Todos os artigos de Valupi

Quando é isto a referência

O Público, cumprindo-se como o semipasquim que é, despediu José Vítor Malheiros alegando falta de dinheiro para lhe pagar. Este cronista não era só uma memória viva do jornal enquanto instituição e desde a sua fundação, era e é também uma voz que verte salubridade e inteligência no espaço público.

Entretanto, o Público e o seu director que já se declarou fã mantêm João Miguel Tavares na lista de pagamentos. É até provável que vejam na figura uma estrela da companhia, adorando de cada vez que ela consegue arranjar alguma “polémica” com outros avençados da opinião. Nada contra, obviamente, a começar porque não contribuo para as despesas desse jornal. Mas chamo a atenção para este caso:

O Presidente da República ficou desgostoso por os portugueses terem elegido “geringonça” como palavra do ano. Ele teria optado por “descrispação”. É uma escolha surpreendente de Marcelo, desde logo porque a palavra não existe. Porto Editora, Houaiss, Aurélio, Academia – nenhum dicionário cá de casa a reconhece.

Caluniador pago pelo Público

Este profissional da calúnia vem para os jornais exibir o seu ultrapositivismo lexical, declarando confiante que as palavras que calhem não aparecer nos dicionários que calhe consultar não existem. É uma ideia muito engraçada, vai sem discussão, mas ele usa-a para defender Cavaco e atacar Marcelo e isso, que num plano já filosófico continua a ter graça, no plano do entendimento e sua fruição cognitiva fica como uma extraordinária manifestação de estupidez.

O que há de notável no João Miguel Tavares não é a forma tosca como se projecta liberal de pacotilha, de imediato e na mesma frase atacando o Estado de direito ao serviço dos seus ódios e marca se preciso for, nem o uso da calúnia para ganhar dinheiro, onde não passa de mais um na legião. O que é verdadeiramente notável está na mediocridade impante do seu pensamento. E, claro, haver quem tenha dinheiro para lhe pagar na outrora chamada imprensa de referência.

Será que vão a tempo de apanharem o Vítor Malheiros na porta e pedirem-lhe para ele dar ao ex-colega uma lição rápida sobre o que é a linguagem, a língua e a fala? Vá, rápido, que o homem ainda deve estar nas escadas.

Cineterapia

Elle_Paul Verhoeven

Amar é urgente, mas o cinema está primeiro. O que é o cinema? Pondo a questão na sua vertente política, até quando vamos suportar que se acabe a escolaridade obrigatória, que se despachem licenciados com supostas licenças, que se tratem por mestres e doutores catrefadas de sabichões de meia-tigela, e que nem uma destas almas penadas saiba distinguir a televisão do cinema, o cinema da chachada?

Verhoeven é um curso de cinema ambulante para os carentes e ainda nem sequer chegou aos trinta filmes nos seus 78 anos de juventude. Os cinco que fez entre 1987 e 1997 deixaram-no aos olhos da enorme maioria como mais um serviçal de Hollywood à procura das banalidades lucrativas: RoboCop, Total Recall, Basic Instinct, Showgirls e Starship Troopers, Peter Weller, Arnold Schwarzenegger, Sharon Stone, Michael Douglas, Kyle MacLachlan, Neil Patrick Harris, Denise Richards. Uma década de americanices, certo? Incerto. Depende do entendimento que cada um tenha do que é o cinema americano. Pista: o cinema americano foi criado por estrangeiros.

Peguemos nas extremidades do ciclo, RoboCop e Starship Troopers. Que se passa nesses filmes? Isto é, que histórias estão a ser contadas? Quem tiver 12 anos tem igualmente o direito a resumir o primeiro através da frase “Um polícia que morre e se transforma num robot que luta contra outros robots” e o segundo com a frase “Uma raça de insectos extraterrestres inteligentes quer invadir a Terra e matar-nos a todos”. Quem tiver 21 anos e continuar a usar as mesmas frases mostrará que não percebe patavina de cinema. Para casos similares acima dos 35, não só mostrarão o mesmo grau de ignorância mediática como de caminho revelam que também não pescam nada de literatura, política e semântica. Se dominassem o mínimo dos mínimos a respeito dessas áreas da inteligência humana, saberiam que o RobCop é uma gozação com o fascínio desmiolado pela tecnologia como instrumento de constrangimento social e que o Starship Troopers é uma gozação ainda mais desbragada com as ideologias militaristas e fascizantes.

