Todos os artigos de Valupi

A frente da calúnia

Janeiro de 2010. Um deputado do PSD, chamado José Pacheco Pereira, recebe da Cofina uma quantia em dinheiro (não revelada) para/por dizer num órgão de comunicação social que “empregados do governo, e às vezes mais acima” escreviam anonimamente em blogues para insultar e caluniar os adversários políticos. Chamou à coisa: A Frente da Calúnia

Como nos três exemplos de blogues dessa frente caluniosa constava o Aspirina B, e como eu lia diariamente os restantes, Câmara Corporativa e Jugular, fiquei de imediato a saber que o deputado era não só mentiroso como ainda por cima mentia a troco de dinheiro e notoriedade. Para além de não existir qualquer empregado do Governo a escrever anonimamente no Aspirina B, muito menos o tal ou tais “mais acima”, igualmente não se publicavam calúnias nos três blogues acusados. Insultos, sim, à fartazana, pelo menos neste pardieiro. E também factos, e argumentação da boa com base nos mesmos e nas legítimas convicções de pessoas, nos outros dois blogues que cultivavam a democracia e a liberdade.

O deputado promovia em público uma conspiração que começava logo por se assumir como hipótese imbecil e delirante: os blogues tinham audiências residuais, incapazes de sequer terem influência na votação para uma junta de freguesia, sendo consumidos por públicos já politizados que iam à procura de redundância informativa e divertimento – ou de fantasmas e alvos para a agressividade tribal e identitária. Os blogues eram meia gota de água no oceano mediático dominado pelo Correio da Manhã e Sábado, Sol, Público do Zé Manel, Expresso do Monteiro, TVI do casal Moniz, SIC do Balsemão, do Crespo, do José Gomes Ferreira, do mano Costa, RTP da Judite de Sousa e do José Rodrigues dos Santos, DN do Marcelino e saco de passistas na redacção, TSF do Baldaia e seus editoriais, jornal i do Martim Avillez, e ainda o grupo Rádio Renascença (ofereçamos um desconto ao Pacheco, omitindo os restantes blogues direitolas com visualizações superiores e, esses sim, com torrenciais calúnias). Porém, o deputado dava a três blogues – que respeitavam e celebravam a ética republicana – uma importância decisiva que o impelia ao combate mais desvairado. Compreende-se sem dificuldade porquê, o horizonte da comunicação social estava coberto a toda a extensão pelos impérios mediáticos profissionais da direita, a dominar a paisagem sem concorrência. Valia tudo a partir dessa superioridade táctica imbatível no campo de batalha posto que a ideia não era a de respeitar a deontologia nem a módica decência. Desde a criação da maravilhosa bandeira da “asfixia democrática” até aos rasgados elogios para a campanha negra de Moura Guedes na TVI, na qual o especialista do “Ponto Contraponto” via um admirável exercício do “jornalismo livre”, a direita da baixa política pôs a carne toda no grelhador. Que restava ao Pacheco para além de fustigar o alinhamento das notícias na RTP? A que se poderia agarrar quando largava o cronómetro com que descobria terem dado dois segundos a mais a uma notícia sobre o PS comparada com a notícia do PSD no telejornal da hora de almoço? A luz ao fundo do seu túnel cognitivo e moral vinha de três minúsculos blogues onde encontrava injecções diárias, horárias, de dopamina e adrenalina – para além de servirem na perfeição para continuar a meter dinheiro no bolso a enganar os pategos. Bastava que os pusesse debaixo da sua lente de aumento grotesco da realidade para que os três mosquitos parecessem um exército de Godzillas acabado de chegar ao Terreiro do Paço. Absorvendo guloso os boatos que o laranjal decadente lhe despejava nos ouvidos, usava-os para se mascarar de especialista em contra-terrorismo político. A este deputado que tinha muitos e raros livros em casa ninguém enganava, os badamecos que serviam o mefistofélico Sócrates iam ser perseguidos pela implacável espada flamejante do Anjo da Marmeleira. A sua obsessão por Sócrates precisava de tangibilidade para suportar o fascínio que o consumia, daí a necessidade de projectar nos irrelevantes blogues uma pura fantasia quixotesca.

Janeiro de 2010. Pacheco Pereira é deputado depois de ter sido o braço-direito de Manuela Ferreira Leite na campanha para as legislativas de 2009. Usa a revista Sábado para caluniar o Governo e autores de blogues acusando-os da prática em que se lança desenfreado. Não fica como ironia sórdida, é mesmo tristeza à solta na cidade. Uma personalidade com tanto poder mediático e político, com contributos intelectuais valiosos no campo da investigação histórica, a exibir-se como um ranhoso, um pulha. Só que o deputado vinha de ter feito muito pior meses antes, e muito pior se preparava para fazer dentro de meses. Vinha de se ter tornado no mais vocal dos que tinham reduzido a política ao assassinato de carácter e ao envenenamento do espaço público com paranóias assustadoras. O Pacheco foi cúmplice da operação de espionagem política feita a coberto do “Face Oculta”, cúmplice do ataque a Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento que não cederam à golpada montada pelo irmão Vidal, cúmplice da “Inventona de Belém”. Espalhou, e ajudou a espalhar, a torpe acusação de que o Governo socialista estava a usar os serviços secretos para fins políticos, que estava a dominar a banca, que ia dominar a comunicação social. Foi com recurso a esta pressão maníaca em que Sócrates era concebido como “monstrum horrendum, informe, ingens” que se convenceu Cavaco a alinhar no caso mais grave de violação dos deveres de um Presidente da República de que há memória em democracia. Eis o que o Pacheco andava a dizer, louco de raiva, nesses dias de histórica infâmia:

«Eu compreendo que o Presidente da República, até pelas coisas graves que tem certamente para dizer face aos ataques que lhe têm sido dirigidos, não queira falar em período eleitoral. O que diria perturbaria e muito o período eleitoral. Mas temo que só depois das eleições é que se vá saber demasiadas coisas sobre esta governação e sobre o Primeiro-ministro. E temo que isso seja um fardo muito difícil de gerir, ganhe quem ganhar as eleições. Seja no caso Freeport, seja na questão da eventual espionagem aos seus opositores, seja no ataque à TVI e ao Público, seja nos múltiplos negócios que estão por esclarecer, da OPA da Sonae à crise do BCP e à interferência da CGD, seja no caso BPN e nos nunca esclarecidos movimentos do dinheiro da Segurança Social, seja na tentativa de compra da PT da Media Capital e etc,. etc. Um etc. demasiado grande.»

