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A honra de Cavaco versus a honra de Portugal

Louçã veio repescar o assunto da posição de Cavaco face às sanções, e meter lenha no braseiro – Cavaco Silva e a ignominiosa questão das sanções contra Portugal. Louçã assistiu às declarações de Cavaco no Conselho de Estado e neste texto entretém-se a dilacerar a sonsice da infeliz e degradante figura. Tudo se resume ao seguinte argumento: se Cavaco quisesse, já tinha esclarecido qual era a sua posição em relação à eventualidade de Portugal ser sancionado; como não esclareceu, conclui-se que não quer, e a explicação mais provável para esse silêncio remete para a notícia original sobre o que teria dito no Conselho de Estado.

Resumindo, mesmo que Lobo Xavier e Marques Mendes tenham vindo dar a cara por uma versão literalmente verosímil, na qual Cavaco realmente não teria usado o termo “sanção” ou “sanções” em nada do que disse, a boa interpretação desse discurso parece estar do lado daqueles que viram nas tais palavras uma apologia do castigo a Portugal para efeitos de desgaste e ataque ao actual Governo. Ou simplesmente por rancor.

A temática é política e até culturalmente importante, com Louçã a não sair dela ileso. Isto porque o que está em causa é um padrão que remonta a 2010, quando rebenta a crise das dívidas soberanas na Europa. A oposição, numa coligação negativa, explorou essa nova crise por cima da anterior de 2008 para atacar o Governo minoritário do PS. E valeu tudo, com o inestimável apoio de Cavaco a reger a orquestra. A lógica era a de que a direita não poderia deixar escapar as colossais dificuldades económicas e financeiras para alcançar o poder interrompendo a legislatura, e a de que a esquerda não poderia deixar escapar as colossais dificuldades económicas e financeiras para diminuir o PS em eleições especialmente difíceis para um Sócrates cercado por todos os lados. Foi o que alcançaram no dia 23 de Março de 2011, quando se uniram para impedir o acesso de Portugal a um programa similar ao que a Espanha usou para evitar o pedido de resgate. Os discursos da oposição ao tempo, fazendo eco do comício de Cavaco nessa mesma Assembleia da República duas semanas antes, comungavam na radical objecção a mais austeridade. Para a esquerda, porque tal ia tirar mais aos pobres. Para a direita, porque tal nos mantinha cada vez mais pobres. Porém, nem direita nem esquerda ignoravam quais seriam as consequências da rejeição do acordo consubstanciado no PEC IV: imediato agravamento dos problemas que esmagavam as contas públicas, com o periclitante acesso ao financiamento nos mercados a transformar-se numa miragem, e inevitável programa de emergência com o FMI e a Comissão Europeia a fazerem o que lhes apetecesse. A crise política aberta com esse chumbo, e o consequente afundamento do País contra o que seria o óbvio interesse nacional, tem responsáveis – um deles é Louçã, que igualmente colocou a cegueira ideológica e o cálculo oportunista à frente da comunidade por falta de grandeza enquanto líder político.

Seguiu-se uma campanha eleitoral onde nunca se registaram tantas e tão escabrosas mentiras do lado da oposição. Os reis da mentira foram Passos e o PSD, deixando um caudal de obscenidades que exibem o lado mais funesto do sistema democrático. Logo que se agarraram ao pote, inverteram o discurso e assumiram a retórica do crime e castigo onde os pobretanas dos portugueses teriam andado a viver “acima das suas possibilidades”, pelo que havia de fazê-los regressar à sua natural condição: a miséria. Foi isso que tentaram e conseguiram com a desculpa da Troika, numa devastação que atingiu milhões, só sendo travados numa pequena parte do seu plano de reengenharia económica e social pelo Tribunal Constitucional. E este vendaval de desprezo, mesmo ódio, aos compatriotas acontecia enquanto se passeavam com a bandeirinha na lapela – uma galeria de pinículos.

