Todos os artigos de joaopedrodacosta

O bailinho da Madeira

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Cresce o número de tontos que admiram as vitórias de João Jardim. E admiram precisamente isso: serem vitórias. É a mesma lógica scolariana, a qual instituiu que os fins justificam os meios: mesmo que se jogue mal, o que importa é a vitoriazinha. Se o cinismo desportivo tem adeptos, o cinismo político tem sequazes, prosélitos, bufarinheiros. Na ocasião, há alívio e conforto no esmagador resultado madeirense. Porque é a prova de que as velhas soluções funcionam, de que ainda se pode confiar na racionalidade do poder máximo. O poder máximo leva à distribuição mínima da riqueza; sendo o mínimo um critério móvel, sujeito às necessidades. Na Madeira há riqueza distribuída pela população, a qual tem trabalho, serviços e meios. Claro que teria chegado a 2007 com as mesmas condições sem Jardim, fosse quem fosse que tivesse estado no poder nos últimos 30 anos. Outros também teriam obra feita, pois que para gastar dinheiro o engenho nunca falta. A pergunta a fazer é: a que custo se quer manter o mínimo?

Os votantes em Alberto João são votantes em Alberto João, não no PSD. Olham para as candidaturas concorrentes e não vêem ninguém. Ninguém que lhes dê o mínimo. Evidentemente, não faz sentido pôr em causa o pouco que têm. Uma mudança de poder corresponderia a uma alteração das hierarquias, com inevitável instabilidade social e económica. A não ser que o substituto garantisse a manutenção da estrutura de poder. Mas a estrutura de poder já tem Jardim como seu representante e procurador, não existindo empresário que não esteja satisfeito com a plutocracia insular. Assim, o que se passa na Madeira em nada diz respeito à política, mas apenas à sobrevivência. Vota-se para proteger o mínimo. É sórdido e normal.

Do lado de cá, do lado do PSD, do lado das instituições do Estado, do lado dos órgãos de soberania, do lado dos jornalistas, do lado dos cidadãos, é a vergonha colectiva. Dão-nos baile.

Aprendizes de feiticeiro

Com a decisão de Pinto Monteiro, entregando a Cândida Almeida a investigação do caso da licenciatura de Sócrates, todas as vozes se calaram sobre o assunto. Porquê? Porque foi a pior notícia que poderiam ter recebido. A intervenção da Procuradoria-Geral não se limitou a alterar as regras do jogo, veio anunciar que se estava perante um jogo completamente diferente. Muitos dos que tinham gozado o prato de finalmente terem algo para entalar o Primeiro-Ministro, chafurdando na lixeira com gosto e empenho, estarão agora receosos. É que a vantagem passa para Sócrates, que se vê com um inesperado trunfo nas mãos. Se as eventuais tropelias — cometidas num contexto de inevitável promiscuidade de poderes, o académico e o político — se resumem a tratamentos de favor, o critério apanhará centenas de potenciais outros casos, em todos os partidos. E todos ficam expostos a retaliações. Se nada se provar de conclusivo, a investigação irá ilibar moralmente o suspeito, reforçando a sua imagem. E dará azo a vinganças planeadas com tempo e inteligência. Ou seja, por causa de supostas irregularidades formais num processo de licenciatura armou-se este banzé, tentou-se atingir a honra do visado por mero oportunismo político. Então, perante os casos de contínuo conluio entre os partidos e os corruptos, corruptos da alta e da baixa finança, ao molho — casos esses que correm de boca em boca em todos os sectores da economia —, poder-se-á começar a observar cabeças rolando pela corrupção abaixo, em tamanho e número nunca vistos em Portugal. E se tal acontecesse em consequência do caso da licenciatura, não poderia ser mais refinada a ironia socrática.

The not so special ones

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O povo sofreu uma secreta comoção com a derrota de Mourinho na eliminatória de acesso à final da Liga dos Campeões. O imaginário e o inconsciente colectivos, cada um por si e os dois à compita, ansiavam pela vitória do nosso embaixador em Inglaterra. Mourinho, o português menos português de Portugal, epígono de Alves dos Reis, auto-predestinado para a glória e maluco, tem-se divertido a jogar uma roleta que lhe correu excepcionalmente bem. Mas os deuses estão agora a dar-lhe uns piparotes, com languidez e preguiça, só para o obrigar a reconhecer que a lei do acaso continua suprema e intocável.

No dia seguinte, novo desaire nacional. Cristiano não resolveu. Cristiano estava num paquete de luxo que se afundou. Porém, neste caso, trata-se de um português portuguesinho, daqueles que não mordem nas canelas dos deuses. Ser a estrela mais bem paga da galáxia não chega para fazer milagres, é a lição teológica a recolher do episódio.

