Todos os artigos de joaopedrodacosta

Quando Ferreira Fernandes mordeu a própria língua

untitled.bmp

As coisas fazem desvios imprevistos, e são por vezes os melhores. Percebi, por um grupo de discussão galego, que Ferreira Fernandes, cronista do DN, falara da língua da Galiza. Fui ver e era verdade. Foi, repito, um desvio imprevisto, já que tenho o costume de ler o cronista.

Pois bem, Senhor Ferreira Fernandes, segure-se porque talvez vá ser preciso. Essa língua que você crê andar vítima de «modernices» e em mãos «reaccionárias» é a mesma que você aprendeu na sua nativa Angola, a mesma que eu escrevo aqui, a mesma de que você se tem servido para mostrar-se um jornalista com mérito e currículo.

Essa língua que, nos jardins-escolas galegos, se vai falar às criancinhas é a sua – delas, minha, sua – língua materna. Lá chama-se galego, aqui passou a chamar-se português. Isto, quando foi preciso darmos nome à língua, aí pelo século XVI, e já se tinha esquecido quem no-la tinha feito. Como bons nacionalistas, e bons já então desconhecedores do galego, nem nos passou pela cabeça chamá-la senão assim.

Em Portugal, filólogos competentes, como Manuel Rodrigues Lapa, linguistas argutos, como Luís Lindley Cintra, exprimiram-se claramente sobre a unidade do idioma em toda a faixa ocidental peninsular. Mas, afora eles, nunca foi bom-tom desafiar tanto o nosso senso comum, nacionalista até ao tutano. Os actuais linguistas portugueses são, a este respeito, tremendamente discretos. Elas queimam. E ninguém quer caídos o Carmo e a Trindade.

É um facto: o idioma lá em cima soa diferentemente, escreve-se diferentemente. Mas é linguisticamente o mesmo que aí em Lisboa. Na realidade, trata-se de duas normas – diferentes, marcadíssimas – da mesma língua.

O idioma que as criancinhas galegas vão poder falar também nas escolas é, sabe-o você agora, uma língua da Primeiríssima Divisão, a sétima do Mundo.

Não era razão para nos congratularmos um pouco, em vez de fazermos esse humor deprimente?

Actualização

A crónica de FF já tinha sido comentada aqui, aqui e aqui.

Paranóias

Despejava eu, tranquilo, o carrito das compras na bagageira do panzer, no parque do hipermercado. Praticamente de costas, ou de esguelha, mostrava um perfil enviesado, difícil de analisar. Mas ele foi decidido e peremptório. Parou-me ali ao lado, abriu o vidro do Corsa, esticou o pescocil e pôs-se a chamar pelo Jorge, que é o meu nome.
Eu lá fui ao seu encontro, debrucei-me na janela, vi-lhe o ventre dilatado a roçar-se no volante, observei-lhe as feições. Do arquivo não me saiu nada parecido.
– Desculpe, mas…
– Sou o genro do Teixeira! Tenho uns quilitos a mais, umas entradas aqui, que o tempo passa. Mas lembro-me bem de si!
E lá insistia, a apresentar-me a nuca, as misérias do cabelo. Eu voltei a mirar-lhe os trinta anos, o descair do olhar, a silhueta estranha. Voltei a remexer cá dentro nos ficheiros. E nada.
– Genro do Teixeira?! Mas qual deles?
– O funcionário do banco! Primeiro no Canidelo, mais tarde nos Francelos!
Lembrei-me do Abadesso, das traduções de alemão, mas do Teixeira do banco nem sinal.
– Não há nenhum Teixeira que eu conheça… nunca fui ao Canidelo…
– Então você onde mora?
– Lá para as Antas!
– É daí, fui lá carteiro! Você não se chama Jorge?
– É verdade!
E fui cedendo. Têm-se visto verdades mais atacadas de enigma do que as fábulas da esfinge.
– Pois é daí, eu despachava o correio!
Ele às vezes reparo nos carteiros. Trazem-me cartas do banco, os avisos dos impostos, trazem notícias longínquas de guerras administrativas que sustento há trinta anos. Mas, de quantos conheci, nenhum carteiro era assim.
– Trabalho agora em Alverca. Conhece Alverca?
– Muito bem!
Aterrei lá muita vez, dei lá lições do Camões, e um dia fui ver o Museu do Ar, que entre espólios mais concretos me guarda a mim bocados do canastro.
– Ele é um bocado longe, andar abaixo e acima!
– Pois compreendo…
Sinto-me à entrada do delírio. Carteiro ou não, eu nunca o vi mais gordo. Mas ele é novo demais para sofrer de paranóias. E eu, que já estou por tudo, passo em revista as últimas semanas. Tenho os impostos em dia, não me lembro de nenhum crime maior, e pecados só os do pensamento. Ele continua prazenteiro, fala-me outra vez de Alverca, jura que lhe sou familiar.
A instâncias minhas lá nos despedimos. E eu fico-me a pensar em espiões secretos, em conspirações maradas, a acreditar em bruxas, eu sei lá. Não tivesse a alma sossegada, e quem entrava em paranóias era eu.

