Jurisprudência do “Governo Sombra”

No último Governo Sombra – ou, como a minha vizinha do 4º andar o rebaptizou, no “Vai Pela Sombra” – tivemos direito a considerandos jurisprudenciais de três personalidades públicas de altíssima influência social e política. As ideias que nos deixaram merecem a nossa melhor atenção:

RAP - [...] Agora acendeu-se a luz, a gente vê as baratas e pode pôr-lhes um pé em cima. [...] É ou não é melhor que haja gente a ser investigada, julgada e até presa? E todos dissemos "É!". E, pelos vistos, o PS e o PSD disseram "Olha que não é, a gente gostava mais como era antigamente..."

RAP - Não tenho nada contra garantias, tenho qualquer coisa contra excesso de garantias.

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PM - [...] Não se faz justiça é quando se tem a sensação, como se teve durante demasiados anos em Portugal, que os casos a certa altura não chegavam mais longe porque o Ministério Público - não sei se por instruções directas, maquinações indirectas, não vou fazer juízos de intenção quanto a isso - mas é um facto: os processos não seguiam e passaram a seguir.

PM - Nós sabemos duas coisas. E essas duas coisas não provam nada, mas nenhuma delas contribui para um ambiente saudável. Sabemos que Ivo Rosa tende a discordar do Ministério Público no seu historial, e portanto nós temos aqui a ideia de que ele vai querer desfazer coisas, nomeadamente coisas feitas por Carlos Alexandre. E a segunda coisa foi José Sócrates ter-se manifestado satisfeito com este juiz de instrução.

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JMT - Atenção, no caso Sócrates sou completamente clubista. Espero que o senhor vá a julgamento, e seja condenado e vá para a prisão.

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Ricardo Araújo Pereira, genial humorista e lesado do BES, acha que os “corruptos” não se distinguem das nojentas baratas, uma peste que deve ser esmagada pelo implacável pé de um Estado policial. A partir desta ideia, soltou o seu entusiasmo com a visão de prisões cheias de “corruptos” a esbracejar como (lá está, o senhor é mesmo genial) baratas tontas e sem garantias. As garantias são uma chatice, explica este reputado jurisconsulto fedorento, porque atrasam o espezinhamento desses seres minúsculos, asquerosos e destituídos de direitos fundamentais que ele encontra amiúde – já devidamente investigados, julgados e prontos para entrega em Évora – nas capas da Cofina et alia. A estupenda novidade que teve a generosidade de partilhar connosco no programa foi a revelação de que PS e PSD são partidos que defendem criminosos e que atacam magistrados e polícias – ou talvez não sejam, mas este génio também não está preocupado porque mete ao bolso a mesma sacada de euros em qualquer dos casos.

Pedro Mexia, um dos mais brilhantes intelectuais do coiso e tal por causa disto e daquilo, explicou aos telespectadores e radiouvintes que a Justiça é uma sensação. Por exemplo, ele sente que certos processos envolvendo um certo cidadão, que ao tempo era primeiro-ministro, não chegaram a tribunal por instruções directas à mistura com maquinações indirectas; deixando esta ideia apenas como sorridente sugestão para entreter o povoléu dado não ser avisado ir além da pulhice sonsa, para mais tendo em conta que o senhor é formado em Direito pela Católica e adquiriu uma vaga noção do que é uma calúnia e suas potenciais consequências. A mesma elevação deontológica e rigor jurídico no trato do perigoso Ivo Rosa, alguém que o Mexia afiança que “tende a discordar do Ministério Público” e que “vai querer desfazer coisas feitas por Carlos Alexandre“. Poderia o probo Mexia ter dito que Ivo Rosa tende a defender a Lei com o máximo rigor e que é precisamente por causa disso que tem contrariado certos abusos do Ministério Público, ao contrário de Carlos Alexandre que não só validou todos os abusos dos procuradores como ainda se ofereceu publicamente para os aumentar e agravar? Poderia o honesto Mexia ter dito que Sócrates se manifestou satisfeito não por ter Ivo Rosa como juiz mas por estar, finalmente, sujeito às decisões de um juiz íntegro? Poder podia, como brilhante intelectual que é, mas não seria a mesma coisa – isto é, não seria o assassinato de carácter que executou em público a troco daquilo com que se compram os melões.

