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Vinte Linhas 456

A eterna luta entre o pó e a posteridade
Há 32 anos, quando comecei no «Diário Popular» não imaginava como tudo isto é efémero. Os jornais são como as pessoas; também morrem. De repente lembro-me de alguns onde colaborei desde 1978 e que deixaram de se publicar: «Diário Popular», «Diário de Lisboa», «Gazeta dos Desportos», «A Capital», «República». Mas se recuarmos 70 anos vemos nove jornais diários que não resistiram: «Jornal do Comércio», «O Comércio do Porto», «O Primeiro de Janeiro», «O SÉCULO», «Novidades», «República», «Diário de Lisboa», «A VOZ», «Diário da Manhã». Só ficaram o «Diário de Noticias» e o «Jornal de Noticias». A BOLA MAGAZINE, de onde foram recuperadas para o meu livro «As palavras em Jogo» estas entrevistas e a memória, também só vive hoje na memória afectiva de quem a guarda e nas prateleiras das hemerotecas. Há 370 anos nasceu a primeira Gazeta que dentro de meses pode dar origem a algumas efemérides. Somos os bisnetos desses obscuros redactores e somos os remadores dessa barca onde se procura vencer o pó do silêncio e alcançar a posteridade possível. O Mundo é uma terrível fábrica de esquecimento; compete a todos e a cada um de nós fazer com que o esquecimento seja uma injustiça. Ao procurar saber mais do jornalismo de há 70 anos apareceu em O SÉCULO de 1941 uma referência a José Bento Pessoa. Pois o nosso figueirense foi em 1897 o vencedor do I Campeonato de Espanha em bicicleta disputado em Ávila na distância de 100 quilómetros que fez em 3h 42m e 31s. Ele é uma relíquia do Desporto Português. Este livro não aspira a tanto; pede apenas um pouco de atenção ao leitor comum e um lugar no futuro Museu do Desporto.
Vinte Linhas 455

«Padre Cruz – um salvo-conduto do Dr. Afonso Costa para ninguém o prender…»
O Padre Cruz (1859-1948) nasceu há 150 anos. A efeméride foi comemorada aqui em São Roque com uma missa solene transmitida pela TVI. Há muitas histórias do Padre Cruz como aquela do barbeiro perto da igreja da Conceição Velha onde o Padre Cruz cortou o cabelo, não pagou porque tinha dado o dinheiro aos pobres mas, passado pouco tempo, a barbearia encheu-se de fregueses como antes nunca tinha acontecido. O barbeiro já tinha ouvido falar dele por trazer sempre uma carta do Dr. Afonso Costa para ninguém o prender. Esta história da carta do Dr. Afonso Costa tem uma origem curiosa. Depois de 1911, com a «Lei da Separação», surgiram muitos problemas para os Padres. Numa localidade perto de Torres Vedras o Padre Cruz estava a pregar mas acabou preso pelo Regedor local que o enviou para Lisboa acompanhado de um polícia mas o Ministro da Justiça mandou-o em paz. Tempos depois à porta do Limoeiro, depois de visitar os presos, o Padre Cruz ficou detido e incomunicável durante nove dias. Como o mundo é pequeno, o mordomo do Patriarca tinha um familiar licenciado em Direito e que conhecia o Dr. Afonso Costa da barra dos Tribunais. Pediu-lhe que contactasse o Ministro da Justiça e este ordenou uma investigação para se descobrir onde parava o Padre Cruz – estava numa enxovia imunda no Limoeiro. Para evitar males maiores foi o próprio Dr. Afonso Costa que escreveu pelo seu punho um «Salvo-conduto» em favor do Padre Cruz. Este mandou colocar um caixilho no documento e andava sempre com ele. No meio das maiores confusões, passava sempre e nenhum polícia o impedia de ir às cadeias ou aos hospitais visitar os presos e os doentes.
Vinte Linhas 454
O maloio, o lapão, o saloio, o labrego, o lapuz e outros malcriados
Utilizo com muita frequência o Dicionário da Língua Portuguesa da Sociedade de Língua Portuguesa, edição de 1986 coordenada por José Pedro Machado.
