A estupidez como origem do ódio

O lançamento do livro O dom profano – considerações sobre o carisma levou a jornalista Maria João Lopes para um exercício – Livro meu, livro meu, haverá alguém mais carismático do que eu?, datado de 28 de Outubro – que merece comentário. Mas antes é necessário um outro exercício sobre Sócrates que contextualize o anterior.

Podemos não saber qual será o desfecho judicial da Operação Marquês, mas sabemos que estamos confrontados com uma questão de regime. Porque não há terceiro para este dilema: ou se prova que Sócrates cometeu os crimes de corrupção de que é suspeito, e isso obrigará, dada a logística necessária a nível do Executivo e do Estado, a explicar como foram o PS e a elite política, policial e judicial nacionais apanhados nessa ignorância e/ou cumplicidade de gravidade máxima; ou se prova que a Justiça agiu contra Sócrates de forma desproporcionada e, portanto, irregular e ilegitimamente, provocando uma situação que representará um ataque político (seja de origem partidária, ideológica, corporativa ou pessoal) cujas consequências já afectaram umas eleições legislativas e que expõem um sistema judicial onde não vigora o Estado de direito.

Enquanto esperamos, é inevitável fraquejar perante a pressão mediática e sociológica para ter uma opinião preliminar sobre o caso. Nesse processo, três dimensões (pelo menos) se confundem: a judicial, a moral e a política. A primeira e a última permitem a quem o quiser a paz de alma nascida da objectividade. Judicialmente, há razões para investigar Sócrates, pelo que se tem de passar por todas as fases inerentes, com o seu ritmo e condicionalismos próprios, tantos os previsíveis como os imprevistos. Assunto arrumado no que ao formalismo da situação diz respeito. Politicamente, o que Sócrates fez enquanto governante não tem qualquer relação com as suspeitas. Nem os seus mais figadais inimigos conseguiram até agora apontar um acto de gestão dos bens públicos que dê origem a uma prova de corrupção, e tal incapacidade não resulta da falta de interesse e recursos para a encontrar. Enquanto as eventuais provas de corrupção continuarem ausentes, a dimensão do Sócrates político pode e deve ser invocada no debate partidário e ideológico por quem a valorize positivamente. Resta a dimensão moral, aquela que permeia e absorve os acontecimentos das restantes dimensões que compõem a vida cívica.

Sócrates mentiu pública e privadamente acerca da sua relação com o dinheiro vindo das contas de Santos Silva, é esta a constatação resultante de vários depoimentos do próprio e de terceiros. É fácil perceber porquê posto que manter uma imagem imune a suspeitas de ilícitos não é compatível com um comportamento desvairadamente suspeito onde há vultuosas quantidades de dinheiro a circular sem controlo Estatal nem registo dos próprios. Razões mais fundas para as suas mentiras escapam à minha capacidade e à minha curiosidade neste plano em que reflicto. Igualmente desconheço o que Sócrates pensa a respeito de si próprio face ao que entretanto foi admitindo ter feito ou deixando que representantes seus o admitissem. Apenas parece óbvio estar a escusar-se de admitir responsabilidades morais, por mínimas que sejam, para não se fragilizar no conflito com o Ministério Público e com o juiz de instrução. Se as virá a admitir mais tarde é matéria para adivinhos e profetas.

À sua volta, o odor a corrupção adensa-se mediaticamente e, por inerência, na opinião de todos. O juiz Rui Rangel, o qual foi a excepção a confirmar a regra no que às decisões judiciais no âmbito da Operação Marquês diz respeito ao ter acolhido a pretensão de Sócrates para se acabar com o segredo de Justiça no processo, está agora como suspeito de ilícitos vários no processo Rota do Atlântico. A detenção de Paulo Lalanda e Castro, no âmbito da operação O Negativo, reforça por associação directa a percepção de que Sócrates está ligado financeiramente a figuras escabrosamente criminosas, e assim foi logo explorada pelos profissionais da calúnia. Não importa que tanto Rangel como Lalanda possam vir a ser ilibados de qualquer suspeita actualmente na berlinda, o que importa é a credibilidade das suspeitas e o impacto na opinião pública das mesmas. Moral desta história moral: mesmo que saia inocentado do imbróglio, Sócrates tem (muitas, difíceis) explicações a dar caso queira restabelecer uma relação de mínima confiança com a comunidade.

Feita a incontornável declaração sobre o essencial do desafio cívico em que Sócrates se encontra, voltemos à Maria João Lopes e ao artigo. Podíamos ficar pelo título para que a sua carta tivesse sido entregue ao Garcia. Trata-se de um trocadilho a partir de um cliché onde mostra que para a ela, a jornalista, o último livro de Sócrates é uma obra que se esgota no fascínio do seu autor consigo próprio. Algo nascido do seu narcisismo autofágico. Sendo essa a ideia que se transmite pelo título, que se reforça pela escolha da foto de Sócrates (a qual passa a ser influenciada pelo título) e que se consubstancia pelo texto, surge a questão de saber se estamos perante um híbrido entre jornalismo de factos e citações com jornalismo de opinião, acabando este último por deturpar o primeiro e o primeiro por ficar ao serviço da agenda do segundo.

