O que me preocupa, para além do episódio Miguel Sousa Tavares, é que para as instituições é muito mau quando o Presidente da República se encontra num contexto em que é possível que as pessoas lhe chamem nomes que não são mero ataque político, não é apenas a discrepância política, é uma coisa que é insultuosa. Porque depois, de repente, o diálogo democrático torna-se praticamente impossível.
Maio de 2013
Marcelo tem toda a razão: quando o Presidente da República passa a ser objecto de insultos generalizados algo está podre do reino da Dinamarca ao reino da Madeira. Mas, e não por acaso, foi preciso elegermos a figura mais importante da direita para vermos a Presidência da República conspurcada ética e politicamente para além do que pudéssemos imaginar nas eleições de 2006 e 2011. Acresce que o titular do cargo é um activo agente de suporte a um Governo que faz do empobrecimento fanático e do crescimento da miséria o seu programa político, pelo que ver a revolta popular a apontar impropérios na sua direcção será tão fatal como ver os rios a correrem para o mar.
Descontemos a situação e fiquemos pelo porta-voz da moralidade apregoada. Marcelo é um dos mais poderosos influenciadores da opinião pública, correspondendo esse poder a uma posição sem paralelo onde faz semanal, ou diária, propaganda ao serviço dos interesses do PSD e da oligarquia. Será que este passarão exige de si a decência que reclama ao povoléu? É ler:
Ele teve sorte e tirou proveito disso. É o que se chama o chico esperto. Fez um curso mais facilmente que o comum dos mortais e na casa comprou a mesma casa, que os outros compraram mais cara, mais barata.
Fevereiro de 2009
Marcelo Rebelo de Sousa considera que José Sócrates tem “uma relação difícil com a verdade”.
O antigo líder social-democrata disse ontem, na RTP, que “é muito difícil manter um mentiroso como primeiro-ministro, mas a situação do país impõe-no”, sublinhando que “está tudo mal explicado” na história de José Sócrates.
Fevereiro de 2010
Sócrates é daqueles cães que filam as canelas.
Dezembro de 2010
Corrupto, mentiroso e cão raivoso. Eis o que a prédica domingueira lhe permite dizer de um primeiro-ministro em funções, sem que se apanhe a contas com berbicachos no Ministério Público ou veja reduzido o cheque milionário com que se faz cobrar como super-vedeta da política-espectáculo.
Tenho especial admiração pelo topete de usar o insulto canino. Estamos perante um picanço daqueles que estão a chamar imediata resposta a punho e pontapé na falta de bengalas por perto. É que enquanto o vocábulo “palhaço” contém uma bonomia que, ao limite, ainda mantém uma ligação simpática, ou até empática, com o alvo, já “cão” transporta uma herança ancestral de absoluto desprezo que vem das profundezas da Idade Média e da mourama. Marcelo conseguiu assim dizer, para milhões de espectadores, que Sócrates era um filho da puta da pior espécie – ou seja, um cão que fila as canelas.
Marcelo, é o seu trabalhinho, nunca se inibiu ao longo do tempo em que Sócrates governou de explicar que a posição do Presidente da República era sui generis pois podia atacar o Executivo e o PS sem temer represálias, dada a punição popular usual para quem respondesse na mesma moeda ao Chefe de Estado, símbolo impoluto da unidade nacional. Isto era dito com um sorriso rasgado e constituía-se como público apelo para que Cavaco liderasse a oposição. Cavaco nunca se fez rogado, nem de tal motivação precisaria, tendo merecido o aplauso de Marcelo aquando do comício da tomada de posse em 2011, passando Marcelo a louvar-lhe o empurrão decisivo para derrubar Sócrates. Contudo, ainda mais obsceno é o branqueamento do Professor ao outro Professor, ocorrido no momento em que a Inventona das Escutas tinha sido desmascarada e havia que rapidamente conter os danos e salvar a face a Cavaco. Foi assim, fica como ex-líbris da palhaçada que é a direita portuguesa:
Marcelo Rebelo de Sousa considera que o caso das alegadas escutas do Governo a Belém não passa de um «equívoco» que se resolve com um «puxão de orelhas» ao assessor, que terá sido a fonte da notícia.
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