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A solução à espanhola que nos teria salvado da destruição insana

«A Espanha não teve o chumbo do PEC 4, e, portanto, pôde evitar o resgate; e, por isso, nunca teve a sua credibilidade internacional tão afectada como Portugal teve.»


Primeiro-Ministro de Portugal, Setembro de 2019

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Não é possível encontrar, em toda a Internet, uma referência que seja a esta declaração de Costa lançada para o éter mediático na sua última entrevista à SIC (se existe, rogo que me indiquem onde para corrigir). Suponho que também não existam referências indirectas no comentariado (mas sei lá). No entanto, contudo, todavia, esta é só a declaração política mais importante em Portugal desde [é favor preencher a gosto – ou seja, com desgosto].

O momento que leva ao atrasadíssimo reconhecimento público por parte de Costa do que foi a defesa do interesse nacional e do bem comum por parte de Sócrates e de quem com ele estava nesse Governo – até aos limites do imaginável e até mesmo uma beca para além – começa no minuto 16 da entrevista. Bernardo Ferrão, uma infeliz e incompetente escolha para o jornalismo político que só se justifica pela sua disponibilidade para o sectarismo rasteiro, achou que ia entalar o entrevistado com a comparação entre Portugal e Espanha. Costa agradeceu a benesse e limpou o rabinho ao entrevistador. Como o Ferrão não parava de escavar o buraco onde se enfiou voluntariamente, o actual secretário-geral do PS e primeiro-ministro em funções ia ficando saturado e, na procura de ainda mais argumentos na categoria do “isto é óbvio, pá”, cometeu o deslize de ir parar aos idos de Março de 2011. Rapidamente o assunto ibérico na berlinda deixou de estimular a perseguição canina do “jornalista”.

Aqueles que espatifarem o seu rico tempo a ouvir esse trecho da entrevista ficam autorizados a tirar umas ilações correspondentes sem o mínimo risco de errar. Por exemplo, passa a ser inevitável ver em António Costa um alto responsável político que teria tentado, com o máximo das suas forças, evitar que o PEC 4 fosse chumbado usando exactamente o mesmo racional dos governantes ao tempo. E, num outro exemplo, é fatal ver em António Costa um cidadão que consegue calcular o valor da pérfida e estupidamente colossal destruição em capital financeiro, estrutura económica, tecido social, qualidade e segurança da vida pessoal – a que se soma o número de vidas que se desgraçaram e perderam em doenças e suicídios em consequência das decisões tomadas pelos partidos que chumbaram o PEC e impuseram o resgate de uma Troika fanática da “austeridade salvífica” que encontrou em Passos o carrasco guloso para cumprir as ordens e embriagado de desprezo para aumentar a devastação – num fenómeno de anos que, como também referiu na entrevista, só agora começa a permitir a recuperação dos instrumentos internacionais e estatuto do País para conseguir ter acesso a capitais necessários à boa gestão das contas públicas e à promoção dos investimentos estruturais por fazer há uma década.

Houve quem, para além de Sócrates e do PS ao tempo, tivesse antecipado o que iria acontecer se o PEC 4 fosse chumbado. Eram umas raríssimas e rarefeitas vozes, inaudíveis no berreiro furioso que queria sangue numa estratégia de terra queimada, vingança rancorosa contra aquele perante o qual se sentiam e sabiam inferiores e a captura do poder pelo poder. Infelizmente, tragicamente, em 2011 não pudemos ter uma solução à espanhola; confirmou Costa e confirma o silêncio cúmplice que abafou a sua extraordinária e fundamental recordação.

