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Ilíada, Canto IX, 438-43

Não custa a entender. Quem defende o ostracismo de Ventura, recusando dar-lhe atenção e palco, está cheio de boas intenções: limitar a sua influência, manifestar a repugnância que a sórdida figura suscita, evitar lutar com o porco para não ficar emporcalhado. Acontece que quem assim pensa está também a pensar mal.

A Odisseia é muito mais popular do que a Ilíada mas é nesta que se encontra uma lição política fundante e fundamental: aquele que é bravo na assembleia é valente na batalha – aquele que for bravo na batalha será valente na assembleia. A capacidade de tomar a palavra e enfrentar a ameaça de injustiça, como faz Aquiles na abertura do poema na cara de um rei, não é menos heróica do que a capacidade de enfrentar Heitor junto às muralhas de Tróia. As gerações que vieram a criar a primeira forma de democracia beberam desde o berço esta e outras lições – onde o falar livremente numa comunidade, de deuses ou humanos, era toda a civilização.

Se João Miguel Tavares merece ser uma das personalidades mais importantes do regime, tendo-lhe sido oferecida a raríssima e supina honra de presidir ao mais densamente simbólico dos feriados patriotas, por que razão se foge do Ventura alegando ser má companhia? Um e outro devem o seu sucesso exactamente à mesma fórmula, tentam ocupar os mesmos segmentos de mercado. Ambos viram uma oportunidade na decadência da direita, afundada na impotência e no ódio, e criaram marcas fortes e independentes. Um tornou-se caluniador profissional especializado nos alvos de quem lhe paga. O outro alinhou com Passos e serviu de cobaia para se ensaiar em Portugal o radicalismo da direita inimiga dos direitos humanos. Loures só foi uma derrota nas urnas, no plano da inovação política corresponde a um triunfo da fórmula pois vimos um presidente do PSD, ex-primeiro-ministro, a promover e consagrar uma cópia à portuguesa de Trump. O caminho que trouxe o Chega para os boletins de voto ficou então aberto.

O equivalente da sonsaria torpe do bracinho do Ventura a simular a saudação nazi numa manifestação encontra-se nos artigos e intervenções deste Tavares entretanto rico quando ensaia a defesa do Estado Novo e a diabolização do 25 de Abril debaixo de camadas de torpe sonsaria inspirada em Rui Ramos e quejandos. Ambos, André e João Miguel, comungam da visão intencionalmente mentirosa e alucinada em que a corrupção é a mãe de todos os males, em que quase todos (ou todos, depende do espectáculo) os políticos são corruptos e fazem leis para blindarem a corrupção na impunidade, em que o Estado não presta e deve ser reduzido à expressão mínima para não andarmos a sustentar madraços e estroinas, e em que só Passos Coelho e Joana Marques Vidal nos poderão proteger dos monstros socialistas que nos querem devorar. Os públicos a quem se dirigem são uma mistela de fanáticos, broncos e descompensados.

O Daniel Oliveira, por exemplo, entrevistou com gosto e compadrio o caluniador profissional. E ouviu dele, sem ripostar, a celebração da actividade criminosa no seio do Ministério Público ao serviço de uma agenda de perseguição política. Que razões terá para continuar sem convidar Ventura para o Perguntar não ofende quando estamos, como diria o Jerónimo, perante farinha do mesmo saco? Acaso Ventura não é interessante e importante por desvairadas razões ou sob variegados pontos de vista? Acaso os seus ouvintes não adorariam assistir à conversa sobre a podridão de Pedroso, Vara e Sócrates? Ou será que o Daniel teme ficar outra vez em silêncio face às barbaridades que saíssem do boca do seu entrevistado e, nesse caso, tal já daria que falar, e depois era chato?

Deixar o Ventura, um hipócrita que se desfaz com um sopro de decência e duas ou três noções básicas de História, sem contraditório, olhos nos olhos e de peito cheio, acaba por ser um monumento ao estado degenerado da sociedade. Uma sociedade que tem alinhado cobardemente com a violação do Estado de direito democrático ao serviço de vinganças oligárquicas e corporativas. Uma sociedade que aceitou ser cúmplice da pulsão do linchamento moral. Ventura nasceu nesse esgoto e foi subindo pela sua montanha de merda até conseguir empestar a Assembleia da República. O Portugal da indústria da calúnia sente que Ventura é um dos seus, e cala-se consolado. O Portugal que se respeita a si próprio mas que opta por fugir de um palhaço que nos quer fazer mal pagará o preço de não combater pela liberdade.

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Recordar é reler

A beleza da democracia é…

A beleza da democracia é a real possibilidade de um ser abjecto como Trump vencer uma das americanas mais bem preparadas da História para a função de presidente dos EUA.

A beleza da democracia é a real possibilidade de um ser abjecto como Trump ir para um debate na campanha da sua eventual reeleição e comportar-se como um pulha desvairado.