A propósito do termo «lapão» que utilizei em anterior comentário a uma nota de leitura, o mesmo dicionário refere-o como «Termo de Leiria». De facto em Leiria era usual chamar-se «lapão» a um trabalhador rural no sentido em que este, vindo à cidade, não dominava a gramática daquela civilização. Como tal não sabia sequer como dirigir-se às pessoas dos diversos serviços (Finanças, Câmara Municipal, Grémio da Lavoura e outros) havendo mesmo quem na cidade de Leiria utilizasse um termo mais forte – lapãozão. Explica o dicionário acima referido que «lapão» é labrego, campónio e lanzudo. Mas então «labrego» é rude, rústico, camponês, aldeão, malcriado, grosseiro e ordinário. Já «lapuz» surge como bruto, campónio, labrego, rude e grosseiro. E «saloio» é aldeão, grosseiro e rústico. Mas há um segundo sentido no termo «saloio»: pode ser ardiloso, manhoso, finório e velhaco.
Quanto a «maloio» o termo é definido no dicionário como saloio, campónio, labrego e lapuz. Assim sendo, quando escrevo «maloio», estou a acertar em cheio pois este termo acumula o sentido de quase todos os outros da mesma família.
Recordo muitas vezes uma frase da minha avó em Santa Catarina nos meus tempos de férias grandes entre 1957 e 1961: «Nunca dês parte de fraco, não sejas maloio!» Ora tendo eu nascido no distrito de Leiria, cidade onde fiz as admissões à Escola Técnica e ao Liceu, esta frase prova que o termo não é só de Leiria mas sim de todo o distrito.
Um livro por semana 172

«O Primeiro Marquês de Alorna» de Filipe do Carmo Francisco
No seu primeiro trabalho publicado em volume autónomo, o jovem investigador Filipe do Carmo Francisco (n. 1981) aborda a carreira de D. Pedro Miguel de Almeida Portugal (1688-1756) que foi Vice-Rei da Índia entre 1744 e 1750. Conforme o subtítulo indica o Conde de Assumar (1733), Marquês de Castelo-Novo (1744) e Marquês de Alorna (1748) foi o restaurador do Estado Português da Índia. A partir do massacre de Aldoná (1737) no qual perderam a vida quatro companhias de granadeiros, D. Pedro reorganiza, aos poucos, a força militar portuguesa na Índia e empreende as diversas campanhas com ataques navais e expedições terrestres contra os vizinhos mas sempre sob a ameaça do Marata e da pirataria, quer do Angriá quer do Bounsuló.
Os panegíricos publicados em Lisboa, Paris e Roma entre 1715 e 1759 em louvor dos Vice-Reis Setecentistas da Índia, mostram que só para D. Pedro são escritas 43% das obras mas, curiosamente, o texto impresso que vai perdurar até 1961 é a célebre Instrucção que D. Pedro escreveu para o seu sucessor, o Marquês de Távora. Estranhos são os caminhos da posteridade: esquecidas as centenas de páginas escritas em seu louvor, o contributo de D. Pedro para a história de Goa, Damão e Diu está nas sucessivas reimpressões do seu relatório de 1750 sobre a realidade física e humana, geográfica e social, política e religiosa da Índia Portuguesa.
