Quanto tempo terá este Governo de estar no poder para que possa ser responsabilizado pelo que quer que seja? Já percebemos que dois anos não são suficientes. Não importa o que digam, façam ou deixem de fazer. Não importa o facto de serem criticados todos os dias por praticamente toda a gente. Apesar de tudo isso, há sempre um ministro, um deputado ou outro idiota qualquer a lembrar que a culpa da situação em que o País se encontra é, foi e continuará a ser dos seis anos de governação socialista. Resta saber até quando. É que sabemos que três anos de governação de direita também não têm impacto nenhum no País. Veja-se os Governos de Durão Barroso e de Santana Lopes, foi o desastre que se viu, mas para a direita é como se esses três anos não tivessem existido. Dez anos, o tempo que duraram os Governos de Cavaco, parece tempo suficiente para que a direita possa ser responsabilizada, mas não é. Por isso é que têm sempre o cuidado de excluir esse período quando se põem a fazer contas ao número de anos que o PS esteve no poder. Assim por alto, de quantos anos precisam? Podemos esperar sentados, se a condição para assumirem a responsabilidade pelos seus actos for a obtenção de resultados positivos com as suas políticas, com toda a certeza, nem daqui a cinquenta anos o Sócrates se livrará de todas as culpas.
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Afinal, Passos não é incompetente, é teimoso
Para Marcelo Rebelo de Sousa o Governo tem de mudar de rumo e parece que só não o faz porque Passos é teimoso. Portanto, ao contrário do que muitos pensam, Passos não é incompetente, impreparado e incapaz de uma ideia que não passe por seguir cegamente o que a troika manda, é só teimoso, muito teimoso. O Governo está cheio de ideias para nos tirar deste imbróglio e sabe muito bem qual o rumo a seguir, só tem de resolver o problema da teimosia do primeiro-ministro. Nada que não se possa resolver.
E é assim que estes comentadores de direita dão uma no cravo e outra na ferradura. Parece que está a fazer-lhe uma crítica quando na realidade está a protegê-lo daquilo que mais o acusam: de ser totalmente incompetente para ocupar o lugar de primeiro-ministro.
Do mal, o menos, é teimoso.
O Passos não é humorista, mas tudo o que diz soa a anedota
Passos aproveitou o resultado das eleições italianas para discorrer acerca da estabilidade política. Diz ele que “é um elemento muito importante nos tempos que estamos a viver”.
Pronto, está explicado, só é importante nos tempos que estamos a viver. Há cerca de dois anos, o País não precisava de estabilidade política para nada, até porque, como toda a gente sabe, a crise europeia só começou a 6 de Junho de 2011. Antes disso, o País vivia desafogado, qual bancarrota, qual quê. Só isso explica que alguém que valoriza assim a estabilidade política tenha derrubado o Governo anterior a meio do seu mandato só porque estava cheio de pressa para chegar ao pote. Algo perfeitamente natural, ninguém pode falar de instabilidade de espécie nenhuma. Após a eleição, este defensor da estabilidade política fez mais, não descansou enquanto não mandou às urtigas toda a oposição, o PR, os parceiros sociais e a esmagadora maioria dos portugueses. Deve ter sido por não fazerem falta à estabilidade política do País. Afinal, é muita gente para manter estabilizada, já basta ter de estabilizar os membros do Governo. E, lá está, porque o País não está assim tão mal. Não somos a Grécia e muito menos a instável Itália.
Ainda se pode chamar Governo a isto?
Na passada semana, Vítor Gaspar admitiu que teria de pedir mais um ano à troika.
Já hoje, em Madrid, Paulo Portas apoiou o pedido de Gaspar, afirmando que um bom prémio para recompensar o esforço português seria os parceiros europeus apoiarem o pedido de extensão de maturidades.
E, agora mesmo, acabo de ouvir, na SICN, Passos Coelho a garantir que não vai pedir mais tempo nem mais dinheiro, que o Governo pretende cumprir os prazos e que o programa é para concluir até Junho de 2014.