Nada conheço sobre o contexto que gerou a imagem escolhida para ilustrar esta Cineterapia. Aparenta ser um momento em que o realizador está a dirigir uma actriz, no caso a personagem principal do Elle. Neste filme conta-se a história de uma violação. Mas qual? Aquela com que se inicia a fita? A outra com que se inicia a história dentro da história, a violação nascida da aleatoriedade da existência? Ou as restantes, inumeráveis, violações da confiança relacional e das camadas superficiais da personalidade com que a narrativa se transforma em história?

Michèle Leblanc, a filha de um psicopata, ex-mulher de um falhado, mãe de um fraco, filha que sente vergonha da mãe, sócia de uma amiga cujo marido é seu amante apenas para foder, vizinha de um violador casado por quem se sente atraída, patroa de homens básicos e mercenários, explora comercialmente a violência. O filme diz-nos que ela é uma vítima de violação sexual. E que procura vingar-se do seu violador. O cinema, aquilo que num filme só podia ter sido criado por artistas, conta outra história. A história de uma mulher que se comporta como se não fosse vítima de nada nem de ninguém. Nem vítima dos homens, nem das mulheres, nem de si própria.

A imagem conta essa história. Aquela actriz não é vítima daquele realizador. E o cinema afasta a realidade para deixar passar a verdade. Luz e sombra.

Revolution through evolution

Hard-wired: The brain’s circuitry for political belief
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Most Doctors Ignore One of the Most Potent Ways to Improve Health, Penn Experts Say
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New breakthrough in neuroscience: Self confidence can be directly amplified in the brain
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Scientists build bacteria-powered battery on single sheet of paper
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Giant cell blob can learn and teach, study shows
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Frequent sauna bathing may protect men against dementia, Finnish study suggests
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Mysteries of Father Christmas/Santa Claus ‘solved’ by relativity theory

Vai ser o melhor 2017 de sempre

A primeira democracia foi também a primeira cultura a homenagear os soldados mortos em batalha cujos corpos não foram recuperados. Incluíam uma urna vazia nas cerimónias fúnebres para representar a sua presença. Tucídides legou-nos um paradigmático discurso de Péricles onde a ocasião serviu para falar do essencial da morte guerreira para um ateniense, a morte sofrida e a infligida: defender a liberdade de todos os que querem ser livres.

Neste último dia de um 2016 que gerou uma obsessão colectiva com a finitude dos famosos, quero recordar todos aqueles que desapareceram deste convívio minúsculo, falso e infantilóide que ocorre nas caixas de comentários/conversas deste e doutros espaços digitais. Como tenho a memória do que se passou desde o começo, sei que não há comparação possível entre o que foi o ambiente dos anos iniciais com o que é o ambiente dos últimos anos. Inútil repetir o diagnóstico para essas alterações, de tão evidentes e simples de explicar. Falo nessas diferenças, principalmente, para recordar aqueles que já terão morrido, ou enlouquecido, ou ficaram incapacitados de pensar e comunicar, ou estão deprimidos, ou caíram na pobreza e na miséria, ou partiram para longe, ou simplesmente se fartaram e passaram a não perder o seu precioso tempo por aqui, e sobre os quais nada nos foi dito, a nós que fizemos com a sua presença infantilóide, falsa e minúscula uma alegria que encheu dias, semanas, meses e anos.

A alegria de irmos para a batalha juntos. Uns nas muralhas, outros fora da cidade. E também com os perdidos, os medrosos, os feridos. Juntos ao Sol, juntos na fogueira.