Fonte

Em cima da ida às urnas nas eleições legislativas de 2009, com a golpada presidencial a descoberto, o general de Ferreira Leite vai para a frente das câmaras, vai para o meio dos ecrãs, berrar que Sócrates é um super-criminoso que está protegido pelo “período eleitoral”. É o que o safa, explica sem se rir e sem corar, senão Cavaco viria dizer das boas, contar tudo, restabelecer a lei e a ordem, lançar pelos ares “as coisas graves que tem certamente para dizer“; certamente, de certeza certezinha. Azar do caralho isto das eleições. Vamos ter de esperar mais uns dias para limparmos a Nação do mal, garantiu o Pacheco aos eleitores com menos de 10 anos de idade. Só que depois das eleições não tivemos direito a essa catarse prometida, foi outro o programa das festas. Apareceu-nos um Cavaco a reconhecer que a “Inventona de Belém” tinha corrido mal e que havia de ter paciência. Melhores dias viriam, era uma questão de aguentar por nova oportunidade pois o método tinha sido validado. Era possível difamar um Governo a partir do Palácio de Belém, caluniar um primeiro-ministro em funções por obra e graça da Casa Civil, interferir em dois actos eleitorais com a chancela do Presidente da República e nada acontecer aos mandantes e executantes do crime, ficava demonstrado. Ali estava ele, o responsável máximo pelo irregular funcionamento das instituições, de pé em frente a uma multidão de jornalistas para provar isso mesmo.

Janeiro de 2010. Quatro meses depois, o deputado José Pacheco Pereira irá enfiar-se numa saleta da Assembleia da República para ler transcrições de escutas. Escutas que não tinham valor judicial mas que um juiz considerou terem valor político. Atente-se: escutas captadas ilegalmente, as quais não iriam ser usadas em tribunal por não serem prova ou indício de qualquer crime, foram entregues ao Parlamento para nele se violar a lei, a Constituição e os princípios fundamentais do Estado de direito. Dois deputados aceitaram ficar com essa nódoa indelével no currículo. Um deles, declarou nada ter encontrado que justificasse posterior acção de si próprio como deputado ou acção do seu partido, o PCP. O outro, declarou que o conteúdo das escutas era “avassalador”. No entanto, também nada mais fez a respeito nem explicou em que se baseou para a colorida adjectivação. O revanchismo e voyeurismo do Pacheco foram satisfeitos, é só isso que sabemos. Lambuzou-se celerado e cobarde na violência de usar o aparelho policial e judicial – mais o seu estatuto de deputado – para violentar a privacidade de dois cidadãos e, a partir daí, explorar o inaudito deboche como fonte de novas calúnias quando quisesse e como lhe apetecesse pelos anos afora.

Junho de 2019. O Sindicato dos Magistrados do Ministério Público organiza uma conferência onde junta Joana Marques Vidal a Eduardo Dâmaso, José Gomes Ferreira e João Miguel Tavares para se falar de “corrupção”. O SMMP não é conhecido por publicar estudos próprios ou de terceiros acerca da corrupção em Portugal ou na Antárctica. Ninguém faz ideia do que o SMMP realmente possui como informação a respeito do fenómeno. O mesmo, aliás, para cada um dos participantes na “conferência”, câmaras de vácuo quando se trata de obter dados fiáveis sobre as “redes de corrupção e compadrio“, sobre a “epidemia que grassa pela sociedade portuguesa“. Contudo, é inegável estarmos perante figuras gradas do “combate à corrupção”. Podemos até dizer que todas, em mais do que um sentido e modos, têm construído as suas carreiras e fama à conta da “corrupção”. Mas qual, se é também corrente o queixume deste grupo e seus clones acerca do baixíssimo número de prisioneiros condenados por corrupção? Dita a lógica, e o consumo da sua obra publicada, que a “corrupção” em causa seja aquela atribuída a inocentes, cidadãos que ainda não foram condenados por tal, nem se pode prever se alguma vez o serão mesmo que estejam actualmente acusados. Acontece que chegar à fase de acusação e depois ter o aborrecimento de esperar pelo julgamento em tribunal e ainda ver as defesas dos acusados a tentarem isso mesmo, defender quem foi acusado, é um processo demasiado moroso, e inclusive cruel, para quem vê cair na conta bancária os meritórios e abundantes frutos do “combate à corrupção”. Pelo que a “corrupção” é um maná que precisa de ser colhido logo pela fresca, assim que lhes dá o cheiro. Veja-se o que se faz por rotina na Cofina, trabalho aproveitado pelos parceiros de luta: recebem-se informações divulgadas criminosamente por agentes da Justiça e publica-se criminosamente a versão dos procuradores como se fossem factos provados em tribunal. Nenhuma autoridade em Portugal sequer gasta uma caloria a tentar impedir, ou sancionar, esta prática que vira do avesso o código deontológico do jornalista. É a Justiça instantânea de que o povo gosta, tudo mastigado pelos “jornalistas” e onde os alvos são políticos, ou amigos de políticos, triturados pelo sensacionalismo e pelas mentiras até deles nada mais restar do que uma papa infecta servida às alimárias carentes de “poderosos apanhados e castigados” nos jornais e na TV para continuarem dia após dia alienados e impotentes.

O SMMP chamou a Cofina, o grupo Impresa e o Público, nas pessoas dos seus mais notáveis caluniadores profissionais, para fazer um comício e uma parada militar. A estrela do evento foi uma ex-procuradora-geral da República que tem direito a culto de personalidade nesses meios de comunicação, que aceitou ser comissária política de um Governo e de um Presidente da República, que permitiu na PGR abusos da Justiça num processo de cariz político sem paralelo na História portuguesa, que protege a prática de crimes de violação do segredo de justiça no Ministério Público, que não respeita a sua actual responsabilidade no Tribunal Constitucional ao fazer declarações que comprometem a sua isenção e credibilidade, que se tem multiplicado em exibições de ambição política. Ocasião, portanto, para o Pacheco denunciar o obsceno processo de judicialização da política e de politização da Justiça em curso com um entusiasmo, se não superior, pelo menos equivalente ao que manifestou no combate aos tais três miseráveis blogues? Nada disso, ó santa ingenuidade. O senhor não pode morder na mão que o alimenta. A verdadeira frente da calúnia é uma indústria que dá muito dinheiro a muita gente. E que talvez venha a dar verdadeiro poder político a alguns santos de pau oco.