A beleza da democracia é a real possibilidade de um ser abjecto como Trump ser derrotado pela decência, pela liberdade e pelo instinto de sobrevivência da humanidade.

Aquelas três frases

Inês de Medeiros estava numa reunião da câmara. Um vereador do BE estava nessa reunião. Esse vereador fez uma intervenção onde introduziu na conversa a temática da beleza paisagística dos projectos de habitação social. Inês de Medeiros responde-lhe fazendo uma brevíssima-e-espontânea-e-irrelevante-e-natural-e-saudável referência à beleza paisagística dos projectos de habitação social, temática que tinha sido introduzida na conversa pelo vereador do BE. Escândalo.

Um demagogo profissional não deixará de aproveitar a ocasião para sacar o seu e despachar mais umas centenas de caracteres em 30 minutos de teclado e/ou ir para a TV fustigar a criminosa. E assim foi. Tudo bem, vivem disso. Mas a estupidez da perseguição, a ganância de transformar o humano no acéfalo, deixa ver o processo de atrofio sistemático da cidadania a que a comunicação social se entrega compulsivamente.

Em 2012, Maria de Lurdes Rodrigues foi chamada à Comissão de Educação e Ciência no Parlamento. Um deputado do PSD fez uma intervenção. Nessa intervenção introduziu na conversa, de forma acintosa, a referência à gestão da Parque Escolar como tendo sido uma “festa” de desperdício de dinheiros públicos. Na resposta, para se defender da calúnia, Maria de Lurdes Rodrigues usou o termo “festa” para o corrigir com a sua versão: «A Parque Escolar foi uma festa para o País, para os alunos, a engenharia, a arquitectura, o emprego, a economia. Fizemos escolas robustas, aptas para o futuro. Conseguimos crédito com juros de menos de 3% a 30 anos. Deixámos uma dívida boa.» Ainda a comissão não tinha terminado e já os demagogos profissionais espalhavam urbi et orbi que para esta odiosa socrática a Parque Escolar foi uma festa, obliterando o contexto e pondo a lenha toda na diabolização do alvo. Oito anos depois, a expressão está cristalizada no arsenal da chicana.

Azeredo Lopes nunca disse «Não sei se alguém entrou em Tancos. No limite, pode não ter havido furto». O que ele disse foi “Não sei se alguém entrou em Tancos” num passo de uma entrevista para responder aos jornalistas. E também disse “No limite, pode não ter havido furto” num outro passo dessa entrevista, para responder aos mesmos jornalistas que o interrogavam sobre aspectos diferentes daqueles que geraram a primeira resposta. À volta dessas duas pequenas frases, deixou gravadas extensas explicações onde reconhecia a gravidade do caso, onde se comprometia em dar às autoridades todos os meios para a investigação da ocorrência e para reforçar a segurança das instalações militares, e onde reconhecia que naquela fase em que se estava não era possível ter qualquer certeza a respeito do que teria realmente acontecido, donde todos os cenários terem de ser admissíveis. Os jornalistas, com a aprovação ou inspiração do seu director, juntaram as tais duas frases pequeninas da sua predilecção e fizeram delas uma parangona gigante. Ou seja, criaram um acto de fala original e atribuíram-no ao entrevistado, sabendo que o iriam queimar. Só tenho pena que não tenham aproveitado a avaria para lançar um passatempo onde os leitores do DN eram convidados a enviar outros exercícios sensacionalistas seguindo o mesmo brilhante método da colagem de frases à Lagardère. Talvez acabássemos por descobrir que Azeredo Lopes igualmente terá revelado ao Anselmo Crespo e ao Paulo Tavares em que ilha açoriana o Elvis se encontra escondido.

Revolution through evolution

Life in lockdown: health-wise, it’s not as bad as you think
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Pets linked to maintaining better mental health and reducing loneliness during lockdown, new research shows
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Feeding indoor cats just once a day could improve health
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Physical and cognitive function have improved meaningfully in 30 years
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A computer predicts your thoughts, creating images based on them
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“Digital fatigue is painfully real and growing, and the effects of conducting our business lives in two dimensions — when we relied on three in the past — are palpable,” says U of R Professor Allison Fraiberg
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New study finds Biden, Trump both likely to be ‘Super-Agers’
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Aprender a ser humilde com Paulo Pedroso

Ana Gomes convidou Paulo Pedroso para fazer parte da sua campanha presidencial e ele aceitou. Entendo as razões do convite, e aplaudo-o, não entendo as da ligação do Paulo a uma candidata que representa as piores pulsões justiceiras de que o próprio é uma vítima já inscrita na História.