Abraços para todos os que nunca vi, com quem nem um olá foi trocado, e de quem nunca conhecerei sequer metade da última letra do apelido

A estupidez como origem do ódio

O lançamento do livro O dom profano – considerações sobre o carisma levou a jornalista Maria João Lopes para um exercício – Livro meu, livro meu, haverá alguém mais carismático do que eu?, datado de 28 de Outubro – que merece comentário. Mas antes é necessário um outro exercício sobre Sócrates que contextualize o anterior.

Podemos não saber qual será o desfecho judicial da Operação Marquês, mas sabemos que estamos confrontados com uma questão de regime. Porque não há terceiro para este dilema: ou se prova que Sócrates cometeu os crimes de corrupção de que é suspeito, e isso obrigará, dada a logística necessária a nível do Executivo e do Estado, a explicar como foram o PS e a elite política, policial e judicial nacionais apanhados nessa ignorância e/ou cumplicidade de gravidade máxima; ou se prova que a Justiça agiu contra Sócrates de forma desproporcionada e, portanto, irregular e ilegitimamente, provocando uma situação que representará um ataque político (seja de origem partidária, ideológica, corporativa ou pessoal) cujas consequências já afectaram umas eleições legislativas e que expõem um sistema judicial onde não vigora o Estado de direito.

Enquanto esperamos, é inevitável fraquejar perante a pressão mediática e sociológica para ter uma opinião preliminar sobre o caso. Nesse processo, três dimensões (pelo menos) se confundem: a judicial, a moral e a política. A primeira e a última permitem a quem o quiser a paz de alma nascida da objectividade. Judicialmente, há razões para investigar Sócrates, pelo que se tem de passar por todas as fases inerentes, com o seu ritmo e condicionalismos próprios, tantos os previsíveis como os imprevistos. Assunto arrumado no que ao formalismo da situação diz respeito. Politicamente, o que Sócrates fez enquanto governante não tem qualquer relação com as suspeitas. Nem os seus mais figadais inimigos conseguiram até agora apontar um acto de gestão dos bens públicos que dê origem a uma prova de corrupção, e tal incapacidade não resulta da falta de interesse e recursos para a encontrar. Enquanto as eventuais provas de corrupção continuarem ausentes, a dimensão do Sócrates político pode e deve ser invocada no debate partidário e ideológico por quem a valorize positivamente. Resta a dimensão moral, aquela que permeia e absorve os acontecimentos das restantes dimensões que compõem a vida cívica.

Sócrates mentiu pública e privadamente acerca da sua relação com o dinheiro vindo das contas de Santos Silva, é esta a constatação resultante de vários depoimentos do próprio e de terceiros. É fácil perceber porquê posto que manter uma imagem imune a suspeitas de ilícitos não é compatível com um comportamento desvairadamente suspeito onde há vultuosas quantidades de dinheiro a circular sem controlo Estatal nem registo dos próprios. Razões mais fundas para as suas mentiras escapam à minha capacidade e à minha curiosidade neste plano em que reflicto. Igualmente desconheço o que Sócrates pensa a respeito de si próprio face ao que entretanto foi admitindo ter feito ou deixando que representantes seus o admitissem. Apenas parece óbvio estar a escusar-se de admitir responsabilidades morais, por mínimas que sejam, para não se fragilizar no conflito com o Ministério Público e com o juiz de instrução. Se as virá a admitir mais tarde é matéria para adivinhos e profetas.

