PEC-Men

Todo o discurso do Governo, de modo obsessivo e cada vez mais desesperado, é a repetição de um e só um facto: estamos sujeitos ao Memorando de Entendimento. É à volta dessa evidência que os agentes políticos se posicionam e estabelecem as estratégias de curto e médio prazo, vindo do Executivo e sua maioria parlamentar o retrato de um país sem qualquer autonomia política – nem sequer para tentar alterar as condições do resgate.

Ao princípio, e até ao começo de 2012, foi este o discurso:

Depois de acrescentar que o diagnóstico da situação do país feito pelo PSD “não estava muito desviado da observação atenta especializada que o Banco Central Europeu, a Comissão Europeia e o Fundo Monetário Internacional tinham”, Passos Coelho concluiu: “Quer dizer, há algum grau de identificação importante entre a opinião da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional e o que é a nossa convicção do que é preciso fazer”.

“Por isso, não fazemos a concretização daquele programa obrigados, como quem carrega uma cruz às costas. Nós cumprimos aquele programa porque acreditamos que, no essencial, o que ele prescreve é necessário fazer em Portugal para vencermos a crise em que estamos mergulhados”, reforçou.

Passos: Portugal vai cumprir o programa “custe o que custar”, diz Passos

Assim que se viu o buraco criado pelo fanatismo, a meio do ano, o foco foi logo dirigido contra o PS, reactualizando-se o discurso da culpa. Só que desta vez, e poucos meses depois do júbilo laranja por estarmos sob domínio da Troika, os socialistas eram acusados de terem colocado Portugal neste aperto. O tal aperto que, segundo o próprio Passos, era quase igual ao programa eleitoral do PSD e que andou a ser pedido pela direita portuguesa desde 2010. Faz isto algum sentido? Quando se utiliza a “verdade” como arma política, permitindo tratar como mentiroso qualquer um que discorde, faz. Porque os proprietários da “verdade” transformam em “verdade” tudo o que dizem. Têm “verdades” para todos os gostos, ocasiões e oportunidades.

A direita tem conseguido usar o Memorando como escudo para a sua violência e incompetência por uma sinistra conjugação de factores. Parte logo da decadência do seu tecido sociológico, o qual reproduziu bovinamente as calúnias, aberrações e apagamentos lançados para o espaço público acerca das causas das crises de 2008 e 2010. Depois, conta com a cumplicidade imbecil do PCP e BE, partidos que cultivam o paradoxo de se dizerem defensores do Estado social e ao mesmo tempo tudo fazerem para diminuírem, boicotarem e atacarem o PS. Comunistas e bloquistas ficam em silêncio de gozo contemplando a direita a massacrar o PS porque vêem nisso também um ganho. O resultado está a vista, mas a cegueira dos sectários torna-os imunes à realidade. Por fim, o actual PS é um caso de psiquiatria, tendo um líder que alinha com o PSD e CDS na farsa de culpar o Governo anterior de forma sistemática e maníaca. Um secretário-geral que fica imóvel e mudo a ver passar em direcção à frente da batalha um socialista prestes a fazer 88 anos.

De 2005 a 2011 existiu um primeiro-ministro que fez política de centro-esquerda ou social-democracia. Foi tão eficaz no seu desempenho, tão ousado na sua ambição, tão corajoso na sua vontade que atiçou todos os extremismos e viu crescer à sua volta – tal como seria inevitável – os radicalismos mais variados, mais ressabiados, mais vingativos. Ainda não estamos em condições de avaliar esse período quanto aos erros cometidos, e aprender com eles, porque temos andado ocupados com os ataques ao Estado de direito e à democracia que os seus adversários lançaram na fúria de o derrubar. Mas já podemos, e devemos, contar a história da traição a Portugal cujo primeiro responsável é Passos Coelho. É uma história sórdida, uma história infame, a clássica tragédia da inconsciência e irresponsabilidade daqueles para quem a política é apenas um jogo de conquista do poder. Só que neste caso as consequências são devastadoras. No momento em que Portugal mais precisava de estabilidade e racionalidade, tendo um Governo minoritário conseguido o apoio da Europa para adiar, quiçá evitar, a presente loucura, PSD e Presidente da República sacrificaram os portugueses no altar da sua gula e do seu soberbo ódio.

Foi assim, exactamente assim:

O presidente da Comissão Europeia comunicou privadamente ao líder do PSD que discordava por completo da estratégia do partido depois de Passos Coelho ter anunciado que era intenção dos sociais-democratas chumbar as medidas de austeridade do Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) IV, apresentado pelo executivo em Bruxelas em Março. Nos argumentos de Durão Barroso, o pedido de ajuda português era inevitável e devia ser accionado pelo governo de José Sócrates ainda antes do Verão, quando os empréstimos de Junho tivessem de ser pagos pela República. Para o presidente da Comissão Europeia, o PSD poderia abster-se no parlamento na votação do PEC, não se comprometendo com qualquer medida que vinculasse o partido para 2012 e 2013. O congelamento das pensões, por exemplo – o ponto mais controverso para Passos Coelho – só teria efeitos práticos a partir do próximo ano. Viabilizando o PEC e pré-anunciando um chumbo ao Orçamento de 2012, Passos Coelho conseguiria, na opinião de Barroso, evitar um crise política nesta fase, ganhar tempo para que fosse o actual governo a fazer o pedido de ajuda externa e conquistar capital político na opinião pública para precipitar posteriormente eleições.

Mas Passos Coelho estava a ser pressionado internamente”, disse ao i fonte próxima do presidente da Comissão Europeia, “e respondeu que não havia garantias de que o governo fosse mesmo pedir ajuda”.

Durão Barroso pressionou Passos Coelho para aprovar PEC IV

8 thoughts on “PEC-Men”

  1. é importante referir, que anúncio de guerra ao trabalho, com o ” o custe o que custar” foi transmitido aos visados, muito antes dos sucessivos fracassos da sua politica.perante esta evidencia, tenho que concluir que mesmo a correr bem, a agenda ultraliberal tinha que prosseguir.na presença de tantos sacrificios sem resultados palpaveis,há quem pense que está a ser criado um “fundo de maneio” para utilizar nas eleiçoes antecipadas que se aproximam a passos largos.aguardemos.

  2. ahahahah… a última frase é um most “e respondeu que não havia garantias de que o governo fosse mesmo pedir ajuda”. aí está a razão do chumbo:o gajo é tão teimoso que se calhar ainda evita a ajuda, vamos por isso deitá-lo abaixo (que se lixe o país)!

  3. Vem agora os socialistas tentar reescrever a história! Ah ah ah! …

    Olhem! Hoje saiu outra notícia de aumento do Desemprego e Aumento do Desemprego Jovem!

    Parabens Sócrates, deixaste o país em muito bom estado!

  4. fogo!! as palhaçadas de comentários do amnésicos ainda vá que não vá, agora este mau gosto??? Tens o quadro completo. Pena não podermos exportar a tua massa cinzenta, em vez daquela em que o engenheiro e nós tanto investimos. É tão boa que lá fora não querem outra coisa, até vêm cá fazer feiras de emprego e arrebanhá-los aos milhares.

    http://www.youtube.com/watch?v=EEUktvwyfPQ

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