A minha mãe, a poucos meses dos 86 invernos, disse-me “Já tinha decidido que nunca mais iria votar, fosse para o que fosse, mas agora com a Ana Gomes a concorrer quero ir votar nela.” Esta cidadã, com a 4ª classe tirada numa aldeia durante o salazarismo e uma vida de serviço à família, não adquiriu competências e conhecimentos para teorizar a sua motivação. Mas ela, sem carência de inteligir a afectividade motora, está a reagir à marca da personalidade pública. Ana Gomes encena ter pureza moral, integridade inviolável, coragem heróica, fervor anticorrupção. As suas prestações mediáticas são invariavelmente exercícios de pathos em que repete os clichés dos populistas que vingaram como artistas da política-espectáculo num longo processo que remonta aos anos 80 e explodiu com a crise de 2008 e suas devastadoras consequências económicas. Basta um exemplo entre, literalmente, milhares: Ana Gomes diz que se candidata às presidenciais para limpar o país

O País está sujo, emporcalhado, fede, pois anda tudo a roubar menos a Ana Gomes, claro. E não só anda tudo a roubar como apenas se rouba porque eles, os políticos, deixam que se roube. Donde, basta colocar no lugar dos políticos quem odeie os políticos-ladrões para acabar a roubalheira; exactamente como promete, garante e afiança esta garbosa senhora disponível para passar com a esfregona nas fuças dos corruptos, esses porcalhões. É a mesma cassete do esgoto a céu aberto, do Pacheco, do presidente do 10 de Junho de 2019, da claque da Joana e do Calex, da comissão para o regresso do Passos, e ainda do tal Ventura que apenas tem de acelerar na autoestrada da pulhice que a indústria da calúnia foi construindo desde 2004 por causa de um certo Sócrates.

Não há quem se lembre de algo aproveitável acerca da corrupção saído da boca ou do teclado de Ana Gomes por uma simples e incontornável evidência: ela não tem dessa fruta para vender. Tal como os seus restantes colegas caluniadores profissionais, não estudou o assunto e tem alergia aos números. Aliás, quem pretenda singrar nesta carreira tão bem remunerada tem de ter o maior cuidado com as fontes e dados objectivos acerca da corrupção em Portugal. Há que fugir disso como o Diabo da cruz, a realidade só atrapalha e confunde o público. O que se pretende são títulos garrafais, escutas escolhidas a dedo e montadas à maneira, fotografias vexantes e a beleza daqueles videozinhos em que vemos a bandidagem a gaguejar ou a exaltar-se com os santos dos procuradores e suas convicções graníticas. A energia que Ana Gomes gasta a insinuar, ou declarar sem rebuço, que fulano não presta e beltrano é ladrão flui sem obstáculos e vai sempre em crescendo porque ela também tratou há muito de varrer os princípios da presunção de inocência e do direito a um processo justo para debaixo do tapete. Um outro tipo de limpeza, agora dessa tralha toda pela qual tantos deram a vida ao longo de séculos e séculos, portanto.

Nos últimos anos, no quase anonimato dos seus blogues, Pedroso tem sido capaz de fazer o que não vi ser feito por mais ninguém com a sua acutilância e autoridade – a denúncia da sistémica disfunção das magistraturas do Ministério Público e judicial de que resulta a violação do Estado de direito democrático pelo pilar do regime a quem é dado o poder de fazer justiça. Tópico que suscita indiferença a Ana Gomes, ocupada como está com os malvados socráticos e contas desse rosário. Os jornalistas censuram passivamente as palavras de Pedroso porque o sistema partidário, os Presidentes da República e os poderes fácticos censuram activamente o seu pensamento. O regime convive bem, e até mais do que bem, com o festival de se acusar um ex-primeiro-ministro de corrupção. Já não convive tão bem com o aborrecimento de se acusar um superbanqueiro de corrupção porque, lá está, o coitado nem sequer é político e foi generoso com tanta gente. Agora, pensar em questionar o mandato da Santa Joana ou em beliscar os superpoderes do superjuiz e seus clones, isso jamais. O episódio em que Costa chumbou a candidatura de Pedroso para o reingresso activo nas fileiras socialistas é uma lição paradigmática em que o cinismo de um bom líder convencional espezinha sem hesitar a lhaneza e parrésia de quem sofreu a desgraça da perda do bom nome. Razões de Estado, obviamente; estado da razão, consequentemente.

Por tudo isto, não entendo Paulo Pedroso. Mas compreendo-o quando se quer cumprir na sua liberdade. E então, para sempre agradecido e finalmente humilde, desejo-lhe boa sorte no combate implacável contra o absurdo.

“Isto também tem de ter um pouco de boa disposição”

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O Sr. Araújo tem nojo ou medo do Sr. Ventura? É o dilema com que ficamos depois desta entrevista: Por que é que Ricardo Araújo Pereira não convida André Ventura? No segmento disponível, o famoso humorista nada explica, preferindo voltar a chamar maricas ao deputado. Na resposta deste, acima em exposição, testemunhamos a regressão do igualmente famoso líder do movimento anti-anti-racismo para os 10 anos de idade; o que corresponde, com rigor estatístico, à média da idade mental da audiência e eleitorado que persegue.