À sua volta, o odor a corrupção adensa-se mediaticamente e, por inerência, na opinião de todos. O juiz Rui Rangel, o qual foi a excepção a confirmar a regra no que às decisões judiciais no âmbito da Operação Marquês diz respeito ao ter acolhido a pretensão de Sócrates para se acabar com o segredo de Justiça no processo, está agora como suspeito de ilícitos vários no processo Rota do Atlântico. A detenção de Paulo Lalanda e Castro, no âmbito da operação O Negativo, reforça por associação directa a percepção de que Sócrates está ligado financeiramente a figuras escabrosamente criminosas, e assim foi logo explorada pelos profissionais da calúnia. Não importa que tanto Rangel como Lalanda possam vir a ser ilibados de qualquer suspeita actualmente na berlinda, o que importa é a credibilidade das suspeitas e o impacto na opinião pública das mesmas. Moral desta história moral: mesmo que saia inocentado do imbróglio, Sócrates tem (muitas, difíceis) explicações a dar caso queira restabelecer uma relação de mínima confiança com a comunidade.

Feita a incontornável declaração sobre o essencial do desafio cívico em que Sócrates se encontra, voltemos à Maria João Lopes e ao artigo. Podíamos ficar pelo título para que a sua carta tivesse sido entregue ao Garcia. Trata-se de um trocadilho a partir de um cliché onde mostra que para a ela, a jornalista, o último livro de Sócrates é uma obra que se esgota no fascínio do seu autor consigo próprio. Algo nascido do seu narcisismo autofágico. Sendo essa a ideia que se transmite pelo título, que se reforça pela escolha da foto de Sócrates (a qual passa a ser influenciada pelo título) e que se consubstancia pelo texto, surge a questão de saber se estamos perante um híbrido entre jornalismo de factos e citações com jornalismo de opinião, acabando este último por deturpar o primeiro e o primeiro por ficar ao serviço da agenda do segundo.

Esta intencional ambiguidade é assumida logo no primeiro parágrafo e culmina na apresentação de uma prova documental, videográfica, onde a jornalista aparenta sentir-se triunfante sobre o alvo do seu ataque e ainda sobre qualquer um que se lembre de vir em sua defesa ou que ouse questionar a acusação. Antes do vídeo em causa, passemos os olhos por uma breve rapsódia da sua tese:

Tentando fazer jus ao nome, Sócrates dá uma lição sobre liderança e carisma no livro O dom profano – considerações sobre carisma. Nele, o único primeiro-ministro detido até agora em Portugal deixa reflexões para quem o quiser ouvir: “Seja como for, tudo o que é apenas ensaiado e fabricado acaba por soar a falso.” – Isto é, o gajo devia era estar caladinho pois já foi dentro e não tarda volta para a pildra.

Como quase tudo o que envolve aquele que ficou conhecido como o “animal feroz”, a polémica estalou logo com a primeira obra e com o Ministério Público a suspeitar que não terá sido o próprio a escrevê-la. – Isto é, também este novo livro tem toda a pinta de ser obra de outro gajo qualquer.

Na noite que antecedeu a chegada do livro às bancas, o ex-primeiro-ministro – que tanto suscita ódios como admirações incondicionais – esteve na televisão e afirmou que António Costa ainda “é um líder em formação”. Quanto a Marcelo, foi mais longe no aviso: “O excesso mata qualquer ideia de carisma” e “enfraquece”. O Presidente “devia ter isso em atenção”, alertou o antigo líder do PS. – Isto é, o gajo anda para aí a atacar o Costa e o Marcelo, é um perfeito doido varrido.

Mas, afinal, a que conclusões chega José Sócrates no segundo livro dedicado, entre outros, à família que “tudo suportou”? E no qual também não esquece o histórico socialista Mário Soares (que sempre o apoiou), colocando-o ao lado de “líderes carismáticos e democráticos” como Lula, Roosevelt, Gandhi, Luther King, Obama e Mandela. Líderes que, defende, “nunca recorreram à procura histérica de bodes expiatórios nem à ideia de complots formados secretamente por inimigos escondidos e conjurados”. – Isto é, na sua alucinação, o gajo já se compara ao Gandhi, ao Mandela e ao caralho que o foda.

