Todos os artigos de Valupi

Ventura e a inteligência

A seguir a ter sido criado por Passos Coelho, o mais curioso a respeito de André Ventura é tropeçarmos em declarações a respeito da sua apregoada grande inteligência. É o que diz Donizete Rodrigues, professor universitário de sociologia, por exemplo. Ou Carlos Abreu Amorim, um desbocado passista à espera de regressar à ribalta. A sua actividade académica e a subida do Chega nas sondagens compõem este ramalhete sobre os dotes cognitivos do fulano. Razão para nos perguntarmos: será?

Ventura escolheu uma retórica maximalista em que infantiliza o sistema partidário e as instituições como cenário da sua pose megalómana. É a estratégia anti-sistema copiada de outros países onde o populismo de uma direita inane triunfou eleitoralmente. Nela verbaliza expressões que pretendem ser explicitamente humilhantes para os alvos, apelando à percepção inequívoca e imediata de que está a ridicularizá-los. Nesses alvos inclui CDS, PSD e Marcelo Rebelo de Sousa enquanto Presidente da República. Inova em Portugal ao, já como deputado, hostilizar minorias e a cultura cívica que apela à sua integração e à defesa dos seus direitos. Ao mesmo tempo, cola-se à notoriedade de figuras como Trump, Bolsonaro, Salvini e Marine Le Pen, por um lado, e explora símbolos e locais religiosos para se promover como representante do voto evangélico e católico, por outro. Joana Marques Vidal é também usada como arma de propaganda, como o foi por Passos e Cavaco, ignorando-se qual o grau de adesão da própria ao papel que lhe está a ser dado. Segundo palavras de Ventura, ele acabará por ser primeiro-ministro, depois de destruir o CDS e subalternizar o PSD; donde, naturalmente, saltará para Presidente de uma República sem corrupção, sem racistas, sem ciganos, sem abusadores sexuais, sem protecção a minorias e sem esquerdalhos – e, parece, sem Serviço Nacional de Saúde e justiça fiscal, entre outras misérias herdadas do 25 de Abril.

É isto prova de inteligência? A seu favor, correm as evidências e os estudos. Trump ocupou a Casa Branca, inacreditavelmente para todos e para si, porque quem votou nele apenas valorizou a atitude provocatória e a promessa revolucionária, não avaliando o seu discurso racionalmente e aceitando acriticamente a superficialidade, simplismos, incoerências, mentiras e puros absurdos despejados em caudalosa verborreia. Vários estudos mostram que as dinâmicas da filiação identitária geram estes fenómenos, de há muito resumidos na fórmula “É um filho da puta mas é o nosso filho da puta.” Acresce que a direita portuguesa, seus partidos e Presidentes da República, se encontra num ciclo de profunda decadência; começado com a fuga de Barroso e consumado no impacto da superioridade eleitoral e executiva de Sócrates e sua equipa numa conjuntura de gravíssima crise económica e financeira na oligarquia, levando o combate político em Portugal a ficar afundado nas campanhas negras e no golpismo. A judicialização da política e a politização da Justiça, no fundo das quais esta direita se barricou, transformou-se num túmulo onde a sua decência jaz morta, e apodrece com pestilência. Daí valer tudo para os decadentes. Daí Ventura, como Passos intuiu, tentou e fez chegar até nós.

Ora, só há um desfecho para este cromo circense, o de ficar a falar sozinho para o grupo de borregos que agrega. É preciso ser-se muito estúpido, por condição ou opção, para suportar quem revela abertamente que nos quer enganar e prejudicar, como faz o leporidófilo. E o número desses infelizes não lhe permitirá ter mais do que um pequeno e efémero grupo de deputados, na melhor das possibilidades. Porém, outro galo cantaria se Ventura tivesse a estratégia de aparecer colado a Marcelo, CDS e PSD, mostrado-se um aliado especial – aquele aliado que consegue dizer e fazer abertamente o que os outros apenas conseguem dizer e simular que fazem implicitamente. Não foi esse o caminho que a sua gula pulsional seguiu, para sorte da qualidade da democracia e segurança do regime. E nem a inenarrável incompetência de Rui Rio o vai salvar da resposta que a comunidade lhe dará.