Ventura tem tentado com insistência aparecer na pantalha ao lado do RAP, por motivos que não gastaria meia caloria a elencar e que são exactamente os mesmos que levam João Miguel Tavares a publicitar os almoços e visitas caseiras com a estrela fedorenta cobiçada. Acontece que a razão está do seu lado: o RAP tem, realmente, medo de levar a maior coça da vida dele. Porque estamos perante dois grandes cómicos, dois monstros da bazófia, e o espoliado do BES pressente que a força está com o rival.

Vejamos, o nosso Ricardo faz humor a partir de crimes de violação do segredo de justiça, aproveitando para os legitimar e expandir no dano potencial ao celebrar a exploração mediática da privacidade, e até da intimidade fragilizada, e espalhando e reforçando calúnias sobre os alvos. Esta é uma actividade a que se entrega na imprensa escrita e na TV com afinco e proveitos invejáveis. E o nosso André faz humor a partir da violação dos direitos humanos, permitindo-se gozar com qualquer valor e instituição que tenha relação com o cânon da tradição greco-romana, cristã, iluminista e liberal que sustenta aquilo a que chamamos civilização ideal ou ideal cívico. Esta é uma actividade a que se entrega com entusiasmo no Parlamento e na inerente projecção pública. Pois bem, qual deles tem maior probabilidade de receber umas festinhas no lombo dadas pelo líder da única superpotência mundial?… Estas merdas pesam na cachimónia do Pereira que ainda não tem dinheiro para comprar um porta-aviões.

Que RAP e André Ventura são competidores no mesmo campeonato foi atestado recentemente por outra grande figura da comédia, de seu nome Rui Rio. Ele actua em vários palcos, com um reportório por vezes original e, noutras vezes, originalíssimo. No final de Julho, realizou o seu mais hilariante espectáculo até à data, ao declarar numa entrevista que admite alianças com o Chega caso essa agremiação de mutiladores “evolua para uma posição mais moderada“. A gargalhada foi geral, foi homérica, e continua. Desde aí, o Ventura nunca mais deixou de agradecer a Rio o estatuto de parceiro desejado recorrendo a um estilo chunga de fazer corar pedreiros e estivadores. Ora, o actual presidente do PSD, indiferente aos piropos do seu futuro ministro da ciganada corrupta e mostrando que já é um especialista em humor twitteiro de qualidade mundial, ofereceu-nos o seu entendimento do que foi a convenção do Chega em Évora:

Castração química e física, prisão perpétua, pena de morte, ilegalização de partidos marxistas, limitação de cargos governativos a quem tiver nacionalidade portuguesa originária, desprezo pelas minorias, abolição de direitos individuais, imposição de um estado securitário e destruição de ovários, eis alguns dos tópicos que fizeram parte substantiva das conversas dos delegados e dirigentes presentes na convenção do Chega em 2020. Rio acompanhou os trabalhos à distância como bravo líder da oposição e fatal próximo primeiro-ministro que é. Dessa torre de vigia da República, do regime e da comunidade, analisou, interpretou, antecipou, ponderou, considerou, matutou e, no momento exacto, conseguiu decidir-se: ia mesmo terminar o tweet com o emoji, giríssimo, de um gatinho a rir.

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Magistrados, esses tontos fofinhos

Terça-feira, 22 de Setembro, final de tarde. Olho à volta e a cidade parece-me igual, inteira. Ninguém diria que, na semana passada, o comentariado decretou o estado de calamidade na Grei porque Costa e o Benfica, o Benfica e Costa. Fico sempre desasado quando vejo figuras que admiro pelas melhores razões a deixarem-se cair nas piores emoções. Fernanda Câncio e Pedro Marques Lopes alinharam no coro da chachada, tendo assinado exercícios retóricos sem qualquer utilidade, no caso do Pedro, e a divergir para outras problemáticas relevantes mas sem relação com o episódio, no caso da Fernanda – algo raríssimo neles. Vou atribuir à pulsão catártica que o tempo alimenta a opção pelo teatro das ofensas à honra (conceito convenientemente subjectivista e inescrutável) e a imitação em manada do espancamento do primeiro-ministro (em grande parte gerado pela rivalidade clubística de apoiantes do FCP e por apoiantes da impoluta Ana Gomes, os quais aproveitaram para juntar o inútil ao desagradável).

Entre os profissionais da indústria da calúnia que molharam a sopa, e depois do Pacheco já por cá ilustrado, trago agora Paulo Baldaia e o seu Enxotado como cão com pulgas. No último parágrafo, esta inteligência deixa o seguinte:

«Aliás, por perceber está igualmente a convicção que o primeiro-ministro tem da total inocência de Filipe Vieira em todos os processos em que está envolvido. Que é feito do despacho "à justiça o que é da justiça"? Não chega a presunção de inocência que é devida a toda a gente que não tenha sentenças transitadas em julgado. Ao encabeçar a comissão de honra, António Costa está a dizer-nos a todos que confia inteiramente na inocência do presidente do seu clube e, desta forma, pressiona a justiça para ilibar Filipe Vieira. [...]»