(Editora: Tribuna da História, Capa: Maia Moura Design, Revisão: Manuel Amaral, Editor: Pedro de Avillez, Patrocínio: Fundação das Casas de Fronteira e Alorna / Comissão Portuguesa de História Militar)
Um livro por semana 171
«Humanidade» de Fernando Nobre
Fernando Nobre (n. Luanda, 1951) juntou em livro as suas reflexões e pensamentos sobre os desafios, as ameaças e as esperanças globais que o interpelam enquanto português e enquanto cidadão do Mundo sob o subtítulo de «Despertar para a cidadania global solidária». Com data de 4-1-2009 escreve sobre a chacina de Israel em Gaza, estranha guerra em que os «agressores», os Palestinianos, têm cem vezes mais baixas e mortos em mortos e feridos do que os «agredidos». Nunca antes visto nos anais militares! Vejamos um excerto:
«Os jovens palestinianos que, desesperados e humilhados, actuam e reagem hoje em Gaza, são os netos daquele que fugiram espavoridos do que é hoje Israel, quando o então movimento «terrorista» Irgun liderado pelo seu chefe Menahem Begin, futuro primeiro-ministro e prémio Nobel da Paz, chacinou com armas brancas durante uma noite inteira todos os habitantes da aldeia palestiniana de Deir Yassin: cerca de trezentas pessoas. Esse acto de verdadeiro terror, praticado fria e conscientemente, não pode ser apagado dos arquivos históricos da Humanidade (da mesma maneira que não podem ser apagados dos mesmos arquivos os actos genocidas perpetrados pelos nazis no gueto de Varsóvia e nos campos de extermínio) horrorizou o próprio Bem Gurion mas foi o acto hediondo que provocou a fuga em massa de dezenas e dezenas de milhares de palestinianos para Gaza e para a Cisjordânia…»
(Editora: Círculo de Leitores/Temas e Debates, Capa: Marta Claro, Foto: Teresa Champalimaud)
Vinte Linhas 453
Ruslam Botiev – do cavaleiro da Mongólia ao cavaleiro Português
Ruslam Botiev provavelmente nunca leu «A última corrida de touros em Salvaterra» mas não precisa. A sua intuição de homem de artes diversas (escultura, óleo, aguarela, borras de café, etc.) levou-o a cedo perceber a respiração da corrida de touros à portuguesa.
Depois de alguma vagabundagem pela zona do Chiado e da Rua do Carmo, assentou arraiais no Largo do Carmo, à sombra do quiosque. Digo sombra mas também se trata de proteger os seus quadros da chuva. Ele tem o cuidado de os proteger com o plástico mas o vento também os ataca e é preciso evitar mais estragos dos pingos de chuva.
Disseram-me no Largo do Carmo que vai haver uma exposição dos trabalhos do Ruslam Botiev mas não me explicaram se é na Universidade Clássica ou na Nova. A seu tempo saberemos.
Este Largo do Carmo diz-me muito: quando lá andei a estudar nos anos 60 ainda havia uma memória muito viva do poeta Sebastião da Gama. Como professor deixou um rasto de luz e de bondade atrás da sua figura que ainda lá continua nos corredores da Veiga Beirão. Agora a Veiga Beirão não existe mas continua no afecto de quem lá estudou.
Hoje trouxe este desenho que quis compartilhar com todos vós. Ainda estou a aprender mas a imagem dá uma ideia embora não passe de uma cópia electrónica.
Depois da «Porca de Murça» e do «Fernando Pessoa», depois do «Eléctrico 28» e da «Tourada à Portuguesa», Ruslam Botiev não pára e vai descobrindo novas séries de desenhos. Sua maneira de dizer «Bom dia Portugal!», todos os dias.
Vinte Linhas 452
Pequena dissertação para um retrato de menina
A mulher-menina fixa o olhar num retrato de menina-mulher no lado esquerdo da secretária na tarde onde, devagar, declina o Sol de Fevereiro que todos os dias acrescenta um minuto ao tempo da luz.
Tem dez anos de idade essa menina-mulher que não conheço mas sei que existe, porque senti no seu olhar contido no rectângulo do retrato, a força e a cor de uma bandeira, o timbre altivo de um clarim, o mapa colorido e vário de um país sentimental.
Na organizada confusão do tampo da secretária, entre telefones e lembretes, entre telemóveis e faxes com anotações de «urgente» no cabeçalho, a única urgência é a ligação entre dois tempos: a mulher-menina recorda o seu tempo de menina-mulher quando tinha a idade da filha cujo retrato se fixa num rectângulo de luz de ouro.
Havia nesse tempo uma Cadeia, o fumo na chaminé da fábrica de cerâmica, carros de um só boi conduzidos por presos de confiança que empilhavam com paciência os tijolos ainda quentes nas tábuas do carro. De vez em quando passava uma camioneta que vinha carregar telha para as obras de um palácio da Justiça – quando a Justiça ainda vivia em palácios e não em páginas de jornal que terminam no fundo dos caixotes de lixo.