Passos continua a passear-se de bandeirinha ao colo. E continua a tentar usar os exércitos estrangeiros para tomar o poder em Portugal. Trata-se de uma pulsão que se perde na origem dos tempos, estando a História cheia de figuras menores que traíram os seus conterrâneos recorrendo a mercenários ou forças exteriores. O facto de Passos se entregar a essa vergonha sem que o PSD sequer liberte um vagido de protesto exibe com esplendor a decadência da actual direita portuguesa. E é aqui, precisamente, que o episódio de Cavaco no Conselho de Estado ganha uma relevância que transcende a temática das sanções e o actual momento político. É que também para Cavaco vale tudo para castigar os alvos do seu rancor, como se comprovou desde 2008 até ao resultado das eleições de 2015. E, a ser assim, então a conclusão é a de que a actual direita se transformou numa entidade onde já não existe qualquer noção do que seja o patriotismo. São agora, e apenas, uma máquina alucinada ao serviço das ambições individuais da oligarquia onde vegetam.

Ajudemos o bom do Nicolau Santos

"Soares e Cavaco têm o seu lugar garantido na História de Portugal. Mas para lá do papel político de cada um, o primeiro será também recordado pela sua empatia com o povo e o segundo pela sua rigidez, distanciamento e falta de jeito para lidar com esse mesmo povo, quando não pela inveja e pela pequena vingança."


Soares e Cavaco, duas homenagens diferentes

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Trata-se de uma descrição legítima, vai sem discussão, mas creio que podemos ajudar o Nicolau a conseguir uma reunião de vocábulos muito mais rigorosa e expressiva no que ao assunto em causa diz respeito. Por exemplo:

Soares e Cavaco têm o seu lugar garantido na História de Portugal. Mas para lá do papel político de cada um, o primeiro será também recordado como um herói da liberdade em Portugal e o segundo pela sua mesquinhez, velhacaria, ressabiamento e rancor ao lidar com esse mesmo Portugal, como ficou patente pelas suas campanhas de ódio contra Governos legítimos e pela sua responsabilidade em tentativas golpistas por si protagonizadas ou organizadas pela sua equipa presidencial, e ainda pelo seu desprezo pela Constituição quando tal servia os interesses de um Governo do seu partido.

Aceitam-se versões ainda mais exactas.

Alegria mesoatlântica

Só descobri esta pérola recentemente, embora tenha ocorrido em 2013. E provando o dito bíblico, ou fundamento capitalista, de que a quem muito tem muito será dado, eis que Caetano Veloso tem isto a dizer sobre o que se passou naquele palco naquele momento: Carminho e o nosso passarinho

Conhecer a história da canção, incluindo o diferendo de género entre Tom Jobim e Chico Buarque e as raízes da letra que vão dar a um poema onde se celebra a independência do Brasil pela mão de um poeta brasileiro nascido de um português e de uma mestiça em 1823, só acrescenta sentido, profundidade e beleza ao que ouvimos dos nossos compatriotas e ao que lemos do nosso irmão Caetano.

Uma péssima notícia a caminho

A hipótese de que Mohamed Lahouaiej-Bouhlel, o autor da carnificina em Nice, não tenha sido treinado, sequer instruído, pelo “Estado Islâmico” não é uma boa notícia. Significa que para as autoridades poderá haver agora um perfil terrorista completamente imprevisível e potencialmente indetectável a não ser posteriormente ao ataque, durante ou na sua iminência. Lá se vai a prevenção e a contra-espionagem para o galheiro. Esse perfil corresponder a um contexto de psicose em qualquer grau e de qualquer tipologia só aumenta o elemento imprevisível, como se vê por este caso e pelo que se sabe da planificação efectuada.

Mas a hipótese, a confirmar-se, corresponderá a um ainda maior triunfo do “Estado Islâmico” enquanto organização criminosa, porque seria a evidência de estarem a fazer um excelente trabalho de promoção da sua marca. Uma marca cuja força mediatizada estabelece uma dinâmica bipolar – acabando por aparecer tão fascinante para quem a defende e segue como para quem a abomina e teme – que chega e sobra para gerar ataques devastadores contra alvos civis aleatórios sem carência de logística nem sequer de financiamento.

Para quem dirige esta onda de terror, o facto de os seus agentes espontâneos poderem ser doentes mentais que passaram a vida alheados do Islão, ou até a dizer mal do mesmo, é absolutamente indiferente. Melhor, será algo que agradecerão pois permite acrescentar à retórica do martírio a da redenção. Perfeito para quem está a instituir uma forma de domínio político tão violenta e potencialmente destrutiva como a do nazismo. E perfeito numa cultura religiosa onde não existe um centro doutrinário a unificar interpretações do Corão, antes essa autoridade está atomizada e consente todas as intenções que se queiram atribuir aos textos considerados sagrados.