Que parte do Governo é que quer cumprir os prazos? E qual deles vai aparecer primeiro a dizer que não foi isto que disse?
Uma perguntinha aos senhores da troika
Se as empresas portuguesas fizessem como fazem algumas (pelos vistos, muitas) empresas dos evoluidíssimos, competentíssimos e honestíssimos países do Norte que vendem gato por lebre, aumentando assim brutalmente os seus lucros e a riqueza dos respectivos países, se calhar os senhores não teriam aterrado hoje em Portugal com a missão de nos virem dar lições de economia e de moral, pois não?
Afinal, quando é que descobriram que o Relvas é um traste?
O principal argumento dos que defendem que contra Relvas vale tudo, até suspender a democracia, é que ele é um traste. Pois é, mas já era um grande traste bem antes ter chegado ao poder e de se saber em que condições obteve a licenciatura, ou de se saber do que é capaz quando um jornalista se atravessa no seu caminho, ou não? É que se é verdade que o Governo mentiu descaradamente e tem feito exactamente o contrário do que prometeu, também é verdade que há coisas que não foram surpresa nenhuma. O Relvas nunca disfarçou o que é, para quem tivesse dúvidas, a forma como fez campanha contra Sócrates foi mais do que reveladora, mas, nessa altura, as pessoas da esquerda pura e verdadeira não se indignaram com aquela forma de fazer ‘política’, pelo contrário, o Relvas era um aliado precioso na luta contra o demoníaco Sócrates. Claro que o resultado dessa luta seria exactamente dar o poder a Relvas e aos amigos. Mas, aparentemente, os apoiantes da esquerda pura e verdadeira só conseguem pensar numa coisa de cada vez e por isso não conseguem antecipar as consequências das suas acções. Agora apoiam o movimento “Que se lixe a troika”, esquecidos de que Sócrates, aquele que ajudaram a derrubar, foi o primeiro a mandar lixar a troika e a alertar para as graves consequências da sua vinda. Alguém o ouviu? Não. O Relvas e os amigos diziam coisas muito mais interessantes, o que terá justificado a última coligação negativa, a responsável por termos de levar com o traste do Relvas como ministro.
Passados dois anos, finalmente, fartaram-se de os ouvir, e como é óbvio têm todo o direito a protestar. Mas de caminho, perguntem ao Jerónimo e à dupla do BE por que razão não conseguem calar o Governo, mas por falta de argumentos. Questionem o que se passa nos debates quinzenais, por exemplo, onde o Relvas costuma estar presente e de onde pode sair sempre sorridente, pois nunca de lá sai verdadeiramente derrotado.
Ah, esqueci-me que só conseguem fazer uma coisa de cada vez e agora têm um ministro para silenciar.
GPS marado
Sem surpresa, lá vamos sendo informados, oficialmente, de que tudo o que estava previsto no OE 2013, afinal, era a brincar. Mas a brincadeira continua. Perante as previsões alarmantes relativamente ao desemprego e à recessão, Passos reafirma que o País “está na direcção certa”. Pois está, mas só se o destino for a Grécia.
Seja como for, é pena que ninguém pergunte ao primeiro-ministro o que terá de acontecer à economia e aos portugueses para que comece a ter dúvidas quanto ao caminho que estamos a percorrer. Com o desemprego em 17,5% vamos bem, para irmos mal terá de chegar onde? 20, 30, 50%? Mais ainda? E para a recessão, há algum limite? Não me parece. É como para a falta de vergonha na cara, também não há limite. Veja-se o ministro das Finanças, apesar do falhanço colossal das suas políticas, há dias falava da “credibilidade acumulada”. Imagine-se se as coisas estivessem a correr bem, a acumulação de credibilidade seria tanta que a Curiosity a poderia fotografar a partir de Marte.