Jorge Carvalheira

Prémios para EPC – 1

729078.jpg

Eu sabia, sabia que o tinha feito. Eu lera Tudo o que não escrevi, de Eduardo Prado Coelho, como ele diz que poucos críticos em Portugal fazem, «de lápis na mão». Não o li como crítico. Apenas como curioso. Muito curioso, aliás.

Reabro hoje (já o fizera mais vezes) esses dois volumes. E vejo que o meu lápis foi, ao longo deles, desenhando um retrato de EPC. O meu retrato de EPC. Cada linha dele, desse retrato, pode levar hoje um prémio. Prémios meus, ça va sans dire.

Prémio E Diz Você Isso Nessa Linguagem Luminosa

«O que os simplificadores não entendem é afinal algo que se pode dizer numa frase muito sim- ples: que vale sempre mais correr o risco da obscuridade e da ilegibilidade do que ficar no conforto da acessibilidade. Feitas as contas, foi sempre a obscuridade que venceu» (vol. I, pág. 27).

Prémio Mas Ele Até Tem Invejosos Baris

«Somos todos vítimas do poder pessoano, mas vítimas recompensadas e felizes. Pessoa não esconde, nem faz sombra, ao contrário do que pensam os invejosos apressados» (vol. I, pág. 79).

Prémio E Se Fosse Só O Canal Da Mancha?

«Ainda hei-de um dia tentar compreender melhor que imagem do quotidiano me separa tão visceralmente de tudo o que é Laura Ashley» (vol. I, pág. 106).

Prémio Nem Imaginou Você Como Vem A Propósito

«O gosto da citação tem a ver com um amor intenso das palavras. […] Retirar as palavras de um contexto (a citação faz um desvio) é criar em torno delas um halo de silêncio» (vol. I, pág. 113).

Edições Asa, primeiro volume, 1992, segundo volume, 1994

«Bad Boy»

GT_Pantera_Bike.jpg

Um mimo, a crónica de PAULO MOURA hoje no «Píblico». Um mimo, como quase sempre. Para vos faire la bouche:

«A bicicleta é independente. Vive da nossa força muscular, que multiplica com eficácia cada vez maior. O objectivo da ciência ciclística é tornar o veículo mais leve, mais aerodinâmico, mais funcional. Os quadros, forquetas e guiadores começaram a ser construídos em alumínio, depois em fibra de carbono. Carretos, cremalheiras, correntes passaram a ser feitos em ligas metálicas resistentes e virtualmente isentas de peso. Sem recurso a nenhuma fonte externa de energia, à custa, apenas, do seu próprio desenho, a bicicleta é, hoje, um veículo extraordinário. Aproxima-se da perfeição, ou seja, de um limite utópico em que não seria preciso, sequer, pedalar.»

«Lixo demagógico», isto?

PachecoPereira.jpg

A coluna de JOSÉ PACHECO PEREIRA, no «Público» de hoje, é de leitura obrigatória para quantos se mexem nestas embaladoras águas da blogosfera. Saia, pois, você de casa e compre o jornal. Começará a ler assim:

Um livro de Andrew Keen tem suscitado uma grande discussão na comunicação social internacional e na rede. O livro ainda não foi traduzido em português, mas o seu título e subtítulo não enganam ninguém: O Culto do Amador – Como a Internet dos dias de hoje está a matar a nossa cultura. É um livro panfletário e simplista, escrito para chocar, mas as questões que lá são levantadas são importantes e cada vez mais presentes, até porque são uma versão nova de problemas muito antigos potenciados numa dimensão que, essa sim, é nova. O livro de Keen não foi o primeiro e certamente não será o último sobre o assunto vindo do lado dos “apocalípticos” das novas tecnologias, para usar a terminologia de Eco. Pode-se até esperar um filão polémico de livros sobre este tema, porque os efeitos de “matança da nossa cultura”, usando o título de Keen, são sérios e só se podem agravar nos tempos mais próximos. O catastrofismo é uma longa tradição do pensamento ocidental, principalmente nas mudanças do século, mas lá porque é cíclico e porque as coisas nunca correram tão mal como se anunciava, nem por isso, nada nos garante que, desta vez, não corram mesmo muito mal.