Revolution through evolution

People’s motivations bias how they gather information
.
Social status matters, even to infants between 10 and 16 months old
.
Reminding children of their many identities can lead to better problem-solving and more flexible thinking
.
Promising approach: Prevent diabetes with intermittent fasting
.
Milk and dairy products can help prevent chronic disease
.
Intentions are the key to making sense of our everyday morality
.
Even today, we want our heroes to know right from wrong
.
Continuar a lerRevolution through evolution

Coisas do Carvalho

Manuel Carvalho está feliz da vida porque viu mais um dos seus alvos a ser enjaulado no Ministério Público – Como explicar o “inexplicável” a Azeredo Lopes – o que lhe permitiu citar-se a si próprio, o desporto favorito dos caluniadores profissionais. O seu entusiasmo está todo investido no tiro ao ex-ministro da Defesa, saber quem roubou e quem fez e deixou fazer realmente o quê em Tancos, do magala ao general, não é a sua praia. Eis, exacta e sistemicamente, o filme do BPN, CGD e BCP quando a direita ocupa o palco e manda foguetes, as manobras de diversão contra quem se limitou a tentar resolver problemas que não causou nem podia ter evitado.

Conseguir celebrar o estatuto de arguido de Azeredo Lopes sem fazer uma singela referência às declarações do tenente-general António Martins Pereira, do coronel Luís Vieira e do Comandante Supremo das Forças Armadas é um feito digno do director que inventou escabrosas e dementes mentiras sobre Vítor Constâncio e o Banco de Portugal. Falar de Tancos apagando a inerente, complexa e incontornável distância institucional entre o Governo e o Exército para assim assumir raivosamente a posição de adversário político fingindo que se está a fazer algo remotamente congénere do jornalismo fica bem a um título que, pelas próprias palavras de Vicente Jorge Silva, assumiu o destino de pasquim.

Não se ter demitido, nem ter sido demitido, depois de mandar publicar que «Constâncio autorizou Berardo a ir levantar 350 milhões à Caixa / Banco de Portugal aprovou investimento de Berardo no BCP com crédito tóxico da Caixa / Ex-governador disse no Parlamento que não sabia de nada» é que fica como inenarrável ópera-bufa para a história da imprensa em Portugal.

Isto é lindo

«Filipa Roseta, escolhida por Rui Rio para ser cabeça de lista pelo PSD em Lisboa nas legislativas de outubro, acusou o Governo de estar a adjudicar 1400 milhões de euros diretamente a construtoras à margem da lei. [...] Filipa Roseta elencou por isso o combate à corrupção como uma das prioridades da sua candidatura. E acusou o Governo de estar a “recuperar as políticas socráticas de adjudicação direta de dinheiros públicos”. “É a mesma política de adjudicação da Parque Escolar. E sobre José Sócrates, avançou: “Só estou nesta aventura por causa dele. Porque cheguei a um momento em que achei que ele era mau demais para ser verdade”.»


Fonte

Jurisprudência do “Governo Sombra”

No último Governo Sombra – ou, como a minha vizinha do 4º andar o rebaptizou, no “Vai Pela Sombra” – tivemos direito a considerandos jurisprudenciais de três personalidades públicas de altíssima influência social e política. As ideias que nos deixaram merecem a nossa melhor atenção:

RAP - [...] Agora acendeu-se a luz, a gente vê as baratas e pode pôr-lhes um pé em cima. [...] É ou não é melhor que haja gente a ser investigada, julgada e até presa? E todos dissemos "É!". E, pelos vistos, o PS e o PSD disseram "Olha que não é, a gente gostava mais como era antigamente..."

RAP - Não tenho nada contra garantias, tenho qualquer coisa contra excesso de garantias.

__

PM - [...] Não se faz justiça é quando se tem a sensação, como se teve durante demasiados anos em Portugal, que os casos a certa altura não chegavam mais longe porque o Ministério Público - não sei se por instruções directas, maquinações indirectas, não vou fazer juízos de intenção quanto a isso - mas é um facto: os processos não seguiam e passaram a seguir.

PM - Nós sabemos duas coisas. E essas duas coisas não provam nada, mas nenhuma delas contribui para um ambiente saudável. Sabemos que Ivo Rosa tende a discordar do Ministério Público no seu historial, e portanto nós temos aqui a ideia de que ele vai querer desfazer coisas, nomeadamente coisas feitas por Carlos Alexandre. E a segunda coisa foi José Sócrates ter-se manifestado satisfeito com este juiz de instrução.

__

JMT - Atenção, no caso Sócrates sou completamente clubista. Espero que o senhor vá a julgamento, e seja condenado e vá para a prisão.

*_*

Ricardo Araújo Pereira, genial humorista e lesado do BES, acha que os “corruptos” não se distinguem das nojentas baratas, uma peste que deve ser esmagada pelo implacável pé de um Estado policial. A partir desta ideia, soltou o seu entusiasmo com a visão de prisões cheias de “corruptos” a esbracejar como (lá está, o senhor é mesmo genial) baratas tontas e sem garantias. As garantias são uma chatice, explica este reputado jurisconsulto fedorento, porque atrasam o espezinhamento desses seres minúsculos, asquerosos e destituídos de direitos fundamentais que ele encontra amiúde – já devidamente investigados, julgados e prontos para entrega em Évora – nas capas da Cofina et alia. A estupenda novidade que teve a generosidade de partilhar connosco no programa foi a revelação de que PS e PSD são partidos que defendem criminosos e que atacam magistrados e polícias – ou talvez não sejam, mas este génio também não está preocupado porque mete ao bolso a mesma sacada de euros em qualquer dos casos.

Pedro Mexia, um dos mais brilhantes intelectuais do coiso e tal por causa disto e daquilo, explicou aos telespectadores e radiouvintes que a Justiça é uma sensação. Por exemplo, ele sente que certos processos envolvendo um certo cidadão, que ao tempo era primeiro-ministro, não chegaram a tribunal por instruções directas à mistura com maquinações indirectas; deixando esta ideia apenas como sorridente sugestão para entreter o povoléu dado não ser avisado ir além da pulhice sonsa, para mais tendo em conta que o senhor é formado em Direito pela Católica e adquiriu uma vaga noção do que é uma calúnia e suas potenciais consequências. A mesma elevação deontológica e rigor jurídico no trato do perigoso Ivo Rosa, alguém que o Mexia afiança que “tende a discordar do Ministério Público” e que “vai querer desfazer coisas feitas por Carlos Alexandre“. Poderia o probo Mexia ter dito que Ivo Rosa tende a defender a Lei com o máximo rigor e que é precisamente por causa disso que tem contrariado certos abusos do Ministério Público, ao contrário de Carlos Alexandre que não só validou todos os abusos dos procuradores como ainda se ofereceu publicamente para os aumentar e agravar? Poderia o honesto Mexia ter dito que Sócrates se manifestou satisfeito não por ter Ivo Rosa como juiz mas por estar, finalmente, sujeito às decisões de um juiz íntegro? Poder podia, como brilhante intelectual que é, mas não seria a mesma coisa – isto é, não seria o assassinato de carácter que executou em público a troco daquilo com que se compram os melões.