Lições do Pacheco, só se for de chafurdice
É verdade que a oposição anda pelas ruas da amargura, mas ver o Pacheco Pereira, semana após semana, na Quadratura do Círculo, a dar lições acerca do que deveria ser a estratégia do PS é extraordinário. Mas não surpreende, o Pacheco faz e diz o que for preciso para se manter na ribalta. Arrasa a política e os políticos, apesar de, mesmo nos intervalos da política activa, viver da política. Arrasa a comunicação social, mas não descola dos jornais nem da televisão. Tem um ódio de estimação à blogosfera, mas tem um dos blogues mais antigos. Para este artista, sem um pingo de vergonha na cara, vale tudo e, repito, nada do que diz surpreende. O que surpreende é ver o António Costa, que ultimamente também se tem dedicado a dar umas lições de oposição, ouvir as lições do Pacheco sem se rir e sem lhe chapar na cara a estratégia adoptada pelo PSD no tempo em que era deputado da oposição e braço direito da Ferreira Leite. Por muito criticável que seja a oposição do PS, e é, a oposição do Pacheco e da Ferreira Leite resumiu-se a caluniar, a chamar mentiroso a Sócrates e a explorar a tese da asfixia democrática, para não falar do tempo em que andou a chafurdar em escutas ilegais tentando fazer política com isso. Se há alguém que não pode dar lições de oposição a ninguém é o Pacheco. O “Documento de Coimbra” pode ser uma “redação”, como lhe chamou, mas o Programa Eleitoral do PSD, nas legislativas de 2009, nem isso era. Ainda por cima, o Seguro dá-lhe um jeitão. Se as eleições fossem amanhã, claro que o Pacheco, apesar das críticas ao Governo, que, aliás, ajudou a eleger, voltaria a fazer campanha pelo Passos com a desculpa de que o Seguro seria ainda pior. Como é que o António Costa, sabendo de tudo isto, lhe responde como se o que ele diz fosse para levar a sério? Mistério.
Quem não pode, arreia
A renúncia do Papa devia dar que pensar a alguns que andam para aí a arrastar-se nos cargos que ocupam. O Cavaco é um deles. Raramente é visto e quando aparece, inevitavelmente, são sempre mais as críticas do que os elogios. Vai ficar na História como o Presidente menos popular desde que há democracia. Imagine-se se tivesse de aparecer tantas vezes em público como o Papa. Mas tal como Bento XVI, em vez de ficar irremediavelmente ligado aos escândalos de pedofilia, vai ser lembrado por ter tido coragem para renunciar, também Cavaco poderia dar a volta à História seguindo-lhe o exemplo. Seria um enorme favor que faria ao País, aposto que choveriam aplausos. Além disso, poderia continuar a fazer aquilo em que é um verdadeiro especialista: trabalhar na sombra. E as anonas também ficariam muito agradecidas. Ou talvez não.
Seremos os últimos a saber, mas isso agora não incomoda ninguém
Longe vão os tempos em que a direita, na oposição, trepava pelas paredes se não fosse informada com antecedência de todas negociações do Governo de então com as instituições europeias. Ficámos a dada altura a saber que um telefonema não era suficiente. Para não cair o Carmo e a Trindade, a oposição, o PR e o Parlamento tinham de estar a par de tudinho e com tempo. Outros tempos. Agora, no Poder, o Governo de direita decide cortar 4 mil milhões nas funções do Estado, e o que faz? Cobardemente, antes de tornar públicos os tais cortes, pede primeiro a bênção da troika. O que aparentemente não incomoda ninguém. A comunicação social mal noticiou o último Conselho de Ministros. Pelos vistos, acreditaram no primeiro-ministro que veio dizer que a reunião não tinha como objectivo discutir esse assunto, mas lá vão lembrando a data da próxima avaliação da troika. E a oposição anda entretida com outros assuntos. Sabemos que o que importa agora são as autárquicas, mas o PS, por exemplo, devia tirar um bocadinho para pedir coerência ao Governo e exigir o que a direita exigia quando era oposição, ainda mais agora que tudo mudou e que o Seguro vai passar a defender os Governos de Sócrates com unhas e dentes. A menos que o António Borges tenha razão e este corte brutal seja apenas uma questão acessória.
