Garoupa na claque da Joana

Nuno Garoupa, por mérito próprio e ecossistema propício, vem conquistando um lugar de crescente relevância no exíguo grupo que se dedica a pensar a política portuguesa. Prova maior disso, pondo de parte as suas obras e intervenções de outro fôlego nas áreas do Direito e da Economia, os recentes artigos onde analisa a deriva decadente do laranjal: A crise do PSD (I): o sorpasso | A crise do PSD (II): a implosão | A crise do PSD (III): a sociologia eleitoral do “passismo”. O tríptico é um ensaio de recorte académico, onde a argumentação convoca a realidade para sustentar as conclusões. Tem factos, tem números, tem matéria suficiente para se concordar ou discordar sabendo-se do que se está a falar.

Passemos para outro bicho: Mandato único. Estamos perante um panfleto. O primeiro parágrafo podia ser dado a estudantes universitários como exemplo do que é um registo falacioso, propagandista e sonso num autor que se concebe sofisticado na expressão e na pose. A intenção desse parágrafo, como do restante texto, é o de se inscrever no caudal de expressões mediáticas a favor da continuação da Joana Marques Vidal como procuradora-geral da República por mais seis anos. E porquê ou para quê? O texto não o revela, pois é um chorrilho de vacuidades, distorções, juízos subjectivos e intriguistas.

Eis o que o autor quer que consumamos acriticamente: que (i) “Joana Marques Vidal foi a melhor PGR da democracia” e Pinto Monteiro foi um “absoluto desastre“, e que (ii) a não recondução da PGR ficará como uma “punição” do Governo por causa do processo Sócrates. O embrulho destas sectárias e torpes mensagens torna-se a única razão para a existência do artigo naquela extensão, não passando os acrescentos de banalidades para trocar os olhinhos ao patego. Contrariamente ao que fez nos textos sobre a crise no PSD, neste discurso sobre JMV e a questão do seu mandato não apresenta dados de espécie alguma. Dizer que JMV foi a melhor PGR da democracia ou ter dito que JMV foi a melhor trapezista da história do circo equivale-se em veracidade na economia da sua retórica. Não há forma de sabermos a que se refere factualmente, nem mesmo quando usa manipulações como “Chegou num momento em que a PGR estava completamente descredibilizada e deu-lhe nova vida com um combate mais efetivo à criminalidade de colarinho branco e à corrupção.” visto ignorarmos quais sejam os pressupostos dessa conclusão. Especialmente no caso de Pinto Monteiro, a ênfase adjectiva obrigava-o, se a honestidade intelectual e o brio cívico tivessem no Garoupa regimento constante, a fundamentar e explicitar a que se refere. Estamos a falar de alguém que se assume como especialista em questões de Justiça, não de um barrasco qualquer cuja impotência e iliteracia só alcançam o insulto. De que desastre está a falar? Queria que ele tivesse pressionado os procuradores? Se sim, quais? Se sim, para quê? Ou pretende, no seu modo sonso, sugerir que Pinto Monteiro influenciou o desfecho de algum processo de forma incorrecta? Se sim, qual? Se sim, como? Ou pretende, nesse modo irresponsável, sugerir que Pinto Monteiro cometeu alguma ilegalidade, que foi corrompido ou corruptor?

Esta figura quer que Joana Marques Vidal se mantenha mais seis anos à frente da PGR como prémio por ter enjaulado Sócrates e como garante de que o Ministério Público está nas mãos da “gente séria”. Isto não é paleio de académico. E apenas académico é algo que o Nuno Garoupa está muito longe de ser.

24 thoughts on “Garoupa na claque da Joana”

  1. Sem surpresa. Desde que sentou lado a lado Moro e Alexandre, no Estoril, se percebeu que Garoupa é partidário do messianismo justicialista dos que querem o poder atropelando as urnas de voto.

  2. E o Aspirina não tem nada a dizer de tribunais que colocam em liberdade corruptos confessos a troco de declarações que permitam construir insinuações com o objectivo de destruir os inimigos políticos dos seus juízes?

  3. Infelizmente o seu argumento consegue ser ainda mais opaco e limita-se a contrapor, sem fatos ou argumentos, aquilo que o autor expõe caindo no mesmo erro. Posso-lhe pedir que, de acordo com o que defende, exponha fatos e argumentos que suportem a sua posição? Ou vai-se limitar a deixar isso do lado da defesa do autor?

  4. que giro. quando li o título interpretei logo garoupa como aldrabice – os brasileiros usam muito essa palavra. depois, imediatamente, vi tratar-se de um apelido. logo, logo, constatei ser ambos. :-)

  5. Influenciar procuradores ? Mas não foi o que ele fez o tempo todo… cortou-lhes as vazas sistematicamente. O caso FREEPORT foi arquivado porque os procuradores não aguentavam mais …E o caso Lopes da Costa só com um Procurador assim é que é possivel…. e o Lopes da Costa sofreu alguma coisa com isto? nem pensar. Um PGR que foi capaz de cortar folhas de processos à tesoura está a baixo de qualquer qualificação

  6. “O caso FREEPORT foi arquivado porque os procuradores não aguentavam mais …”

    pois foi, até ficaram por reponder perguntas que não tinham sido feitas por manifesta falta de tempo. se fosse com a joana tinha juntado aquilo ao bpn para salvar o cavaco.

