Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

Senhora da Boa Viagem

As mais belas colchas nas janelas

Flutuam como bandeiras dum país

Nas filas da Filarmónica paralelas

Eu sou de novo um menino feliz

Vi o rapaz da Biblioteca no andor

Reconheço um anjinho disfarçado

O vento que nos refresca do calor

Diz que já andou por todo o lado

Perdido entre andores e bandeiras

Entre o pálio e pendões dispersos

Sinto logo saudades verdadeiras

Da poesia sem linhas e sem versos

Um tempo onde tudo era imenso

E a morte na verdade não existia

Na mistura do sol com o incenso

A procissão era o lugar da alegria

Lizandro

Do alto deste ginger ale com limão

Uma paisagem povoada pelo vazio

Estas areias trazidas em turbilhão

Não deixam passar as águas do rio

Bolinhas que entram na espuma

A atravessar o areal tão povoado

Na festa de fazer coisa nenhuma

No mundo que fechou a cadeado

Do alto deste ginger ale com limão

Sobejam bolas de prazer e frescura

Na cultura do chinelo e do calção

Não fazer nada é uma licenciatura

Muitos ficam até já não haver luz

Altar do ócio, liturgia terminada

A praia é fábrica que não produz

Férias são a indústria mais pesada

Um livro por semana 132

onde há crise, há esperança vasco pinto de magalhães

«Onde há crise, há esperança» de Vasco Pinto de Magalhães

Vasco Pinto de Magalhães (n. 1941) foi um conhecido jogador de rugby, tornou-se sacerdote em 1974 e é hoje especialista em Bioética. Através de 366 entradas, o autor (licenciado em Filosofia e em Teologia) organiza uma leitura do nosso tempo.

De um lado a dor («Uma das grande fontes de sofrimento é a nossa falta de solidariedade, num mundo em que não recolhemos o homem caído à beira da estrada») do outro lado a alegria: «Às vezes até arrepia estar a falar de alegria a uma pessoa que está a sofrer e que nessa altura não vê nada, sente tudo escuro e negro à sua roda». Como única resposta e caminho surge a esperança («O maior roubo que se pode fazer a alguém é tirar-lhe a esperança») e a paz: «Para caminhar para paz há três meios fundamentais: ouvir as dores do mundo, tornarmo-nos sensíveis a esses gritos dos marginalizados e dos excluídos e ouvi-los mais do que os outros gritos que temos dentro de nós, de desejo, de prestígio e de honra, sem dúvida mais sedutores». Para o autor a felicidade («Feliz vem de felix que quer dizer fecundo, produtivo.») passa pelo perdão («Perdão não é desculpa nem esquecimento») ou pela misericórdia: «Misericórdia significa um coração sensível, um coração atento à miséria, à necessidade, ao pobre».

No fim (e lembrando o rugby) o autor fala em poder de encaixe: «Nas famílias e nas escolas devia haver ensino prático de poder de encaixe, isto é, de se tornar capaz de, no insulto como na bolada no estômago, a seu tempo e a seu modo, voltar ao ponto de partida, mais sábio e consciente.»

(Editora: Tenacitas, Prefácio e contracapa: Nuno Tovar de Lemos, Capa: do autor)

Um livro por semana 131

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«Pobre e mal agradecido» de Rui Tavares

Trata-se aqui de uma «miscelânea» organizada a partir de textos do blogue «Barnabé» mas não só. Nestas 200 páginas podemos ler digressões sobre as obras de Francisco Goya, Albrecht Altdorfer, Primo Levi, Ítalo Calvino, David Hume, W.G. Sebald, Haruki Murakami ou George Orwell: «A fome reduz uma pessoa a um estado sem cérebro, é como se a pessoa se tivesse transformado num molusco qualquer».

A propósito do 11 de Setembro de 2001 o autor escreve: «ouvi dizer que precisamos de um novo Salazar, reintroduzir a pena de morte, é pena os drogados não morrerem mais depressa e muitas outras coisas equivalentes». Sobre a expressão «orgulho de ser branco» afirma: «esse imbecil ainda não entendeu que ele nem sequer teve responsabilidade em ser branco. É só branco por acaso. Tem muito pouco de que se orgulhar».

