Itálico Calvino

Quando li (a propósito de Comment parler des livres que l’on n’a pas lus? de Pierre Bayard) os exemplos citados por Pacheco Pereira (e pelo seu leitor José Carlos Santos) de livros que são discutidos por pessoas que nunca os leram, não consegui deixar de sorrir por dentro. Na verdade, quando se trata de literatura, continuo a achar que este é o melhor critério para identificarmos um clássico: todo o livro que conhecemos sem, para isso, precisarmos de o ler. E isto porquê? Porque são esses livros que assombram uma parte considerável da literatura que me interessa, são o seu ADN, a «tradição» no sentido eliotiano do termo. Já me aconteceu, de resto, ficar a conhecer menos um clássico após o ter lido. Ó heresia, dirão alguns. Talvez. Mas após ter lido A Divina Comédia, tive de voltar a Borges para resgatar o clássico que Dante me foi ursupando ao longo dessa leitura. O Hawthorne do Paul Auster, por exemplo, parece-me infinitamente superior ao Hawthorne by himself, insuportável com os seus moralismos de pacotilha. Não é a leitura que legitima o estatuto de um clássico: é a própria literatura – que também são leituras, é certo, mas é esse outro plural que faz toda a diferença. No fundo, a literatura é um sistema de textos cuja escrita nem sequer se sujeita à ordem do tempo. Eu, por exemplo, não duvido que o Kundera foi a influência fundamental de Diderot para a minha leitura desse clássico absoluto que é o Jacques Le Fataliste. Enquanto leitor, me confesso: não li uma parte considerável dos clássicos que mais amo. Mas li, e hei-de reler, todos os textos que me levaram a eles.

19 thoughts on “Itálico Calvino”

  1. Que atitude extraordinária (no mau sentido!)

    O normal, digo eu, será revoltar-se e desmascarar a mistificação…

    Qualquer coisa deste género: http://www.youtube.com/watch?v=Xe7yf9GJUfU

    Uma pessoa inteligente, com os dados à frente dos olhos, demitir a sua própria percepção…?! Uma atitude muito europeia, incompreensível e muito condenável por intelectualmente desonesta, permita-me que lhe diga.

  2. Criou com muito trabalho uma ideia das coisas. Uma ideia mítica, divinal. Evidentemente as coisas em si mesmas não correspondem. Não podem corresponder. Não dessa maneira.
    O dilema deve ser semalhante ao dos toxicodependentes: continuar angelicamente nas nuvens ou enfrentar o concreto?
    O que lhe digo é que não me agrada – nem me importa! – a sua opção porque penso ser errada. Por mais elaboradas que sejam as suas justificações.

    Comentei apenas para satisfazer o seu “diga qualquer coisinha” e por não gostar de ver desperdiçar neurónios.
    Mas fiz mal, não fiz?
    Se disponibilizar a opção de apagar os comentários, fá-lo-ei e já está.
    Entretanto lamento tê-lo irritado. Quem é que lhe mandou convidar a que se comente? ;-)

  3. “não li uma parte considerável dos clássicos que mais amo. Mas li, e hei-de reler, todos os textos que me levaram a eles”.

    É de gente catequizável como o meu amigo que este mundo precisa.Quanto é que está disposto a ganhar no Mundo Novo que estamos a preparar?

  4. Susana: o «intelectualmente», de facto, escapou-me. Obrigado pelo lembrete. É óbvio que sou conservador, partilho os genes do Valupi. :)

    GPC: agora que também já o irritei e me sinto de certa forma vingado (miam), gostaria apenas de lhe dizer que o meu texto fala de a) literatura; b) da linha ténue entre leitura e escrita; c) de transtextualidade, palavrão para referir aquilo que há de mais intrínseco numa obra literária, isto é, o diálogo que estabelece com as outras obras; d) de um hipotético critério para a identificação de um «clássico» (que nem sequer é original, basta atentar ao título do meu texto); e) da diferença fundamental entre «obra literária» e «objecto estético»; e f) de uma aproximação ao conceito borgesiano de «literatura» como um magma, um continuum de textos que interagem como sistema. Ora, o meu amigo não fala de nada disso e limita-se a ser reaccionário e, mais grave ainda, a irritar-me sem me fazer rir, que é a pior coisa que me podem fazer (aprenda aí com o sarcasmo do NNN ou com o meu irritante paternalismo). Se calhar nem sequer somos assim tão diferentes: parece que nem precisou de ler o meu texto para falar sobre ele.

