vez:

Cúmulo da desfaçatez

Hélder Rosalino está tão-só a transmitir um recado de Vítor Gaspar. Um recado que não pode causar qualquer surpresa, pois se há sentimento que o ministro das Finanças nunca escondeu é o do seu enfado, ou desprezo, pelo mundo dos políticos e da política. Ele é mais é contas, tabelas, parcelas, resultados instantâneos no Excel. E o que tem a dizer acerca dos tipos que o convidaram para o Governo, de caminho mostrando quem é que usa calças no Executivo, ficou cristalino nas palavras do Hélder: “Sejam sérios e calem-se com essa tanga das gorduras.”

Se já é oficial que “não há gorduras no Estado”, Gaspar dixit, então não fica pedra sobre pedra dos discursos que invadiram o espaço público durante os últimos anos e que serviram de desculpa para o derrube de um Governo que tinha um programa adequado à correcta visão de um Estado sem gorduras, um Estado magricelas e a precisar de se alimentar bem e de fazer exercício para criar músculo.

No entanto, contudo, todavia, sendo Portugal um país ocupado por portugueses, mais esta prova da trágica golpada que arruinou o País ficará soterrada pela estupidez reinante.

Do Memorando e da memória

Os responsáveis do PSD – dirigentes, representantes, governantes e deputados – já disseram que o Memorando é o que é por sua decisiva influência durante as negociações com os credores, que o Memorando corresponde exactamente à visão, ao diagnóstico e aos propósitos programáticos dos social-democratas e que o Memorando precisava de ser ultrapassado por em certos pontos não ir tão longe na alteração das funções do Estado como o PSD ambicionava. Esta conversa durou até ao princípio de 2012. Depois, perante o crescente descalabro gasparino, começaram a dizer que o Memorando era a incontornável causa da austeridade que impunham aos portugueses, que o Memorando era uma herança que tinham recebido dos socialistas, que o Memorando era o que era porque o Governo de Sócrates assim o quis e que eles nada tiveram a ver com isso e se limitam a cumprir com as obrigações assumidas por outros.

Para além da sua natureza gelatinosa, estes fulanos entram em êxtase de avacalhamento sempre que têm a oportunidade de repetir a cassete da culpa do PS por todos os males conhecidos e por conhecer neste rectângulo e ilhas. E têm essa oportunidade várias vezes ao dia, por vezes com intervalo de apenas minutos ou segundos entre duas doses. Como no debate do Orçamento para 2013:

Continuar a lerDo Memorando e da memória

Singulis major, universis minor

Se nem em ditaduras as repressões policiais conseguem acabar, sequer diminuir, com as manifestações, ainda menos em democracias. O efeito será exactamente o oposto. A queda do Bloco Soviético e a “Primavera Árabe” são exemplos cristalinos deste princípio: quando o povo sai à rua não é possível assustá-lo, só massacrá-lo ou convencê-lo. Mas imaginemos que algum louco no Governo tinha imaginado que conseguiria – e sem ser descoberto! – pôr agentes disfarçados de anarco-pedreiros a servir calhaus aos colegas fardados até se considerar que estavam reunidas as condições para avançar de bastão em riste e partir a cabeça a meia dúzia de adolescentes, velhos e mulheres na esperança de que, sei lá, deixa cá ver, a CGTP e o PCP não voltassem a ter vivalma nas suas acções de luta. Ver pessoas que julgávamos em condições mentais suficientes para tirar a carta de condução, e outras que admiramos intelectual e moralmente, a alinharem nessa febre paranóide é uma espectacular lição quanto à facilidade com que se pode dar uma intoxicação cognitiva. O exemplo das fotografias de um tipo que se andou a passear junto da primeira linha do Corpo de Intervenção, e que até aparece num vídeo a gesticular sem máscara para um dos polícias que permanece imóvel de escudo erguido, é um gigantesco monumento à imbecilidade.

Continuar a lerSingulis major, universis minor

“O que é que se passou, senhor deputado?!”

Outubro de 2012. Um primeiro-ministro de um país da União Europeia roga a um deputado da oposição que lhe explique o que se passou no tal país e no Mundo durante o período compreendido entre 2005 e 2011. O ambiente é de feira do gado, o estilo é de taberna. Ver para crer:

Dias depois, a chanceler de outro país da União Europeia aproveitou estar a passeio no país do tal primeiro-ministro para o ajudar a perceber o que se terá realmente passado:

Uma das coisas divertidas da passagem de Angela Merkel por Lisboa – para além da “photo opportunity” do letreiro “governo de Portugal” – aconteceu quando a chanceler, na conferência de imprensa ao lado de Passos Coelho, lembrou a origem da crise do euro. Deve ter sido esquisito para quem está habituado a culpar “o Sócrates” ter ouvido a todo-poderosa Angela explicar que, por causa da crise financeira desencadeada nos Estados Unidos, e da sua propagação à Europa, os governos europeus desataram a apostar no investimento público para conter o descalabro das suas economias. Só que entretanto os investidores começaram a desconfiar de algumas economias (as mais frágeis) e a duvidar da fiabilidade de alguns para pagar as respectivas dívidas. Esta foi a explicação de Merkel, perante um Passos Coelho que arrumou a um canto o discurso habitual do “vivemos acima das nossas possibilidades” e se concentrou no verdadeiro desastre nacional – um grave problema de produção.

Fonte