Revolution through evolution

Many older adults aren’t fully prepared for emergency situations, poll finds
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Hardship during the Great Recession linked with lasting mental health declines
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Furry friends ease depression, loneliness after spousal loss
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Squirrels listen in to birds’ conversations as signal of safety
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Study shows the social benefits of political incorrectness
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Developing a richer understanding of natural sciences critical to making better policy decisions
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‘Mental rigidity’ at root of intense political partisanship on both left and right, study finds
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Lapidar

«Uma coisa que agradeço é que não me contem historietas. Pois em relação à proposta do autarca de Santa Comba Dão para a criação de um “centro interpretativo” dedicado a Salazar, na terra natal do ditador, sintomaticamente a situar na cantina-escola Salazar, convenientemente sediada na avenida dr. António de Oliveira Salazar, não só nos querem contar uma historieta como, enquanto o fazem, tomam-nos por parvos.

Não faltam bons motivos para promover exercícios interpretativos do Estado Novo. Na transição para a democracia, descurou-se esta vertente, perpetuando uma certa invisibilidade da natureza ditatorial do regime, explicável pela ausência de um movimento social fascista e por uma passividade bucólica, traço marcante da sociedade. Até com uma rutura política seguida de revolução social, o país preferiu não interpretar o passado, remetendo-o para o mesmo lugar silencioso.

De certa forma, o museu Salazar, proposta que afinal nunca existiu, representa o regresso desta invisibilidade crónica do salazarismo enquanto regime repressivo e autocrático. Sintomaticamente, num artigo trôpego, o historiador Luís Reis Torgal – a quem é atribuída alguma responsabilidade científica na proposta autárquica – tentou promover uma “reflexão séria e calma” sobre o tema. E o que nos propõe (enquanto referenciava um rol de dissertações que orientou sobre os mais diversos assuntos)? Que ajudemos a autarquia a resolver o problema que é “manter em ruínas” a casa do ditador, garantindo que o que está em causa é a criação de um centro interpretativo, a partir do “espólio” de Salazar, articulando-o com outros projetos de musealização a criar na região (António José de Almeida em Penacova; Tomás da Fonseca em Mortágua; Afonso Costa em Seia e, cereja no topo do bolo, Aristides de Sousa Mendes em Carregal do Sal).

Quanto mais se sabe, pior se torna o cenário. Só uma exorbitante neutralidade axiológica e uma fúria normalizadora podem levar a que se pondere juntar, na mesma rede, republicanos insignes, figuras de cultura, democratas corajosos e referências morais absolutas com um ditador abjeto e de baixa estirpe.

Fica demonstrado que temos, como comunidade, um problema com o legado do Estado Novo. O que torna imperioso que se multipliquem centros interpretativos: nos tribunais plenários, nas antigas prisões políticas, nas fábricas, nas faculdades onde a PIDE entrou ou nas escolas onde professores foram expulsos. Em todos os lugares menos na aldeia natal do ditador.

A ideia é uma afronta à memória e, pior, adensa um espetro que paira sobre o futuro. Não sei se os historiadores de Coimbra têm dado conta, mas o regresso do fascismo não se fará de botas cardadas, com marchas militares e mecanismos repressivos como os do passado. É precisamente pela forma sonambúlica como se deixa entrever que o fascismo de hoje é assustador. Não ajudemos, por isso, a promover um voyeurismo mórbido em torno do “espólio” de um tirano.»


O museu Salazar nunca existiu

Catarina Martins pede para ser ouvida por Ivo Rosa

O nosso amigo MRocha chamou-nos a atenção para um momento no debate Assunção-Catarina onde a Coordenadora Nacional do Bloco de Esquerda diz em público que Paulo Núncio inventou a mielas com Passos Coelho uma marosca em ordem a permitir que Sócrates trouxesse para Portugal o dinheiro da corrupção que andou a branquear na estranja. Não foram exactamente estas as palavras usadas, pois teve o cuidado de diminuir na medida do possível o choque que a coitada da Cristas iria ter com a bombástica revelação, mas as palavras registadas ao vivo oferecem às orelhas exactamente a mesma conotação:

"Era bom lembrar o seguinte. No tempo do Governo PSD-CDS, no tempo dos maiores cortes, em que as pessoas mais sofreram, Paulo Núncio, secretário de Estado do CDS, fez uma amnistia fiscal que permitiu a Ricardo Salgado, a Zeinal Bava, a José Sócrates, outros, não só trazerem o dinheiro para Portugal sem pagar imposto, como lhes permitiu amnistia sobre os seus crimes de fraude, de evasão fiscal, de branqueamento de capitais, e temos hoje a Autoridade Tributária a ter dificuldades de agir. Portanto, nós temos de escolher de que lado estamos."

minuto 17

Donde, é de caretas e aleluia, a “Operação Marquês” acaba de dar um salto quântico. Catarina, a Grande Procuradora, já chegou onde nem Rosário, nem o esgoto a céu aberto, nem o mano Costa e o poeta-Guerreiro, nem os talibãs da madraça, ousaram entrar – daí esta incansável gente séria estar em campanha pelo recurso às “provas indirectas” de forma a que a vingança seja implacável e maximalista. Já esta pessoa extraordinária que concorre para deputada sabe – sem margem para a mínima dúvida – que Sócrates trouxe dinheiro para Portugal (i) oriundo de crimes vários (ii) e, especialmente, do crime de corrupção (pelo branqueamento) (iii). Dinheirinho bacano que ficou à sua disposição à pala do Núncio e do Passos, vai sem discussão; mas talvez o grupo de comparsas desse Governo, onde também aparecia a Assunção quando a obrigavam a largar a piscina, seja bem maior. De forma miraculosa, nem o jornalista presente (consta que houve um tempo em que os jornalistas eram formados com a missão profissional de fazer perguntas, que saudades) nem o alvo da calúnia lhe perguntaram como sabia tanta e tão maravilhosa coisa a respeito de tanta gente. E a Catarina, logicamente, terá depreendido que o assunto era de uma evidência com a qual todos concordavam, daí a ausência de questionamento e de contraditório, e não perdeu mais tempo a explicar como descobriu a colossal tratantada.

Da minha parte, abdico daquela que será uma encantadora justificação para a inexistência de qualquer capital em nome de Sócrates que possa ser associado ao que garante ter acontecido e fico particularmente curioso a respeito das provas que a Coordenadora do Bloco recolheu sobre a corrupção que tanto dinheiro deu ao diabólico corrupto. Deve ter sido bonita a roubalheira, deve. Acima e antes de tudo, adorava ouvir o relato sobre o episódio, ou episódios, em que um primeiro-ministro conseguiu esse feito de enganar, ou aliciar, o restante Governo e demais entidades públicas e privadas necessárias para levar a cabo e encobrir tamanha operação ou operações tão lucrativas. Alguns desses cúmplices transitaram para um outro Governo com o qual o BE fez acordos históricos, para dar mais tempero à história que lhe vai garantir um Pulitzer vitalício. Contudo, forço-me a ter a humildade suficiente para reconhecer que não serei eu o primeiro cidadão com quem a Dona Martins deve ir falar. Essa pessoa no topo das prioridades responde pelo nome de Ivo Rosa e terá o maior interesse em receber as provas até agora em falta no processo. Como sou leigo em Direito, ignoro se é possível bater à porta do tribunal e pedir para entregar umas papeladas ao magistrado que tem entre mãos o processo judicial mais importante da democracia portuguesa. Seja como for, vale bem a pena tentar. A Catarina que diga que é uma pessoa que costuma ir à TV repetir o que papou na Cofina – não foi outro o critério para montar a acusação da “Operação Marquês” pelo que deverá conseguir entrar sem dificuldade.

A direita vítima de congestão socrática

Perante o risco de desaparecimento do poder estruturante da direita no Parlamento – “Maioria — que percentagem?” -, principalmente pelo esperado aumento da abstenção, votos brancos e nulos à direita dada a desmobilização e confusão nesse eleitorado, fica mais claro um dos factores que contribui para esse fenómeno de consequências imprevisíveis; posto que, como refere Rui Oliveira e Costa, poderá ocorrer uma inaudita transformação no regime desde 1974. Esse factor chama-se Sócrates.