O antigo líder socialista, que deu a única maioria absoluta ao partido em eleições legislativas até agora, nunca se conformou com a detenção nem com o facto de não ter sido ainda deduzida a acusação. Num desses almoços, em Lisboa, que juntou mais de 400 pessoas, garantiu: “A minha voz está de volta ao debate público.” Avisou de forma clara: “Se o objectivo de alguém foi” que ela “fosse calada”, tal não vai acontecer. “Eu não me vou calar”, repetiu. – Isto é, o gajo nem quando for de cana alguns 20 anos se vai calar.

Será o socialista Sérgio Sousa Pinto a apresentar a obra na qual Sócrates questiona ainda: “Quantos personagens carismáticos terão existido – cheios de aura, de qualidades verdadeiramente extraordinárias – sem que ninguém se tenha dado conta (…)?”. E cita Fernando Pessoa: “‘Génio? Neste momento/Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,/ E a história não marcará, quem sabe?, nem um’”. – Isto é, o gajo enlouqueceu e já só nos resta gozar o prato antes de chegar a ramona.

O naco principal da argumentação está disposto em 5 parágrafos e um vídeo a meio da peça. O vídeo – José Sócrates apanhado desprevenido – Gaffe !!! 06/04/11 TVI – suporta os considerandos expostos. Neles Sócrates é apresentado com um hipócrita megalómano. Um hipócrita megalómano apanhado pelo bom e honesto povo graças ao serviço prestado pela TVI que expôs o monstro durante 20 segundos a perguntar a uma pessoa da sua equipa como se devia colocar frente a uma câmara de televisão antes de fazer um discurso como primeiro-ministro. É só isto, e isto chega para a rutilante exibição de estupidez da Maria João Lopes.

Acredito, sem a menor dúvida, que esta pessoa escrevinhadora num jornal supostamente de referência não compreende, não entende e não percebe onde se está a meter. O que objectiva e factualmente vemos nos tais 20 segundos é um político a preparar-se para usar a televisão ao serviço das ideias que vai transmitir. Não difere, em nada, da preparação de outros elementos a que igualmente recorreu para a realização dessa acção, o falar na televisão e num dado contexto político e social. Por exemplo, não difere da escolha da gravata, da camisa, do fato, da primeira decisão relativa a aparecer vestido e não em pelota. Faz parte dos mesmos cuidados relativos ao cabelo (estar despenteado ou penteado), à roupa (ter nódoas ou não as ter), à voz (estar audível e fluente em vez de inaudível e trôpega). E podemos continuar a elencar todas as circunstâncias do foro privado e/ou performativo que são inerentes a um acto público. Por exemplo, a TVI podia ter arranjado maneira de mostrar Sócrates a mijar, e ainda melhor para as audiências seria a cagar, antes da tal alocução. E depois a malta porreira, onde se inclui a nossa Maria, trataria de retirar as devidas ilações políticas e morais de termos um primeiro-ministro que se lembra de ir cagar a poucos minutos de falar ao País. Uma decisão de merda, obviamente, era o mínimo a dizer. Mas a TVI, não podendo chegar a esses extremos por todas as razões e mais algumas, fez outra coisa – algo nunca antes feito em Portugal, nem depois: toparam que podiam atacar um primeiro-ministro simulando um erro banal na emissão que o expusesse numa situação onde ficaria sujeito a ataques de carácter. O resultado foi um conteúdo imediatamente popular que servia de arma de arremesso político sem defesa possível. Para tal, uma vasta equipa teve de ser cúmplice. Quando o jornalista passa a emissão para S. Bento, alguém lhe disse para o fazer. E quem lhe disse tal sabia perfeitamente o que estava em causa obter. Tratou-se de uma armadilha mediática num clima de vale tudo para derrubar Sócrates.

A jornalista, cinco anos e tal depois, usa uma peça de baixa e sórdida política – cuja substância é uma irrelevância privada onde a intenção é meramente técnica na dimensão da sua imagem como figura pública com responsabilidades de líder governativo – para comentar excertos de um livro onde Sócrates se insurge contra aqueles políticos que criam mensagens de acordo com as preferências das audiências televisivas. Qual o nexo? Só o seu ódio ou soberba alvar o consegue encontrar. É por estas e por outras que o Público não passa hoje de um semipasquim.

