Cineterapia


Costa do Castelo_Arthur Duarte

.

JanuárioÓ Rita, deixa vir daí a aguardente…

RitaAguardente? Onde é que ela já vai! Olha, e é bom que te desabitues desses luxos porque ela está cara e é preciso poupar. Bebam água do pote.

Simplício CostaMorfina, benzina…

JanuárioBenzina, beba-a você!

Simplício CostaNão é isso, homem. Cristalina… Ah, cá está! Achei… Ganhei o dia. Pago eu a aguardente!

RitaNão faça isso… Compre antes um bocadinho de queijo que é coisa que não entra cá há muito tempo em casa.

Simplício CostaPrefiro aguardente que para mim é queijo.

JanuárioE duques!

RitaO senhor Daniel não diz nada?

DanielAh, eu? Sim, eu sou da mesma opinião. Até vou mais longe: queijo e aguardente!

Simplício CostaBem, quer dizer que adere ao movimento. Bravo, é cá dos meus.

RitaAs duas coisas? Mas estão malucos! São capazes de imaginar que nos saiu a sorte grande…

*

Dia 29 de Novembro de 2012. Sete da tarde. Uma dúzia de bípedes implumes reuniu-se na Cinemateca para ver este filme. E para rir com ele da primeira à última cena.

À excepção de um miúdo que não devia ter mais de 10 anos, aqueles felizardos estariam a ver a fita pela centésima vez. Na sua grande maioria, a audiência parecia ter nascido no tempo em que se filmaram as cenas. Mas as gargalhadas eram homéricas.

Não se trata da melhor comédia portuguesa, longe disso, sequer uma das três melhores do “ciclo de ouro”, mas é uma jóia que vence o tempo e resgata o espaço. E não fora o disparate argumentativo cometido no último quarto de hora, onde a resolução da narrativa afunda o filme num desfecho musical sem graça, teríamos aqui uma acabada perfeição cinéfila. Para a História, no meio de outras histórias, fica o páreo entre António Silva e Maria Matos numa disputa taco a taco pelo protagonismo supremo, vencido por ela com mérito e distinção.

Em 2013 fará 70 anos que O Costa do Castelo se estreou no S. Luiz. Vai encontrar um país a caminho daquela sociedade sem classe média onde comprar aguardente e queijo ao mesmo tempo só estava ao alcance dos ricos. Por isso, os nossos risos em grupo, na quinta-feira passada, eram também um esgar envergonhado como o de alguém que de repente se descobre apanhado num retrato tirado à socapa.

8 thoughts on “Cineterapia”

  1. :-) adoro ver esses filmes que parecem ser, e são, tão lúcidos, ao milímetro, desenhados. são o melhor exemplo de como entre o preto e o branco, a cinzentolândia, há cor.

  2. Ai que saudades!
    era no tempo em que em vez de ser à porta dos hipers era à porta das igrejas que se pedia.

    Se os mais velhos tivessem contado não se repetiria a crise.

    «mas semos axim»!!!

  3. E também há o “Costa de África”, escondido pelos vigilantes da correcção politica…

    Premonitória, aquela cena em que o “africanista” Passos Costa chega à mansão lisboeta e invectiva o mainato:

    – Ó indigena, vai lá baixo ao carro e traz-me a chibata, que eu preciso dela e tu também…

  4. A este inominável sujeito que dá pelo estranho nome de “Amnésicos” digo como Cícero: “Quousque tandem abutere Amnésicos patientia nostra”. De facto, tanta imbecilidade junta num só sujeito é de fazer a paciência ao santo mais santinho! Haja Deus!

  5. Um dia o meu sogro levou o António Silva numa corrida do seu velho táxi mas divertiram-se tanto que no fim ele não pagou o frete…

  6. Adoro os filmes portugueses desta época!

    (O leão da Estrela; O Pátio das Cantigas et all)

    A figura do António Silva e todo o cómico de situação fazem parte do meu imaginário.

    São, como muito bem dizes, fonte de ‘gargalhadas homéricas’ :)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.