Do Memorando e da memória

Os responsáveis do PSD – dirigentes, representantes, governantes e deputados – já disseram que o Memorando é o que é por sua decisiva influência durante as negociações com os credores, que o Memorando corresponde exactamente à visão, ao diagnóstico e aos propósitos programáticos dos social-democratas e que o Memorando precisava de ser ultrapassado por em certos pontos não ir tão longe na alteração das funções do Estado como o PSD ambicionava. Esta conversa durou até ao princípio de 2012. Depois, perante o crescente descalabro gasparino, começaram a dizer que o Memorando era a incontornável causa da austeridade que impunham aos portugueses, que o Memorando era uma herança que tinham recebido dos socialistas, que o Memorando era o que era porque o Governo de Sócrates assim o quis e que eles nada tiveram a ver com isso e se limitam a cumprir com as obrigações assumidas por outros.

Para além da sua natureza gelatinosa, estes fulanos entram em êxtase de avacalhamento sempre que têm a oportunidade de repetir a cassete da culpa do PS por todos os males conhecidos e por conhecer neste rectângulo e ilhas. E têm essa oportunidade várias vezes ao dia, por vezes com intervalo de apenas minutos ou segundos entre duas doses. Como no debate do Orçamento para 2013:

Não carece ser-se capaz de explicar o que seja a Teoria da Relatividade para perceber as vantagens que o laranjal retira desta maníaca praxis. Foi assim que venceram as eleições, e foi assim que se mantiveram um ano com a população anestesiada pela crença de que Satanás tinha sido expulso e que os santos estavam agora a fazer milagres. Um partido de videirinhos, mentirosos, chantagistas, conspiradores e cavalheiros de indústria não tem de produzir pensamento político ou social, ainda menos dar exemplos éticos ou cívicos. Tem é de chegar ao poder por todos os meios legais, e mesmo por meios ilegais desde que não sejam apanhados. É a isto que eles chamam “fazer política”, e orgulham-se do que são.

O que nem um Einstein ao quadrado conseguiria explicar é a postura de Seguro perante o permanente achincalhamento de que ele e o PS são alvo sem descanso. Seguro não mexe uma palha para defender o Governo de Sócrates ou para fazer justiça às suas razões no contexto do chumbo do PEC IV, o que implica não contrapor qualquer versão diferente daquela que vem do PSD. Tal passividade, se cruzada com o que conhecemos do seu percurso e declarações antes de chegar a Secretário-Geral, assume contornos de cumplicidade. Chega ao ponto de alimentar suspeitas em relação às PPP enquanto não vê qualquer motivo para pedir a demissão do dr. Relvas faça ele o que fizer e disser. É como se Seguro concordasse com o que está a ouvir, mas como não se pode juntar ao massacre fica caladinho. E do lado social-democrata há uma excitação quase erótica, sádica, por se saberem com licença para agredirem o adversário da forma mais boçal, desmiolada, burgessa e canalha que forem capazes. No exemplo apresentado acima no vídeo, até dá para dizer de pé no Parlamento que o Orçamento para 2013 é da exclusiva responsabilidade socialista, enquanto à volta há gargalhadas debochadas à solta – e assim se trataram matérias que vão levar milhares e milhares de portugueses para um ainda maior empobrecimento e para abandonarem o País.

Acontece que ao deixar o PSD à-vontade para continuar a deturpar a História, e continuar a fugir às suas responsabilidades, o PS está a prestar um péssimo serviço aos milhões de portugueses que não mereciam estar sujeitos ao Memorando e ainda menos merecem estarem sujeitos a este Governo. O tempo, no espaço de um ano, veio dar razão a Sócrates e a quem aguentou a seu lado a maior campanha de assassinato de carácter e de vil ambição de que há memória em Portugal. Seguro tem traído estas pessoas com uma tenacidade e frieza que só um profundo sentimento de vingança justifica. E com isso arrastou o PS para esta incrível e vexante posição em que é parte do problema quando tinha tudo na mão desde o início deste ciclo para ser o mais legítimo, esclarecido e preparado representante da solução.

16 thoughts on “Do Memorando e da memória”

  1. “Seguro não mexe uma palha para defender o Governo de Sócrates ou para fazer justiça às suas razões no contexto do chumbo do PEC IV, o que implica não contrapor qualquer versão diferente daquela que vem do PSD.”
    Mas deliramos? Como podia Seguro dar tamanho tiro no pé? Defender o indefensável?

  2. Eu acredito que todas as intervençoes sobre a não paternidade do memorando,proferidas pelo psd e neste caso pelo gordo campos ferreira (irmaõ da fatinha dos agora ” pós e pós”), são elaboradas em parceria com josé seguro,para erradicar de vez da face da terra josé socrates.quanto ao memorando onde ele já vai!até o subsidio de ferias e 13 mês lá estavam!