Havia nesse tempo recreios separados de raparigas e de rapazes, falava-se na Telescola para quem não podia ir estudar para a grande cidade, ainda se dizia quarta classe em vez de quarto ano, ainda havia o exame de admissão ao Liceu e à Escola Técnica.
Na luz que o Sol inunda na tarde sem fim do escritório, o sorriso da mulher-menina é uma agrafe gigante de ternura húmida a ligar o seu olhar ao retrato da menina-mulher.
Vinte Linhas 450
O nome do cavalo inglês era bem português
Este cavalo retintamente inglês foi o vencedor do derby «Great St. Leger» em 1815. O seu proprietário era o fidalgo inglês Sir W. Maxwell. Ora acontece que o dono do cavalo quando o baptizou não fazia a mínima ideia do real e profundo significado da expressão. Porque de uma expressão se tratava: o bom do tratador português ou porque se sentisse mal pago ou porque o cavalo fosse mesmo insuportável, ia dizendo enquanto esfregava e penteava o belo cavalo – «Ai o filho da puta! Ai o filho da puta!».
Hoje lembrei-me desta velha história porque vi na televisão uma cavalgadura a fazer uma triste figura e a dar uns coices repugnantes. E já não é a primeira vez. Foi essa mesma cavalgadura que deixou passar sem punição o golo francês duas vezes irregular pois Thierry Henry tocou a bola com a mão antes de o seu colega facturar o golo que ditou o abandono da República da Irlanda do Campeonato do Mundo da África do Sul.
A coisa teve hoje requintes de malvadez. Perante a gravidade da decisão tomada (marcação do livre contra a equipa inglesa) o árbitro deveria ter tomado uma atitude minimamente digna. Seguraria a bola com a mão e esperaria que se formasse a barreira. O guarda-redes estava muito longe da baliza, ainda surpreendido com a decisão – que não discuto. O que é indiscutível é que o árbitro foi (pelo menos) parcial ao pegar na bola e entregar a mesma a um jogador de azul e branco que não se fez rogado: mesmo perante o absurdo da situação com o guarda-redes fora (e bem fora) da baliza pôs a bola a rolar e ela entrou na baliza. Pudera… o guarda-redes não estava lá! Ao menos o do golo contra o Sporting num lance parecido ainda esperou pela formação da barreira…
Um livro por semana 170

«Fernando Pessoa – Empregado de escritório» de João Rui de Sousa
Trata-se da segunda edição (revista e aumentada) do já clássico livro de 1985 que João Rui de Sousa organizou para o SITESE. Fernando Pessoa foi sempre múltiplo: poeta e pensador, ele-mesmo e ele multiplicado em heterónimos, esteta e político, crítico literário e sociólogo, introspectivo e polemista, ansioso e lúcido. Mas desde 1907 e até ao fim da sua vida Fernando Pessoa foi sempre correspondente estrangeiro em numerosos escritórios. Como refere Bernardo Soares: «Todos nós, que sonhamos e pensamos, somos ajudantes de guarda-livros num Armazém de fazendas ou de outra qualquer fazenda, em uma Baixa qualquer. Escrituramos e perdemos; somamos e passamos; fechamos o balanço e o saldo invisível é sempre contra nós.»
Da sua colaboração na «Revista de Comércio e Contabilidade» vejamos três notas:
«Em correspondência comercial há três princípios que convém ter presentes: antes mais explicado que mais breve; antes muitos parágrafos do que poucos; antes responder depressa, embora dizendo só parte, que demorar a resposta para dizer tudo.»
«Uma carta áspera ou violenta é sempre injustificada porque é sempre inútil. Indispõe e não dá resultado. Quem não paga porque não quer não passa a pagar porque lhe dizem que não paga porque não quer. Isso já ele sabe. E quem não paga porque não pode, não fica contente que se lhe diga ou se lhe insinue que não paga porque não quer.» «É do pior gosto, e do pior efeito, desculpar-se um chefe com um erro dum empregado. Não há erros de empregados. Todo o erro dum empregado é apenas o erro de ter empregados que fazem erros.»
