“É inaceitável esta batota de lançar elementos de processos para a praça pública”
“Segredo de justiça está transformado em arma de arremesso”
Crítica ao Ministério Público no âmbito da Operação Lex
“A instrução está reduzida a uma farsa”
Garcia Pereira compara este caso Lex à Operação Marquês
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Infelizmente, a TVI24 não disponibiliza qualquer excerto da intervenção de António Ventinhas, actual presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, neste programa onde Garcia Pereira disse o que acima está exposto e muito mais. E bastaria vê-lo a responder à primeira pergunta colocada por Judite Sousa para contemplarmos um aspecto essencial do seu papel político e mediático, proteger criminosos. Vou repetir de uma forma que seja à prova de estúpidos: Ventinhas, presidente do SMMP e nesse papel, tenta proteger (e provavelmente protege mesmo) criminosos. Quais criminosos? Os que cometem o crime de violação do segredo de justiça.
Judite começa por lhe perguntar o que tinha a dizer sobre a violação do segredo de justiça, um assunto debatido nos 40 minutos que antecederam a sua entrada no programa. E Ventinhas coloca um ar enfastiado para dizer que a violação do segredo de justiça, se existiu, é para ser investigada (nunca nenhum inquérito à violação de um segredo de justiça alguma vez conseguiu descobrir um só responsável recorrendo à minha distraída memória, corrijam-me se estiver enganado) e tal, mas que esse assunto não deve ser discutido porque é usado para não se falar da corrupção e do combate à corrupção. E foi isso que de imediato começou a fazer, produzindo mais um tempo de antena a favor de Joana Marques Vidal, a heroína que, como escreveu um fanático no Expresso, anda a fazer tiro ao alvo aos “poderosos”=”corruptos” – Pim Pam Pum… não escapa um.
O sofisma funciona captando a cognição para uma poderosa armadilha social. Realmente, discutir a corrupção e louvar o seu combate parece infinitamente mais importante do que perder o nosso rico tempo com as violações ao segredo de justiça. E o instinto ligado à sobrevivência gregária e à coerção de grupo dispara imediata e toxicamente, levando a quase totalidade das vítimas desta armadilha para uma resposta protectiva onde não se quer arriscar sofrer a desaprovação dos outros por estarmos ligados a criminosos, estarmos a “defender corruptos”. Afinal, se pertencessem à classe da gente séria não estariam metidos numa alhada judicial, bichana o viscoso bom senso. É por causa desta dinâmica antropológica que o recurso à calúnia é uma arma tão eficaz há milhares de anos e em contextos políticos, culturais e tecnológicos tão diversos. Evidências, né? Mas este é apenas o terreno onde a armadilha se monta, ela depois ganha poder mais extenso e sofisticação.
Se por cima espalharmos a ideia de que as violações ao segredo de justiça são inevitáveis e até bondosas, posto que os coitados dos jornalistas honésticos que têm o trabalho de concretizá-las na comunicação social igualmente dispõem dos sacrossantos direito e dever de “informar” a malta, então estaremos prontos para aceitar o corolário tácito – tantas vezes, e cada vez mais, explícito – de que é o que eles merecem, esses que a Joana e o bigodes apanham e vão logo meter no chilindró porque andam a roubar o povo. Todo o edifício do Estado de direito democrático, que custou a vida a milhões até ficar como fundamento da nossa liberdade individual e colectiva, desaba sob o vendaval emocional que se pretende atiçar. É mais uma vez a receita antiquíssima da demagogia e do charlatanismo a funcionar, só que agora com o recurso a meios de comunicação social, jornalistas, políticos, partidos, magistrados e altos responsáveis do Ministério Público. Acontece que, enquanto decorrem os sucessivos e sistemáticos auto-de-fé na indústria da calúnia, a violação do segredo de justiça continua a ser um crime que pode chegar a 2 anos de prisão. Ora, se um magistrado do Ministério Público for apanhado a 180 km/h na autoestrada, poderá invocar a sua profissão para se safar da multa? E se for apanhado a gamar um litro de leite num supermercado, terá imunidade por causa do seu estatuto judicial ou por causa do baixo valor do bem furtado? E se viola o segredo de justiça à fartazana, sabendo que o pode fazer as vezes que quiser sem qualquer penalização, que outros crimes muito menos exuberantes não estará também a cometer? Admitindo que os magistrados do MP estão sujeitos à Lei que vigora para os restantes cidadãos, segue-se que não só a violação do segredo de justiça é um crime passível de ser cometido inclusive por membros do SMMP como, caso tal aconteça, essa prática criminosa fica agravada por ser da responsabilidade de quem recebe do Estado poderes judiciais. Ventinhas, estás a prestar atenção? Muita concentração para o parágrafo que se segue, ó pá.