Vicente Jorge Silva, jornalista

Se Vicente Jorge Silva foi um dos mais importantes jornalistas portugueses após o 25 de Abril, como as eulogias publicadas consagram e a memória não tem pejo em aceitar, vale a pena tentar um exercício de celebração alternativo ao registo encomiástico. Ir por um caminho que faça justa – portanto, implacável – homenagem ao que parece ter definido existencialmente esse homem, o ter sido jornalista.

Um jornalista não existe sem uma era, um tempo histórico, um lugar político, uma estrutura económica, um processo social e uma corrente de circunstâncias colectivas e individuais. Acontece que os jornalistas sempre tiveram má fama por causa dos poderes fácticos que aceitam servir. Como lembrou Belmiro de Azevedo, isto de ter um jornal é muito giro mas é preciso que alguém pague as contas. E para quê estar com essa despesa se não vier daí algum proveito, alguma satisfação? Pelo que as agendas políticas, logo a partir de Gutenberg, fizeram dos órgãos de comunicação de massas imediatas arenas de combate ideológico e partidário. O ideal de um jornalismo puro, exemplar no cumprimento da deontologia que a si mesmo impõe, lembra a moral kantiana: é para anjos, não para seres humanos.

O Vicente, diz quem com ele conviveu e trabalhou, nem era um anjo nem um anjinho, antes parecendo ter acessos demoníacos conformes ao folclore de uma profissão de egos hipertrofiados e tóxicos. Apesar disso, ou por causa disso, o seu nome aparece como responsável principal por duas publicações que marcaram gerações de leitores no tempo em que os jornais em papel ainda moldavam o espaço intersubjectivo: a “Revista” do Expresso e o Público. Sobre esses dois feitos que inovaram a imprensa portuguesa nos anos 80 e 90 as homenagens são consensuais. Pois este meu exercício minúsculo começa a partir daí, da saída do jornal de que foi o primeiro director. Que aconteceu depois de 1996 a esse extraordinário jornalista então livre para fazer e ser o que quisesse ainda com uns saborosos 51 anos de idade no corpinho?

Nada. Nada que tenha relevância para o jornalismo, sua história ou mera reflexão a respeito de qualquer uma das suas dimensões ou facetas. Ficou na bancada a assistir à degradação completa do Público sob a direcção do José Manuel Fernandes, ignoro o que pensava de Ricardo Costa como czar de Balsemão, desconheço qualquer posição sua a respeito do poder persecutório e criminoso da Cofina ao longo dos anos, e quando voltou para o jornal da Sonae foi chocante vê-lo neste papel. Até no Sol aceitou deixar o seu nome como colaborador.

O Vicente sem papas na língua e mandão poderia responder que não lhe competia ser um provedor oficioso das lides jornalísticas e respectivas responsabilidades na qualidade da democracia e na coesão da comunidade, que tinha bem mais e melhor para fazer com a sua pessoa, que estava farto do meio ou que não queria chatices. Pois sim, teríamos de concordar porque primeiro está o mistério da liberdade de cada qual. Mas a sua ausência no combate contra a pasquinagem ilumina uma paisagem onde não se vê uma única referência de ética e coragem para acudir à derrelicção dos raros que ainda conseguem fazer miraculosamente peças de jornalismo exemplares de honestidade intelectual e serviço público. Se nem este excelso madeirense nos valeu, e se ele foi mesmo um dos mais importantes jornalistas portugueses após o 25 de Abril, então emerge o corolário: os nomes mais importantes do jornalismo em Portugal são muito pouco importantes para o que mais importa.

Filipe Santos Costa, jornalista

Assim começa uma inaudita confissão a lembrar os tempos heróicos dos dissidentes soviéticos. Não é que faça revelações incríveis, sequer provoque desmaiada surpresa, pois a cultura do Expresso está à vista, bastando ver a montra para adivinhar as misérias no armazém. O que causa espanto é o acto de fala onde Filipe Santos Costa parte a loiça toda com precisão cirúrgica. Neste momento, e até à eventualidade de o mano Costa lançar como resposta e vingança um qualquer assassinato de carácter contra o ex-empregado do Grupo Impresa, a credibilidade jornalística e deontológica do Expresso, mais a dos seus directores passados e presentes, não existe.

