Não existir imprensa em Portugal é suspeita que acompanha a minha maturidade intelectual e cívica. Existem jornais e jornalistas, existe comunicação social profissional, existem até excelentes profissionais do jornalismo que nele fizeram e fazem uma carreira de vida ao serviço de um ideal admirável. Mas a existência de uma imprensa que assuma o estatuto de “quarto poder”, e seja qual for a sua configuração conceptual, isso não encontro.
A memória do Cavaquistão, mas já antes as histórias de abusos de poder que corriam a propósito do IX Governo Constitucional de Soares, expunham uma imprensa incapaz de servir como contra-poder sem agenda ideológica, partidária ou comercial. O projecto Independente e o subsequente destino político de Paulo Portas fica como lapidar ironia e monumento à tese. Com os Governos de Sócrates, e o paroxismo da violência com que foram (e ainda são!) combatidos pela oligarquia, tal percepção cristalizou-se numa certeza todos os dias comprovada. O branqueamento das mentiras e promessas impossíveis de realizar de Passos no chumbo do PEC IV e na campanha de 2011 ficam igualmente como uma vertiginosa tomada de consciência da miséria da imprensa portuguesa. Pura e simplesmente, os jornalistas portugueses enquanto classe são cúmplices, por actos e omissões, da decadência política que se alimenta de uma cultura da calúnia moldada pela indústria da mesma.
Exemplo paradigmático, o que recentemente envolveu Campos e Cunha, Vara, Sócrates, Teixeira dos Santos e Vítor Martins. Cunha foi repetir numa comissão de inquérito parlamentar, onde mentir é crime, o que anda a dizer pelas vielas desde 2008, pelo menos. Que Sócrates queria que ele metesse Santos Ferreira e Vara a mandar na CGD. Provas? Népias, é só a palavra dele e um facto: Santos Ferreira e Vara foram mesmo para a administração da CGD no 1ª Governo de Sócrates.
Esta questão não se limita a ser uma bulha cortesã entre egos hipertrofiados. Para a direita partidária e mediática, a gestão política da CGD por Sócrates e Teixeira dos Santos é uma das fontes preferidas para fazerem contínua baixa política e explorarem teorias da conspiração e calúnias. Na sua versão mais divulgada, Sócrates teria um plano para substituir a oligarquia, aquela que manda no país desde 1928, por si próprio e um grupo de facínoras. Começavam precisamente pela CGD, onde iriam buscar o dinheiro para se abarbatarem com o BCP e a TVI, metendo também a PT no bolso. A teoria não chega a precisar o que faria Sócrates com o BES e o BPI, mas é provável que o Ricardo aceitasse ser compincha na roubalheira. Depois, com isso tudo na mão, os diabólicos socráticos conseguiriam ficar no poder por mil anos graças à adquirida capacidade para silenciar a Moura Guedes e o Crespo. Este o sumário executivo do discurso que tem sido espalhado por tudo o que é comunicação social vai para 10 anos, ou até já os passou. Grande cachola a destes bacanos, portanto, ao terem montado uma super operação para espiarem um primeiro-ministro em funções e depois não o terem apanhado a dar ordens a Vara para fazer isto e aquilo na CGD, apenas registaram conversa de merda, e de merdas, entre dois amigos.
Campos e Cunha, ao tocar esta cassete, está a falar de algo da maior importância. Ele sugere, dado contexto e o subtexto e o pretexto, que Sócrates e Teixeira dos Santos, mais Santos Ferreira e Vara, cometeram ou deixaram que se cometessem crimes gigantescos. Os dirigentes e deputados do PSD e CDS, desde os tempos de Ferreira Leite e Portas, idem idem, aspas aspas. A sugestão-afirmação de que o PS foi usado por bandidos a partir de 2005 para se concretizar um plano de completa subversão das funções do Estado é um tópico recorrente não só em período eleitoral mas inclusive fora dele. Pode-se mesmo reconhecer que terão sido poucos os dias nestes 10 anos sem que tenha aparecido alguém ligado à direita portuguesa (e até Junho de 2011, também ligado à esquerda) a declarar que havia crimes colossais ocorridos à vista de todos e que, pelos vistos, ninguém queria investigar. A detenção e prisão de Sócrates veio dar algum sossego a este mar de gente. Realmente, é isso exactamente que se tem investigado, todas as alíneas da teoria da conspiração que a direita criou e divulga; ou seja, pela primeira vez em Portugal há ex-governantes que estão a ser investigados judicialmente por terem tomado certas decisões estritamente políticas – como ter uma certa política económica e financeira, uma certa concepção do papel do Estado e dos seus veículos, uma certa intenção na escolha de certas figuras para certos cargos. Gargalhada lateral, se Campos e Cunha chegou a ministro foi porque um dos bandidos o escolheu, o mesmo que meteu no Banco de Portugal Carlos Costa, entre outras curiosidades.
Ora, a nossa magnífica direita poderá ter toda a razão, sei lá eu. Temos é de esperar mais um bocadinho, ou quiçá mais um bocadão, para a poeira assentar e descobrirmos o que afinal foi descoberto. Até lá, um pulha continuará a ser um pulha. No caso do Campos e Cunha, aconteceu-lhe ver-se desmentido de imediato por Sócrates, Vara, Teixeira dos Santos e Vítor Martins, pelo menos. E essa é uma situação onde a haver imprensa em Portugal poderíamos estar agora a usufruir dos seus serviços. Porque uma imprensa que se respeitasse a si própria defenderia as instituições da República e o Estado de direito, reservando ainda uns minutos para respeitar a inteligência colectiva e o mero bom senso. Numa CGD cheia de quadros superiores ligados umbilicalmente aos principais partidos, seria possível um qualquer Governo influenciar o banco para servir planos criminosos de ataque aos pilares da oligarquia? Poder talvez pudesse porque tudo é imaginável, mas sem rasto seria impossível. E com rasto, tal seria fatalmente suicidário. Explicar isto a crianças a partir dos 12 anos é fácil, não o fazer com os adultos expõe método.
Quando a comunicação social não só não denuncia a desonestidade de uma direita decadente como é, na sua maior e principal parte, cúmplice activa da sua estratégia de degradação do debate político para o substituir por um moralismo maniqueísta e persecutório, então, no mínimo, podemos dizer que o que passa por imprensa em Portugal alimenta o esvaziamento de inteligência que afasta tantos da política e, consequentemente, da tomada de consciência e defesa dos seus direitos. É que não somos nós, arraia-miúda, que estamos a forçar PSD, CDS e suas máquinas opinativas a lançarem o caudal de suspeições contra Sócrates, PS e genericamente quem esteve no Governo, ou pelo Governo foi nomeado, entre 2005 e 2011, o qual é uma constante dos discursos e destaques mediáticos. É porque se retiram vantagens, à direita e à esquerda, dessa estratégia.
Num país onde não existe imprensa, o número de borregos aproxima-se muito do número de habitantes.