Apesar de já ter saído do PS, e de não ser verosímil que venha a ter capital político para funções de representação do voto popular após a “Operação Marquês” estar arquivada seja lá quando e qual for o seu desfecho, apesar de não existir ninguém que seja “socrático” no sentido de aparecer no espaço público como paladino, sequer teórico, de um qualquer projecto ou legado herdeiro dessa ex-liderança do PS e do Governo, os discursos da direita triunfante (aquela que, há décadas, ocupa PSD, CDS e impérios mediáticos engajados e congéneres, onde se inclui destacadamente a Cofina e a Impresa) são obsessiva e fanaticamente socráticos – no sentido em que a figura, a memória, a expectativa, o mero nome de Sócrates, criaram um vórtex que devorou a inteligência, sentido comunitário e talento político na direita decadente. Decadente não por causa de Sócrates mas decadente por Sócrates ser a sua principal (única?) causa.

Exemplo na berlinda onde acabo de tropeçar, o de João Marques de Almeida. Se sairmos à rua com a intenção de sabermos quem é a personagem através de perguntas ao bom povo que passa nada iremos descobrir. É um ilustre desconhecido com a sua fama circunscrita ao mundo da madraça e corredores alcatifados da oligarquia. E é um exemplo folclórico do direitolas ressabiado e rancoroso para quem Sócrates é o maná e o oxigénio dos seus neurónios a agonizar num deserto intelectual.

Desfrute-se:

«A propaganda benfiquista é o resultado de uma estratégia do clube desde que contratou o mesmo director de comunicação que trabalhou para o governo de Sócrates. Lembram-se da estratégia de comunicação dos governos socialistas de Sócrates para intimidar os seus adversários? O Benfica de Luís Filipe Vieira segue a mesma estratégia. A propaganda benfiquista tentou, ainda antes do início do campeonato, criar um facto consumado, “o Benfica será inevitavelmente campeão”, para intimidar os seus adversários. Tal como nos tempos de Sócrates, no caso com o PS, quem se mete com o Benfica leva.»

Fonte

A temática geral do texto remete para não sei quê do Porto e do Benfica, consta que há uns que não gramam os outros e vice-versa. Apesar da irracionalidade a pedir medicação, isso de se pretender enfiar Sócrates numa querela destas, o facto é que este Almeida ficou feliz da vida por vislumbrar a enésima oportunidade para se lambuzar no objecto que o fascina. Ora, fascinado fiquei igualmente eu com o grau zero de contacto com a realidade a que este fulano chegou publicamente. De que raio estará ele a falar quando invoca uma “estratégia de comunicação” para “intimidar adversários”? Quais eram os “órgãos de comunicação” que estavam ao serviço “dos governos socialistas de Sócrates” (para além do Corporações, esse temível blogue) e quem foram os adversários que se sentiram “intimidados” (queremos os nomes desses cagarolas)? Ele não explica, em vez disso recorre a uma maravilha retórica: “Lembram-se daquilo que não vos estou a dizer o que seja?” Silêncio em frente dos monitores… Claro que sim, pá, quem é que pode esquecer isso de que não faz ponta de um corno ideia do que seja?!… Eis uma técnica sofística genial. Infelizmente, para a qualidade do debate político ou outro em Portugal, estamos perante a escola retórica da Feira da Malveira.

A direita decadente, na verdade, não o podia ter evitado. É como uma cobra que engoliu um mamute congelado e agora não o consegue digerir nem se consegue mover. Está a agonizar, vendo o seu corpo a romper-se e desfazer-se em pedaços, mas até ao fim em êxtase hipnótico com o espectáculo da cabeça de Sócrates pousada numa bandeja.