Obviamente, não há nada de errado em considerar um erro a participação do chefe do Governo na comissão de honra de Vieira em 2020. Nem errado me parece cobrir esse erro com uma montanha de adjectivos castigadores. É lá com eles e com quem lhes paga. O que assinalo são apenas dois pormenores que expõem a decadência da classe jornalística, uma decadência concomitante e congénere da decadência da direita portuguesa – a qual tem dominado a comunicação social portuguesa nos últimos 35 anos: a obsessão báquica com Sócrates e a promoção da anomia.

Comparar a situação de Vieira com a de Sócrates, papagueando sem parar o “à justiça o que é da justiça” como se aqui tivesse sentido equivalente, não é apenas ser estúpido, é ainda querer ser calhorda. Quando Sócrates foi detido e imediatamente preso, acção planeada para coincidir com a consagração de Costa como novo secretário-geral do PS e o início de um ano eleitoral de legislativas, Costa foi colocado numa situação inaudita na história da democracia portuguesa – e em quase todas as outras, trata-se de um acontecimento excepcional em qualquer parte do Mundo. Por um lado, não podia saber o que a investigação a Sócrates iria revelar nem por quanto tempo o processo estaria em aberto a servir de arma de arremesso. Por outro lado, não podia cair na armadilha de se deixar afundar na judicialização da política e politização da Justiça, precisamente o terreno donde os adversários lançavam os seus devastadores ataques. O caminho seguido de equilíbrio entre a mínima lealdade partidária (recorde-se, no contexto, a entrega de Soares àquela que foi a sua última causa política, a denúncia da Operação Marquês) e o escrupuloso – e repetido à exaustão – respeito pela separação de poderes talvez fosse o único possível tendo como critério o interesse nacional. Precisamos da passagem de muitos anos e de memórias ainda por escrever para ter alguma ideia mais sólida do que apenas um palpite absolutamente ignorante (que é só o que tenho).

Quanto à promoção da anomia, ela está no desplante com que se admite a volubilidade – portanto, corrupção – dos procuradores e juízes. Se a Justiça se deixa pressionar por uma comissão de honra de um clube de futebol, como declara Paulo Baldaia escrevendo num “jornal de referência”, a pergunta seguinte é: haverá alguém em Portugal que ainda não tenha pressionado a Justiça, escapando impune e obtendo o que pretendia? A única forma de introduzir responsabilização nesta dissoluta forma de intervenção no espaço público seria agora obrigar o fulano a demonstrar a tese. Como é que, exactamente, a notícia de um primeiro-ministro ser apoiante de um candidato numas eleições para um clube desportivo vai inibir os magistrados de cumprirem a lei? Eu pagava, e talvez mais do que os 10 euros que tenho no bolso, para assistir ao chorrilho de disparates que o espectáculo iria proporcionar.

E se a sua defesa se limitasse ao “trata-se de uma opinião, não tenha de justificá-la, viva a liberdade” não daria o meu tempo por mal empregue. É que a decadência do jornalismo também mora aí, na hipocrisia e ocultação do que motiva os jornalistas no seu papel de editorialistas – função que muitos confundem com uma câmara baixíssima onde se imaginam membros de um órgão soberano. Este Baldaia foi o co-autor (primeira responsabilidade para Anselmo Crespo e Paulo Tavares, última para o então director do jornal) de um título para uma entrevista a Azeredo Lopes que é uma invenção, para começo da história, e que intencionava ser uma incendiária deturpação das afirmações do entrevistado, como alcançou ser. A fazermos fé nos seus apregoados dotes telepáticos e proféticos, então, é impossível não ir dar ao corolário: Carlos Alexandre no processo de Tancos deixou-se pressionar pela pulhice que o Baldaia mandou publicar com a finalidade de pressionar a Justiça. Vou até mais longe, pedindo licença ao preclaro autor do raciocínio para o levar às últimas consequências: quem não se deixa pressionar não vai para juiz.

Começa a semana com isto


[para ler melhor as legendas, ver o vídeo em ecrã inteiro ou na página do YouTube]

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Desconfio que Jeannie Suk Gersen é um nome em que não se tropeça com facilidade nos recantos de Portugal. Desconfio também que quem calhe assistir a este vídeo não faça a menor ideia da originalidade da sua biografia e percurso intelectual.

Nesta palestra, e daí a ter escolhido, fala de diversidade, racismo e feminismo de uma forma que não é feminina nem masculina, antes tradicionalmente académica – o que significa que é, simultaneamente, perfeitamente adequada ao tempo e ao espaço onde se efectiva. O espaço é uma sala de aula na prestigiadíssima Harvard Law School, o tempo algures no século XXI.

O tema principal do seu discurso e interacção com os alunos consiste na apologia do “método socrático”. Para quem goste de professores, e adore esses momentos em que são melhores do que eles próprios ao se apresentarem à nossa frente com os pés no chão e os olhos apontados ao mais alto, esta lição sobre uma prática de crescimento pessoal cada vez mais impopular é de uma convicção admirável.