    NNN: por que razão haveria de querer um «Mundo Novo» se é «este» que precisa de gente como eu? Meu amigo: não há dinheiro que me compre a doce sensação de ser preciso.

  5. «Não é a leitura que legitima o estatuto de um clássico: é a própria literatura – que também são leituras, é certo, mas é esse outro plural que faz toda a diferença.»

    Que frase mais bela.

  6. A observação contida neste texto é engenhosa, defensável e apresentada com argúcia, mas não exageremos, porque quem, sobre uma obra, apenas se baseia na interpretação de outrem, por muito crédito que este lhe mereça, ficará sempre com uma impressão transmitida, já filtrada por quem conheceu a obra original e consequentemente a reelaborou, na apreciação que dela fez ao escrever sobre ela.

    Para já não falar noutras questões, como o estilo do autor, por exemplo, só apreensível no contacto directo com a sua escrita.

    Claro que é impossível ler todos os clássicos, sequer uma parte deles, mas basta que nos concentremos num pequeno escol representativo de épocas e de correntes, para ganharmos uma percepção da sua grandeza, no tratamento dos temas, no estilo apurado que os caracterizava, nos ideais que os motivavam, etc.

    A nossa apreciação de um autor, clássico ou não, sustenta-se, aperfeiçoa-se, completa-se no seu convívio, lendo-o, sobretudo, muito mais do que conhecendo aquilo que outros dele disseram, que pode ajudar, sem dúvida, mas não nos dispensa da sua leitura directa.

    Mas, repito que achei estimulante a observação aqui encontrada sobre aqueloutro apontamento do JPP. Fantástica blogosfera, que, sem nos obrigar à presença corporal, tanto nos estimula o espírito. Já que foram acabando as tertúlias de café, eis que surgiu qualquer coisa como seu sucedâneo.

  7. Realmente, primo, dás um pontapé na convenção. Mas recordo-te a outra faceta: isso de se descobrir num texto fundador uma irredutibilidade absoluta; sendo essa a marca do seu classicismo. Para não ir mais longe, ‘A Divina Comédia’ – o que significa que a leitura borgesiana é inevitavelmente mais Borges do que Dante. E esta consciência, que não te escapa, leva ao corolário: gostar de Dante pela pena de Borges é, ainda e só, gostar de Borges através de Dante.

  8. Valupi e António Viriato: eu não vos mereço. Filipa: a ti parece-me que talvez.

    António: concordo a 100%, mas está apenas a falar de metatextos (textos críticos), quando aqui falo sobretudo de hipertextos (literatura em segundo grau, isto é, qualquer obra literária que se preze). Não estou portanto a falar de hermenêutica (interpretação), mas de produção (ou invenção, o que, por acaso, me parece que o irá chocar mais ainda). O Borges que me faz gostar do Dante não é tanto o dos Ensaios Dantescos, mas o Borges poeta, sobretudo o dos últimos livros. O mesmo se aplica ao Paul Auster: não estou a falar do Paul Auster que escreveu (e lindamente) sobre o Hawthorne, mas do Auster romancista, sobretudo o dos primeiros livros. Repare bem: enquanto leitor, o estilo de Hawthorne apenas me é inteligível como herdeiro do estilo do Auster. Um leitor que se preze não liga peva ao Heraclito.