Revolution through evolution

Changing partners doesn’t change relationship dynamics
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Quest for new cancer treatment crosses milestone
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New evidence that optimists live longer
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Exercise is good for the aging brain
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It’s never too late to start exercising, new study shows
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America is built on cheating — and the fight against it
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Chance, not ideology, drives political polarization
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Keep despicable and carry on, amazing Rangel

«"Às vezes dá a sensação de que temos uma espécie de Boris Costa em Lisboa. Enquanto em Inglaterra se suspende o parlamento, em Portugal quer-se extinguir um sindicato", afirmou Paulo Rangel, acrescentando que até se pode discordar, "mas não liquidar" o sindicato.

"A forma como se dramatizou, como se apareceu a toda a hora na televisão: ora agora vai visitar a Proteção Civil, ora agora reúne com militares, ora agora faz conferência de imprensa, ora faz conselho de ministros extraordinário - isto é populismo e uma forma de distrair as pessoas dos problemas", acusou.

"Ao fim de quatro anos de Governo, António Costa nunca deixou de ser presidente da câmara, é o presidente da câmara Portugal", afirmou, considerando que o primeiro-ministro olha para o país como uma autarquia onde "se conhece os vizinhos, se trata dos transportes, se recolhe o lixo e de vez em quando há uma pequena festa ou um drama".»

Fonte

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Este é o intrujão que inventou a “claustrofobia democrática” numa celebração do 25 de Abril na Assembleia da República, o farsante que foi para o Parlamento Europeu denegrir Portugal, berrando que já não era um Estado de direito após um escarro do Crespo (só um de centenas de ataques de ódio protagonizados mediaticamente por esse “jornalista”) ter sido higienicamente impedido de ficar colado ao JN.

Sendo um populista retinto e inveterado, um demagogo profissional que faz da política uma taberna onde se fantasia de tribuno e se alucina estadista, tem então de reduzir os adversários àquilo que ele próprio sabe que é. E não faz por mal, apenas lhe saem estas inanidades para consumo dos fanáticos e dos broncos por nada mais encontrar em si próprio que imagine ir fazer títulos e gerar palmadinhas nas costas vindas dos borregos que o cercam.

Esta direita da chicana não aprende nada, nem se dá ao respeito. Mas é assim a decadência política, um circo onde já só há palhaços no programa, lá está.

Gallaecia

Fernando Venâncio fez parte da equipa de autores aspirínicos num período em que este blogue esteve para acabar pouco tempo depois de ter surgido, estávamos em 2006. Embora não tivesse sido um dos fundadores, foi também graças a ele que o Aspirina B sobreviveu à debandada geral ocorrida em Fevereiro e Março desse ano (quatro meses depois de ter nascido das cinzas do “Blogue de Esquerda”). Esse outrora era ainda de relativa novidade da blogosfera no ecossistema da comunicação social portuguesa, ainda uma arena onde autores e comentadores se nivelavam por cima quanto a competências intelectuais, mas a fase da vanguarda já tinha passado e a sua obsolescência já tinha sido inventada (o Facebook foi lançado em 2004, o Twitter em 2006). O Fernando viria a sair em 2008, passando a gastar o tempo aqui perdido em actividades e projectos infinitamente mais valiosos do que publicar neste pardieiro.

O enquadramento suso para saudar mais uma obra sua a caminho, e a sempiterna paixão pela Galiza e as nossas línguas pátrias e mátrias. Foi um raro prazer o convívio com a sua pessoa, é uma honra ter escrito ao seu lado.

Português e galego, “linguas irmás, ningunha submetida á outra”

Do abuso absoluto

«Ninguém esqueceu no país que as duas maiorias absolutas do cavaquismo e a do PS de Sócrates se traduziram no abuso absoluto.»

Fernando Rosas

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Fazer equivaler as maiorias de Cavaco (1987-1995) com a de Sócrates (2005-2009), seja no que for (repita-se: seja no que for; acrescente-se: seja no que for; registe-se em acta: seja no que for; grave-se numa placa de mármore: seja no que for), permite – obriga a – inferir o seguinte:

Fernando Rosas abusa da cegueira histórica, absolutamente.