Um Governo cada vez mais credível
Despeçam-se, com ou sem amizade
O Parlamento discutiu ontem a proposta dos deputados da maioria para que regresse à RTP o velhinho TV Rural. Dizem eles que o principal objectivo é “cativar os jovens para a agricultura e para as pescas”. Parece ser, portanto, a grande aposta do Governo para a agricultura. Mas em que planeta é que estes deputados vivem? O TV Rural era apresentado pelo engenheiro Sousa Veloso, que durante décadas falou para uma população analfabeta que se dedicava sobretudo à agricultura de subsistência. Aparentemente, os deputados da direita não se aperceberam das diferenças entre o público de então e o de hoje.
Se o Governo quer cativar os jovens devia apostar na sua formação, criar condições para que, tal como o antigo apresentador, também se possam formar em agronomia, por exemplo, e não fazer deles o público ignorante que precisa de um programa de televisão semanal para se informar. Talvez os deputados do PSD e do CDS desconheçam, mas entretanto inventaram-se coisas como a Internet. Se calhar os tais jovens também ficariam agradecidos se o Governo investisse mais em ciência e tecnologia, o que, parecendo que não, facilita a inovação e a consequente competição nos mercados internacionais e torna a actividade mais atractiva. Mas isso o Governo não pode fazer porque seria voltar ao regabofe dos governos de Sócrates. E, além disso, não querem regressar a um passado recente, querem sentar os jovens em frente à televisão e fazê-los acreditar que ainda vivem a meio do século passado.
Ninguém tem tanta fé
António Costa acredita que Seguro, o principal responsável pela actual desunião do partido, a partir de agora só vai trabalhar para o voltar a unir. António Costa é um homem de muita, muita fé.
Ou isso, ou Seguro, para provar que está empenhado em cumprir o acordo, garantiu-lhe que vai submeter-se, o mais breve possível, a uma delicada, e bastante demorada, operação ao cérebro.
Seguro está furioso, pasme-se
Os deputados socialistas que propuseram a antecipação do Congresso conseguiram aquilo que Passos/Relvas/Gaspar e restante pandilha nunca conseguiram: enfurecer Seguro. Perante as políticas desastrosas do Governo não passa da abstenção violenta. Perante as críticas à sua liderança, aí sim, fica furioso. E, pelos vistos, os seus apoiantes acompanham-no na fúria, acusando os colegas de partido de deslealdade, de conspiração e outros mimos.
Ontem, ouvi o Alberto Martins defender com unhas e dentes a legitimidade política e programática de Seguro, os socialistas elegeram-no e o mandato é para cumprir. Como se as críticas dos deputados tivessem surgido do nada. Como se chovessem elogios à forma como Seguro faz oposição ao Governo. Estes deputados limitaram-se a dar voz ao descontentamento geral e aos apelos para que surja um outro líder socialista, mas os apoiantes de Seguro, talvez por andarem tão entretidos a contar espingardas, ainda não se aperceberam. Já para não dizer que se Seguro tem legitimidade política o Governo também a tem. Como é que alguém tão zeloso no cumprimento do seu mandato anda para aí a falar de programas eleitorais e de maiorias absolutas a meio do mandato dos outros?
E ainda há o argumento das Autárquicas. Parece que o PS, nos próximos tempos, não vai ter tempo para mais nada. O Governo agradece. E, já agora, qual é o problema de haver mudança de líder antes das Autárquicas? Será que só por esse motivo a esperada derrota do PSD passa a vitória?