Leia o resto com a sua bica, à sombra.

Actualização

José, outro, perdeu – confessa-o aqui nesta caixa de comentários – uma tarde de praia. Para escrever ISTO. E que teria adiantado, na praia, mais um José tostando (supomos) anónimo?

Balada da Rua Serpa Pinto

Mulheres na Serpa Pinto
Termómetros da cidade
Longas horas de amargura
Momentos de felicidade
Trazem a luz e o calor
À pedra das manhãs frias
Trazem frescura às tardes
Da rua dos nossos dias
Quando sacodem o sono
Farrapos de melancolia
Sabem que tudo na casa
Depende dessa energia
Dessa força transmitida
Dessa afirmação de ser
Todos os dias da vida
A razão de ser mulher
Na vida multiplicada
Na voz que sempre resiste
E acaba por vir cantar
Nos dias em que está triste
E transportam devoção
Na viagem mais profana
Fazer um tempo de festa
Mesmo em dia de semana
É a voz que ganha altura
Sobre as paredes das casas
Passam em bandos alegres
Só lhes falta terem asas
Mulheres que mudam a rua
Só porque vão a passar
Transformam toda a verdade
De quem espera num lugar
A grande revelação
Das dúvidas que elabora
No lado mais escondido
Que é o lado de fora
Vem a chuva vem o vento
Caem lágrimas em pingos
Esquecem os dias escuros
E só pensam nos domingos
Ficam as lojas vazias
Enche-se a rua de gente
É o Mundo que se altera
E passa a ser diferente
Passam mulheres só sombra
Logo atrás surgem meninas
No rio sem afluentes
Há barragens pequeninas
Por onde a água se fixa
À espera da combustão
Do peso forte da voz
Com o peso leve da mão
Num encontro imaginado
A viagem ao contrário
Entre o mais pequeno beco
E o Largo de Seminário

José do Carmo Francisco

Crónica dum tempo

De manhã levantávamo-nos às oito e vinte e cinco para a aula das oito e meia, apertávamos os botões no caminho e galopávamos por escadarias e vielas íngremes contra o vento aguçado que nos fazia esperas às esquinas, e nos mordia a porcelana rósea das orelhas. O maço dos cadernos abraçado ao peito baloiçava ao compasso do coração que nos trotava desenfreado, e só amainava depois de entrar na sala, antes que se esgotasse a tolerância da campainha despótica. Lá dentro a norma era a do livro único, e o saber era um testamento de verdades definitivas, a gotejar dos lábios pausados do mestre sobre a turma desatenta, perdida a imaginar a vastidão dos desertos de Gobi ou a violência do mar nas escarpas da Camecháteca.

Jorge Carvalheira
.

Continuar a lerCrónica dum tempo

Canção para Maria José

Nas escadas da estação
Saída da Morais Soares
Este calor da tua mão
Faz um apelo a ficares
Ficar num tempo parado
Sem horários ou rotinas
O que eu sinto a teu lado
Nas tuas mãos pequeninas
Onde a ternura desagua
Como se fosse o estuário
Da paixão que anda na rua
No tempo sem calendário
Onde o calor e a gordura
Faz passar tão depressa
Quem esqueceu a procura
E não levanta a cabeça
Estamos em sessenta e seis
Na Rua Morais Soares
A memória não tem leis
Nem tem mapa de lugares
De repente é o passado
Que nos convida à viagem
Um eléctrico de atrelado
Vem irromper na paisagem
Lá estão homens, mulheres
Guarda-freios, cobradores
Se vais à Patrício Prazeres
Eu vou para onde tu fores
Nas escadas da estação
Saída da Morais Soares
Este calor da tua mão
Faz um apelo a ficares

José do Carmo Francisco

Ligeiros anos

20040327_Amsterdam01.jpg

No eléctrico, a menina, dezoito ligeiros anos, faz questão de levantar-se.
– Não se quer sentar?
O veículo tivera um arranque violento, e eu precisei de deitar a mão, rápido, a uma argola.
Foi aí que ela reparou nos meus cabelos brancos.
– Não, muito obrigado.
E, ridículo, sincero, não pude conter-me:
– É que ainda sou novo, sabe?
Era a maior das verdades. Subo escadas a correr – ainda subo escadas a correr – e desço-as
dois a dois e com um rasto de elegância. Mas ela, a mocinha, nunca poderia adivinhá-lo.
– Mas, se quiser, sente-se.
Menina linda. Bem-educada. Cruel.
Não me sentei. Sorri apenas. Gentil. Vingativo.