Esta intencional ambiguidade é assumida logo no primeiro parágrafo e culmina na apresentação de uma prova documental, videográfica, onde a jornalista aparenta sentir-se triunfante sobre o alvo do seu ataque e ainda sobre qualquer um que se lembre de vir em sua defesa ou que ouse questionar a acusação. Antes do vídeo em causa, passemos os olhos por uma breve rapsódia da sua tese:

Tentando fazer jus ao nome, Sócrates dá uma lição sobre liderança e carisma no livro O dom profano – considerações sobre carisma. Nele, o único primeiro-ministro detido até agora em Portugal deixa reflexões para quem o quiser ouvir: “Seja como for, tudo o que é apenas ensaiado e fabricado acaba por soar a falso.” – Isto é, o gajo devia era estar caladinho pois já foi dentro e não tarda volta para a pildra.

Como quase tudo o que envolve aquele que ficou conhecido como o “animal feroz”, a polémica estalou logo com a primeira obra e com o Ministério Público a suspeitar que não terá sido o próprio a escrevê-la. – Isto é, também este novo livro tem toda a pinta de ser obra de outro gajo qualquer.

Na noite que antecedeu a chegada do livro às bancas, o ex-primeiro-ministro – que tanto suscita ódios como admirações incondicionais – esteve na televisão e afirmou que António Costa ainda “é um líder em formação”. Quanto a Marcelo, foi mais longe no aviso: “O excesso mata qualquer ideia de carisma” e “enfraquece”. O Presidente “devia ter isso em atenção”, alertou o antigo líder do PS. – Isto é, o gajo anda para aí a atacar o Costa e o Marcelo, é um perfeito doido varrido.

Mas, afinal, a que conclusões chega José Sócrates no segundo livro dedicado, entre outros, à família que “tudo suportou”? E no qual também não esquece o histórico socialista Mário Soares (que sempre o apoiou), colocando-o ao lado de “líderes carismáticos e democráticos” como Lula, Roosevelt, Gandhi, Luther King, Obama e Mandela. Líderes que, defende, “nunca recorreram à procura histérica de bodes expiatórios nem à ideia de complots formados secretamente por inimigos escondidos e conjurados”. – Isto é, na sua alucinação, o gajo já se compara ao Gandhi, ao Mandela e ao caralho que o foda.

O antigo líder socialista, que deu a única maioria absoluta ao partido em eleições legislativas até agora, nunca se conformou com a detenção nem com o facto de não ter sido ainda deduzida a acusação. Num desses almoços, em Lisboa, que juntou mais de 400 pessoas, garantiu: “A minha voz está de volta ao debate público.” Avisou de forma clara: “Se o objectivo de alguém foi” que ela “fosse calada”, tal não vai acontecer. “Eu não me vou calar”, repetiu. – Isto é, o gajo nem quando for de cana alguns 20 anos se vai calar.

Será o socialista Sérgio Sousa Pinto a apresentar a obra na qual Sócrates questiona ainda: “Quantos personagens carismáticos terão existido – cheios de aura, de qualidades verdadeiramente extraordinárias – sem que ninguém se tenha dado conta (…)?”. E cita Fernando Pessoa: “‘Génio? Neste momento/Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,/ E a história não marcará, quem sabe?, nem um’”. – Isto é, o gajo enlouqueceu e já só nos resta gozar o prato antes de chegar a ramona.

O naco principal da argumentação está disposto em 5 parágrafos e um vídeo a meio da peça. O vídeo – José Sócrates apanhado desprevenido – Gaffe !!! 06/04/11 TVI – suporta os considerandos expostos. Neles Sócrates é apresentado com um hipócrita megalómano. Um hipócrita megalómano apanhado pelo bom e honesto povo graças ao serviço prestado pela TVI que expôs o monstro durante 20 segundos a perguntar a uma pessoa da sua equipa como se devia colocar frente a uma câmara de televisão antes de fazer um discurso como primeiro-ministro. É só isto, e isto chega para a rutilante exibição de estupidez da Maria João Lopes.