Fernando Rosas abusa da distorção ideológica, absolutamente.

Fernando Rosas abusa da desonestidade intelectual, absolutamente.

Fernando Rosas abusa do sectarismo fanático, absolutamente.

Fernando Rosas abusa da estupidificação mediática, absolutamente.

Fernando Rosas abusa do insulto à nossa inteligência, absolutamente.

Fernando Rosas abusa da vinhaça, provavelmente.

Amazónia a quem a respira

No fundo – na estrutura, para convocar o economista e sociólogo Marx – o que divide a ideologia em direita e esquerda explica-se pela relação Estado-sociedade. Diz qual preferes, diz quanto e como, dir-te-ei se és de esquerda, de direita, ou do centro (existe necessariamente este terceiro, como Hegel explica gratuitamente aos interessados).

Apesar da simplicidade aparente do binómio, e de acordo com as dinâmicas da evolução que regem este universo, rapidamente a complexidade está instalada. Do lado do Estado fica o ideal colectivo, do lado da sociedade o ideal individual. Para usar outro binómio aparentemente de fácil entendimento, o comunismo e o capitalismo confrontam-se nessa linha da frente. Todavia, do lado do Estado também aparece o primado da Lei, e do lado da sociedade aparece a necessidade social. A Lei é aplicada por um colectivo coercivo a todos os indivíduos, as necessidades sociais dão estatuto político a grupos cujas carências pedem solução em nome de cada caso individual. Isto leva a discursos onde os antagonismos se misturam e confundem, dando azo a ilimitadas configurações ideológicas e posicionamentos políticos. Um retinto conservador e um socialista de cepa podem ambos discordar radicalmente acerca do modelo económico e axiológico de sociedade preferido e estarem unidos no respeito pela Lei como princípio ordenador e inviolável do regime. Um leninista fanático e um neoliberal assanhado podem odiar-se quando discutem o sistema partidário preferido e amar-se quando atacam a social-democracia.

O discurso sobre o fim da divisão entre esquerda e direita carece de muito contexto, pretexto e subtexto para fazer sentido. Mais prático é olhar à volta e constatar como um direitola que se preze vive em claustrofobia por causa da opressora presença do Estado, e como um esquerdalho de lei acorda e deita-se a sentir-se espoliado pelos burgueses imperialistas. A retórica de uns e outros não tem outro guião. Mas, na origem e no fim do labor teórico na ciência política, o que está sempre em causa é a divisão da riqueza, a posse dos recursos – ou seja, a animalesca luta pela sobrevivência. Quem tem não quer perder, primeiro, e quer aumentar, logo que possa. Quem não tem pede para ter o mínimo, e continua a pedir para, e por, ser igual aos que têm mais. O contexto explica os valores assumidos e agitados, o miserável revolucionário de ontem pode transformar-se num ricalhaço defensor da ordem e o elitista industrial de hoje poderá ver-se amanhã falido e a lutar contra os poderosos.

Salto para a Amazónia. Coincide a destruição imparável com um presidente que representa a direita típica, castiça, folclórica. Subindo no mapa, encontramos Trump, outro representante da direita típica, aquela que adora a sociedade e abomina o Estado. Porque na sociedade estão pessoas como ele, está o indivíduo e a sua gula. Para estes dois cromos, a conversa sobre as alterações climáticas é uma invenção dos socialistas, coisa do Diabo. Chega a ser enternecedor ver Trump a gozar no Twitter sempre que a meteorologia lhe envia uma frente fria ou agora Bolsonaro a mostrar o seu desprezo pela função ecológica da Amazónia para o Planeta. Estes dois representam muitos milhões, bastando dar um exemplo recentíssimo e aqui do rectângulo – nada mais nada menos do que pelo teclado do braço-direito do genial RAP: Alterações de Gretas suecas (aviso: é só rir, está magnífico ao nível do trocadalho e tãoooooo inteligente)

