A seguir a ter sido criado por Passos Coelho, o mais curioso a respeito de André Ventura é tropeçarmos em declarações a respeito da sua apregoada grande inteligência. É o que diz Donizete Rodrigues, professor universitário de sociologia, por exemplo. Ou Carlos Abreu Amorim, um desbocado passista à espera de regressar à ribalta. A sua actividade académica e a subida do Chega nas sondagens compõem este ramalhete sobre os dotes cognitivos do fulano. Razão para nos perguntarmos: será?
Ventura escolheu uma retórica maximalista em que infantiliza o sistema partidário e as instituições como cenário da sua pose megalómana. É a estratégia anti-sistema copiada de outros países onde o populismo de uma direita inane triunfou eleitoralmente. Nela verbaliza expressões que pretendem ser explicitamente humilhantes para os alvos, apelando à percepção inequívoca e imediata de que está a ridicularizá-los. Nesses alvos inclui CDS, PSD e Marcelo Rebelo de Sousa enquanto Presidente da República. Inova em Portugal ao, já como deputado, hostilizar minorias e a cultura cívica que apela à sua integração e à defesa dos seus direitos. Ao mesmo tempo, cola-se à notoriedade de figuras como Trump, Bolsonaro, Salvini e Marine Le Pen, por um lado, e explora símbolos e locais religiosos para se promover como representante do voto evangélico e católico, por outro. Joana Marques Vidal é também usada como arma de propaganda, como o foi por Passos e Cavaco, ignorando-se qual o grau de adesão da própria ao papel que lhe está a ser dado. Segundo palavras de Ventura, ele acabará por ser primeiro-ministro, depois de destruir o CDS e subalternizar o PSD; donde, naturalmente, saltará para Presidente de uma República sem corrupção, sem racistas, sem ciganos, sem abusadores sexuais, sem protecção a minorias e sem esquerdalhos – e, parece, sem Serviço Nacional de Saúde e justiça fiscal, entre outras misérias herdadas do 25 de Abril.
É isto prova de inteligência? A seu favor, correm as evidências e os estudos. Trump ocupou a Casa Branca, inacreditavelmente para todos e para si, porque quem votou nele apenas valorizou a atitude provocatória e a promessa revolucionária, não avaliando o seu discurso racionalmente e aceitando acriticamente a superficialidade, simplismos, incoerências, mentiras e puros absurdos despejados em caudalosa verborreia. Vários estudos mostram que as dinâmicas da filiação identitária geram estes fenómenos, de há muito resumidos na fórmula “É um filho da puta mas é o nosso filho da puta.” Acresce que a direita portuguesa, seus partidos e Presidentes da República, se encontra num ciclo de profunda decadência; começado com a fuga de Barroso e consumado no impacto da superioridade eleitoral e executiva de Sócrates e sua equipa numa conjuntura de gravíssima crise económica e financeira na oligarquia, levando o combate político em Portugal a ficar afundado nas campanhas negras e no golpismo. A judicialização da política e a politização da Justiça, no fundo das quais esta direita se barricou, transformou-se num túmulo onde a sua decência jaz morta, e apodrece com pestilência. Daí valer tudo para os decadentes. Daí Ventura, como Passos intuiu, tentou e fez chegar até nós.
Ora, só há um desfecho para este cromo circense, o de ficar a falar sozinho para o grupo de borregos que agrega. É preciso ser-se muito estúpido, por condição ou opção, para suportar quem revela abertamente que nos quer enganar e prejudicar, como faz o leporidófilo. E o número desses infelizes não lhe permitirá ter mais do que um pequeno e efémero grupo de deputados, na melhor das possibilidades. Porém, outro galo cantaria se Ventura tivesse a estratégia de aparecer colado a Marcelo, CDS e PSD, mostrado-se um aliado especial – aquele aliado que consegue dizer e fazer abertamente o que os outros apenas conseguem dizer e simular que fazem implicitamente. Não foi esse o caminho que a sua gula pulsional seguiu, para sorte da qualidade da democracia e segurança do regime. E nem a inenarrável incompetência de Rui Rio o vai salvar da resposta que a comunidade lhe dará.