Lalanda na Le Lé Land

No dia 15 de Dezembro, Lalanda de Castro foi detido na Alemanha na sequência de ter sido emitido um Mandado de Detenção Europeu pelas autoridades portuguesas. Uma semana depois da detenção, as autoridades judiciais alemãs libertaram-no por considerarem sem fundamento legítimo esse mesmo mandado. No dia 23 de Dezembro, Lalanda aterrou em Lisboa e fez saber que estaria disposto a prestar declarações logo no dia seguinte, ou qualquer outro, assim a Procuradoria-Geral da República o decidisse. Desde esse momento, Lalanda desapareceu do mapa mediático e ao dia de hoje, a esta hora, não se encontra qualquer notícia que permita saber quando irá ser interrogado. A urgência para ouvi-lo é muito menor do que a urgência de o deter e meter no calabouço. Quem puder, e quiser, que tire as suas conclusões sobre o que o episódio revela a respeito dos abusos da Justiça portuguesa.

Este Lalanda, mesmo que saia inocentado (ele há milagres), jamais deixará de ser culpado. Já está ferrado. E, desconheço-o em absoluto, pode realmente ter cometido pelo menos uma ilegalidade, ou uma infinidade delas, dado tratar-se de um ser humano (na sua aparência física). Contudo, quando não se sabe se alguém cometeu algum crime, o mais seguro é partir do princípio de que está inocente até prova em contrário. Nos últimos anos, esta segurança que demorou muitos milhares de anos a conquistar foi substituída pela cultura da calúnia alimentada pela indústria da calúnia. Quem prefere as calúnias à decência e à honra não espera pelas provas, avança a correr para a condenação. No caso, quem melhor fez transitar essa sentença em julgado foi o Henrique Monteiro, no documento judicial intitulado Sangue – o crime brutal. É uma exposição onde o autor começa por assumir-se ignorante acerca da matéria em causa para melhor defender uma perspectiva de Testemunha de Jeová sobre o processo: o sangue é sagrado e não se admitem transfusões de penas relativas. Monteiro aproveita o entusiasmo proselitista para nos voltar a falar de Sócrates, essoutra figura diabólica que igualmente lhe faz ferver o sangue. E consegue ligar os dois casos com aquele tipo de cuspo a que no léxico técnico da rua se chama escarreta. Termina o libelo alegando que não grafa os nomes dos principais suspeitos da Operação O Negativo porque podem estar inocentes ou podem vir a ser considerados culpados. Este é um raciocínio brilhante que se espera venha a fazer escola no jornalismo português. Um rasgo que estou certo nunca ninguém antes, em qualquer parte do mundo, concebeu vígil ou a sonhar. Por fim, na última frase, revela ao que vem: há que decapitar, de lâmina, esses criminosos do sangue (e também Sócrates, para aproveitar a despesa com a montagem do instrumento).

À volta deste espectáculo, o Presidente da República, o primeiro-ministro e o Parlamento permanecem esfíngicos. Isto é, fabulosamente irresponsáveis.

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TV Galicia – Natal todo o ano

O Natal é hoje, e de há muito, uma festa secular onde apenas uma minoria celebra algo vagamente religioso, e onde somente uma ínfima minoria dentro dessa minoria consegue dar sentido espiritual à celebração. Para a enorme maioria, trata-se de um evento que justifica coercivamente estar a reunir a família de uma forma solene. A família enquanto família, não por causa de um indivíduo em particular dentro dessa família, como acontece nos aniversários e funerais. Dada a complexidade e dificuldade de sequer entender no seu valor e sentido o que seja a entidade a que chamamos “a nossa família”, os presentes, a comezaina e o álcool permitem disfarçar satisfatoriamente a desorientação e angústia generalizadas.