Repare-se: não estamos perante uma situação em que temos de escolher entre duas versões concorrentes e contraditórias – dado que o seu discurso é assumido como um testemunho pessoal complemento da realidade objectiva, material, incontornável de ser o Expresso aquilo que nós registamos que é – ficamos é na posse da novidade de se poder confirmar através de uma visão interna, vinda de um ex-operacional da casa, a encardida decadência deste tipo de pseudojornalismo agora denunciado com uma frontalidade absolutamente sem antecedentes a este nível de notoriedade, para mais envolvendo uma vaca sagrada cheia de vedetas assanhadíssimas.

Não se trata de um ataque ressentido ao jornal e seus responsáveis, contudo. Provavelmente, este mesmo jornalista não se envergonha do que fez no Expresso, onde vestiu a camisola e tentou ser um bom soldado. E, às tantas, poderá ter alimentado a ambição de chegar a director para, vamos acreditar optimistas e ingénuos, alterar a cultura editorial no sentido que agora anuncia querer seguir profissionalmente. As suas declarações parecem circunscrever aos dois últimos anos, que coincidem com a queda do Pedro Santos Guerreiro e a entrada do David Dinis e subida do João Vieira Pereira, o crescimento da sua insatisfação, por um lado, e servem também para promover a sua marca e oferecer-se ao mercado, pelo outro. Tenho a vantagem de nada de nadinha de nada saber a seu respeito para além da embirração que lhe tinha quando era um serviçal do sectarismo mediático, daí poder especular sem travão.

Seja lá qual for a história secreta do episódio, que até pode não haver alguma e ser só tal como anunciado, era lindo que desta coragem inspiradora viesse a nascer jornalismo jornalismo.

Votos de felicidades e boa sorte

Começa a semana com isto

Carol Tavris on Mistakes, Justification, and Cognitive Dissonance
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Para além da graça de vermos o simpático Sean Carroll no papel de entrevistador de uma psicóloga social, ele que é um famoso físico teórico especializado em mecânica quântica e cosmologia, e não esquecendo que a entrevistada inaugura o seu podcast, chamo a atenção para duas passagens onde a simpática e risonha Carol Tavris nos tenta ajudar:

– Quando descreve como nos interrogatórios policiais e judiciais é fácil (frequente?) partir-se de uma presunção de culpa do interrogado que jamais será abandonada pela autoridade em causa na situação. Independentemente do que o suspeito diga em sua defesa, calhando não haver evidências a seu favor, quem interroga tenderá a ficar cognitivamente limitado pela visão em túnel, pelo viés de confirmação e pelo viés de investigação. Esta distorção pode gerar violência sobre o suspeito e até forçá-lo a aceitar assumir falsas confissões.

– Quando conta uma história que termina assim: “When a friend makes a mistake, the friend remains a friend and the mistake remains a mistake.”

Revolution through evolution

Being a selfish jerk doesn’t get you ahead: Study
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Is being generous the next beauty trend?
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Body mass index is a more powerful risk factor for diabetes than genetics
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People love winning streaks by individuals – teams, not so much
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New electronic skin can react to pain like human skin
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How we sleep today may forecast when Alzheimer’s disease begins
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Atheists are more likely to sleep better than Catholics and Baptists
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Em defesa da educação da liberdade

Em resposta à audiência concedida pelo Presidente da República a Manuel Braga da Cruz e Mário Pinto, primeiros subscritores do abaixo-assinado ‘Em defesa das liberdades de educação”, surgiram duas tomadas de posição que argumentam a favor da disciplina Educação para a Cidadania: o documento “Cidadania e desenvolvimento: a cidadania não é uma opção” + o Manifesto em Defesa da Educação para a Cidadania

Que se está a passar? De um lado, temos a direita no fundo do poço, o poço está seco, e eles continuam a escavar – cada vez mais febris com sede, mais exaustos, mais emporcalhados, mais afundados num ciclo em que trocaram a decência e o bem comum pelo ressentimento e o ódio. Do outro, vemos a esquerda a ocupar o centro, pois o princípio supremo da política é o do espaço do poder nunca ficar vazio.