Revolution through evolution

Truth is in danger as new techniques used to stop journalists covering the news
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The moral tipping point: Why it’s hard to shake a bad impression
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Study Shows Stark Differences in How Conservatives, Liberals Value Empirical Data
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Faking to Finish – Women Feign Sexual Pleasure to End ‘Bad’ Sex
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Terrorismo e criatividade, segundo Marcelo

Há duas semanas, José Manuel Coelho desfraldou uma bandeira do auto-denominado “Estado Islâmico” no Parlamento da Madeira e na presença do Presidente da República. Qual era a intenção? Qual foi a mensagem? O homem tinha alguma razão para tal? Ou não passa de um infeliz, mais um chanfrado dos cornos com palco político e mediático? Não faço ideia nem pretendo gastar meia caloria à procura dessas respostas. Fiquei foi cheio de curiosidade a respeito de qual seria a reacção do sistema partidário, da imprensa, dos publicistas e da sociedade em geral. Apenas consegui encontrar uma posição pública, a de Marcelo:

“Este parlamento [da Madeira] é porventura o mais plural, mais diversificado do ponto de vista de opiniões em Portugal. Ainda mais que o parlamento nacional, mais que o parlamento regional açoriano.

Quando votei a Constituição em 1976, votei uma Constituição para ser aberta e ecuménica, [e com] as manifestações mais criativas. Portanto, a nossa democracia tem acompanhado essa criatividade, o que quer dizer que valeu a pena votar a Constituição.”

Usar uma ocasião solene num órgão de soberania onde se expressa a vontade popular de uma dada Região, e na presença do símbolo máximo da hierarquia do Estado, para publicitar uma organização criminosa cuja prática intencional consiste em matar e ferir civis, e ainda em cometer genocídios de invocação religiosa, equivale, para o actual Presidente da República, a expressar legitimamente a criatividade inscrita na Constituição. Como esta pessoa acumula com o seu estatuto presidencial o de principal jurisconsulto do Reino, estamos perante a produção de doutrina. Significa, se a ideia for a de respeitarmos Marcelo como ser supostamente na posse da totalidade das suas capacidades cognitivas e como agente político que fez um dado juramento prévio à assunção do cargo, que o mesmo José Manuel Coelho, ou outro deputado qualquer em qualquer Parlamento português, pode passar a desfraldar onde e quantas vezes quiser essa mesma bandeira, ou outra qualquer de alucinados iguais ou parecidos, e o mais que der na mona e que caiba na categoria “manifestação criativa”.

Na verdade, Marcelo representou na perfeição a comunidade onde exerce o seu magistério. Como se constatou, a ninguém incomodou que o maluco da Madeira fizesse mais uma das suas maluquices. A expressão “Mas já chegámos à Madeira?” não nasceu ontem, nem sequer neste século. São muitos anos de bananal, pelo que agora ninguém levanta sequer o sobrolho ao ver na mesma sala o Presidente da República, defensor juramentado da Constituição, e a bandeira que representa a maior ameaça à segurança e modo de vida das sociedades livres e democráticas. Assim, chutando para canto com uma banalidade de ocasião, escusando-se a sequer simular um módico incómodo, Marcelo levou o País inteiro para uma cumplicidade moral com este tipo de criminosos e seus crimes. Uma cumplicidade feita de complacência, evasão e medo.

Marcelo, que na sua anterior encarnação como “Professor” também se notabilizou por promover a complacência face à degradação e violação do Estado de direito, veio dizer à malta que a simbólica do “Estado Islâmico” tem em Portugal um país de acolhimento ao mais alto nível. Até nos órgãos de soberania ela é não só bem-vinda como fica valorizada enquanto expressão sublime da criatividade inscrita no nosso texto fundamental. E a malta concordou, aliviada.

Dito e feito

Num telejornal da France 24, à hora de almoço de hoje, um francês em estúdio dizia que Ronaldo iria ser alvo de faltas violentas de forma a que ficasse inibido e, com sorte, lesionado. Era o único perigo para a França e, se anulado, a vitória estava no papo. A jornalista sorria de aprovação e terminou a conversa desejando que essas faltas não levassem a cartões nem a grandes penalidades. Os dois riram de satisfação e esperança.