Os que se preocupam e indignam com as violações ao segredo de justiça não querem impedir o MP de investigar quem e o que quiser, desde que legitimamente. Tal como não querem interferir, como não interferem, em qualquer investigação que o MP tenha iniciado. E, acima e antes de tudo, ficarão igualmente aliviados e satisfeitos caso qualquer processo aberto pelo MP leve a condenações em tribunal que se realizem transitadas em julgado, pois tal significará que o MP, o Estado, a sociedade e a comunidade estão de parabéns e mais seguros, que os danos individuais e colectivos provocados pelos crimes em causa foram de alguma forma reparados na medida do possível. Só que, ao contrário dos pulhas, os que se preocupam e indignam com as violações ao segredo de justiça igualmente se regozijam quando um tribunal inocenta quem lhe apareceu à frente acusado pelo MP. Esse desfecho é exactamente igual, em valor judicial e como prova de boas práticas nas instituições da Justiça, ao de uma condenação – com a diferença de ser razão para um júbilo superior ao da prova de qualquer crime. Saber disto, e transformar esse assomo de dignidade em manifestação de cumplicidade com corruptos e criminosos de vária espécie, é o que intentam aqueles que deviam ser os primeiros a ficarem escandalizados e envergonhados por terem colegas e/ou superiores a cometerem crimes, seja por agenda corporativa, política ou marginal. A sua agressividade e hipocrisia no trato do tema é um indício de má formação cívica e profissional, e ainda de volubilidade moral inaceitável no seu âmbito de funções estatais ou de projecção psíquica indiciária de práticas ilegais.
Os que atacam quem se preocupa e indigna com as violações ao segredo de justiça estão cheios de pressa. Eles não querem esperar pelo eventual julgamento, sequer pelo apuramento das provas a favor ou contra uma qualquer acusação. Tentam sôfrega e febrilmente lambuzarem-se no festim das condenações instantâneas, da cobardia e animalidade dos linchamentos. É por isso que atacam quem lhes faça frente em nome dos valores da civilização onde queremos viver, seja difamando e caluniando quem ouse apelar à mais básica decência, seja espalhando a mentira de que somos impotentes para impedir a actividade criminosa no seio do Ministério Público. Podemos escutar e prender assassinos, traficantes de droga e até ex-primeiro-ministros, mas conseguir descobrir por que é que em certos processos, e não em outros, há violações do segredo de justiça que aparecem em certos órgão de comunicação, e não em outros, isso já parece ser difícil demais para as polícias e magistrados portugueses.
António Ventinhas, na senda dos seus antecessores no SMMP, anda cheio de bazófia a exibir o seu desprezo pelo Estado de direito e pela honra e direitos alheios. É o tal fulano que caluniou Sócrates e depois viu essa calúnia protegida por todo o edifício da Justiça portuguesa. Que pena tão grande a TVI24 não mostrar como Garcia Pereira o reduziu a uma figura patética que acabou a reconhecer que nem nos colegas confia. Este perigoso caluniador que tenta abafar os crimes sistemáticos ocorridos no Ministério Público é, por inerência, um corrupto.