O que se ensina na disciplina Educação para a Cidadania é, nem mais nem menos, a ideologia do centro numa democracia liberal onde o Estado tem eficácia soberana. Precisamente por estarem em causa valores morais eclécticos e universalistas, mas não neutros pois não existe tal coisa na axiologia, o lado que abriu as hostilidades ao usar como casus belli «Artur Mesquita Guimarães e sua Mulher, pai e mãe de dois filhos alunos da escola pública de Famalicão» barricou-se na figura legalmente ilegítima da “autoridade da família” contra o resto do mundo. Colocaram-se a jeito para serem bombardeados com noções básicas de História, de constitucionalismo e de bom senso.

Sonho com uma escola pública que tivesse como finalidade primeira formar alunos que no final da escolaridade obrigatória recebessem o título de cidadãos, após terem passado 12 anos a estudar a Constituição da República Portuguesa – todas as restantes disciplinas a serem subsidiárias deste eixo central de aprendizagem: descobrir donde veio a liberdade, onde e com quem está, e para onde nos pode levar.

Como é curiosa a luta contra a corrupção em Portugal

Quantas vezes, ao longo da nossa vida (cada um que pense na sua), a corrupção nos causou um qualquer dano? E a ter causado, quando foi a última vez? Somando as parcelas, qual é mais danosa para o País, a grande ou a pequena corrupção? Se a “Operação Marquês” é o mais importante processo judicial de sempre no Portugal democrático, e se esse caso nasceu por suspeitas de corrupção e produziu uma acusação de corrupção, existe alguma prova directa de corrupção nas 53 mil páginas e nos 13,5 milhões de ficheiros informáticos reunidos? A haver, mesmo que seja prova indirecta, e visto dizer respeito a actos de um primeiro-ministro, como é possível não existir mais nenhum ex-governante, ou que fosse mero funcionário público, a ser acusado de cumplicidade? Aliás, o que é a corrupção? Há uma definição legal, restrita ao âmbito dos funcionários públicos. Há a definição popular, em que a corrupção é o que todos os outros fazem a toda a hora. E há a definição populista à portuguesa, em que a corrupção só existe porque existem socialistas a ocupar posições estatais. Os inquéritos mostram que a percepção sobre a corrupção em Portugal é muito elevada entre os que respondem a esses levantamentos; o que parece inevitável quando há uma indústria da calúnia onde o tema é explorado à exaustão de acordo com todas as técnicas sensacionalistas e persecutórias, situação agravada pela decadência da direita que, por factores pulsionais e contextuais, igualmente faz do espantalho da corrupção uma estratégia retórica dado não ter mais nenhum discurso para apresentar aos cidadãos e aos eleitores.

João Miguel Tavares, quando andava a passear no Iraque em aventuras de guerra com Ana Lucas Coelho, estava muito longe de imaginar que se iria tornar numa super-vedeta da indústria da calúnia por ter despachado, em Março de 2009, um exercício displicente onde acusava um primeiro-ministro de ser corrupto apenas com base no que o autor tinha recolhido na comunicação social. Começava aí uma carreira gloriosa que o iria levar para o panteão daqueles que por feitos extraordinários ao serviço de Portugal e da cultura e comunidades portuguesas foram convidados a ilustrar o 10 Junho, assumindo a presidência das comemorações e tendo direito a dizer das suas para edificação da Grei. O actual Presidente da República justificou a escolha declarando que via no nomeado de 2019 um representante do “jornalismo” e que o “jornalismo” estava a precisar de ajuda, pelo que as peças encaixavam na perfeição – a transformação da actividade jornalística na mera opinião vulgar e o prémio político dado a quem fez da pulhice um negócio. Ora, este importantíssimo especialista em corrupção socialista acaba de publicar um importantíssimo tríptico onde exibe os seus superiores talentos analíticos. Foi assim, sirvo os sumários executivos:

Portugal e o problema da corrupção – parte 1 – Cuidado com os socráticos. Costa é igual aos socráticos, cuidado com o Costa. A corrupção é o Diabo, e os socialistas são diabólicos.

Portugal e o problema da corrupção – parte 2 – O regime é corrupto. Em 1788, alguém na América disse: “A natureza humana é socialista, só os anjos é que se safam mas temos de esperar pelo Passos Coelho.” Entretanto, não dá para acelerar a produção de prisioneiros socialistas voltando à rapidez e limpeza dos tribunais plenários?