Donde, o providencialismo estar em baixa cá pela terrinha. Já só nos resta o Alberto João.

Eu queria ser o ombro da Shakira, sff

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A página do Provedor do leitor do Público de hoje é de antologia. A leitora Carla Feliciano chama à atenção para o facto de João Bonifácio, na entrevista a Camané publicada no suplemento Ípsilon da última 6.ª-feira, ter traduzido «l’ombre de ton chien» da canção «Ne me quittes pas» de Jacques Brel por «o ombro do teu cão» em vez de «a sombra do teu cão». Mas o que é verdadeiramente genial é uma parte da entrevista em que:

JOÃO BONIFÁCIO: É das canções de amor mais desesperadas que já alguém escreveu: «Deixa-me ser (…) o ombro do teu cão…»

CAMANÉ: Ele queria ser o ombro do cão dela porque queria era estar ao pé dela, não queria que ela o deixasse. E nessa fase da canção existe o desespero: nem que seja uma mosca à tua volta, o ombro do teu cão, qualquer coisa, mas que eu possa estar ao pé de ti.

Magnífico, não é? Porém, e contariamente ao que diz essa figura funesta que é Rui Araújo, não me parece que Bonifácio ou Camané passem por «ignorantes» ou «pessoas pouco credíveis». A não ser, claro, que o hipotético leitor ignore o facto do João Bonifácio ser, há vários anos, um dos melhores críticos musicais do país (o que me parece ser sinceramente difícil se estivermos a falar de um leitor regular do Ípsilon) e do Camané ser um dos seus maiores cantores. Pessoalmente, acho este episódio hilariante e enternecedor. Nada mais do que isso. E, neste caso em concreto, estou-me a borrifar para o facto de os jornalistas terem «o dever de apresentar textos limpos»: quando a «sujidade» atinge este requinte, sou a pessoa menos higiénica do planeta. E sabe que mais, querido provedor? Ainda há leitores do Público com sentido de humor.

Post dedicado ao Professor Carlos Reis

Nos últimos dias, tenho andado entretido a ouvir de forma compulsiva dois discos: FRIEND AND FOE dos Menomena e MIRRORED dos Batlles (o primeiro já saiu e o segundo há-de sair em meados de Maio). Os Menomena são uma paixão antiga, os Battles nem por isso. Ambas são bandas rock como todas as bandas dignas desse epíteto deveriam ser, isto é, experimentais, procurando forçar em cada música as convenções do género, tudo sem nunca abdicar desse belo formato medieval que se chama canção. Suprema alegria foi o facto de ter descoberto esta semana que as duas bandas recorreram a Lance Bangs e Timothy Saccenti para realizar os respectivos telediscos. Entre o desvario (muito indie) de «Wet & Rusting» e a gravitas de «Atlas», temos aqui mais uma prova que o videoclip continua a ser um dos formatos audiovisuais mais interessantes da actualidade. Agora, alguém que me venha dizer por que razão ele continua a ser tão miseravelmente tratado pela televisão portuguesa.

Itálico Calvino

Quando li (a propósito de Comment parler des livres que l’on n’a pas lus? de Pierre Bayard) os exemplos citados por Pacheco Pereira (e pelo seu leitor José Carlos Santos) de livros que são discutidos por pessoas que nunca os leram, não consegui deixar de sorrir por dentro. Na verdade, quando se trata de literatura, continuo a achar que este é o melhor critério para identificarmos um clássico: todo o livro que conhecemos sem, para isso, precisarmos de o ler. E isto porquê? Porque são esses livros que assombram uma parte considerável da literatura que me interessa, são o seu ADN, a «tradição» no sentido eliotiano do termo. Já me aconteceu, de resto, ficar a conhecer menos um clássico após o ter lido. Ó heresia, dirão alguns. Talvez. Mas após ter lido A Divina Comédia, tive de voltar a Borges para resgatar o clássico que Dante me foi ursupando ao longo dessa leitura. O Hawthorne do Paul Auster, por exemplo, parece-me infinitamente superior ao Hawthorne by himself, insuportável com os seus moralismos de pacotilha. Não é a leitura que legitima o estatuto de um clássico: é a própria literatura – que também são leituras, é certo, mas é esse outro plural que faz toda a diferença. No fundo, a literatura é um sistema de textos cuja escrita nem sequer se sujeita à ordem do tempo. Eu, por exemplo, não duvido que o Kundera foi a influência fundamental de Diderot para a minha leitura desse clássico absoluto que é o Jacques Le Fataliste. Enquanto leitor, me confesso: não li uma parte considerável dos clássicos que mais amo. Mas li, e hei-de reler, todos os textos que me levaram a eles.