E o que é o “método socrático”, afinal? É a coragem de pensar pela própria cabeça. E não ter vergonha que se oiça o resultado.

Revolution through evolution

New study explores if flirting is real and shows it can work
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The key to happiness: Friends or family?
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People react better to both negative and positive events with more sleep
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Epidemics and pandemics can exacerbate xenophobia, bigotry
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The unintended consequence of becoming empathetic
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Like humans, chimpanzees can suffer for life if orphaned before adulthood
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Governments must ‘change the way the economy works’ after Covid-19 pandemic, says OECD-commissioned report
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A velhice do caluniador eterno

O exercício que vou fazer requer, para a sua plena fruição, a leitura, nem que seja na diagonal, da entrada na Wikipédia intitulada José Pacheco Pereira.

Cá vai alho:

[em epígrafe, Na sombra do Pacheco]

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«Mais do que nunca, temos que ter uma conversação rigorosa, dura, intransigente, mesmo impiedosa, sobre a corrupção.»

Sou eu, Pacheco, um representante e apaixonado colaborador do Cavaquistão, quem o garante. Mais do que nunca, agora que existem leis e instrumentos de fiscalização e investigação da corrupção que fazem com que os anos 80 e 90 pareçam a Idade de Ouro do saque público, temos de continuar a vender a banha da cobra de que a corrupção não pára de aumentar em ordem a manter esta mama que nos enche os bolsos, a mim e aos meus estimados colegas da indústria da calúnia.

«Já se vêem os bandos de pombos atrás do milho.»

Sou eu, Pacheco, o mais antigo e ubíquo passarão do comentariado, quem o garante. Vejo tudo lá do alto com o meu olhar aquilino. Pombos, ratos, porcos, serpentes, lacraus, ervas daninhas, minhocas. Tudo vejo e tudo calo. Não contem comigo para dar nome aos bois; à excepção do Sr. Engenheiro, Deus nos livre e guarde.

«Tiveram oportunidades, e criaram oportunidades, e é a facilidade com que isto aconteceu, e a fila enorme de gente importante que foi lá buscar o seu quinhão, que mostra que não é um problema de meia dúzia de corruptos, mas do “meio” que facilita o crime, ou seja, é estrutural e não conjuntural. Eles vivem no “meio” e são o “meio”.»

Sou eu, Pacheco, com 40 anos de esfreganço de costas e bacalhauzadas no “meio” dessa gente, quem o garante. É preciso frequentar o “meio” sem pertencer ao “meio” para conseguir o que eu consigo, isto de fingir que não sou do “meio” enquanto uso o “meio” como meio para os meus fins. Complicado? Só para quem não é conhecido no “meio”, seus tansos que nada pescam do estruturalismo do “meio”.

«Hoje isto é dinamite para a democracia. Já houve alturas em que não foi assim, ou não foi tão grave assim. Hoje, é.»

Sou eu, Pacheco, com o servicinho do dia ao dispor na “imprensa de referência”, quem o garante. Hoje, sim, hoje é que é. Hoje é dinamite, ontem foi pólvora seca, amanhã será bomba termonuclear. Quando se passava ao meu lado, com os meus colegas de partido, com os ministros e secretários de Estado que eu apoiava no Parlamento, com as centenas e milhares que se cruzavam comigo sem esconderem quem eram e o que faziam, estava tudo bem. Outros tempos, topas? Outros tempos, éramos jovens e amigos. Não há comparação com o horror que agora vejo à minha volta. Hoje. Dinamite. Bum!

«Já viram alguma especial indignação com a corrupção nos grandes clubes quando não é o “nosso”? Como se as pessoas que vociferam nos cafés e nas redes não tivessem uma ideia de onde vem e para onde vão os muitos milhões e milhões que custam os jogadores.»

Sou eu, Pacheco, um dos mais populares historiadores e sabichões do Reino, quem o garante. A gentalha dos cafés e das redes não presta, cospe-se ao falar, não tem bibliotecas em casa. A gentalha dos cafés e das redes vai à bola com os corruptos. Por isso é que coiso. Ando a dizer isto há décadas nos jornais, nas rádios e nas televisões. E não me posso queixar pois eles pagam bem e a horas. Mas a gentalha dos cafés e das redes, francamente, que piolheira.

«É pensar de uma ponta a outra a administração, das autarquias aos ministérios, é cortar radicalmente os milhares de pequenos poderes discricionários que por aí existem, obrigar a que sejam transparentes e escrutináveis muitos processos que nada justifica não serem públicos. Agora que vêm aí vários barris de dinheiro, é vital que tal se faça.»

Sou eu, Pacheco, que em 1972 era maoísta e em 2009 era o mauísta de Ferreira Leite, quem o garante. Aproveitemos a data ao virar da esquina do calendário para fazer o que não foi feito em quase nove séculos de História. Bute “pensar de uma ponta a outra a administração, das autarquias aos ministérios” aproveitando as restrições da epidemia que nos obrigam a ficar em casa. É pura e simplesmente genial pois o falhanço é certo e certa é a culpa dos socialistas que não vão dar conta do recado.