João Miguel Tavares, um dos mais notáveis portugueses vivos ou mortos ou por nascer, elevado à categoria de estribeiro-mor do marcelismo como fruto meritório de um talento olímpico para despachar calúnias a troco do belo dinheirinho e à ferocidade canina exibida durante a Grande Guerra Socrática, anunciou à Grei que se está a cagar para o Ivo Rosa, para as provas que o Rosário Teixeira andou com tanto custo a recolher e a inventar, para os tribunais, para o Estado de direito e até para o 10 de Junho. Apenas lhe interessa uma coisa, de resto tão simples que tem toda a razão para estar irritado com a demora: que Sócrates vá para a prisão por uns bons anos, o máximo que der para arranjar; mas sem despertar suspeitas no TEDH, cuidado com isso para não dar chatice. O modo como o seu sonho lindo será realizado é irrelevante, até pedindo para não ser maçado com os pormenores processuais. Esta adorável concepção do Direito, da Justiça e do aparelho de Estado vem de um ilustre “liberal” que tem ubíqua presença na comunicação social e que se concebe como salvador do regime actualmente ameaçado pela democracia e pelo Estado de direito, de caminho ainda conseguindo regenerar a direita portuguesa abraçado ao Rui Ramos e ao Zé Manel. Espíritos curiosos gostariam de conhecer a tradição liberal que defende a ideia de meter na prisão quem não gramamos, ou quem aqueles que nos pagam não gramam, mas não adianta procurar em canhenhos poeirentos. Trata-se de uma tradição original, uma nova filosofia política nascida da inteligência, cultura e decência do notável João Miguel.

Estas Três Graças (ou Três Caretas, na mitologia da Golegã) surgem semanalmente abraçadas e dançarinas na TV e na rádio. Espalham uma harmonia encantadora, desvairadamente popular, borguista. Consiste na propaganda de ser o Artigo 2º da Constituição da República Portuguesa uma aberração que ou está a mais ou tem de levar uma grande volta. E há quem lhes pague, e tanto, para amplificarem os discursos do ódio político e fazerem coro com aqueles que desprezam a liberdade.

Revolution through evolution

Hunger, impulsivity, childhood trauma, and drinking contribute to intimate partner violence
.
Ageism reduced by education, intergenerational contact
.
Older adults can serve communities as engines of everyday innovation
.
Keeping active or becoming more active in middle and older age linked to longer life
.
Music students do better in school than non-musical peers
.
Four Approaches to Understanding and Moving Beyond Dysfunctional Deliberation
.
How to Practice ‘Everyday Courage’ in the Workplace
.
Continuar a lerRevolution through evolution

Para além de um escândalo, estamos perante um projecto político

«A ex-procuradora-geral da República afirmou esta sexta-feira, em declarações à Rádio Renascença, que existem em Portugal redes de compadrio e corrupção nas áreas da contratação pública. “Há efetivamente algumas redes que capturaram o Estado e que utilizam o aparelho do Estado para a prática de atos ilícitos e, felizmente, algumas estão a ser combatidas, mas outras continuam a fazer isso e há até outras que começam”, disse.

Aos microfones da Renascença, no programa Em Nome da Lei, Joana Marques Vidal disse que a realidade mostra que há uma disseminação desse tipo de práticas “em vários organismos de vários ministérios, autarquias e serviços diretos ou indiretos do Estado”.

Já em 2015, numa entrevista ao Público e RR, a então procuradora-geral da República recém-empossada tinha dito: “Há uma rede que utiliza o aparelho de Estado” para corrupção. Se fosse hoje, diz, só mudaria uma parte da afirmação: punha no plural e não no singular. Ou seja, “há redes que utilizam o aparelho do Estado para corrupção”.

Ainda assim, Joana Marques Vidal, que terminou recentemente o seu mandato, tendo sido substituída por Lucília Gago, nega que tenha uma visão catastrófica sobre a corrupção em Portugal. “Eu não tenho essa ideia de que toda a gente é corrupta e que todas as autarquias são corruptas e que todos os políticos são corruptos. Não tenho nada essa ideia. Sou, aliás, uma defensora de que os partidos são um elemento essencial da democracia. Poderemos depois discutir se deviam estar mais abertos ou menos abertos, autorregenerem-se, não serem tão complacentes com certos tipos de atividades, mas isso é outro tipo de discussão”, disse.»


Fonte

“Assalto ao BCP” para totós

Indivíduos com responsabilidades no Parlamento, no Conselho de Estado e na “imprensa de referência”, inclusive no PS, têm feito repetidas declarações públicas onde garantem ter ocorrido um “assalto” ao BCP orquestrado por Sócrates com a cumplicidade de Teixeira dos Santos, Armando Vara, Carlos Santos Ferreira, Joe Berardo e Vítor Constâncio. Há versões onde se junta Ricardo Salgado ao bando, mas todas as variantes se fundamentam nas mesmas suspeitas contra Sócrates que ao tempo, 2007, logo apareceram mediatizadas. Quem propala esta tese igualmente pede a intervenção do Ministério Público e as respectivas condenações em tribunal que profetizam ser inevitáveis dadas as “evidências”. Será verdade? Será que existiram mesmo Doze anos de mentira como o poeta-Guerreiro detalha em delírio calunioso e abraçado a uma série de inacreditáveis mentiras do Público? Será que a Constituição, o Estado de direito, o sistema político, o poder dos magistrados e os poderes fácticos foram suspensos entre 12 de Março de 2005 e 21 de junho de 2011?