Portugal e o problema da corrupção – parte 3 – Um estudo da Católica que não fala de Portugal é o guia ideal para falar de Portugal. Ao mais de resto, anda tudo a gamar e ninguém quer saber. A própria Suécia já foi como Angola, portanto… Adam Smith não sei quê e foda-se. Ah, isto que eu aqui deixo é que é o jornalismo.

Uma característica curiosa das intervenções deste famoso jornalista e grande investigador do fenómeno da corrupção é nunca terem qualquer número relativo à problemática na berlinda. Ele despreza percentagens, ocorrências, segmentações, comparativos, tabelas, mapas, gráficos, estatísticas. Abomina a gentalha das ciências sociais que tresanda a socialismo. Não precisa, dispensa. Para quê perder tempo com essa tralha dos factos e seu tratamento rigoroso e isento, o que muito provavelmente só iria aborrecer os seus leitores, quando basta ler o esgoto a céu aberto e depois passar meia hora a teclar para aplauso da claque, e ainda sacar o belo à Sonae para poder ir de férias com a família? Não serei eu a condená-lo por essa vida tão confortável que alcançou. Mas confesso ficar um bocadinho pesaroso ao tropeçar no seu silêncio sobre essa mesma Católica que referiu, e por onde se passeia com intimidade de braço dado com o Zé Manel, precisamente no capítulo da corrupção, o combate da sua vida. É que um jornalista curioso não deixaria passar sem uma referência esses tempos em que um primeiro-ministro montou um esquema fiscal que, noutros tempos ainda mais remotos, lhe teria garantido uma bula papal e a promessa do início do processo de beatificação aquando do passamento, tamanhos os benefícios financeiros dados à UCP. A mesma UCP onde esse primeiro-ministro e a esposa foram professores, entre outras figuras com responsabilidade governativa no tal decreto-lei. Curiosa a selectiva falta de curiosidade do nosso herói da luta contra a corrupção, né?

A direita a devorar-se a si própria

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Há uma protecção à figura institucional do Presidente da República que quase não carece de ser explicada por se compreender e aceitar intuitivamente. O regime precisa, a Assembleia da República necessita, os cidadãos esperam, que o garante do regular funcionamento das instituições democráticas mantenha a sua autoridade política e moral (não sendo o mesmo podem ser a mesma) num plano imaculadamente soberano. Por exemplo, do próprio Marcelo, então comentador, muitas vezes nos chegaram declarações com sorrisos de escárnio ao lembrar que Sócrates e o PS nada poderiam fazer contra os desvairados boicotes e ataques de Cavaco; pois quando os Governos e os partidos hostilizam o Presidente, acabam os primeiros por perder sempre o braço-de-ferro com o último. O povo está com a Presidência, advindo da eleição directa deste especialíssimo representante um poder único, plástico, críptico na arquitectura da República.

Será? Para mim, o episódio da “Inventona de Belém” marca a data em que tal complacência deixa de ser patriótica (ou decente, ou democrática, ou republicana, é escolher). O que se seguiu, o comportamento de Cavaco na noite da reeleição em que atacou os restantes candidatos após ter vencido, e o seu comício no discurso solene da tomada de posse, em que pré-anunciou o afundanço de Portugal na crise devastadora que promoveu sonsa e cinicamente, crise resultante do chumbo do PEC IV que até Merkel achou inacreditável não se ter evitado, confirmaram os idos do Verão de 2009. Um Presidente que não respeita o bem comum nem se dá ao respeito, um Presidente que prefere o interesse pessoal ao interesse nacional, não é apenas inepto para a função, acumula com ser um dos maiores perigos políticos e sociais para a comunidade.