Este o contexto para recomendar aos sortudos possuidores deste canal no seu serviço de cabo a frequência regular da TV Galicia. Para além do encanto que é ouvir a língua galega, e independentemente da sua qualidade como produto televisivo, a TVG permite mergulhar na cultura do povo mais irmão entre os povos irmãos dos portugueses. E o que vemos é uma ilustração sociológica do modo de vida ligado com a terra e com o mar, o qual atinge a sua exaltação prática e simbólica nas constantes reuniões para comer, falar, cantar e dançar. A probabilidade de apanharmos alguém a comprar comida, a cozinhar ou a meter algum petisco na boca ao passarmos pela TVG é muito mais alta do que a probabilidade de encontrarmos alguém a cuspir inanidades sobre futebol nos canais de cabo portugueses, por mais inacreditável que tal possa parecer. E esta diferença, meus amigos, chega e sobra para um Feliz Natal ou para um Natal feliz.

Cerejo, desta vez foste longe demais

Mas se homens como Almeida Santos, Mário Soares, Vera Jardim, José Sócrates, Passos Coelho ou Miguel Relvas nunca se coibiram de plantar cunhas e distribuir favores por amigos e correligionários, muitas vezes beneficiando-se a si próprios, por que raio de razão é que os intelectuais do burgo haviam de ser mais exigentes com os seus amigos?


JOSÉ ANTÓNIO CEREJO

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Homens como Almeida Santos, Mário Soares, Vera Jardim e José Sócrates plantarem cunhas e distribuírem favores por amigos e correligionários, muitas vezes beneficiando-se a si próprios, não pode surpreender ninguém. Estamos a falar do PS, essa máquina de produção de corruptos que anda há décadas a desviar a riqueza nacional para os bolsos maçónicos de uns quantos. Mas meter neste covil de ladrões os impolutos nomes de Passos Coelho e Miguel Relvas? Mas isso cabe na cabeça de alguém? Onde é que já chegámos ou o que é que este jornalista pretende? Acaso o senhor jornalista não reparou que Passos Coelho é o actual presidente do PSD, tendo lá chegado por ser um exemplo de probidade ética e deontológica, condição que acumula com ser também o próximo primeiro-ministro que nos vai salvar da próxima bancarrota de origem socialista através de uma genial teoria, da sua lavra e com excelentes provas dadas até à altura em que os comunas invadiram S. Bento, que consiste na expulsão dos madraços e estroinas para fora das suas zonas de conforto ao mesmo tempo que se espalha por todo o País a pobreza generalizada a mata-cavalos? Mas está tudo doido?

À série

47boy

2011-12-13-14-15_David Benioff e D. B. Weiss_1ª-2ª-3ª-4ª-5ª épocas

Game of Thrones tornou-se, em Setembro, na série de ficção mais premiada de sempre nos Emmy Awards, o equivalente para produtos televisivos aos Oscars em prestígio e notoriedade. Qual o segredo do seu sucesso? Parte da resposta pode ser dada assim: esta série será o híbrido perfeito entre o estilo fantasista do The Lord of the Rings e a crueldade política do House of Cards. Mas enquanto o produto audiovisual da obra de Tolkien é de um simplismo infantilizante, apostando no aparato visual e cénico para envolver o espectador numa diversão superficial e desmiolada, o produto audiovisual da obra de George R. R. Martin aparece como uma iniciação à vida adulta, um curso de psicologia propedêutico ao confronto com a sociedade. Embora também meta dragões para animar a malta, e avarias pré-tecnológicas à conta da magia, embora tenha como cenário essa juliana de referências paisagísticas e étnicas que remetem para a Baixa Idade Média anglo-saxónica e os reinos das idades do Bronze e Clássica no Mediterrâneo e Oriente, o Game of Thrones está dedicado à análise dos humanos demasiado humanos que recrutou como protagonistas. E esses humanos são iguaizinhos aos que encontramos à volta de Francis Underwood, permanentemente em conspiração para obter o máximo poder pessoal e político ou a sofrer as consequências desse frenesim sem fim nem limites.