Acredito, sem a menor dúvida, que esta pessoa escrevinhadora num jornal supostamente de referência não compreende, não entende e não percebe onde se está a meter. O que objectiva e factualmente vemos nos tais 20 segundos é um político a preparar-se para usar a televisão ao serviço das ideias que vai transmitir. Não difere, em nada, da preparação de outros elementos a que igualmente recorreu para a realização dessa acção, o falar na televisão e num dado contexto político e social. Por exemplo, não difere da escolha da gravata, da camisa, do fato, da primeira decisão relativa a aparecer vestido e não em pelota. Faz parte dos mesmos cuidados relativos ao cabelo (estar despenteado ou penteado), à roupa (ter nódoas ou não as ter), à voz (estar audível e fluente em vez de inaudível e trôpega). E podemos continuar a elencar todas as circunstâncias do foro privado e/ou performativo que são inerentes a um acto público. Por exemplo, a TVI podia ter arranjado maneira de mostrar Sócrates a mijar, e ainda melhor para as audiências seria a cagar, antes da tal alocução. E depois a malta porreira, onde se inclui a nossa Maria, trataria de retirar as devidas ilações políticas e morais de termos um primeiro-ministro que se lembra de ir cagar a poucos minutos de falar ao País. Uma decisão de merda, obviamente, era o mínimo a dizer. Mas a TVI, não podendo chegar a esses extremos por todas as razões e mais algumas, fez outra coisa – algo nunca antes feito em Portugal, nem depois: toparam que podiam atacar um primeiro-ministro simulando um erro banal na emissão que o expusesse numa situação onde ficaria sujeito a ataques de carácter. O resultado foi um conteúdo imediatamente popular que servia de arma de arremesso político sem defesa possível. Para tal, uma vasta equipa teve de ser cúmplice. Quando o jornalista passa a emissão para S. Bento, alguém lhe disse para o fazer. E quem lhe disse tal sabia perfeitamente o que estava em causa obter. Tratou-se de uma armadilha mediática num clima de vale tudo para derrubar Sócrates.

A jornalista, cinco anos e tal depois, usa uma peça de baixa e sórdida política – cuja substância é uma irrelevância privada onde a intenção é meramente técnica na dimensão da sua imagem como figura pública com responsabilidades de líder governativo – para comentar excertos de um livro onde Sócrates se insurge contra aqueles políticos que criam mensagens de acordo com as preferências das audiências televisivas. Qual o nexo? Só o seu ódio ou soberba alvar o consegue encontrar. É por estas e por outras que o Público não passa hoje de um semipasquim.

15 thoughts on “A estupidez como origem do ódio”

  1. Para já uma correcção VALUPI:
    – Há um juiz chamado José Reis (se não me falha a memória) que foi quem primeiro deu razão a José Sócrates (e se tivesse vencido a sua ideia teria acabado com o processo ao fim de 6M de prisão preventiva), e esse juiz é uma pessoa respeitável e não é suspeito de NADA !

  2. “À sua volta, o odor a corrupção adensa-se mediaticamente e, por inerência, na opinião de todos… blá…blá…blá… Moral desta história moral: mesmo que saia inocentado do imbróglio, Sócrates tem (muitas, difíceis) explicações a dar caso queira restabelecer uma relação de mínima confiança com a comunidade.”

    descobriste a pólvora depois de teres ajudado a fabricar uns barris dela. é obvio que o crime não tem factos, provas e muito menos sabem qual é, foi uma prisão política para acabar com um adversário que nos teria livrado do marcelo, e para manter esta trapalhada em cena há que alimentar os leitores com umas colheradas de merda diária sobre o assumpto e enquanto houver gajos amigos do sócras ou seus apoiantes, eles serão perseguidos para justificar a perseguição montada. a dimensão do embróglio é tal que o sócras tem de ser condenado a qualquer coisa e em nome da pátria, do estrado de direito e de mais umas porras bacocas que o sistema defende tudo valerá para o condenar e as tuas ambiguidades sobre a culpa do sócras são reflexo do ambiente de pressão e chantagem instalado pelo pessoal que encenou este número.

  3. este poste é publicidade disfarçada à maria joão lopes e ao público, desconhecia a existência da gaja e o jornal da opa da sonae à pt costumo espreitar por prescrição idónea.

  4. Apesar de ter mudado de direcção de informação, a TVI continua a sua campanha
    contra o PS! Repetiram algo parecido, com o que foi feito a José Sócrates, com o
    actual MNE o socialista Augusto Santos Silva a propósito da comparação das ne-
    gociações na Concertação Social com as disputas nas feiras de gado!
    Assunto devidamente esvaziado por Ferreira Fernandes no DN de ontem com um
    remake hoje! Todavia, não deixa de ser curioso o baixo nível da direcção de infor-
    mação da TVI, sendo conhecida a forma escolhida para resolução do contrato de co-
    mentador em tempos havido com o agora Ministro … é a laia que temos!!!

  5. ignatz,
    também me parece que o post é ou, acaba por ser, na prática, publicidade a essa jornalista que nunca li nem em quem nunca reparei sequer mas, que pela amostra, deve ser mais uma prostituída promovida pelo dinis para satisfazer os merceeiros, pai e filho.