    Valupi: certíssimo e acrescento que a escolha de Dante não foi inocente. Devemos a ele a prova definitiva da possibilidade do vernáculo como matéria-prima para a poesia. Sendo assim, gostar de qualquer poema de qualquer escritor hoje em dia é gostar desse escritor através do Dante. Ter consciência disso é a mais exaustiva leitura que se pode fazer d’A Divina Comédia. E do que é a literatura.

  9. Há ainda os diversos “leres”. O ler inteiro, logo sem preconceito, de obra que se não tem por clássica: leitura desinteressada e prazenteira. Não a única mas, porventura, a desejada pelo autor. Já o ler “bíblico”, escritural, reverente, de quem aguarda que a obra de arte (latus sensus) lhe entre pela alma dentro sem hesitar, reverte, amiúde, para uma experiência chata de estudo de cadeira infeliz em curso de segunda opção. Talvez seja isso. Auster é que não.

  10. Há uma coisa que deveria envergonhar a nossa tertúlia: este post do JPC merecia mais que treze míseros comentários.
    E eu vou dar o exemplo, para ver se rapidamente consigo excitar o autor e mais comentadores a tranformarem isto numa aula de literatura que nos prepare para mocadas no futuro nesta belíssima área. Deposito aqui uns trapos e os entendidos depois amanhem-se no trabalho de me ensinarem e ao resto que estiver disposto a aprender.

    Baseado nos dois nacos de prosa do posteador temos que: ‘

    “um clássico … é um “livro que conhecemos sem, para isso, precisarmos de o ler …porque são esses livros que assombram uma parte considerável da literatura que (nos) interessa”. Percebi. Portanto, se a mim não me interessar deixa de ser um “clássico”.

    OK, Borges ajuda-nos a ler e a compreender Dante, mostrando-nos as virilhas da grandeza literária da Divina mas (cuidado!) Dante usurpa-nos a obra que dele tinhamos absorvido através de Borges. Compreendi bem? Este mapa não tem as ruas todas.

    “Paul Auster, por exemplo, parece-me infinitamente superior ao Hawthorne by himself”. So does any woman, after two hours at the hands of a good makeup artist.

    “Kundera foi a influência fundamental de Diderot para a minha leitura desse clássico absoluto que é o Jacques Le Fataliste”. Ok, se Kundera nunca tivesse existido e se todos fossemos como JPC estávamos fodidos porque nunca compreenderiamos o Fataliste (pelo menos tão bem). Não foi Pierre Bayard que disse que o Maupassant plagiou o Marcel Proust por antecipação. A culpa é desse doido. Estás desculpado, JPC.

    “Não li uma parte considerável dos clássicos que mais amo. Mas li, e hei-de reler, todos os textos que me levaram a eles”. Normal. Pode-se amar na ausência e à distância e ter uns biscates por fora com os/as presentes mais à mão. Nunca fez mal a ninguem…

    “linha ténue entre leitura e escrita” (hum..problemas de vista, impedem-me de comentar).

    “diálogo que estabelece com as outras obras”. Surdo, só pode ser. Ainda gostaria de saber o que é que a Madame Bovary teria dito à Dama das Camélias quando se encontraram na praça. Que não havia cura para a tuberculose e o cancro, e que por isso estavam tramadas?

    “a diferença fundamental entre «obra literária» e «objecto estético”. Eu cá nam sei, confesso..
    É tudo, meus caros. Há por ai uns rapazes que proferiram mais uns quantos juizos solenes sobre esta preciosa matéria.Mas fico-me por aqui. Talvez isto dê para começar com as psicocriticas.

    TT

  11. Muito bem, titio. Boa malha.

    Mas não meças a valia dos textos pelo número de comentários, sequer pela qualidade dos mesmos. Daria resultados grotescos.