A série inova em realismo, ao conciliar uma embalagem púbere e adolescente, igualmente consumida por adultos até aos 50 ou 60, com um conteúdo arquitectonicamente organizado para servir tanto os públicos a partir dos 12 anos, que estejam a formar a sua identidade de género e a sofrerem o choque da progressiva consciência da sua sexualidade e seus efeitos na sexualidade das suas relações familiares e sociais, como os públicos maturos por experiência vivencial ou ciclo de vida. Resultado: Game of Thrones é como a revista Tintim, indicada para bacanos dos 7 aos 77 anos de juventude. E tem especial interesse contemplar como o erotismo, contrariando a convenção mediática, é trabalhado ao pormenor para atingir o realismo existencial e político que coloca a série como obra-prima televisiva.

Entre os vários exemplos à escolha, realço três de que vou destacar um. O primeiro corresponde à cena em que Jaime Lannister força Cersei Lannister a abrir as pernas (é disso que primeiro se trata, não sendo isso que depois importa) junto do corpo morto do filho de ambos. Num primeiro olhar, estamos perante a tentativa manhosa de ilustrar uma imagem chocante para efeitos de espectacularidade junto das audiências. Adentro da lógica do universo narrativo em causa, o que fica figurado esteticamente, raiando a tangibilidade, é a pulsão narcísica e megalómana que os consome. O aparato exterior da cena foi a engenharia necessária para nos levar para o realismo da ficção. O segundo corresponde à cena da caminhada de Cersei por entre uma multidão que a vai cobrindo de insultos, porcarias e excrementos. Na sua mecânica dramática, estamos perante um corpo que começa por ser um mero objecto de desejo voyeurístico e/ou de identificação de género, mas esse mesmo corpo vai-se transformando na expressão simbólica de uma humilhação moral. No final da longuíssima cena, e longa ela tinha de ser para lá podermos chegar, os pés macerados e sanguinolentos da personagem no contacto com o solo sugaram toda a energia erótica inicial. Substituíram uma atenção superficial ao estímulo anatómico por uma consciência da profundidade real da ficção consumida.

O terceiro momento está incluso numa cena passada no bordel de Petyr ‘Littlefinger’ Baelish. Querendo servir um cliente, entrega-lhe uma puta que tinha acabado de fazer um broche a um outro cliente. Ela surge em cena com sémen no canto da boca, algo que ‘Littlefinger’ rapidamente limpa sem que o cliente à espera veja – e algo que, pelo modo como está filmado, também pode passar despercebido a muito boa gente. Quando a mulher é entregue ao homem pagante, eles beijam-se. Cena gratuita? Antes de mais, desafio qualquer um a referir uma outra cena, seja de que série for, onde se tenha filmado algo identificável como esperma. Depois, se tal existir, comparemos os contextos respectivos. Na minha miserável experiência de telespectador, foi a primeira vez que vi tal coisa. Ainda por cima, a cena presta-se facilmente à crítica de estar apenas à procura de material sensacionalista. Porém, todavia, no entanto, não será assim tão bizarro que ao se fazer um broche que termine numa ejaculação possa haver esporra (sim, é um tabuísmo) na boca e queixo de quem o fez. A acreditarmos nesse pressuposto, o que finalmente alguém conseguiu fazer em televisão, e num formato transversal às gerações, foi representar o mais fielmente possível o quotidiano de um prostíbulo. Para quê? Para nos chocarmos com a evidência de existirem seres humanos com actividade sexual e seus efeitos fisiológicos? Não, pá, apenas para melhor acreditarmos no Petyr Baelish quando ele estiver a conspirar para manter e aumentar o seu poder.

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A lição pode ser resumida nesta sentença: se ainda estás no infantilismo de te deixares ofuscar pelo sexo, então é porque te andam a foder politicamente e nem sequer sabes como nem por quem.