A narrativa do “Assalto ao BCP” tem uma origem que brilha ofuscante: Jardim Gonçalves. Recentemente, na Assembleia da República, Filipe Pinhal reproduziu-a, tendo sido de imediato amplificada e explorada por políticos e impérios mediáticos direitolas. Podemos ter a certeza de que o relatório final da II Comissão Parlamentar de Inquérito à Recapitalização da Caixa Geral de Depósitos e à Gestão do Banco a vai incluir como suspeita para a eternidade ondulando ao vento pois o PSD e o CDS não admitem que se acabe com esse maná de chicana contra os socialistas. Para quem tenha acompanhado as sessões dessa comissão, ficou patente que a narrativa não causa amargos de boca à esquerda, bem pelo contrário. Todos os partidos, talvez sem surpresa, mostram ter algo a ganhar com a permanência no espaço público de uma grotesca deformação da realidade. E há quem chame a isto “fazer política”, para a tragédia ser vexante.

O filme do “assalto” implica criar uma cenário de ficção, uma ilha algures no meio de um vasto oceano por identificar. Nesse reino, existiu uma pessoa muito má com algum poder (um primeiro-ministro) que colocava homens de mão em lugares-chave (num banco público) com a finalidade de obter o poder supremo (o “domínio da banca” e da “comunicação social”, pelo menos) para assim se perpetuar como tirano até ao fim dos seus dias (ou para obter uma fortuna colossal, tanto faz e vai dar ao mesmo). Onde é que já vimos isto? Em milhares de filmes, séries, livros. Gostamos desse tipo de historieta porque é básica e promete um final feliz onde o mau da fita é combatido, derrubado e castigado pelos bons. Não temos de nos esforçar para validar as informações, analisar os factos, entender as intencionalidades e filtrar as coincidências. Podemos descontrair quando temos tempo e pachorra para sermos enganados. O segredo da nossa adesão está na simplicidade diegética, a redução à caricatura das personagens e suas acções. É essa abstracção que permite ir desligando as capacidades cognitivas até mergulharmos na crença onírica de estarmos perante seres fantásticos com alguma realidade, alguma verdade. Quando a ficção é boa, um filme, uma série ou um livro fazem-nos sonhar – de olhos bem abertos. Quando é péssima, também – se precisarmos de adormecer. O nosso cérebro consome histórias maravilhosas e terríveis desde a criação da linguagem pela mesma razão que o nosso corpo consome alimentos: para que o organismo tenha energia e assimile substâncias para decompor, distribuir e voltar a reorganizar. No caso das histórias, cada um as decompõe de acordo com a sua idiossincrasia e volta a reorganizá-las de acordo com a sua circunstância. É por isso que o mesmo livro ou filme pode, ao ser consumido repetidas vezes ao longo do nosso crescimento e finitude, oferecer diferentes sentidos, diferentes interpretações, diferentes lições e experiências subjectivas de acordo com as possibilidades – e necessidades – neurológicas e psicológicas da situação que for a nossa aquando da assimilação de mais um “Era uma vez”. A ficção, seja de autoria vígil ou de autoria biológica no sono, consiste numa única fórmula estrutural: colocar-nos perante um problema (um ou mais desafios) e dar-nos a solução ou deixar-nos à procura dela (um final fechado ou aberto, unívoco ou equívoco). É por isso que precisamos de narrativas para além do pão nosso de cada dia, pois a vida em nós quer triunfar sobre a morte seja onde e como for; por exemplo, lá onde o pensamento mágico tem mais força do que a gravidade e o deus ex machina e guionista faz milagres no final de cada acto ou episódio.

Teixeira dos Santos disse que a ideia de escolher Santos Ferreira e Vara para a CGD foi dele, apesar dos avisos de Sócrates – mas isso não vem ao caso. Os empréstimos da CGD envolviam dezenas de técnicos e especialistas de diferentes áreas da Caixa desde o começo de cada processo até ao seu desfecho e eram aprovados colegialmente por 5 ou 6 administradores após extensa discussão – mas isso não vem ao caso. Celeste Cardona, então ex-ministra da Justiça pelo CDS, era colega de Vara e tinha o pelouro dos serviços jurídicos na administração de Santos Ferreira; ou seja, era ela a responsável pelas condições legais dos contratos de empréstimo, e a senhora foi para a comissão de inquérito falar desse tempo com orgulho – mas isso não vem ao caso. Empréstimos para comprar acções eram, e são, prática corrente na banca mundial; sendo que o valor concedido a Berardo em nada de nada era significativo para os capitais da CGD e parecia um bom negócio à luz das cotações e perspectivas de subida à época – mas isso não vem ao caso. O contrato obrigava Berardo a dar como garantias acções do BCP que já detinha, mais as que viesse a comprar (entre 9 entidades possíveis, não era só para o BCP) e ainda o espólio artístico da Fundação Berardo que valia mais do que o empréstimo – mas isso não vem ao caso. José de Matos presidiu à reunião no BdP, em Agosto de 2007, onde foi aprovado o pedido de Berardo para uma participação qualificada superior a 5%; se essa reunião foi fundamental para que o “Assalto ao BCP” ocorresse, como explicar que Passos Coelho tenha colocado o mesmo José de Matos como presidente da CGD em 2011? – mas isso não vem ao caso. Pedro Duarte Neves, responsável pela supervisão no BdP à época, declarou que não viu nada de errado na ida de Santos Ferreira e Vara para o BCP; este mesmo ex-vice-governador do Banco de Portugal teve o seu mandato renovado já com Passos Coelho como primeiro-ministro – mas isso não vem ao caso. Santos Ferreira e Armando Vara foram para o BCP por escolha de 97% dos votos do capital accionista presente na assembleia geral; o que significa que as acções de Berardo adquiridas com o empréstimo da CGD foram irrelevantes para essa escolha – mas isso não vem ao caso. Paulo Macedo foi vice-presidente de Santos Ferreira no BCP, logo terá sido a segunda figura mais importante no “assalto”, o mesmo Paulo Macedo que viria a ser ministro de Passos – mas isso não vem ao caso. Paula Teixeira da Cruz, essa mesmo, Filipe de Botton e Alexandre Relvas, muito próximos de Cavaco Silva, António Mexia, ex-governante com Durão Barroso, e Alexandre Soares dos Santos estiveram ao lado de Berardo durante e depois do “assalto” – mas isso não vem ao caso. Cavaco Silva promulgou o decreto-lei que criou a Fundação de Arte Moderna – Colecção Berardo, o tal negócio que se diz ter sido feito por Sócrates para vir a usar Berardo no “assalto”, o mesmo Cavaco que em momento algum dos seus dois mandatos se quis meter publicamente neste assunto por ele não ter ponta legal, sequer racional, por onde se pegar – mas isso não vem ao caso. Quando mais de 70% dos accionistas do BCP escolheram Santos Ferreira e Vara para tentarem salvar o banco a situação era de caos com a descoberta de que Jardim Gonçalves, ex-líbris da mais aristocrática elite financeira e católica em Portugal, era um escroque e um incompetente – mas isso não vem ao caso. Não há notícia de que a presença de Santos Ferreira e de Armando Vara no BCP tenha, fosse de que forma fosse, servido para dar a Sócrates algum tipo de benefício político, fosse ele qual fosse – mas isso não vem ao caso.