Kapital

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No passado dia 19 de Março, a banda bielorrussa Lyapis Trubetskoy disponibilizou neste site o vídeo do seu novo single «Kapital», realizado por Alexey Terekhov. Logo no primeiro dia, o clip teve mais de 10.000 visualizações e foi de imediato proibido de ser transmitido na televisão bielorrussa. Nesse teledisco, vê-se Siargej Mikhalok feito Budda a ser transportado por diversos locais em torno do globo por um animal em perpétua metamorfose. No refrão, vão surgindo líderes do mundo «anti-capitalista» como Fidel Castro, Hugo Chávez, Aliaksandr Lukashenka, Mahmoud Ahmadinejad e Kim Jong-il. Para além da música (fantástica) e do inacreditável apuro técnico da animação, o que me parece verdadeiramente digno de nota é a complexidade desse vídeo musical, que, ao articular um número quase infinito de linguagens, obriga-nos a um esforço quase surreal de leitura ergódica (sugerido, de resto, pelos constantes zooms ao longo do clip). Apesar de já existirem diversas traduções sensivelmente coincidentes da letra na Internet, aconselho os não-falantes da língua russa (e eu sei que ainda somos alguns) a resistirem, pelo menos para já, à tentação de lerem essas traduções. Podem ter acesso a esta maravilha aqui (Quick Time) e ver alguns screenshots do mesmo ali (jpeg). E, por favor, não me venham falar de política. Obrigado.

Eventually, por fim.

Desde a adolescência que registo este erro de tradução: eventually como eventualmente. Mas não sou só eu a reparar. Toda a minha gente repara. Todinha. Porque o erro aparece em filmes, em séries, em documentários. E aparece há décadas, aparece todo o santo dia.

Eventualmente, um dia estes nossos tradutores farão um ultimately aos ingleses para eles desistirem dos seus territórios semânticos.

O valor das ideias (dos outros)

Já repararam no novo anúncio televisivo do banco Santander Totta? Aquele em que os clientes satisfeitos vão aparecendo em planos que emergem uns dos outros (num engenhoso mis en abîme que sugere uma matrioshka fractal)? É giro, não é?
Agora vejam, ou recordem, este videoclip dos White Stripes:

Pois.
E o mais engraçado é o slogan escolhido para esta campanha tão original: «O Valor das Ideias.»
Assim mesmo: o valor das ideias (que pelos vistos nem sequer são nossas).
Deixem-me rir.

Prazeres da língua – 2 (com a devida vénia ao Fernando Venâncio)

A conjugação da segunda pessoa do singular do Pretérito Perfeito do Indicativo (2PSPPI) é um caso clássico de agramaticalidade. Ai de quem diga *tu comestes em vez de tu comeste, que leva logo com uma rebocada na cabeça.

No entanto, esse é também um caso típico de um erro que resulta apenas (pasmo) do conhecimento gramatical do sujeito falante. A 2PSPPI é uma excepção na conjugação verbal do Português. Em todos os restantes tempos verbais, a segunda pessoa do singular é sempre marcada com o morfema «s» – comes, comias, comeras, comerás, comerias, comas, etc… Dessa forma, por analogia, é gramaticalmente explicável a tendência dos sujeitos falantes para conjugarem a 2PSPPI como comestes em vez de comeste. Até porque, vejam só a beleza da coisa, o acrescento do morfema de pessoa («s») nem sequer dá origem a uma palavra nova, mas a uma forma verbal idêntica à segunda pessoa do plural do mesmo tempo verbal.

Será que daqui a alguns anos a conjugação *tu comestes será gramaticalmente correcta? Não faço a mínima ideia, mas não excluo a possibilidade. Essa evolução seria apenas uma das inúmeras registadas nas línguas românicas que resultam de fenómenos de regularização do sistema linguístico ou de atracção de paradigma. Há um exemplo clássico no Latim que é o facto de um vocábulo como honos ter evoluído para honor apesar de não reunir as condições (fonema «s» em contexto intervocálico) para se verificar a lei fonética (rotacismo) que permitiu, por exemplo, a evolução honosem > honorem. Saussure explicava o fenómeno analógico de duas formas: por um lado, houve uma atracção do paradigama: após a evolução das outras formas, honos tornou-se irregular (fenómeno de reposição da regularidade); por outro lado, o próprio paradigma da língua latina já admitia a possibilidade de um nominativo em –r (orator, oratorem).

