
«A irresistível voz de Ionatos» de Vítor Oliveira Mateus
A irresistível voz a que se refere o título deste livro é a de Angélica Ionatos que canta a poderosa massa sonora de Mikis Theodorakis e de toda a música popular da Grécia.
O ponto de partida deste livro é a Ilha, seu tempo e seu espaço: «Azul que em azul te desdobras. / Cerco de baías. Moldura de espuma. / De penhascos afagados pelo vento. / É na linha do fogo que te desenho / ò insubmissa de vagas e fulgores! É em ti que me renovo, Cítera, / a dos amores. / E por ti diariamente renasço».
Numa ilha grega o poema revela que o Turismo nada tem a ver com a Poesia: «A mulher da loja em frente traz consigo / algo das antigas deusas. / Reforça a perigosidade dos poetas / sempre a infectar gentes, ilhas, rotas / ancestrais. E que o bem houvera sim / na ditadura dos generais, onde a ordem / fora ordem, sem abcessos a estorvar o destino».
O Turismo é um negócio e por isso o viajante é sempre visto como um invasor: «Nunca soube lançar o pião / como os rapazes do terreiro / entre os contentores: aprendizes / de ladrões, de proxenetas / arrumadores. Nunca soube lançar o pião. Lancei / a minha vida, os meus / anseios. E foi tudo.»
Entre a viagem («a viagem é uma cisão absoluta») e a rotina («com o seu debrum de gangas que nem conheço») o amor é a linha dum rosto e o rumor de uma voz: «Tenho saudades da tua voz / desse rendilhado de sílabas/ a desaguar lento no alvoroço / da tarde. Tenho saudades / da tua boca onde eu – náufrago / de antigas visões – todas / as noites ouvia a límpida melopeia / da ilha».
(Editora: Labirinto, Capa: Manuel Carneiro, Prefácio: Posfácio: Cláudio Neves, Nota de contracapa: Olga Savary)