Na ilha onde se deu o “Assalto ao BCP” não havia Presidente da República, polícia, Ministério Público, tribunais, Assembleia da República, partidos para além do PS, imprensa livre, Conselho Superior do Ministério Público, Conselho Superior da Magistratura, Estado de direito. Nem sequer havia, pasme-se, algum heróico sindicato de procuradores ou de juízes capaz de levar as “evidências” do “assalto” à bófia. Era um Estado de fantochada, todos sabiam o que se estava a passar, todos viam as “evidências”, mas ninguém podia fazer nada. Sócrates, telepaticamente, controlava ministros, administradores de bancos, o governador do Banco de Portugal e demais vice-governadores, a nata financeira portuguesa, até a madame que viria anos depois a ser a inventora do “fim da impunidade” e implacável perseguidora de socráticos, e não esquecendo o Rei de Espanha usado para varrer uma brilhante e corajosa jornalista, assim reza a teoria da conspiração já com direito a série na RTP. Eis a navalha de Occam transformada num alguidar. Obviamente, eram “evidências” a mais para se conseguir montar uma golpada judicial. Era estupidez, paranóia e alucinações a mais até para fanáticos e pulhas. Pelo que se foi por outro caminho, o da caldeirada de enguias à moda de Aveiro. A hecatombe do poder bancário da direita – onde BPN, BPP e BCP se afundaram em ilegalidades e as lideranças foram dizimadas – no meio da tempestade económica mundial obrigava a recuperar o poder governativo para conter os danos e salvar as jóias. Recuperá-lo a todo o custo e por todos os meios – especialmente, os ilícitos. A dimensão e gravidade da crise, o desespero e o pânico inauditos, levou a direita a fazer o que nunca antes tinha feito depois do 25 de Abril, mas que conhecia de ginjeira como saudosa memória. Jardim Gonçalves iria ter a sua vingança, Cavaco iria ter a sua vingança. O perfeito alvo para todos os ódios, o bode expiatório para todos os males, a manobra de diversão que permitia ocultar tudo o que a “gente séria” tinha abarbatado graças ao cavaquismo, era um político que não tinha medo da oligarquia, que parecia imbatível nas urnas, que apresentava um projecto para o País que dava resultados em crescendo – só interrompidos pela maior crise económica mundial em 80 anos. Nasceu o “Face Oculta”, um plano de espionagem de um primeiro-ministro em funções através de um seu amigo e companheiro político que igualmente se pretendia queimar em auto-de-fé, salgando o seu trajecto profissional e destruindo o seu bom nome. Nesta violenta caça aos “inimigos”, o aparelho de Justiça foi usado verticalmente para assassinatos políticos, tendo-se chegado à ignomínia de condenar um cidadão à pena máxima com prisão efectiva num suposto crime onde nem sequer se obtiveram provas para justificar uma pena suspensa. A mesma lógica – acima, abaixo e ao lado da Lei – na “Operação Marquês”, um processo concebido para ser em si mesmo uma condenação; daí se ter devassado, exposto e prendido vários cidadãos sem se saber porquê mas sabendo-se perfeitamente para quê. Alguma vez se fará o levantamento e exposição dos crimes e irregularidades cometidos por agentes da Justiça e jornalistas sob o pretexto de se estar a “combater a corrupção”? Não, jamais, é a resposta – se continuar a não existir no País uma única força política que pretenda fazer da Justiça um santuário dos direitos, das garantias, da liberdade.

O “Assalto ao BCP” foi criado, e é agitado, pelos mesmos que andam desde 2004 a usar polícias, magistrados e jornalistas para tentar obter pela Justiça o que não conseguem pelo voto. Aqueles para quem a política não passa de um assalto à cidade.

Perguntas simples

Se Marcelo quer delegar a simbólica da Pátria em caluniadores profissionais e oferecer o Ministério Público à direita dos casos e das golpadas, julgando-se muito esperto por estar a cavalgar o populismo larvar e mediático ao mesmo tempo que serve os seus amigos e clientelas, não existirá ninguém na comunidade que em 2021 represente aqueles para quem a Justiça não pode ser uma peça num jogo de xadrez sem regras?

Joana Marques Vidal diz que PS e PSD querem cometer crimes

«Joana Marques Vidal lançou fortes críticas às propostas de alteração da composição do Conselho Superior do Ministério Público (CSMP). Durante um jantar/debate, organizado esta segunda-feira pela Comissão Justiça e Paz de Coimbra e pela Associação Cristã de Empresários e Gestores, a ex-procuradora-Geral da República considerou que as mudanças na estrutura do CSMP propostas pelo PS e PSD podem pôr em causa a autonomia do Ministério Público.

“Se o Ministério Público não tiver autonomia face aos outros poderes do Estado, como vem, aliás, na Constituição, não consegue ter autonomia para levar a julgamento quem devia levar”, declarou Marques Vidal, considerando que se quer “dominar o Ministério Público porque se quer dominar os tribunais e os juízes”. “É uma pescadinha de rabo na boca, está tudo ligado”, acrescentou nas declarações transmitidas pela SIC Notícias.

Na opinião de Marques Vidal, o conjunto de propostas é “altamente preocupante” porque põe “em causa a autonomia”. “A composição do conselho tem de ser discutida partindo do pressuposto de que a sua composição não pode mudar de forma a que haja uma interferência em processos concretos. Senão, temos a possibilidade de ter o poder executivo ou outro a interferir nos processos. Isso não pode ser nunca”, afirmou.»


Fonte

Lapidar

Populismo judiciário

Quando o rosto visível da justiça é feito de suspeitas e humilhação, esta não se credibiliza; antes alimenta o populismo dos juízos sumários e dos discursos enviesadamente morais. À condenação antecipada falta a serenidade de um tribunal onde o contraditório é raiz de uma civilização. Associando-lhe o vampirismo mediático, aproximamo-nos de uma justiça de tabelião.


A.R.