Estão a ver as semelhanças com a nossa 2PSPP? Pois é.

Tenho um sotaque horrível por isso não me venham cá com merdas ou O nível dos meus posts em 2007 promete ou Olha-me este gajo armado em intelectual a publicar fotografias antigas ou ainda, se quiserem, Este título longo não augura nada de bom

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Continuar a lerTenho um sotaque horrível por isso não me venham cá com merdas ou O nível dos meus posts em 2007 promete ou Olha-me este gajo armado em intelectual a publicar fotografias antigas ou ainda, se quiserem, Este título longo não augura nada de bom

Uma breve (e modesta) história do videoclip

Complemento supérfluo e desnecessário, veículo de promoção ou ferramenta de marketing, invenção da MTV, presumível suspeito do assassínio de uma estrela radiofónica cujo cadáver jamais foi encontrado e, mais grave ainda, objecto artístico – de tudo um pouco já foi acusado o formato audiovisual com as costas mais largas desde a invenção da televisão e que, pouco a pouco (eufemismo), começa a invadir a Internet. No momento em que o YouTube é uma virtualidade incontornável e a camada de ozono voltou a ser o que não era: que tal uma breve (e modesta) história do videoclip?

João Pedro da Costa

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Henrique Raposo e as suas ideias requentadas

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Quando faltam iguarias novas, é só ir ao congelador buscar uma velharia qualquer e apresentá-la de novo aos comensais. O que o Nuno ali em baixo chama “revelação” é apenas uma ressuscitação de um post já publicado pelo próprio Henrique Raposo. E já aqui analisado.
Agora, aí o temos de volta, a pregar a encíclica costumeira: o terrorismo é invenção de leninistas, o Islão radical idem, Che Guevara era um maluco apostado em disseminar “actos de terror dantescos”.
Para disfarçar o sabor rançoso do left-over, ele acrescenta mais dois dos seus “factos”, mais uma vez com a falta de rigor habitual: “facto um: o terror revolucionário é uma invenção moderna; foi introduzido em 1789 e, no século XX, foi a arma de leninistas e fascistas. Facto dois: antes dos anos 70, o terrorismo era sinónimo apenas de ideologias europeias e não do Islão. A cronologia é uma velhaca, não é?” É pois! O bom Henrique esqueceu-se, mui convenientemente, da campanha de terror levada a cabo pelos fundadores de Israel na década de 40 (seriam leninistas ou fascistas?). Fala de al-Banna (na realidade grande admirador dos fascistas italianos e aliado dos nazis), mas omite o facto de este ter fundado a sua Ikhwan al-Muslimun ainda em 1928, tendo o seu braço armado, o al-jihaz al-sirri, surgido pouco depois, com óbvia inspiração nos camicia nera de Mussolini. A cronologia voltou ao ataque e deu cabo dos “factos” do Henrique.
Ele ainda tem tempo e persistência para de novo recomendar um artigo já antes prescrito. A brilhante peça de prosa onde se prova que o iraniano Rafsanjani é herdeiro da Revolução francesa por… ter usado a palavra “terror” num discurso.
A fechar, vem a “conclusão”, não menos alienada: “tal como o leninista, o islamita é senhor de uma doutrina armada”. Não interessa que Lenine tenha escrito condenações do terrorismo. O que interessa mesmo é deixar, selado pelo infalível e científico “tal como”, a certeza que os terroristas muçulmanos são é filhos do comunismo. E, claro está, muitos deles nunca receberam treino e financiamento dos EUA, quando se chamavam “combatentes da liberdade”…

Memento mori

Ao que parece, a Joana do Semiramis morreu. Assim de repente, no domingo passado. Dado o que entre nós se passou, não consigo fazer o número, adequado para a ocasião, do “apesar de tudo, estimava-a como adversária”. Fico-me pela tristeza de imaginar filhos que não mais terão a sua mãe, gente que por certo a amava e não mais a verá.
Nada conheço da sua vida “real”. Não sei se a conseguiu preencher com as grandes coisas que a sua inteligência e cultura permitiriam. Espero que sim.
Horas antes desse domingo, estava eu a escrever aos meus colegas de blogue a queixar-me das horas infindas que gasto por aqui. E a anunciar uma drástica redução da minha presença nestas “páginas”. O motivo é simples: tenho mais que fazer. E não consigo andar nisto sem ser de forma quase obsessiva: ainda hoje, já gastei sei lá quanto tempo a responder a quem tresleu o meu post sobre o caso dos cartoons.
Agora, mais que nunca, sei que há coisas muito mais importantes do que estas batalhas de HTML. E é melhor tratar delas antes que se faça tarde.