De facto, até as lesmas têm mais pressa
Ontem foi mesmo um dia em cheio para o Governo. Não só conseguiram pôr os seus apoiantes em êxtase como ainda puderam ver o líder da oposição juntar-se aos festejos, dizendo que não tem pressa na realização do congresso do PS. Quem mais do que a direita agradece que o PS continue como está? E que Seguro não tem pressa para nada já todos sabíamos. Não tem, nem nunca terá, pressa em defender o passado do seu partido, preferindo ser constantemente enxovalhado pela direita do que proferir uma palavra em abono do seu antecessor. Para fazer verdadeira oposição ao Governo, e apresentar uma alternativa em que os eleitores acreditem, também não há pressa nenhuma, aliás, veio há dias dizer que o PS é uma “alternativa credível e tranquila”. E é. Mais tranquilo do que isto, para o Governo, é impossível.
O que vale é que as pessoas estão primeiro. Não sabemos é quem são essas pessoas. Os que votaram PS nas últimas legislativas, e que se sentem traídos por esta liderança, não são. Os que esperam, e desesperam, por um verdadeiro líder da oposição, podem esperar sentados. Os parceiros que estão preocupados com o rumo do partido, ficámos ontem a saber que estão em último. Assim de repente, parece que no topo das preocupações de Seguro aparece a sua própria pessoa, não será por acaso que todas as suas frases começam por “eu”. E logo a seguir aparecem as magníficas pessoas que nos governam, já que são as únicas que todos os dias têm motivos para lhe agradecer. Estão muito bem uns para os outros.
Não é um pedido de extensão no tempo, é no espaço
Consta que o ministro das Finanças pediu uma extensão do prazo de pagamento dos empréstimos. Mas o PSD, através do seu líder parlamentar, já veio avisar que tal não significa pedir mais tempo nem mais dinheiro. Nem poderia significar. Afinal, o Governo recusou sempre pedir mais tempo, porque pedir mais um ano, por exemplo, só nos traria chatices e não defenderia os nossos interesses. Implicaria mais um ano de ajuda externa, mais austeridade e, claro, daria cabo da credibilidade do País.
Já o pedido de extensão do prazo de pagamento, noticiado hoje, é algo totalmente diferente e muito positivo. Mostra a credibilidade do País e vai permitir aliviar o esforço dos portugueses e dinamizar a economia.
Ainda não esclareceram, mas aposto que o pedido de alargamento do prazo não foi em meses ou anos, deve ter sido em metros ou quilómetros.
E, já agora, falem baixinho
Ao contrário do que pensam as más-línguas, o Governo também consegue cumprir promessas. Prometeram que iriam ouvir a sociedade civil a propósito da famosa refundação (ou lá o que era) do Estado e é isso que estão a fazer neste preciso momento. Não nos disseram que iriam ouvir a sociedade civil em segredo, mas não se pode falar em faltar à promessa, foi só um pormenor que lhes escapou. O debate está a fazer-se e isso é que importa. Claro que é um bocado esquisito a sociedade civil ficar privada de ouvir um debate em que supostamente está a ser ouvida, mas, lá está, é só mais um pormenor. E até foi bem pensado. Num dia em que os jornais estão cheios de boas notícias, em que se destaca o aumento do rendimento mensal das famílias (coitados, ainda não tiveram tempo de fazer a conta à perda de rendimento anual, que é o que interessa), deixar os jornalistas reproduzirem o debate, correndo o risco de estragar um dia tão bonito com alguma palermice oriunda da sociedade civil, isso é que nem pensar. Mas alguma coisa tinha de falhar. Parece que há uma excepção e vão transmitir o discurso de encerramento a cargo de Passos Coelho. Não se percebe por que razão não se mantém o debate em segredo até ao fim.