«Mas é também dar o exemplo de que não se mistura “honra” com mundos muito pouco honrados. Por isso é que a participação do primeiro-ministro, do presidente da Câmara de Lisboa e de vários deputados num acto de promiscuidade com o poder fáctico do futebol é muito grave, porque significa indiferença face à corrupção, numa altura crítica do seu combate. Como não se retractaram, ficam com uma mancha.»

Sou eu, Pacheco, um dos patrícios cavaquistas que contribuíram para ajudar ao nascimento do BPN, essa gesta heróica da gente séria, quem o garante. Ver o primeiro-ministro e o presidente da câmara numa comissão de honra – de honra, concidadãos! – do tal Vieira manda uma mensagem que chega imediatamente a todo o sistema de Justiça e interrompe o glorioso combate contra a corrupção. Como é que um procurador, um juiz, um agente da Judiciária ou mero polícia sinaleiro conseguirá encontrar coragem moral para enfrentar os diabólicos corruptos sabendo-se do benfiquismo de António Costa e Fernando Medina? É que a ligação é óbvia, “eleições no Benfica”=”plebiscito à corrupção”. Vergonha! Vergonha! Vergonha!

Adão Silva, o apogeu de um anjo

A notícia de Adão Silva ter ganhado as eleições para a bancada parlamentar do PSD encheu de júbilo o meu pobre coração amante da política. Porque estamos perante um cromo que é uma pratada de riso, o que irá aumentar a saúde mental de quem acompanhar a actividade parlamentar, e porque tal ocorrência permite-me republicar o vídeo com mais sucesso que este pardieiro alguma vez colocou no éter youtúbico:

A intervenção de Pedro Silva Pereira é de uma perfeição oratória sem rival na minha memória. Desde a estocada inicial, que deixou o adversário pelo chão em agonia, até à construção segura e implacável do argumento, o qual termina em evidência peremptória. À distância de oito anos, atendendo ao contexto de então e ao que sabemos agora, o seu discurso fica ainda mais relevante. E tudo isto de improviso, imediatamente a seguir a uma cena pífia de chicana. Não admira que se odeie tanto este PSP, o medo e a inveja explicam o fenómeno e deixam medalhas de mérito na lapela do alvo.

Chamo também a atenção para os números da eleição:

De acordo com fonte do partido, votaram os 79 deputados da bancada do PSD, dos quais 64 votaram sim, seis em branco e registaram-se 9 votos nulos.

Isto significa que Rui Rio, o Clausewitz ao contrário da estratégia política, tem neste momento um líder da bancada folião – o qual está rodeado por seis deputados que preferiam não ter de votar e mais nove que nem sequer conseguiram apenas fazer uma simples cruz num quadradinho, admitindo-se as mais estouvadas hipóteses sobre o que terão deixado escrito, ou desenhado (cuspido?), nos boletins considerados nulos.

Lapidar

«O que se perdeu com a estratégia narcísica que vai dar, mais cedo ou mais tarde, ao sentimento elegíaco da perda e por conseguinte a uma profunda infelicidade, foi a crítica, o espírito crítico. O jornalismo moderno, que nasceu do Iluminismo, colocou a crítica como projecto inalienável e como critério primeiro que justificava a sua existência. Mas a crítica não era apenas uma exigência na relação com o poder político e todos os outros poderes: o jornalismo crítico tinha também de ser capaz de ser crítico de si próprio. Sem essa dimensão, todo o projecto falharia. Ora, o que acontece hoje é que a capacidade de autocrítica, com todas as suas potencialidades, foi substituída pelo narcisismo que se compraz na autocelebração. Este fenómeno não é novo, mas instalou-se na nossa paisagem mediática com uma força enorme a partir do final do século passado. Recordar isso hoje é também uma homenagem a Vicente Jorge Silva, cujos projectos em que esteve envolvido, do Comércio do Funchal ao PÚBLICO, passando pela "Revista" do Expresso, foram espaços que estimulavam a razão crítica do jornalismo. Sem uma consciência teórica e crítica de si próprio, o jornalismo é cego.»


António Guerreiro

Costa e a habilidade

Cavaco gravou num livro, em 2018, que Costa é “um hábil profissional da política”. Foi a forma que ele encontrou para lhe chamar cabrão. Mas em 2018 essa fama de Costa ser habilidoso já era um estafado bordão na retórica da direita, o substituto do “mentiroso” urrado sem parar quando se cagavam todos de medo ao ver Sócrates pela frente. Muito provavelmente, foi o Marcelo comentador que inventou o carimbo após as peripécias da luta entre Costa e Seguro para a liderança do PS; antes, ninguém tinha reparado em especiais habilidades de Costa, limitava-se a parecer competente. Depois ficou como eufemismo de trafulha para gasto com um alvo que não podia ser engolido pela indústria da calúnia.