(Editora: Assírio & Alvim, Capa: fotos do escritório de Francisco Camello)
Lorca no caminho do Montijo
Era pelo Inverno de cinquenta e sete.
No Porto Alto um homem de capuz e oleado
segurava uma lanterna com dois vidros pintados
e fazia alto com a outra mão.
A ponte sobre o Sorraia era de madeira
e só passava uma camioneta de cada vez.
Não havia ao tempo muitas Mercedes Benz
de cor verde e com a chapa do Estado.
Meu pai saudava o homem entre a chuva
e desejava-lhe uma boa noite impossível.
Se recordo estes passos e rituais
dos caminhos desse tempo
é porque aquele lugar marcava para mim
o principiar da circulação de uma temperatura
que me fazia lembrar Lorca.
Eu tinha aprendido a ler nos jornais.
Meu pai trazia-os à noite para casa.
Terá sido num «Diário Popular»
que li um texto sobre o poeta assassinado.
Mesmo sem conhecer os seus poemas
comecei a sentir naquele espaço
a respiração do verde e do vermelho,
a relva sem fim e o sangue dos touros,
o pó levantado pelos cavalos breves,
os gritos dos campinos sempre longe
e a noite sempre negra e sempre longa.
Mais à frente, a caminho do Montijo,
respirava o sal de Alcochete,
o sabor conservado de uma angústia serena,
a ideia imaginada de que estes campos verdes,
estas oliveiras e este som da alegria
rente à raiz de tudo
poderiam ter sido caminho
do poeta Federico Garcia Lorca.
Ainda hoje não sei porque cavaram
tão depressa os cabouqueiros da morte.
Sei que entre o Porto Alto e o Montijo
algures entre verde e verde
uma sombra esguia faz sinal aos deuses
e os deuses param.
Lorca poderia ter morrido aqui
à porta desta taberna, a caminho do Montijo.
Graça/Prazeres
Por aqui vivi outras manhãs
a caminho dum emprego pontual
arrepiado à porta da PIDE
duas vezes por dia todos os dias.
Mesmo ao domingo por aqui passava
Para o cinema ou para o futebol
havia uma linha pela Rua Augusta
e ia até ao Rossio – só ao domingo.
Assembleias Gerais na Voz do Operário
Alguns mortos queridos nos Prazeres
Eu próprio que morri aos poucos nesta linha
E até Fernando Pessoa tem uma paragem
porque a aldeia dos sinos da minha aldeia
é aqui e não como eu vi nos livros escolares
uma aldeia vulgar como o romantismo queria.
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José do Carmo Francisco in «Transporte Sentimental»
Edição da Câmara Municipal de Lisboa
O quadro anexo é da autoria de J. B. Durão
e está na Galeria All Arts Gallery
na Rua da Misericórdia 30 ao Chiado
Um livro por semana 169

«Divina Música – Antologia de Poesia sobre Música»
O Conservatório Regional de Música de Viseu celebra o seu 25º aniversário com esta edição organizada por Amadeu Baptista, São 130 poetas de diferentes espaços geográficos: Portugal, Angola, Brasil, Moçambique, Cabo Verde e Timor Leste. De «A» a «Z» surgem registos poéticos tão diversos como os seus nomes e origens: Adalberto Laves, Alexei Bueno, Ana Hatherly, António Osório, António Rebordão Navarro, E.M. Melo e Castro, Fernando Echevarría, Fernando Grade, João Camilo, João Candeias, João Rui de Sousa, José Luís Peixoto, José Mário Silva, Maria Teresa Horta, Nicolau Saião, Ruy Ventura, Vergílio Alberto Vieira e Zetho Cunha Gonçalves. Na impossibilidade de os citar todos fica uma lista como sugestão de procura. Duas notas: o meu poema na página 106 foi repescado do «aspirinab» e cito o poema «Iannis Xenakis – sugestões» de Levi Condinho:
«Contra a gaguez dos deuses que nos confundem / erguem-se as ásperas vozes ossificadas / de dentro das pedras talhadas a pique / nas rebeldes falésias sobranceiras ao mar / pedras brancas habitadas por seres de eras submersas.