É só por não termos imprensa, e a comunicação social estar na sua enorme maioria na mão da direita, que o episódio de Marcelo Rebelo de Sousa em despique verbal com uma popular, acima exposto, não provoca um escândalo para a História. Do princípio ao fim, incluindo as justificações aos jornalistas, vemos um sujeito amedrontado, impaciente, confuso e desleixado. Claro, o sujeito que preenche a figura institucional de Presidente da República pode, em variegadas circunstâncias, mostrar-se em público desleixado, confuso, impaciente e amedrontado sem que tal nos deva afligir dado concordarmos em ter um ser humano a desempenhar essas funções. Mas é preciso que a realidade em causa confirme essa bondade. No caso da Feira do Livro do Porto, a brutal realidade infirma-a e deixa-nos com um pavoroso diagnóstico entre mãos: o Professor de Direito esqueceu o dito, o católico não se lembra do Evangelho nem da catequese, o político odeia o Parlamento e o chefe de Estado não faz ideia de quando é que se aumentou o salário mínimo. Perante uma pessoa num estado mental exaltado, com um discurso provocatório e a passos demente, o “presidente dos afectos”, que fica tão bem nas fotografias popularuchas e populistas, colocou-se ao nível psicologicamente miserável de quem o acossava, primeiro, e depois deu por si afundado no vazio, ao nada encontrar para responder a quem lhe perguntou se conseguiria viver com 580 euros por mês e se aceitaria trocar de casa. Este vazio imprevistamente exposto no espaço público está saturado de outros vazios, é um vazio asfixiante e esmagador. Usar os mortos e a destruição dos fogos de 2017 para fazer brilharetes frente às câmaras e deixar os direitolas em êxtase com mais uma cabeça cortada na Hidra socialista é fácil num artista deste calibre, saber o que dizer a quem aponta um telemóvel e dispara rajadas de desigualdade de tudo e por tudo já não é matéria que se ensine no circuito das melhores famílias de Cascais.

Cavaco foi o líder da direita durante três décadas. Marcelo tem sido o líder da direita desde que entrou em Belém. Os decadentes estão em campanha para que Passos Coelho volte como líder da direita. E André Ventura, no seu deboche crescente, vai angariando pilha-galinhas, rufias, trafulhas e psicopatas para brincar aos líderes da direita posto que ele vem desde Loures a constatar que vale tudo nesse deserto de ideias e de ética onde montou a barraca. O que Marcelo mostrou, numa insólita tarde de final de Agosto, é que não há grandes diferenças entre estas quatro figuras. No essencial, nem conseguem viver com 580 euros por mês nem tencionam sujeitar os pobrezinhos ao incómodo de trocarem de casa com eles.

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How men and women network impacts their labor market performance
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Having a doctor who shares the same race may ease patient’s angst
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Clubs Closed? Study Finds Partygoers Turn to Virtual Raves and Happy Hours During Pandemic
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Cycling Keeps You Young
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Study: Despite Training, Vermont Police Departments Still Show Widespread Racial Bias
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When it comes to supporting candidates, ideology trumps race and gender
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When two tribes go to war – how tribalism polarized the Brexit social media debate
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O Expresso e a filthy season

«O mês de Agosto potenciou o silêncio à esquerda. Do PS não se ouviu nem leu uma palavra, nem boa nem má, sobre as declarações da ministra do Trabalho e Segurança Social e da esquerda também ainda ninguém tinha vindo a terreiro falar do tema que tem aquecido o espaço público, desde a entrevista de Ana Mendes Godinho ao Expresso. Ainda antes de os intervenientes principais nesta trama terem falado (primeiro a própria ministra e depois o primeiro-ministro), Catarina Martins criticava, mas não ia mais além do que isso. [...]»

Lares. Catarina Martins: “As afirmações foram infelizes. As tragédias não se relativizam”

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Liliana Valente é uma jornalista especializada em política nacional que começou no i, de lá passou para o Observador, daí saltou para o Público e está há uns meses no Expresso. Este trajecto não é cadastro mas o seu currículo é perfil. Esses quatro jornais são siameses na promoção de uma agenda de direita e na defesa dos seus interesses económicos e sociais. Por essa razão, os sucessivos patrões desta jornalista terão gostado exactamente do mesmo a seu respeito: o binómio “qualidade profissional” + “cumplicidade ideológica”.