No mundo feérico e obsessivo do comentariado, o termo ganhou estatuto de categoria hermenêutica, passando a ser uma forma de despachar crónicas ao metro. Há sempre alguém que imagina que existe um outro alguém preocupado com o que o primeiro alguém pensa a respeito do estado da suposta habilidade de Costa. E rapidamente o fenómeno se torna mágico, atribuindo-se à sua habilidade tudo o que pareça correr-lhe bem e, simetricamente, abrindo-se uma crise cósmica quando os acontecimentos põem em causa a incensada predestinação. Governo minoritário com apoio do BE e PCP? Habilidoso. Elogios da Europa às contas certas? Habilidoso. Recuperação do poder económico dos portugueses, explosão do turismo, défice zero, domínio nas sondagens, campeões da Europa e da Eurovisão? Super-habilidoso. Participação numa conversa privada com jornalistas depois de dar uma entrevista, quando era suposto nada ficar gravado, e participação como cidadão na vida de um clube de futebol? Temor e tremor… Que é feito do Costa hábil?

O comentariado vive de simplismos, caricaturas, deturpações, berreiro. Não poderia ser de outra forma pois estamos perante um estilo de entretenimento. Escreve-se e palra-se para plateias que se divertem a aplaudir e apupar. Mas não convidem esses bufões para cuidar da cidade pois adormecem nas muralhas ou aproveitam para vender entradas aos bárbaros. Marcelo é o exemplo supremo. Enquanto astro da TV acertava em tudo, tudo parecia fácil e cristalino no seu teatro. Escurecia-se o currículo onde era apenas mais um professor de Direito, e um viciado e vicioso jornalista de opinião, e onde tinha sido o tal falhado dirigente partidário e o tal falhado candidato à câmara de Lisboa. Os holofotes iam todos para aquela parte do palco onde imitava, com paixão e donaire, os políticos que arriscam coiro e reputação. Só que imitar não é ser, como ensina Platão. Assim que o Marcelo outra vez político apanhou uma tempestade gigante pela frente, em Março de 2020, mostrou o que era realmente: um general em quem não se pode confiar.

Já Costa viu-se coroado nos meses de Março e Abril. A direita ficou apopléctica com a visão do primeiro-ministro budista, seráfico perante a notícia de o mundo estar a desabar à sua volta. Ainda por cima, os números das infecções, mortos, vagas em hospitais pareciam não só controlados como muito melhores do que se previu no pânico inicial. Que era feito daquele Pedrógão vezes mil que estava prometido, perguntavam os pulhas? Para quando a boa nova do colapso do Serviço Nacional de Saúde e do horror a sair à rua, mordiam-se os canalhas? Não foi nada fácil para a direita decadente atravessar esse confinamento do seu ódio. E lá no fundo, porque os neurónios (ou falta deles) não dão para mais, também atribuíam à sua habilidade a roleta da propagação da epidemia em Portugal e a imagem de segurança e confiança que transmitiu em período tão original, angustiante e perigoso para a comunidade. Mas será Costa realmente esse portento de habilidade que os seus adversários agitam vencidos?

Vicente Jorge Silva pode ajudar-nos a encontrar a resposta. Em Novembro de 2017 deixou no Público a tese de que Costa não só atravessava um período de inabilidade extrema como talvez nem tivesse vocação para o cargo. O texto chama-se Que aconteceu a António Costa?, sendo banal na forma e torpe no conteúdo – excepção para a partilha da anedota onde se relata uma suposta conversa tida entre os dois em 2004, a qual teria levado Costa a declarar-lhe que nunca seria líder do PS nem primeiro-ministro (por não ter vontade, fica implícito no relato). Ora, sou comprador da veracidade dessa memória. Costa não parece ter a gana de querer atingir o topo da pirâmide, realmente, antes aparecendo como um fortuito líder que, com algum manifesto contragosto, se vê obrigado a dirigir as tropas. Essa tipologia concorda com o que todos vimos aquando dos movimentos para derrubar Seguro, em que começou logo por meter os pés pelas mãos com uma falsa partida, e depois com a campanha de merda que fez para chegar a secretário-geral. O mesmo perfil para os excessos emocionais que parecem absolutamente amadores, podendo calhar com jornalistas ou políticos. É como se ele não se importasse de regressar à função de tenente e aí descansar para não ter grandes chatices. Como se sonhasse todos os dias com o remanso de um gabinete pintarolas mas discreto, perdendo-se secretamente na contemplação das futuras sopas e descanso, mas leal ao grupo que aceitou chefiar e vestindo a camisola do serviço público até ao fim da missão.

Não querer o poder é um arcano sinal de vocação para lhe dar o melhor uso. Se for o caso, é quase perfeito. E, ironia suprema, talvez esse desprendimento pachola nasça de uma certa falta de habilidade para fazer das pulsões tribais o centro da sua vida.

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