Revolution through evolution

Motherhood can deliver body image boost
.
Two hours a week is key dose of nature for health and wellbeing
.
One day of employment a week is all we need for mental health benefits
.
Not always reaching your potential is okay, but overthinking it is a problem
.
Can Facebook Help Predict and Monitor Disease? Study Says “Yes”
.
Birth order influences CEO risk-taking
.
How Information Is Like Snacks, Money, and Drugs — to Your Brain
.
Continuar a lerRevolution through evolution

Franciscanismo ou segurismo?

«Se [Vítor Constâncio] nada fez por incompetência, negligência ou dolo, não sabemos. Só não podemos aceitar que, depois da investigação do PÚBLICO, ele possa continuar a dizer que não teve nada a ver com esses dias de vergonha, em que uma elite espúria tentou tomar de assalto o sistema financeiro.

«Enquanto jornal empenhado na defesa do interesse público, o que sabemos permite-nos desde já estabelecer a sua responsabilidade e a sua culpa profissional e ética. Mas não basta: exigimos também que a Justiça se envolva para que, como cidadãos, nos seja possível viver de cabeça levantada por termos sido capazes de ajustar as contas com esse passado trágico e vergonhoso.»

«Caímos assim na essência da Operação Marquês. No julgamento dessa nódoa da história nacional recente, nessa tentativa de uma elite plutocrata criar um sistema de poder tentacular.»


Director do Público

*_*

Francisco Assis voltou a dar proveito a quem o lê no PúblicoOs discursos do 10 de Junho – fazendo uma análise compreensiva do efeito do investimento ideológico e retórico no 10 Junho para a sociologia política da conjuntura e apelando à elevação e contributo cívico nessa cerimónia. Porém, contudo, todavia, seria esse o tema mais importante à disposição do também José Pereira de Miranda? Nem lá perto.

Perto, muito perto, tão perto que o seu silêncio se torna inaceitável caso pretenda manter a imagem de integridade como político, está Manuel Carvalho. O actual director do jornal onde Francisco Assis deixa o seu nome tem publicado acusações que atingem a honra de dezenas ou centenas de pessoas com quem o militante socialista desde 1985 não só fez trabalho partidário como partilhou altas responsabilidades públicas; e com quem, em muitos casos, naturalmente estabeleceu laços de convivência privada, amizade. Não só o director do Público espalha calúnias como do alto do seu estatuto e alcance mediático apela à intervenção policial e judicial para se conseguir condenar essas pessoas. Nesse grupo está, com estupendo protagonismo, o próprio Francisco Assis.

A afirmação de que existiu “uma elite espúria/plutocrata” que foi investigada e está a ser julgada na “Operação Marquês” implica que o presidente do Grupo Parlamentar do PS entre 2009 e 2011 tenha sido um activo cúmplice dessa elite e desses crimes por condenar. Ele e todos os deputados do PS ao tempo posto que a “elite espúria/plutocrata” até poderia contar com a conivência do Presidente da República de seu nome Cavaco Silva e dos tribunais – a que se juntam os grupos parlamentares do PSD, CDS, PCP e BE que assistiam ao espectáculo sem moverem uma palha para o impedir – até poderia desfrutar do silêncio dos procuradores do Ministério Público aterrorizados pela presença do corrupto Pinto Monteiro, mas jamais se aceitará que os deputados do PS não soubessem o que o Sócrates estava a fazer com a cumplicidade da sede do poder soberano, a Assembleia da República. Portanto, Francisco Assis merece ir para o chilindró logo na primeira leva de ramonas a caminho de Évora, afiança o director do “jornal empenhado na defesa do interesse público“.

Não há meio termo, não há compromisso possível, é uma daquelas situações. Para o homem que aqui vemos – Um discurso para a história de um dia histórico – comer e calar é perder a face, o seu bom nome, o mínimo de respeito próprio sem o qual nenhum ideal cívico e político será algo mais do que oportunismo e hipocrisia. Tal não garante boas noites de sono.

Francisco, abandona esse antro de pulhas.

O nome das coisas

Que nome se deve dar a quem, escrevendo na “imprensa de referência” onde assina opiniões como “jornalista” e acabado de chegar de uma honra de Estado onde foi considerado um exemplo para a comunidade pelo Presidente da República, se lembra de ir buscar o nazismo, o Holocausto, a pessoa de Adolf Eichmann e a reflexão de Hannah Arendt para insultar, ofender e caluniar Vítor Constâncio mais um número indeterminado de cidadãos?

Citizen Karvalho


.

«If the headline is big enough, it makes the news big enough.»

Charles Foster Kane

1941

*-*

Ao dia 18 de Junho de 2019, Manuel Carvalho é capaz de publicar estas atoardas, insultos e ofensas em nome da Redacção e do accionista do Público:

– Que é Vítor Constâncio quem anda a “reescrever a história” – ou seja, que anda a mentir; enquanto ele, o cidadão Karvalho, possui a única versão admissível da história.

– Que Vítor Constâncio se refugia em “formalismos legais” – ou seja, que a obediência à Lei não deve ser chamada para este caso; postula o cidadão Karvalho só porque lhe dá jeito.

– Que “para o dinheiro sair da Caixa para Berardo, o Banco de Portugal tinha de lhe conceder a devida autorização” – ou seja, que o Público continua a debochar num ponto onde já foi desmentido peremptoriamente ao se conhecer o teor do contrato de empréstimo; assim se vendo como a realidade não é uma cena que assista ao cidadão Karvalho.

– Que “o BdP poderia ter evocado o número 2 do artigo 118 do Regime Geral das Instituições de Crédito e Sociedades Financeiras” para justificar o que seria uma decisão absurda in illo tempore – ou seja, que o Banco de Portugal devia ter recorrido a “formalismos legais” para prejudicar Berardo; postula o cidadão Karvalho precisamente ao arrepio do que escreveu linhas antes só porque lhe volta a dar jeito.

– Que “só num país de loucos um banco empresta dinheiro a alguém para comprar acções, recebendo como garantia exclusiva essas mesmas acções” – ou seja, a prática então corrente em todo o Mundo de financiamento bancário dos investimentos em bolsa, prática que continua a ser usual pelas melhores razões comerciais e capitalistas, e a existência de um contrato de empréstimo que poderia executar as acções a comprar, mais as já existentes e ainda o património artístico da Fundação Berardo, tudo isto que ficou legalmente instituído é colocado ao nível de uma “loucura”; volta a mentir debochadamente com quantos caracteres tem o cidadão Karvalho.