Antes o Inferno do que o Paraíso que nos querem vender
Governo e troika têm-nos dito e repetido que temos de passar pelos horrores que nos impõem para podermos sonhar com um futuro mais risonho. E juram que estamos no caminho certo, embora não dêem muitos pormenores acerca do destino que nos espera. Deduz-se que será uma espécie de Paraíso sem igual. Para lá chegarmos mais depressa, Governo e FMI, lembraram-se agora de acrescentar um pacote de medidas inteligentes (imagine-se se não fossem) que passam por um corte de 4 mil milhões na despesa do Estado e de forma permanente. Mas o que quererão dizer com isto de ser de forma permanente? Será que, mesmo que, por milagre, o crescimento económico dispare, que o País enriqueça, os cortes são para manter e nunca mais se poderão aumentar os salários da função pública ou acrescentar um cêntimo às pensões miseráveis de milhares de reformados, por exemplo? Tudo leva a crer que no tal Paraíso para onde nos querem levar o fosso entre ricos e pobres é para manter, ou até para cavar mais fundo, já que passará a ser pecado o Estado desperdiçar dinheiro com qualquer tipo de protecção social. Paraíso, mas, por este andar, só para meia dúzia. Então e como é que se mantêm estes cortes de forma permanente quando este Governo for substituído por outro que pense de forma diferente? Estarão a pensar impedir que tal substituição aconteça?
O que me parece que sofreu um corte permanente e irreversível foi a inteligência dos actuais governantes, e não é de agora.
magalhães, de anedota a produto estrela
Sócrates só teve ideias estapafúrdias, como sabemos, mas há uma que, para mim, bate todas as outras aos pontos: magalhães. O pequeno computador não tinha qualquer utilidade, pelo menos, para os fins a que se destinava, já que foi muito útil para expor a estupidez que reinava na oposição da altura. Enquanto uns destilavam ódio, outros dedicavam-se a transformar o programa numa anedota. Sem espanto, mal chegaram ao poder, e com a velocidade com que se tenta exterminar uma praga, puseram fim ao projecto. Deve ter sido das pouquíssimas medidas que tomaram sem ser a mando da troika.
Mas o bicho é difícil de matar. Ontem, no Prós e Contras, cujo tema foi o crescimento económico e em que participaram vários empresários de sucesso, estava o director de um consórcio de empresas da área das tecnologias de educação que exporta quase tudo o que produz. Qual não foi o espanto quando se referiu ao magalhães como sendo o ‘produto estrela’. Uma ‘marca conhecida internacionalmente’, que ‘ajuda a abrir portas’. A pior ideia de Sócrates anda a correr mundo e a contribuir para aumentar as exportações portuguesas, que são o orgulho do actual Governo.
É mais uma prova do descalabro que nos trouxe até aqui. É só fazer as contas.
No lugar da parede está agora uma luz
Passos, cumprindo a tradição do dia de Reis, e lembrando que temos de acarinhar as nossas tradições (tirando talvez aquelas que se comemoram num dia feriado), lá teve de vir desejar um bom ano a todos os portugueses. E fez questão de frisar que os votos se estendiam a todos, mesmo àqueles que gostam pouco do Governo. Pudera, se assim não fosse, não tinha praticamente ninguém a quem dirigir a mensagem. Mas não há solidão que o impeça de ter esperança num futuro risonho. De ver a luz ao fundo no túnel e a saída do período difícil que atravessamos. Nem a solidão nem o que diz um mar de gente incluindo alguns membros do Governo. Como, por exemplo, o que veio dizer o Secretário de Estado do Orçamento a propósito do eventual chumbo das normas enviadas para o TC, alertando para a possibilidade da troika ‘fechar a torneira’. Noutros tempos, esta possibilidade, ou seja, Portugal não ter como se financiar, chamava-se bancarrota e o que se vislumbrava, não sei se com ou sem túnel, era uma parede onde o País iria embater com toda a certeza. Mas isso eram tempos sombrios, em que os governantes eram uns cinzentões que não tinham ideias nem qualquer solução para resolver os problemas do País. Felizmente, tudo isso acabou. Agora, é uma alegria, só se vêem luzes e espirais.