são coros cavados sobre peitos de cobre / metais que respiram no coração das lâminas / ecos sobre ecos sobrevoam vales ácidos / em busca do segredo das sibilas / ou do signo das maresias loucas incidindo sobre as têmporas / tambores de bronze conclamam as grandes aves das alturas/ as casas da música são brancas de ferir a areia / e o Homem desafia os deuses no gume do meio-dia – arrepio telúrico na arquitectura vermelha do Sol –
grande é esforço das ondas / no árduo combate às alcateias cegas / que o deserto transporta no seu ventre.
no topo da cidade a árvore gigante / reflecte-se no vidro – efémero triunfo das alquimias / onde a Razão namora o lagarto solar».
Vinte Linhas 449
Um minuto de silêncio por PB algures por aí e por JEB no Brasil
Aquele minuto de silêncio por Libânio, o lendário guarda-redes do SCP que fez parte dos cromos do meu tempo de menino, deu-me um estremecimento. Nasci em 1951 e vi o Libânio em algumas colecções num tempo em que o guarda-redes podia ser Octávio de Sá, Aníbal ou Carvalho mas também Libânio. Jogava muitas vezes nas «reservas» cujo campeonato era disputadíssimo. O minuto de silêncio deu origem a um coro de assobios alguns minutos mais tarde. Ora os assobios não são dirigidos só contra o jovem candidato que os recebeu (diz ele que entram a cem e saem a duzentos) mas contra quem o colocou lá. Os assobios são contra PB que afastou Stojkovic depois de uma frase assassina nas Antas («Em caso de dúvida devia pontapear a bola») quando o erro crasso foi do árbitro e não do jogador. Com os seus delírios e as suas alucinações, PB afastou sempre jogadores que tinham jogado muito bem no domingo anterior colocando em seu lugar quem tinha treinado bem durante a semana. Foi assim com Adrien, com Pereirinha, com Yannick, com Vukcevic, depois de exibições magníficas contra Roma, Porto, Braga e Benfica. Suprema humilhação: tirou Vukcevic da final da Taça quando foi ele e Derlei que mais fizeram pelos 5-3 ao Benfica. O minuto de silêncio tem a ver com JEB no Brasil pois fugiu na pior altura, quando o seu treinador (PB for ever!, lembram-se?) depois de afastado ainda é responsável pelo descalabro por si instalado na equipa. Aquele minuto de silêncio lembrou-me também Emídio Rafael na Académica afastado por PB do SCP; ele era capitão dos Iniciados em 2000/1 ao lado de André Vilar, João Moutinho, Carlos Saleiro e Miguel Veloso. O minuto de silêncio foi para ele também.
Publicado na agenda cultural de Proença-a-Nova
Vinte Linhas 448
Tenho na memória um certo Lusitânia – Samora Correia
Li num texto de Joel Neto que o Lusitânia vai acabar, não um Lusitânia qualquer que os deve haver muitos pelas comunidades portuguesas, mas o Lusitânia dos Açores. Assim de chofre é como quando me disseram que o Diário Popular ia acabar. Um choque brutal porque quando morre uma instituição à qual estamos ligados morre um pouco de nós. O Diário Popular foi o jornal nacional onde me estreei em 1978; com o seu desaparecimento perdeu-se o melhor de mim que ao longo dos anos escrevi nas suas páginas honradas. Sobre o Lusitânia dos Açores faço apenas duas aproximações. Ouvi uma vez o grande Mário Lino (que veio da Horta para Angra por 15 contos) dizer com sentido de humor que no Faial teve a sua Instrução Primária, no Lusitânia fez o seu Liceu e no Sporting teve a sua Universidade do Futebol. Nunca esqueci esta comparação que diz bem da importância deste Clube fundado em 1922, delegação nº 14 do Sporting Clube de Portugal. Foi 38 vezes campeão distrital e 16 vezes campeão açoriano além de campeão insular em 1963/1964 jogando em Angra e no Funchal. Foi o primeiro clube dos Açores a disputar um campeonato nacional no ano de 1978/1980. A segunda aproximação é esta: corria o ano de 1989 quando fui primeira página no Diário Insular por um livro meu apresentado pelo poeta Álamo Oliveira. A outra metade da primeira página foi uma foto do Lusitânia – Samora Correia do domingo à tarde. Lembro-me bem de ter visto o jogo e de me ter parecido ao longe um Sporting – Boavista por causa das camisolas. Não quero acreditar; parece que ainda lá estou a ver o jogo com os soldados a devolveram as bolas mais altas que chegavam ao seu quartel.