    Durante muitos anos a Telefónica espanhola fez várias tentativas e investidas de controle da PT que as várias administrações orientadas pelos governos da República nunca consentiram que fossem avante por questões da importância política do controle dessa empresa.
    A opa montada pela Sonae com o banco espanhol continha um acordo com a Telefónica que previa e permitia à Sonae ficar com o que lhe interessava para os seus negócios da Optimus e entregar à Telefónica o resto e o controle da PT, o grande desejo de anos dos espanhóis da Telefónica, nunca conseguidos, mas agora oferecidos de bandeja.
    O merceeiro nunca perdoou ao Sócrates o facto de este não o deixar manobrar à solta para ganhar muitos milhões com a vendilhona entrega da PT aos espanhóis.
    Desde que Sócrates começou a ser perseguido por gente do Ministério Público, e também e muito por causa dessa recusa em colaborar vasconcelamente com o merceeiro, que o jornal ‘público’ do prostituto jmf e agora de outro grande prostituto fd ou df, ou outra merda que quer que se chame, vem continuamente lançando a ideia de que foi Sócrates que destruiu a PT quando não deixou concretizar o “patriótico” vasconceliano negócio da opa.
    Sempre que acham conveniente lançam mão de um dos seus prostitutos bem pagos para se prostituírem à vontade do dono lançando insinuações e calúnias sobre Sócrates para que este carregue também em cima mais a culpa da destruição da PT escondendo a vergonhosa actitude de traição à vasconcelos que haviam concebido para entregar aos espanhóis a empresa estratégica que sempre fora protegida dessa velha intenção espanhola de domínio das telecomunicações na península.
    Parece que, desta vez, lançaram mão duma novata que, ansiosa para ser notada e progredir na carreira, dá tudo e esforça-se toda em todas as frentes no ataque a quem dá gozo gozo aos merceeiros, seus donos, ver ferido e tombado numa cela para que não incomode mais os negócios sujos de vendilhões da pátria.

  6. ai que risota! :-) de facto, factos à parte, utilizar os preparativos para um directo como argumento contra alguém é algo que não lembra a quem escreve por bem. mas entretanto fiquei a imaginar o homem a cagar e a mijar, com a picholinha metida no meio das pernas e adentro, e a pensar na relevância que isso teria para o mundo e para a qualidade de vida dos portugueses em particular. e fiquei-me pelo meu riso estridente. :-)

  7. “É só isto, e isto chega para a rutilante exibição de estupidez da Maria João Lopes.”

    Está tudo dito nesta frase.

  8. «Porque não há terceiro para este dilema: ….»

    Claro que há terceiro: uma condenação em primeira instância por “ressonância de verdade”, cujo impacto na opinião pública se irá diluindo nos meandros técnicos dos sucessivos recursos de modo a que no fim a Corporação não perca a face. E o resto que se foda!

  9. «Sócrates mentiu pública e privadamente acerca da sua relação com o dinheiro vindo das contas de Santos Silva,…»

    Na justiça existe a figura da legitima defesa. Se eu matar alguém ( coisa de gravidade máxima …)que objectivamente está a atentar contra a minha vida, em principio a justiça não me condena e a moral desculpa-me. Mas, pelos vistos , se eu mentir para me defender de um voyerismo doentio que nada justifica, a moral valupiana condena-me sem apelo.

    Ou seja, segundo Valupi, o público ( e os média em particular ), tinham todo o direito de questionar Sócrates sobre a sua vida privada; e Sócrates tinha a obrigação moral de responder com toda a verdade ( seja ela qual fôr….), mesmo que isso implicasse terceiros que nada tinham a ver com a sua vida politica.

    Esta coisa de se negar ao politico o direito a uma reserva da vida privada de que nenhum de nós está disposto a abdicar, é algo verdadeiramente extraordinário, que verdadeiramente só se entende quando se ouve RAP declarar que o “direito a não ser ofendido é algo que não existe” e não se vê ninguém revoltar-se por isso.

  10. JJ Rodrigues: Nos USA, o Sócrates só precisava de invocar a 5ª Emenda, para mandar esses inquiridores tomar onde deviam… O problema cá é mesmo falta de democracia!

  11. Ignatz

    O Calex está à espera da próxima janela mediática … agora com as Festas Natalícias e de Fim de Ano ninguém lhe dava atenção …

  12. tá nada. o plano era prender o lalanda e fazer o habitual salsifré mediático, mas o gajo cortou-lhes as vazas e agora não sabem qual pedra mexer. a solução vai ser inclinar o tabuleiro como têm feito anteriormente, mas precisam de tempo para preparar o suporte burocrático de sobrevivência.

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