  3. Nem mais!
    O verdadeiro mistério é como é que os militantes do PS, os mesmos que pouco antes das legislativas tinham dado, em eleições internas, mais de 90% dos votos a Sócrates, aguentam tanta canalhice.

  4. Alto aí, Eduardo J! As generalizações levam a isto. Os militantes do PS?! Sei lá quantos não abandonaram já o partido! Eu, por exemplo, fi-lo no dia seguinte ao da eleição do Seguro!

  5. Cícero , não generalizo.
    Sei bem que há centenas de militantes descontentes e desgostosos com estes silêncios de Seguro, eu conheço umas dezenas. O problema é que parecem ser ainda mais os que aceitam esta vergonha. Caso contrário já teriam corrido com ele.

  6. Aqui em Loulé, há tempos, perguntei a Mário Soares se não estava na hora de voltar-mos de novo à Alameda.
    Ele respondeu: – Pois, mas eu já tenho 86 anos!
    Quem, no PS, tem tomates para substituir Mário Soares? É urgente.

  7. Plenamente de acordo,já o disse e tenho repetido,o grande inimigo da direita é e será o José Sócrates,porque é nele que vêm o perigo e o adversário que nunca bateram no campo da democracia e o que fizeram de pulhices ,campanhas de assassinio de carácter e infâmias múltiplas,para o abaterem,pesa nos resquicios da consciência de alguns e pior,sabem que a história será implacável e a verdade que a espaços surge-ainda recentemente pelo testemunho insuspeito da chanceler alemã-será reposta.Quanto ao lamentável (in)seguro e camarilha que o rodeia,é apenas o que sempre foi,timorato e ciumento do que foi o melhor primeiro-ministro da era da democracia.É baixo e reles que ouça impávido injúrias e mentiras e não reaja dando provas de pouca ou nenhuma coluna vertebral.Não quero sequer supor que gente de outra envergadura moral,intlectual e estatuto político e com provas dadas no domínio governamental e parlamentar,não se sinta incomodada nem veja nem o descrédito nem o desprestígio em que o PS vem caindo perante a Esquerda Democrática e o ciadão eleitor.E cada vez mais me capacito que entre ele e o láparo,venha o diabo e escolha.E como eu há já muitos que votarão em branco caso tudo se mantenha na presente aberração.

  8. Desta vez acertaste em cheio, Val. Excelente texto.
    Também eu não darei o meu voto a este PS vergonhosamente representado por essa criatura moluscular que se chama A J Seguro. Com um Secretário-Geral que os tivesse “en su sitio” repuzesse a verdade e cultivasse a dignidade combatendo a infâmia e a mentira, as sondagens hoje já dariam uma maioria absoluta ao PS. Agora com este verme que lá está, que pelos vistos nem alternativas tem, pois as não apresenta e defende, oh! … pobre PS, mas, principalmente pobre País.

  9. Mais um blogue a ir no sentido certo, estes políticos são todos a mesma corja. Votar Seguro e PS? Para quê? Para termos o mesmo que temos, ou pior? Espero que não haja eleições, mas se houver, só há uma solução. Votar em branco porque não há alternativas por isso mais vale ficar assim, para pior já basta assim.

  10. Assino por baixo. Seguro parece odiar tanto Sócrates como os que o derrubaram. Espero que muito em breve a consciência do PS acorde e corra com Seguro.

  11. Concordo com as criticas a seguro.eu sou critico de seguro, muito antes de assumir a liderança. A sua falta de solidariedade durante os anos de socrates foi gritante.disse isto para criticar aqui e agora, determinado tipo de comentarios que não podem ser proferidos por um socialista democratico.os social- facistas e os anacletos, nestas alturas tambem saõ uns bons socialistas, com claros objectivos politicos. tenham calma! na altura certa vai aparecer um lider, mas atenção! como sócrates,não há mais. O que estamos a pagar é o” preço bem calculado” pela direita e extrema esquerda para afastarem o seu mais forte adversario politico.

  12. Concordo absolutamente com o seu texto, Val. mas já não concordo com os comentadores que, odiando Seguro – e eu também – exortam-nos a votar em branco!?!
    mas então e depois, julgam que a direita e a “esquerda pura” não vão votar!?!
    Então, deixar o PS é que é a solução!?! Se Seguro foi votado em maioria – porque consta que andou a “namorar” o “aparelho” autárquico por todo o país – o que os socialistas têm de fazer é “MEXEREM-SE” para eleger outro SG que reponha os ideais socialistas no seu código de conduta! E quanto mais depressa melhor, pois as eleições autarquicas estão aí e a continuarmos assim, ficará tudo pior!

  13. Seguro, disse em campanha para a eleiçao do SG,que ia conversar mais com os militantes.O que estamos a ver não é uma conversa,mas um sonoro monólogo com direito a TVS.os militantes do ps devem exigir o cumprimento dessa promessa, para poderem debater internamente os problemas que assolam o pais e o partido.quanto mais depressa for, melhor será para o pais.Obrigado

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