– Que Vítor Constâncio “poderia ter travado a ambição de Berardo no BCP, recusando o seu pedido e, acto contínuo, anulando a exclusiva finalidade da linha de crédito negociada na CGD, nesse tempo gerida pela dupla Carlos Santos Ferreira/Armando Vara” – ou seja, que o então governador do Banco de Portugal devia ter agido contra a Lei só para satisfazer os caluniadores que em 2019 continuam a espalhar no espaço público dementes teorias da conspiração; delira encharcado em ódio o cidadão Karvalho.

– Que “uma elite espúria tentou tomar de assalto o sistema financeiro” – ou seja, que Sócrates (o “espúrio”), com Teixeira dos Santos, com a dupla Santos Ferreira/Armando Vara, tentou tomar de assalto o sistema financeiro, o regime, a União Europeia, o Planeta e arredores; calunia desvairado o desvairado e caluniador cidadão Karvalho.

– Que Vítor Constâncio “foi, no mínimo, cúmplice” “da trapaça“, “desse negócio ruinoso para o país e para os portugueses“, mostrando não ser “corajoso” – ou seja, que o então governador do Banco de Portugal é criminoso e cobarde, no mínimo; declara para a posteridade, e para o tribunal onde irá explicar melhor o seu decentíssimo argumentário, o valente cidadão Karvalho.

– Que “todas as conclusões a que chegámos se inscrevem na obrigação de um jornal responsável” – ou seja, se fazer uma parangona onde se lê “Constâncio autorizou Berardo a ir levantar 350 milhões à Caixa / Banco de Portugal aprovou investimento de Berardo no BCP com crédito tóxico da Caixa / Ex-governador disse no Parlamento que não sabia de nada” pode estar relacionado com a “responsabilidade” então dizer que “Manuel Carvalho é pago para fazer assassinatos de carácter e perseguição politica escudado na liberdade de imprensa” estará inequivocamente relacionado com a “objectividade”; inferimos imitando o cidadão Karvalho.

Este degradante episódio é muito mais do que uma rixa avulsa entre um director de um jornal, embriagado de soberba e má-fé, e um ex-governador do Banco de Portugal, vítima incauta de sórdidas e lunáticas calúnias. Chegados a este ponto – onde se assiste ao desfile de inacreditáveis exercícios esquizóides no que passa por “imprensa de referência”: Doze anos de mentira – é patente como a decadência da direita partidária explica a decadência dos seus impérios mediáticos. Esses dois braços da oligarquia estão neste momento barricados na judicialização da política e na politização da Justiça. Não têm mais nenhuma causa, de facto. Não têm causas porque faliram intelectualmente, caíram na bancarrota da decência. Assistem em desespero à perda do seu poder bancário e político, desde a vitória do PS em 2005, só lhes restando as golpadas dos magistrados justiceiros e corporativos, mais a ubíqua indústria da calúnia.

Manuel Carvalho, e o seu jornal que paga a caluniadores profissionais, revelou preferir o ataque à honra de pessoas e instituições em vez do cumprimento das regras básicas do jornalismo. Das mais básicas, senhores ouvintes. O tipo de jornalismo que pratica – essa miséria moral e deontológica assumida em notícias falsas e editoriais sinceros – não defende a democracia nem a liberdade. A cidadania que procura informação factual, rigorosa e imparcial dispensa o contributo sectário do cidadão Karvalho.

Rui Esgoto

"Temos todos, relativamente a qualquer português — quer esteja na política ou não esteja na política –, que respeitar o princípio da presunção de inocência e, respeitando o principio de presunção de inocência, temos de aguardar não pelos julgamentos populares mas os julgamentos nos tribunais. Infelizmente, esses julgamentos arrastam-se três, quatro, cinco, seis e sete anos e a pessoa vai sendo queimada em lume brando”, afirmou Rui Rio.

Questionado pelos jornalistas que o aguardavam no Forte Santiago da Barra, em Viana do Castelo, para o lançamento do livro “E agora, Portugal? – Tribuna Social”, do ex-deputado Eduardo Teixeira, Rio defendeu ainda que “os julgamentos das pessoas se façam nos tribunais e não na praça pública”. “Num estado de direito democrático não está correto nem para militantes do PSD, nem do PS, nem de coisa nenhuma“, frisou.

Fonte

*

"Não vejo nenhuma acusação seguir para tribunal, nenhuma sentença, nenhuma condenação de casos muito, muito graves. Penso que a justiça devia ser mais célere, mais capaz na condenação e no julgamento destes casos, porque, estes sim, todos os portugueses pagaram milhões de euros em impostos para salvar. Nem é bem salvar, é dar um jeito na banca", afirmou Rui Rio, em Viana do Castelo, à margem do lançamento do livro "E agora, Portugal? - Tribuna Social", do ex-deputado Eduardo Teixeira.

Questionado sobre o trabalho da comissão parlamentar de inquérito à recapitalização e gestão do banco público, o líder social-democrata disse terem sido cometidos "erros, provavelmente com dolo, por pessoas que ganhavam milhares e milhares de euros, porque a sua responsabilidade era muita".

"Afinal qual era a sua responsabilidade [dessas pessoas que ganhavam milhares]? Foi a mesma do porteiro que ganhava 700 ou 800 euros por mês? Isto não é justo. Isto sim, penso que todos os portugueses estão desejosos que haja julgamento justo, em tribunal, sobre esta matéria", sustentou.

Fonte

__

Deve constituir algum tipo de recorde. Na mesma ocasião, de rajada, conseguiu defender o Estado de direito e atacou o Estado de direito. Por um lado, chutou (e muito bem) para a presunção de inocência as questões sobre os autarcas do PSD e o eurodeputado social-democrata recém-eleito. Por outro, cuspiu (e muito mal) em cima de cidadãos que concebe como adversários políticos a merecer a justiça popular de que se fez porta-voz e agitador. Aproveita-se de nada ter de justificar, por isso despacha insinuações, suspeições e difamações demagógicas em modo de vendedor de atoalhados na Feira da Malveira. Aposto os 10 euros que tenho no bolso como nem sequer sabe o que tem sido dito na II comissão de inquérito à CGD.

Infelizmente, estas antinomias não causam surpresa em Rio, mas apenas porque já a causaram. Ao ter usado calúnias conspirativas na campanha eleitoral para o Parlamento Europeu, o actual presidente do PSD revelou a sua natureza no mínimo medíocre. Nada do que venha a dizer como suposto estadista e líder ou representante político tem valor porque ele é o primeiro a desprezar a sua palavra.

Prometeu, era bluff.