A pulsão destrutiva e oligárquica é de direita e a consciência ecológica e democrática é de esquerda. Porque para enriquecer, como reflectiu Locke olhando para o poderio militar e tecnológico europeu da sua época, basta pegarmos na enxada e/ou na pistola e começarmos a trabalhar. O resultado de tomarmos posse de um pedaço de terreno para o cultivar, mesmo que para isso tenhamos de afastar para fora do horizonte os escurinhos e seus rebanhos que por lá passavam há séculos ou milénios, chama-se produção. Locke ensinou os terratenentes a não só expandirem as suas propriedades como a fazê-lo com vista a uma muito maior eficiência e eficácia económica. Ganhámos todos com isso, pois no século XVII começou a construir-se a fase da civilização a que chamamos Estado de direito democrático. Acontece que chegámos a uma situação em que a oligarquia precisa de voltar a perder poder – ou seja, a aumentar o número das entidades que protege. De facto, a Amazónia não é só do Brasil, é também da esquerda que idealiza a fraternidade planetária.

Revolution through evolution

Legal Limits Apply to Making a Child Pray
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Do single people suffer more?
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Speed identified as the best predictor of car crashes
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Online brain games can extend in-game ‘cognitive youth’ into old age
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Need a mental break? Avoid your cellphone
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Cultural processes are increasingly short-lived, showing in addition a growing tendency toward self-organization
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Your heart’s best friend: Dog ownership associated with better cardiovascular health
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Dom Pardal Henriques, desde 2017 a sacrificar-se por nós

«Em resposta às críticas de que se terá aproveitado da "causa dos motoristas" para se "autopromover, Pardal Henriques diz defender esta causa "desde 2017" e que nunca foi sua intenção "iniciar uma carreira política". Acrescenta ter a intenção de continuar "a exercer a advocacia e a defender todas as causas" em que acredita, "e em especial o novo Sindicalismo Independente", através de "uma voz ativa contra a hipocrisia e a corrupção" na Assembleia da República.»


Fonte

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Esta noite tive dificuldades em adormecer. Fechava os olhos e de imediato era assolado por imagens da noite do próximo 6 de Outubro. Imagens tenebrosas, terríveis, onde se rasgava o coração perante a notícia de Pardal Henriques não ter sido eleito deputado. Ao abrir a pestana para fugir dessa visão cruenta ficava entregue aos monstros que se escondem nas trevas dos quartos das pessoas sérias como eu, esses corruptos que perseguem o bom povo para o enganar e roubar. Foi dilacerante.

Caso não haja um toque a rebate em nome do tanto que o senhor já fez pela melhoria da nossa vida colectiva, corremos o sério risco de não ver o Dr. Pardal a chegar de Maserati à Assembleia da República, a sair com o seu lendário blusão de penas (ou sem penas, ficará como mistério) e a subir as escadarias em passo de corrida perseguido pela multidão de jornalistas arcadas adentro. Chegado ao hemiciclo, seria épico vê-lo a continuar a “exercer a advocacia e a defender todas as causas” bastando acreditar nelas com o poder e autoridade da sua cachimónia, ó singela e inaudita transparência. Nada menos do que maravilhoso, homérico, escutar a “voz activa contra a hipocrisia e a corrupção” saída da garganta d’ouro de um herói do “novo sindicalismo independente” ali chegado ao antro da corrupção precisamente por nunca, mas nunca nunca, ter sentido a tentação de “iniciar uma carreira política”. É bem sabido como a hipocrisia e a corrupção se apavoram ao verem avançar contra elas esta estirpe de rectos lavados com água de malvas e purificados de qualquer contacto com a porca da política.

Espero que a noite de insónia e pesadelo não passe disso. Portugal precisa do sacrifício destas pessoas honestas, corajosas, patriotas que vêem corruptos exactamente onde eles estão: em todo o lado onde existem representantes do voto popular e funcionários do Estado. Está na altura de acabar com os abusos da democracia e os excessos da liberdade.