A sonoridade do Português

partitura.jpg

Não poderia discordar mais deste post do nosso venerável Fernando Venâncio. E por diversas razões. Em primeiro lugar, porque a sonoridade de uma língua não advém do seu sistema fónico – se a língua é uma música (que é), o sistema fonológico de uma língua é apenas a sua escala e nada mais do que isso. Depois, porque todos os raros vocábulos que o Fernando saca às obras do Aquilino Ribeiro naquele seu belo exercício nem sequer possuem qualquer fonema mais peregrino da nossa língua. Mas há mais: a sonoridade de um língua não depende do seu léxico ou vocabulário, mas sobretudo da sua sintaxe. Ou seja: não é através de um corte e cose de palavras que se consegue dar um aroma do estilo de Aquilino, na medida em que isto apenas fornece algumas notas musicais e não a sua melodia (que, como é óbvio, é ali da exclusiva responsabilidade do Fernando). Finalmente, porque não existe tal coisa como a sonoridade de uma língua: qualquer língua que se preze possui uma infinidade de sonoridades que lhe são conferidas pelos seus falantes. A sonoridade de uma língua está na forma como cada um de nós actualiza a potência da nossa língua, impregnando-a com as idiossincrasias do nosso aparelho fónico (fisiologicamente falando, é claro), a nossa prosódia e sotaque. A literatura até pode ser uma bela partitura de uma língua, mas não passa mesmo disso. Como dizia Sá Carneiro, o que interessa mesmo é o intérprete. Que por vezes toca lindamente de ouvido.

Como soa o português?

boca.jpg

Sim, como soa o português? Nenhum de nós sabe. Tal como a água não tem sabor nem o ar cheiro. Isto, normalmente. Mas é verdade: não podemos sair do português e saber como ele soa. Ouvi-lo de fora, digamos.

Não podemos? Ora experimente. Leia este texto a um amigo. Ou, mais exactamente, peça-lhe que lho leia a si. Você não vai entender nada. Mas saberá, finalmente, qual o cheiro, e o sabor, e o som do seu idioma.

O VAGANAU

Quando, nesse dia, a grande zorata se escabajou, fachona e esampada, lastraram-se os macanjos, não os mais coitanaxes, mas os futres. As récegas, ainda mal forjicadas por uns chambris sem galilé, experluxavam todas murzangas e resulhas, debaixo do mesoneiro.

Perto, esbagoavam-se as caiporas no seu ousio brês e solerte, empanzinando o mandil das chedas mais cainhas, enquanto o bom do gerifalte, cada dia mais zambro e somítego, estroncava zarcamente o bajoujo.

Onde se entroncava a sancadilha, onde? Empanizava ela com os pegamaços ainda cóscoros, ou alapardava-se nos pelouzanos do galaroz? Malditas búseras, a que nem os piores malcatrefes refertavam. O jagodes choutou novamente as rópias de seu já velho taró e engabelou-se no ralão de codeço.

Nunca mais se eslavoiraram as lagóias. E desde esse dia a calhatroz esmoeu toda a sirga que matejara nos olharapos ladravazes da pandorga.

Este texto foi composto com vocábulos retirados de obras ficcionais de Aquilino Ribeiro.

«Cartas de Marear» de Mário Machado Fraião

Este livro de crónicas descreve uma viagem no tempo português dos anos 50 e 60 em duas cidades: Horta e Lisboa. Na Horta os filmes vistos no Salão do Sporting Clube da Horta vinham revelar um mundo «vasto e variado onde havia muito mais na vida que frequentar as aulas, regressar a casa no cortejo dos alunos do Liceu, vestir o fato aos domingos, pentear o cabelo, escovar os sapatos, espera as meninas depois da missa.» Já em Lisboa o autor vem encontrar cafés não iguais ao Internacional ou ao Volga mas onde era ainda possível «trocar ideias, impressões, experiências, contar anedotas, comentar estreias, novas publicações, jornais, discutir, conspirar, escrever poemas e manifestos».