  12. Caro TT,

    1) já não me ria tanto há umas boas semanas, obrigado pelo jeito;

    2) «Portanto, se a mim não me interessar deixa de ser um “clássico”». Este é o primeiro passo: a noção de clássico só faz sentido para um leitor. O segundo passo, é perceber que o leitor nem sequer precisa de ter lido a obra, mas outras obras cujas leituras são a única via para o conhecimento de uma obra como «clássico». Simplicando: é impossível ler uma obra A e, a partir dessa leitura, chegar à conclusão que A é um clássico. Não me fodam. É preciso ler B, C, D, etc para sabermos que A é um clássico. Para conhecermos o clássico não precisamos de ler A. Para conhecermos A, aí sim, dá jeito lermos o dito.

    3) Borges pode mostrar as virilhas de Dante quando escreve SOBRE Dante (metatexto). Quando incorpora Dante nos seus poemas (hipertexto) ao nível da sintaxe, do ritmo ou (se virmos a coisa do lado do que realmente interessa que é o do leitor) da respiração, Borges mostra-nos bem mais do que isso. É óbvio que o mapa de que falas não tem as ruas todas: mas sempre oferece mais alternativas do que um simples itinerário que conduz um leitor à leitura referencial de uma obra que a doxa apoda de «clássico». Quanto mais lermos, mais ruas surgirão.

    4) Sobre o Paul Auster / Hawthorne «So does any woman, after two hours at the hands of a good makeup artist». Concordo tanto contigo que até dói: «Girl, As I’ve always said I prefer your lips red / Not how the Good Lord made, but how He intended».

    5) Sobre Kundera / Diderot: «Ok, se Kundera nunca tivesse existido e se todos fossemos como JPC estávamos fodidos porque nunca compreenderiamos o Fataliste (pelo menos tão bem)». Aqui foste precipitado. Eu disse que Kundera foi uma influência fundamental DE Diderot para a MINHA leitura do «Fataliste» (como clássico). E não que o Kundera tinha sido uma influência directa da MINHA leitura da obra. São coisas diferentes.

    6) «Não foi Pierre Bayard que disse que o Maupassant plagiou o Marcel Proust por antecipação. A culpa é desse doido. Estás desculpado, JPC». Obrigado, mas o Borges já tinha dito isto muito antes sobre os precursores de Kafka. A única ordem que interessa, aqui, não é a da publicação das obras, mas a da sua leitura.

    7) «Pode-se amar na ausência e à distância e ter uns biscates por fora com os/as presentes mais à mão. Nunca fez mal a ninguem». Pois não, muito pelo contrário.

    8) «Ainda gostaria de saber o que é que a Madame Bovary teria dito à Dama das Camélias quando se encontraram na praça». Eu disse diálogo entre obras e não entre personagens. A «Madame Bovary» e «O Primo Basílio», por exemplo, já têm conversas interessantíssimas.

    9) «Eu cá não sei, confesso, [a diferença fundamental entre obra literária e objecto estético]». Tem tudo a ver com a tal linha ténua que problemas de visão te impedem de falar sobre. A obra é una e o objecto múltiplo e diverso.

  13. Caro João Pedro da Costa,

    Chamo-me Pedro Rios e sou colaborador do Ípsílon, suplemento do jornal “Público”.

    Estou a fazer um trabalho sobre o Elliott Smith, a propósito do lançamento do “New Moon”. Vi no seu blogue “As Ruínas Circulares” uma referência passada ao Elliott Smith, pelo que pensei em contactá-lo.

    Estou a falar com fãs para saber a relação que têm com o Elliott Smith e tentar perceber um pouco quem foi a figura e o culto que deixou.

    Posso entrevistá-lo por telefone este fim-de-semana? Se sim, indique-me um nº e um horário. São só uns 5 minutos.

    Obrigado,
    Pedro Rios
    pedrosantosrios@gmail.com

  14. Os livros de que se fala sem se terem lido são, apropriadamente, os clássicos. E por serem clássicos é que se pode falar deles sem os tenhamos lido.
    Aproveito para dizer que a frase anterior é a prova de que os verbos portugueses são uma chatice. E também há clássicos que são muitos chatos. Tenho ouvido dizer.

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