Entender parte do essencial do que se passou no nosso país

A 16 de Outubro do ano passado, Costa fez uma declaração ao país na sequência da vaga de incêndios começada no dia anterior. Não há nada nessa prestação que se possa considerar errado se a objectividade guiar a análise. O registo foi natural perante as circunstâncias, com uma gravidade na pose, etiqueta nos pêsames e determinação no discurso que não teriam causado qualquer reacção negativa caso o contexto fosse de normalidade institucional. Só que não o era, como o dia seguinte iria provar explosivamente quando o Presidente da República fez a sua muito própria declaração ao País usando o mesmo pretexto, os incêndios do dia 15. Nela exigiu a demissão da ministra da Administração Interna, simulou haver espaço para uma crise parlamentar e tomou posse monopolista da exploração emocional e populista do número de mortos em incêndios até aí. Passavam a ser para seu uso exclusivo, um trunfo ou guilhotina que se reservava o direito a usar no futuro contra o Governo e o PS como bem lhe aprouvesse. Bastaria ficar algo desgostado com qualquer uma das medidas que o Executivo iria tomar nos meses e anos seguintes, jurou. No discurso de Ano Novo voltou a agitar essa carta.

A rapidez, retórica teatral e instinto assassino de Marcelo na ocasião foram aplaudidos por uma sociedade que vinha desde o incêndio de Pedrógão a ser intoxicada com a politização demagógica e sensacionalista que a direita e certos jornalistas fizeram intensa e ininterruptamente numa dinâmica sórdida que misturava as eleições autárquicas, Tancos e a caudalosa soberba da imprensa e sua leviandade irresponsável. A ideia de que o Governo devia “pedir desculpa”, demitir ministros e vermos Costa de baraço ao pescoço a chorar convulsivamente espalhou-se também incendiária. Marcelo, ao castigar Costa e a ministra malvada, estaria assim a fazer justiça, a representar o povo contra os malandros dos políticos que nem sequer nos conseguem proteger dos fogos em Outubro. Pelo caminho, Marcelo igualmente dava energia à direita ao atingir tão violentamente o Governo e a imagem de Costa. Vendo o episódio a partir de uma varanda do Palácio de Belém, havia fogo-de-artifício jubilatório debaixo do céu e fogo de barragem em cima de S. Bento.

Estamos em Janeiro. No sábado passado foi divulgado que se descobriu terem sido os dois incêndios no Pinhal de Leiria de origem criminosa, cujas chocantes imagens ficaram como símbolo internacional dos incêndios de Outubro em Portugal. Num deles foi usado um engenho artesanal para atear o fogo. Ou seja, o autor ou autores do crime que destruiu 86% do pinhal contaram com as condições meteorológicas especiais e completamente anómalas previstas para esse dia, onde o vento forte provocado pelo furacão Ophelia em cima da seca prolongada e das altíssimas temperaturas iria levar a incêndios incontroláveis. Noutros casos foram as queimadas a provocar a multiplicação dos incêndios em diferentes pontos do País. E no incêndio da Lousã terá sido a queda de uma árvore sobre uma linha de média tensão a espalhar fagulhas que acabaram por levar à destruição de 43.941 hectares de arvoredo e vegetação. Também neste dia houve grandes incêndios na Galiza.

Uma das expressões usadas por Marcelo no seu número de Outubro que mais impacto tiveram no estado de estupefacção e impotência, dor e revolta, da comunidade está nesta frase: “Quem não entenda isto, humildade cívica e rutura com o que não provou ou não convenceu, não entendeu nada do essencial do que se passou no nosso país.” A potência da frase estava em relação directa com a sua ausência de significado. Era por nada poder dizer que podia ser espelho para justificar o que se quisesse. Que se tinha passado, afinal? O Estado tinha falhado? Mas em quê e quando? Falhou porque Costa não montou um espectáculo de hipocrisia e cinismo para acudir à voragem mediática e ao desamparo inevitável numa tragédia impossível de evitar? Hoje sabemos que a exploração política e comercial dos incêndios de 2017 e das suas vítimas não beliscou a integridade do actual primeiro-ministro, pois o seu exemplo foi exactamente o oposto. O mesmo não se pode dizer de muita gente que usou a devastação para uma literal política da terra queimada. A mesma gente que atacou Marcelo por causa do que declarou emocionado em Pedrógão, quando quis consolar quem o rodeava já madrugada adentro e disse “o que se fez foi o máximo que se podia fazer“. Reflectir sobre o efeito que essa perseguição teve no Presidente da República, gerando um provável incómodo ou até sentimento de culpa face ao que se veio a apurar nos meses seguintes, corresponde a entender parte do essencial do que se passou em Portugal a partir de 17 de Outubro à noitinha.

7 thoughts on “Entender parte do essencial do que se passou no nosso país”

  1. O Governo não pode ser responsabilizado e castigado pelos incendios catastróficos de 2017. O Governo deve ser responsabilizado e castigado por fazer e aprovar leis que agridem os cidadãos mais indefesos da sociedade portuguesa: os idosos que restaram nas aldeias do interior de Portugal, condenando-os a trabalhos forçados, exigindo que tratem os seus terrenos como jardim público, proibindo-os de tirar deles rendimentos. Um Governo responsável, em vez de levantar o chicote com multas e coimas insustentáveis para quem não limpar o mato das suas barrocas, que tem de ser limpo, sem dúvida, deveria cuidar de saber se existem pessoas e máquinas suficientes para limpar em pouco mais de um mês aquilo que não foi limpo nas últimas dezenas de anos. Em vez estudos, entrevistas com coletes refletores e cenário de floresta o fundo, congressos e conversa, deveria, por exemplo, distribuir pelas juntas de freguesia as centenas ou milhares de equipamentos necessários à execução da tarefa e, se necessário fôr, escalar um serviço cívico obrigatório para o efeito. Menos do que isso torna-o imprestável para defender a segurança dos cidadãos e do território.

  2. Você deve ser filho de lavrador ou de proletário, no tempo do fascismo estava no campo a limpar bouças e nada disto tinha acontecido . Como virou assessor assalariado do Partido Chucha, vem para aqui misturar alhos com bogalhos .

  3. «Não há nada nessa prestação que se possa considerar errado se a objectividade guiar a análise. O registo foi natural perante as circunstâncias, com uma gravidade na pose, etiqueta nos pêsames e determinação no discurso que não teriam causado qualquer reacção negativa caso o contexto fosse de normalidade institucional.», Valupi deves perceber que as pessoas não têm tempo para estarem sempre a voltar sempre e a desdizerem os disparates que a posteriori vais escrevendo. Aliás, nem percebo qual é a sua utilidade (tanto objectiva, já que estás nessa, como subjectiva…) para além de um prazer dilentante mais ou menos sadio em te entreteres com esta e outras cenas (cujo resultado para o Aspirina B é, a maioria das vezes, ficar-se por aqui e não ter pachorra para ler o resto do post… que é o que fiz hoje).

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