Mas escrever sobre a «maior cidade pequena do Mundo», como lhe chamou Pedro da Silveira, é também lembrar os mestres e maquinistas dos barcos do Canal que arriscaram as suas vidas para salvar outras vidas, doentes em perigo, mulheres em trabalho de parto: Mestre Guilherme, mestre Alfredo Saca, mestre Augusto Pau de Lérias, mestre Simão.

Há aqui memórias de livros e autores, etapas de uma outra viagem de Mário Fraião: Jorge de Sena, Fernando Arrabal, Gonzalo Torrente Ballester, Teixeira de Sousa, Francisco Coloane, Vitorino Nemésio, Raul Brandão, Carlos Faria, José Martins Garcia, Rui Duarte Rodrigues, Almeida Garrett, Pedro da Silveira. Mas sempre, acima de tudo e para além de tudo, o fascínio das viagens: «Pedaços de nós mesmos que sugerem o dia de São Vapor nas ilhas pequenas, as partidas na doca da Horta, as despedidas, mulheres a chorar, um caixeiro-viajante a contar anedotas, os bagageiros transportando as malas e os sacos de viagem pelas escadas íngremes e muito estreitas, os diversos sinais de aviso aos passageiros, a espumas das hélices. O apito final. Largaram-se os cabos, «adeus, adeus», soltam-se os lenços, chapéus e cachecóis. Alguns vão a Lisboa tratar de assuntos particulares. Outros, talvez, não voltam nunca mais.»

Um livro para ler e devorar, tal a paixão quer percorre as suas páginas.

Fotos: Júlio Vitorino da Silveira
Edição: Albagrafe Lda.

José do Carmo Francisco

All’alba vincerò!

Il principe ignoto

Nessun dorma! Nessun dorma!
Tu pure, o Principessa,
nella tua fredda stanza
guardi le stelle
che tremano d’amore e di speranza…
Ma il mio mistero è chiuso in me,
il nome mio nessun saprà!
No, no, sulla tua bocca lo dirò,
quando la luce splenderà!
Ed il mio bacio scioglierà il silenzio
che ti fa mia.

Voci di donne

Il nome suo nessun saprà…
E noi dovrem, ahimè, morir, morir!

Il principe ignoto

Dilegua, o notte! Tramontate, stelle!
Tramontate, stelle! All’alba vincerò!
Vincerò! Vincerò!

Puccini, Turandot, Nessun Dorma, Plácido Domingo e as manhãs vitoriosas. Para ir acordando ao longo do dia, e dos dias.

Studio: WEST COAST (reprise)

studiowc2.jpg

Como prometido, volto à carga com o magnífico WEST COAST dos Studio, até porque não tenho ouvido outra coisa desde que publiquei o último post. Desta vez, vou ser porquito e deixar aqui aquela que considero ser a grande faixa do álbum: o longo e hipnótico tema instrumental que abre o disco: «Out There». Não tenho palavras para descrever a euforia que me provoca a audição desta absoluta maravilha de ritmo, groove e bom-gosto. Ele é guitarras pós-punk cheias de gorduras polinsaturadas, pitadas de disco-sound, apontamentos de produção que fazem lembrar os momentos áureos dos New Romantics e ainda uma linha melódica que (mais uma vez) parece invocar os fantasmas da santíssima trindade Marr, Rourke e Joyce (fase MEAT IS MURDER). Depois, a meio do tema, e quando um gajo já está totalmente rendido, somos atirados ao tapete por um baixo do tamanho da Avenida dos Aliados e, aí, ele é afro-beats, reggae, dub e a real puta que os pariu. A sério. Acho que é o melhor tema que ouvi na minha vida. E o mais incrível é que esta faixa se move por territórios que estão longe (muito longe) de serem os meus predilectos na cartografia pop. Eu sei que a solidão nestas merdas é sempre uma doce e fiel companheira, mas ainda assim, arrisco a pergunta: serei eu o único doido a venerar esta merda?

100 Torga com Torga

Pátria

Serra!
E qualquer coisa dentro de mim se acalma…
Qualquer coisa profunda e dolorida,
Traída,
Feita de terra
E alma

Uma paz de falcão na sua altura
A medir as fronteiras:
– Sob a garra dos pés a fraga dura,
E o bico a picar estrelas verdadeiras…

Vindo de um cultor do iberismo cultural (o único iberismo legítimo e inteligente, mesmo que usualmente demasiado lírico para dar fruto — e só lírico, quando precisa igualmente de ser filosófico), pode ser poema útil para os infelizes a quem nunca explicaram o que a palavra pátria pode querer dizer. Já agora, recorde-se um comentário sharkíssimo.