No trecho citado acima, o qual abre uma notícia neste momento totalmente esquecida até dos pouquíssimos que a tenham lido, as duas qualidades podem ser apreciadas com detalhe. Logo desde a primeira frase estamos perante o pretexto do texto e seu subtexto, a intenção de chafurdar na exploração hipócrita, sensacionalista e demagógica de uma entrevista dada ao mesmo jornal onde a Liliana ganha aquilo com que se compram os melões. Na segunda frase, ficamos com a informação (com a notícia? o furo?) de que a famigerada entrevista e seus destaques, da responsabilidade deontológica de colegas da jornalista Valente, consistia no “tema que tem aquecido o espaço público“. E a terceira frase chega ao ponto de criticar Catarina Martins por não ir além da crítica, assim sugerindo que a esquerda à esquerda do PS não estava a querer aproveitar o servicinho do Expresso para brincar às guilhotinas. Isto é jornalismo? É opinião? É jornalismo de opinião? Ninguém quer saber – à excepção dos directores e editores do Grupo Impresa, que a sabem toda pois passam os dias a virar destes frangos há décadas.

O “tema que tem aquecido o espaço público” foi uma invenção do Expresso, o que se dá a ver pela forma cínica como descontextualizaram as respostas de Ana Mendes Godinho e geraram um resumo cuja intencionalidade não é a de informar os leitores ou contribuir para o esclarecimento de qualquer assunto com interesse para a comunidade – o propósito é exclusivamente o de manipular a percepção da audiência de modo a suscitar uma inevitável onda de indignação pelos profissionais da mesma, pelos fanáticos e pelos broncos. Criou-se um “facto político” a partir da deturpação de declarações banais e bondosas. Pode-se alegar que tal prática é universal, que sempre houve, e sempre haverá, queixas contra as opções editoriais da imprensa ao destacarem o que os visados consideram irrelevante ou enganador. E mais se pode dizer que um órgão de comunicação social privado tem direito a procurar receitas através do sensacionalismo, não estando obrigado a respeitar qualquer noção de “serviço público” ou mera “decência”. Sendo tal verdade, não menos verdadeira é a constatação de que o director ou directores (sei lá) do Expresso quiseram pegar fogo ao Governo e apanharam uma ministra que se pôs a jeito na sua boa-fé.

A entrevista de Costa ao Expresso surge como uma vitória para os autores do assédio, de novo colocando o jornal no centro do circo mediático. Vale a pena deturpar as declarações de um governante pois o prémio é vir o chefe a correr encher mais umas páginas do pasquim para ajudar a passar o Verão, conclui-se. Nesse sentido, ter partido do Expresso a iniciativa de gravar secretamente Costa a falar sem pudor e com emoção, e depois alguém do Expresso ter mandado o trecho para o mundo imundo, garantindo-se que tal vídeo para sempre acompanhe o futuro político de Costa, é de uma supina coerência com tudo o que foi feito antes e que obedecia à mesmíssima lógica. Não importa se foi planeado ou apenas um acidente cheio de coincidências tão oportunas. Importa é registar que no Expresso a silly season foi trocada pela filthy season.

Começa a semana com isto

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Conta-se que Platão tinha à entrada da Academia o seguinte repto: “Não entre ninguém sem saber geometria.” Aristóteles, o seu melhor aluno, até para a ética utilizou a geometria (a justiça é geométrica ou não é justa, intemporal noção). E é por causa da geometria que me parece o centro a melhor posição política no espectro ideológico tradicional. É ao centro que se é mais atacado, pois se leva porrada por igual dos sectários, dos fanáticos e dos maniqueístas da direita e da esquerda. E é ao centro que a complexidade da análise e da decisão é maior, posto que não existe nenhum radicalismo a servir de encosto moral, nem existe nenhum viés de confirmação a servir de palas à inteligência.

Jonathan Haidt é um psicólogo social que se tem ocupado de questões morais e políticas. Um tema que poderá resumir o cerne da sua investigação, e que está directamente ligado com as convulsões identitárias ocorridas nas universidades norte-americanas nos últimos anos, é o da polarização. Nos seus estudos, obras publicadas e intervenções, este cientista ajuda-nos a decifrar o que vemos nas arenas sociais – aplicando-se os seus ensinamentos na perfeição ao que aconteceu, e está a acontecer, em Portugal a propósito da problemática do racismo.

Nesta palestra há um bónus final, o de vermos e ouvirmos Van Jones a defender o direito ao crescimento intelectual, e do carácter, sem limitações à liberdade de dissensão.

