Um mal nunca vem só

A primeira entrevista da nova liderança bloquista não produziu qualquer novidade política que justifique o gasto de neurónios no seu armazenamento. O único ponto de interesse foi mesmo o do formato, apreciar os protocolos e minudências que uma dupla de dirigentes a discursar ao mesmo tempo iria exibir.

E o que se viu foi uma linguagem não-verbal e uma atitude interventiva onde a diferença de idade, mas também a de género, estava a condicionar a parelha. Assim, Semedo indicou subtilmente a Vítor Gonçalves que não queria ser ele a falar em primeiro lugar. Qualquer racionalização desta opção, seja para evitar aparecer como o elemento preponderante ou para se armar em cavalheiro com uma senhora e sua precedência em contexto social, o que revela é o mais clássico e entranhado machismo. E deste começo em diante a coisa só piorou, pois passou a mostrar zelo na protecção da sua companheira sempre que a via em apuros; sendo o caso mais óbvio aquele da temática bancária em que o jornalista estava a explorar uma fatal ignorância no argumentário da Catarina. Isto significa, então, que ao machismo temos de acrescentar o paternalismo.

As situações em que os dois coordenadores apareçam juntos para interrogatórios serão raras face ao conjunto das tarefas que terão pela frente, pelo que as suas prestações só tenderão a melhorar depois deste tirocínio. O que realmente estimula o cidadão apaixonado pela cidade é o seguinte corolário: a opção do BE pela liderança bicéfala faz do género a sua causalidade. Não há nenhuma outra razão para termos este casting a não ser a vontade do realizador em fazer um filme com actores seus predilectos que garantissem uma daquelas comédias românticas com obrigatório final feliz. Semedo e Catarina não tinham passado comum que justificasse a sua simultânea elevação à chefia do partido. Eles apenas se limitaram a aceitar o casamento que outrem lhes arranjou por correspondência e sem direito a namoro.

Louçã podia ter escolhido quem quisesse para a sua sucessão. Logo, já que estava com a ideia fixa nesta parolada de querer parecer moderno ou porque não confiava em ninguém o suficiente para o deixar sozinho à frente do barco, poderia ter escolhido dois homens, duas mulheres, dois idosos, duas moçoilas, um casal de bichas ou um preto e um cigano. Poder podia, mas, grande alquimista que é e para sempre será, quis ter um homem e uma mulher, e que esse homem fosse sábio e que essa mulher fosse fértil. Onde é que estamos? No Éden. A ver a tal comédia romântica. Uma fita onde a política desaparece no naturalismo. A história do Ocidente, aliás, não tem sido outra coisa – a fragilidade do político perante a constante tentação da sua substituição pelas abstracções cósmicas ou pelas forças ctónicas.

14 thoughts on “Um mal nunca vem só”

  1. não consegui ver a entrevista.aquilo parecia uma parelha, mas de maus palhaços.não entendo como dois adultos,e todos os outros da retaguarda,podem aceitar uma soluçao desta em pleno regime democratico.não tenho duvidas,que depois da tempestade bem o “bonança” anacleto, salvar o BE.na minha opinião esta soluçao tem mais a ver com o egocentrismo preocupante de francisco louça, do que com a origem do bloco (udp,psr e politica XXl) Nota: para esta soluçao bicefala havia melhores protagonistas,mas pelos vistos não aceitaram ser” bobos da corte”.

  2. pergunta,o bloco, e pcp chamam a troika,para meterem cá dinheiro a juros altos e agora reclamam? um pouco de pudor não lhes ficava mal.

  3. A estes idiotas úteis só temos a agradecer a ajuda que deram a derrubar o ditador socialista!
    Fora isso não servem para mais nada.

  4. “Fora isso não servem para mais nada.”

    servem… servem… quem é que faz merda para justificar as filha-da-putices do governo e brincar às oposições? quem foi… quem é?

  5. O bloco e o pcp, são como o “0 outro” são os ultimos a saber.Não sabiam que chumbado o pec 4 o governo caia. Tambem não sabiam que a derrota do ps tinha como contrapartida a vitoria da direita.Com o pedido de resgate o bloco e pcp não não imaginavam que vinha a troika, para cobrar a factura a juros muito altos.pergunto o que foram fazer à grecia antes do chumbo? não viram nada? o bloco, não está zangado com a troika por causa dos juros,está por que a sua presença lhes recorda o tsumani que foi a perda de 8 deputados.

  6. zuruspa,a lingua portuguesa é muito traiçoeira.lê rapido o que disseste:” nemcomonada”, está giro. mudando de assunto,em 1934 em espanha, a campanha dos comunistas era tão vergonhosa para aliciar a classe media e as sociedades parlamentares que alguem inventou para eles o seguinte slogan:”votem nos comunistas e salvem a espanham do marxismo” diz mais: a eficiencia da organizaçao e das taticas comunistas,só pode ser apreciada quando o seu tamanho exíguo é comparado com a sua influencia. agora digo eu,no tempo do prec isto tambem aconteceu.frases retiradas do livro ” a guerra civil de espanha” de antony beevor. estou a gostar.

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