Um livro por semana 168

«Enciclopédia da Música em Portugal no século XX»
Com direcção de Salwa Castelo-Branco e tendo Rui Vieira Nery como consultor geral, este volume de 326 páginas inclui os verbetes de «A» a «C» elaborados por 150 redactores. Ou seja, de Azinhal Abelho e Mara Abrantes a «Os Conchas» e «Conjunto de João Paulo», indicando os verbetes em campos tão diversos como a música erudita, a música popular ou o pop-rock. Também as figuras objecto de referência são muito mais do que os intérpretes; são compositores, grupos musicais, poetas, críticos, letristas, arranjadores, produtores, promotores e gestores culturais.
Podemos ver a ficha de José Mário Branco ao lado de toda a família Freitas Branco: Luís, Pedro, João, Maria Antoinette e João Paes. Notamos a entrada de José Afonso ao lado da de António Vitorino de Almeida ou a de Carlos do Carmo ao lado da de João Braga. Há verbetes bem informados sobre a canção de Coimbra mas também sobre o Baldão (Baixo Alentejo) ou a Chamarrita (Açores). Se Francine Benoit está junto a Constança Capdville, Ruben de Carvalho está junto de Álvaro Cassuto. E Paulo de Carvalho junto de Luís Cília. Numa obra de referência que estuda também o fado, o jazz, a música popular urbana e a música das comunidades migrantes, nota-se a falta do verbete de Paulo Bragança. Se havia dificuldade na obtenção dos dados biográficos (vive em Dublin) já a discografia está à vista de todos. Numa obra abrangente como esta faz falta uma referência à voz de Paulo Bragança. Os homens passam; as obras ficam.
(Editoras: Temas e Debates-Círculo de Leitores, Apoios: FCT, Fundação Calouste Gulbenkian, Instituto Camões, Fundação Luso-Americana, Ministério da Cultura e FCSH Universidade Nova)
Vinte Linhas 447
Domingos não é Domingues ou uma «Visão» toldada pelo encarnado
Hoje, 4 de Fevereiro de 2010, a «Visão» (Revista) traz consigo uma «Visão» (Suplemento) que procura descrever a vida quotidiana em Portugal há cem anos. Até aqui tudo bem. É lógico que se façam trabalhos jornalísticos sobre o tema porque estamos num ano redondo – 1910-2010. Mas, porém, todavia, contudo…
Na ficha da cronologia desse tempo nota-se um erro no ano de 1904. Erro crasso mas inevitável num país onde a história do Desporto tem sido sempre entregue a benfiquistas. Todos o sabemos, é um dado adquirido, a história é sempre escrita pelos vencedores e, por isso mesmo, eles podem escrever todas as patranhas e ainda lhes sobeja tempo. Na página 17 da «Visão» História lá aparece: 28-2-1904. É fundado em Belém por um grupo de jovens ex-casapianos, o Sport Lisboa que, dois anos depois se fundirá com o Grupo Sport Benfica, passando a ser o Sport Lisboa e Benfica.
Erro crasso, mentira encarnada: o Sport Lisboa e Benfica foi fundado em 13 de Setembro de 1908 e não dois anos depois de Fevereiro de 1904. Por outro lado o Grupo Sport Benfica ainda não existia dois anos depois de 28-2-1904. Foi fundado mas no Verão de 1906. Dois anos depois de 1904 foi fundado de facto o Sporting Clube de Portugal mas a «Visão» esquece-se de dizer que o mesmo grupo de rapazes já tinha fundado o Sporting de Belas em 1902 e o Campo Grande Foot Ball Clube em 1904. E esquece-se da fotografia do Sporting Clube de Portugal, como é lógico e natural.