Revolution through evolution

Research challenges popular belief that ‘unbridled ambition’ costs female candidates votes
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Half of parents report butting heads with child’s grandparent over parenting
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Mother bats use baby talk to communicate with their pups
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Broccoli and Brussels sprouts a cut above for blood vessel health
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Picture this: Employee fraud decreases when they see family photos
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Police officers face multifaceted, compounding stressors that can lead to adverse events during high-stress calls
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People Who Feel Their Lives Are Threatened Are More Likely to Experience Miracles
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A capital europeia do comentariado imbecil

A 22 de Junho, Daniel Oliveira escreveu no Expresso o seguinte:

«Não acredito que a Champions aconteça com público, que viria de todo o mundo. Era preciso que, em agosto, tudo estivesse quase resolvido. Sendo sem público, qual é a vantagem? Dizem que a publicidade, que contribuirá para a recuperação mais rápida do turismo. Mas isso é partir do princípio que as coisas estarão bem em agosto. Não fazemos ideia se assim será. Se as coisas piorarem, a publicidade só pode ser negativa. Se for desmarcada, teremos um foco na situação portuguesa que seria evitável. Se não for desmarcada, teremos televisões de todo o mundo, sem público como tema de reportagem, a apontar os seus holofotes para cada caso e cada perigo, transformando Lisboa na capital europeia do covid. Mesmo que esteja a correr pior noutras paragens. Vale o risco?»

Fonte

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O catastrofismo presente nesta citação é exemplar. Uma vedeta do jornalismo de opinião, que aparenta viver exclusivamente dos proventos adquiridos nessa actividade, optou pelo sensacionalismo ressabiado para servir ao público e aos seus patrões. Lógica? A da motivação da baixa política, a do quanto pior melhor pois não gosto daqueles gajos, à mistura com a soberba de quem compete pelo dom da infalibilidade. Apostar no cenário pessimista, e maximizar as suas potenciais consequências, é um exercício que enche de dopamina e testosterona o articulista implacável, imaginando-se a cavalo numa carga heróica contra esses políticos broncos, alarves e malvados que insistem em fazer as coisas sem primeiro pedir o sapientíssimo conselho (aprovação?) do Daniel Oliveira.

Dois meses se passaram. E há que fazer justiça ao profeta, realmente os números da situação em Portugal deram que falar na imprensa internacional. Da primeira vez, por causa dos 8-2 com que o Bayern esmagou o Barcelona. Da segunda, quando Portugal entrou na lista dos corredores aéreos do Reino Unido, permitindo uma expectativa de divisas e uma diminuição do desemprego cruciais. Chegamos ao dia da final e registam-se 145 novos casos enquanto em Espanha, França, Itália e Alemanha se está em aceleradíssimo crescimento. Mas não só, os espectaculares casos de Israel, Croácia e Nova Zelândia, países dados como referência de excelência na gestão da epidemia e sua contenção ao mínimo possível, revelam que a dinâmica da propagação do contágio ultrapassa qualquer capacidade dos governos seja em que geografia ou sociedade for. Como ilustração suprema, o que se passou na Nova Zelândia (uma ilha, para quem não sabe, e com metade da população portuguesa) é a prova de que estar na plateia a apupar os governantes porque os números são assim ou assado é uma prática que pode ser financeira e psicologicamente muito consoladora mas que no plano cívico e ético fica como uma pulhice. Ou então, às tantas, talvez tenham razão e sejam mesmo os infecciosos transportes públicos de Lisboa que estão a causar o recrudescimento dos surtos um pouco por todo o Mundo, como também afiançaram há umas semanas, quem sabe?

Daniel Oliveira não ficou sozinho. Difícil, ou muito provavelmente impossível, é alguém no comentariado ter resistido à pulsão de caricaturar e achincalhar os representantes do Soberano. Pessoas que se ofereceram para tomar diariamente, horariamente, decisões que afectam o presente e futuro de milhões de concidadãos sem poderem ter sequer um bilionésimo da certeza apodíctica que os génios jornaleiros espalham pelo teclado e pelos estúdios. Onde são tão inteligentes, tão corajosos e tão felizes.