João Miguel Tavares, um dos mais notáveis portugueses vivos ou mortos ou por nascer, elevado à categoria de estribeiro-mor do marcelismo como fruto meritório de um talento olímpico para despachar calúnias a troco do belo dinheirinho e à ferocidade canina exibida durante a Grande Guerra Socrática, anunciou à Grei que se está a cagar para o Ivo Rosa, para as provas que o Rosário Teixeira andou com tanto custo a recolher e a inventar, para os tribunais, para o Estado de direito e até para o 10 de Junho. Apenas lhe interessa uma coisa, de resto tão simples que tem toda a razão para estar irritado com a demora: que Sócrates vá para a prisão por uns bons anos, o máximo que der para arranjar; mas sem despertar suspeitas no TEDH, cuidado com isso para não dar chatice. O modo como o seu sonho lindo será realizado é irrelevante, até pedindo para não ser maçado com os pormenores processuais. Esta adorável concepção do Direito, da Justiça e do aparelho de Estado vem de um ilustre “liberal” que tem ubíqua presença na comunicação social e que se concebe como salvador do regime actualmente ameaçado pela democracia e pelo Estado de direito, de caminho ainda conseguindo regenerar a direita portuguesa abraçado ao Rui Ramos e ao Zé Manel. Espíritos curiosos gostariam de conhecer a tradição liberal que defende a ideia de meter na prisão quem não gramamos, ou quem aqueles que nos pagam não gramam, mas não adianta procurar em canhenhos poeirentos. Trata-se de uma tradição original, uma nova filosofia política nascida da inteligência, cultura e decência do notável João Miguel.

Estas Três Graças (ou Três Caretas, na mitologia da Golegã) surgem semanalmente abraçadas e dançarinas na TV e na rádio. Espalham uma harmonia encantadora, desvairadamente popular, borguista. Consiste na propaganda de ser o Artigo 2º da Constituição da República Portuguesa uma aberração que ou está a mais ou tem de levar uma grande volta. E há quem lhes pague, e tanto, para amplificarem os discursos do ódio político e fazerem coro com aqueles que desprezam a liberdade.

9 thoughts on “Jurisprudência do “Governo Sombra””

  1. sobre o jmt está tudo dito sobre um filho de funcionário das finanças e graças ao mexia arranjou um biscate para o 10 d3 junho
    tenho um olho que é cego.
    sobre o pedro mexia é um militante de ultra direita do CDS/chega.
    do rap é o bobo da corte e coitado tem que fazer pela vida.
    sempre ouvi que os bobos eram usados pelos reis quando não tinham as rainhas ao lado.

  2. BRAVO!!!! Finalmente alguém expressa (de um ponto de vista formal impecável!) aquilo que penso desses três marretas há já uns anos! Um programa de ‘debate’ (!!!) onde se urdem vilipêndios constantes (sem contraditório e com o beneplácito do ricardismo pereirismo vigente) à democracia e às garantias civilizacionais de um estado de direito em modos que fariam corar de vergonha a senhora Le Pen!

    Obrigado!! É tudo o que me ocorre dizer.

  3. A propósito de baratas, viva o Baygon do Valupi, borrifando com cirúrgica eficácia os entrefolhos rancorosos, pretensiosos e malcheirosos da bicharada chafurda.

  4. Porque será que o fedorento-mor, que já chegou à qualidade de juiz da Idade Medieval em termos de pensar a justiça e ainda vai atingir a meta de lavrar sentenças na tv ao jeito das Erínias arcaicas, estando Bava incluído pelo MP no clube das “baratas” nunca pronuncia ou descarrega este nome nas suas descargas de dejectos que lança pela boca?
    Será que o Bava sabe coisas pouco abonatórias do fedorento quando este era o vendedor-mor de produtos falsos a troco de fartos maços de massa?
    Se chegou tão rapidamente ao lixo que é actualmente é, certamente, porque o lixo que agora lhe veste a pele já lá existia em elevado potencial.

  5. Defender corruptos é, sem dúvida mais original que estar contra eles. Não sei é se deixa de ser errado. Bonita também, é a voraz vertigem de quem não gosta de deixar ninguem sem garantias mas, no entanto, se apressa à jugular de juízes, procuradores, comentadores, escritores, humoristas e até filhos de pessoas que trabalharam nas finanças! Usando tudo como um insulto. Gostava de saber a sua posição sobre as restantes profissões para poder fazer a mesma peneira consigo. Nada de pessoal, apenas como representante dessa classe, ou da falta dela.
    Essa de escolher juízes tem muita graça, os maus e os bons, de acordo com o nosso gosto pessoal, um bocadinho como fazemos com o arroz. Enfim, manias!
    Já vi coisas piores deixe lá! Tipo anarquistas sanguessugas da democracia.

    Antes que alguém pergunte por que razão estou aqui, se não concordo com o teor geral do vosso coiso, é porque gosto de saber tolerar pensamentos diferentes dos meus.

  6. o Valupi é sacerdote, todos dias celebra a eucaristia da morte, esperando a ressurreição , de são sócrates. e quem não vem à comunhão não é bem vindo.

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