Outra coisa: na página 98 o nome do responsável da editora Frenesi é bem Paulo da Costa Domingos e não Paulo da Costa Domingues. Ai estes historiadores…
Um livro por semana 167

«Os putos – contos escolhidos» de Altino do Tojal
Altino do Tojal (n.1939) publicou em 1964 o livro de contos «Sardinhas e lua» que, a partir de 1973, mudou o título para «Os putos». Esta é a 30ª edição com 38 contos escolhidos entre os 145 da edição de 2001 da Imprensa Nacional – Casa da Moeda.
O primeiro conto lê a infância: «Os crepúsculos eram negros, mas as manhãs… Enquanto a minha tia afligia os infelizes diabitos à sua mercê, entre quatro paredes sombrias forradas de velhos mapas rasgados, eu vadiava longe, na luminosidade mágica do dia, as mãos atrás das costas, as aletas do nariz palpitando a cada aragem resinosa, a guedelha tombada para os olhos como a crina dos póneis, gloriosamente sujo».
O último lê a idade madura: «Além de velho, feio, azedo e doente, sou pobre. E tenho livros publicados, pois tenho, o que não me libertou da pobreza. Vê-se que nunca lidaste com editores. Publicam-me os livros, mas quanto a pagar… Editores, editores…»
No intervalo surge a memória do avô: «Meu avô gozava de prestígio, porque em novo apertara pessoalmente a mão do presidente Bernardino Machado – um verdadeiro democrata. Recebia regularmente do Brasil uns jornais onde regularmente se dizia mal de Salazar e costumava levá-los para o café, depois do almoço, a fim de ler trechos perigosos aos confrades». Como pano de fundo geral, a solidão: «Penso que continuei a respirar os ares deste mundo porque a minha imensa solidão era afinal um firmamento povoado de boas histórias à espera de serem contadas. Expressar através da palavra escrita, com a máxima beleza e a mais pura limpidez, aquela tensão criativa permanente, cujo excesso de luz interior punha clarões nos meus olhos e me fazia andar pelas ruas como um sonâmbulo, eis verdadeiramente o que me mantinha vivo.»
Altino do Tojal: uma escrita de recorte clássico num autor moderno.
(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Isabel Ferreira)
Vinte Linhas 446
Os três meninos brincam com as canas da praia
Estamos no último dia de Janeiro. As ondas do mar na Foz do Lizandro rasgaram por fim a enorme duna de areia que separava as águas verdes e paradas do rio das outras águas azuis e agitadas do Oceano Atlântico.
Uma colecção de fatos de borracha seca ao sol no parapeito de um dos bares da praia enquanto um inglês lê um livro à porta da sua roulotte sentado numa cadeira de lona e completamente descalço, no usufruto completo e feliz do sol de Portugal.
As ondas da maré-alta trouxeram canas secas ao areal quase deserto. Na gramática da Natureza é possível (é mesmo provável) que estas canas tenham sido atiradas ao mar pela ligação rasgada na areia pelo furor das ondas. Entre as bicas escaldadas e os jornais do fim-de-semana, entre as conversas vagarosas e os telemóveis sossegados, três crianças brincam na praia à nossa frente com as canas.
Cada uma pega em duas canas. Parecem cavaleiros da Távola Redonda à procura do Rei Artur. É inevitável. Recordo de imediato o meu neto Thomas Francisco em Greenwich à beira do Tamisa a brincar com as suas canas. Em Outubro perguntei-lhe se ele estava a observar pássaros; ele respondeu que queria era brincar com os paus – como ele chama às canas na margem do rio Tamisa. Mais à esquerda dois rapazes com pranchas de surf cruzam o caminho dos três meninos. São dois tês gigantes no meio do círculo irregular dos meninos com as suas canas. Na ortografia da tarde, os tês do surf na cabeça dos jovens radicais são iguais aos tês das canas levantadas no ar dos três meninos que brincam na praia do Lizandro. É o esplendor do Sol.