    “e o Lopes da Costa sofreu alguma coisa com isto? ”

    parece que foi corrido do eurojust, onde ganhava pelo padrão europeu, por ter dito a dois mafarricos que vivem de serviços externos que o freeporcos já tinha ultrapassado todos os prazos legais e ilegais.

    “… cortar folhas de processos à tesoura…”

    isso deve ter sido o alex quando descobriu que o nome dele e do filho contavam no processo do vicente. foi logo devolver a massa que tinha recebido e puxar as orelhas ao filho por ter enviado o currículo para a sonangol.

  7. Eric,

    Os métodos de atropelar as leis e a lógica para eliminar inimigos políticos são os mesmos.

    A diferença é que no Brasil há alguns milhões de bravos que acreditam na democracia e no Estado de Direito. Aqui há outro tanto de cobardes.

  8. Rui, qual achas que seja o meu argumento e/ou a minha posição? Só depois de entender melhor o teu pensamento poderemos passar para a resposta às tuas perguntas.

    __

    Flávia Leal, o que dizes revela estares num estado de completa baralhação mental. É que nem sequer nos factos acertas.

  9. Lucas, nisso de «eliminar inimigos políticos» falas de quem?
    (é que, estás a ver?, houve eleições livres e justas em 2011)

    Mas, para não perturbar o brilhantismo do teu raciocínio, embora sabendo-se que estás zangado com a vida vá-se lá saber porquê, olhemos para os resultados das presidenciais portuguesas de 2016. Onde identificas, qual o sector (abstencionistas, branquistas e nulistas, quais os candidatos e podes agrupá-los desde que, o dito, tenha alguma lógica eu não contestarei os teus pontos e as vírgulas, prometo!, onde, dizia, é que os teus neurónios encontram dois-2-dois milhões de cobardes (menos um ou dois, que és tu e a Jasmim!)?

    ______

    Candidato – Partidos apoiantes- 1.ª Volta – Votos – %
    Marcelo Rebelo de Sousa – PPD/PSD, CDS-PP, PPM – 2 413 956 – 52,00 / 100
    António Sampaio da Nóvoa- PCTP/MRPP [que giro!], LIVRE [também aqui o #talismã Tavariano esteve presente, sempre presente nas tragédias!] – 062 138 – 22,88 / 100
    Marisa Matias – B.E., MAS [quem?] – 469 814 – 10,12 / 100
    Maria de Belém Roseira – Independente – 196 765 – 24 / 100
    Edgar Silva – PCP – 183 051 – 3,94 / 100
    Vitorino Silva – Independente – 152 374 – 3,28 / 100 [desconfio que teria hoje tantos votos como o José Sócrates, mas é um palpite!]
    Paulo de Morais – Independente – 100 191 – 2,16 / 100
    Henrique Neto – Independente – 39 163 – 0,84 / 100
    Jorge Sequeira – Independente – 13 954 – 0,30 / 100
    Cândido Ferreira Independente – 10 609 – 0,23 / 100
    Votos em branco – 58 964 – 1,24 / 100
    Votos nulos – 43 588 – 0,92 / 100
    Total – 4 744 597 – 100 / 100
    Eleitorado/Participação – 9 751 398 – 48,66 / 100

    [Responde ASAP, please, que eu cá te espero!]

  10. Lucas, pensa nisso durante a noite (que eu vejo depois, se precisares pede ajuda ao Valupi que é um rapaz que antigamente gostava destas coisas)

    Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, e não sei o quê.
    (não me lembro quem dizia isto, parece-me que terá sido o Zé Mário que até nem é de Olhão)

  11. Eric,
    É um bom exemplo. Nas últimas eleições presidenciais, houve algum candidato que defendeu a integridade do Estado de Direito e denunciou os conluios mediático-judiciais ocorridos para promover o escárnio público de um cidadão? Alguém pronunciou a palavra Lawfare?

  12. Quais foram os factos que não acertei? O que eu disse são factos públicos e notórios. É fácil dizer que não. ..mas não chega dizer que não. ..

  13. Sim-sim, nos discursos-quase-monólogos dos candidatos Neto e Morais.
    (mas essa era uma das partes da minha maldade, pois não os poderias unir com nenhum outro…
    e lá vinha o José Sócrates à baila. Assim sendo, fizeste de conta que não existem…
    o que é categórico!)

  14. Ó Lucas, esse tipo ignoto tem ar de xoninhas.

    É um dos dois milhões fanáticos do Lula da Selva, dois milhões e um?
    Mas em Portugal, aquilo que te pedi, dá trabalho a pensar, coças a cabeça ou baralhaste-te?

    _____

    100191 + 39163 = 139354 e não dá.
    13954 quase dez por cento (haverão também aqui indícios de uma conspiração anti-Sócrates?), não deve incluir o voto abstencionista do Lucas Galuxo, apesar do ar exótico e do chilrear do candidato ≠ dois milhões de cobardes.

    Onde, afinal?
    Valupi, ajudas o tipo?

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