Este livro passa por Paris («uma cidade mortalmente aborrecida») e pelas palavras de Woody Allen: «quando chegarem atrasados usem a desculpa dele – como o Universo está em expansão, demorei mais um bocado a achar a minha roupa». Passa também por Santana Lopes («o governo de Santana Lopes será tão lembrado quanto a revolta do grelo ou a guerra das laranjas») e pela Irmã Lúcia: «Estamos numa igreja de homens: agradecem-lhe o não ter atrapalhado. Estamos numa igreja experiente: agradecem-lhe o ter-se tornado numa relíquia viva». Sem esquecer uma das paixões do autor: «Corria o ano de 1772 e quatro dos melhores censores portugueses gastavam boa parte do seu tempo a tentar definir o que era a superstição».

(Editora: Tinta da China, Prefácio: Ricardo Araújo Pereira, Capa: Vera Tavares, Composição: Olímpio Ferreira)

Vinte Linhas 391

Santos Fernando ou «Os grilos não cantam ao domingo»

O «Diário de Noticias» de hoje traz um texto sobre a Padaria do Povo em Campo de Ourique mas numa caixa sobre a sua biblioteca surge uma foto de Santos Fernando ao lado do nome de Bento de Jesus Caraça. Feliz mal-entendido este…

Lembrei-me logo dos velhos tempos (anos 60) em que eu atravessava Vila Franca de Xira para comprar o «Diário Popular» e ler a crónica de humor de domingo sob esse sugestivo título: Os grilos não cantam ao domingo. Uma dessas crónicas tinha a ver com um escritor muito estranho – já nos anos 60 os havia. Era um homenzinho que resmungava mais ou menos assim: «A arte de escrever foi a única, até hoje, que não sofreu alteração. Desde Rabelais para não ir mais para trás, até Bernard Shaw para não ir mais para a frente; desde Maquiavel e Erasmo até Eça de Queirós ou Charles Dickens e destes até aos nossos dias que não há uma pequena modificação! Os livros sempre estiveram sujeitos ao estilo, aos personagens, ao enredo criado por figuras fictícias, ao ambiente, ao melodrama, à comédia, ao amor, às palavras com sequência! Ora num tempo em que a vida moderna está atomizada o tal senhor queria escrever e lançar um romance atómico, um livro no qual não haveria nem princípio nem meio nem fim. Um livro no qual as personagens podiam ser um prego, uma bota furada, um pêndulo de relógio, um pedaço de sílex, um par de castanholas, uma argola de guardanapo. E a crónica terminava com o homenzinho a ameaçar: dentro de pouco tempo nas livrarias apenas subsistirão os romances atómicos…Esta troca de imagens no jornal de hoje fez-me recordar as saborosas crónicas dos anos 60 quando os grilos não cantavam ao domingo.

Vinte Linhas 390

«Um poeta recorda-se» de Armindo Rodrigues

Estas «Memórias» (Edições Cosmos) são a vida de Armindo Rodrigues (1904-1993) em 330 páginas. Nelas o poeta lembra o lugar onde nasceu («Nasci no Campo das Cebolas»), as viagens da infância («Custava oito tostões o bilhete») e as comidas: «Eu era um comilão capacíssimo de devorar a um almoço ou a um ceia três bifes de trezentos gramas». Recorda a mãe («Sonhava que eu me casasse rico») e as suas zangas com o pai («não cessavam e levaram o meu pai a sair de casa») além de aspectos do quotidiano: «Os muito asseados lavavam os pés todos os dias num alguidar de barro. Mesmo no Verão os banhos de mar não eram como hoje». Registou as aparições de Fátima («Em 13 de Outubro à roda das três da tarde houve um grande milagre em público na Cova da Iria») e recordou a sua vida de médico: «Levava eu pela consulta na Farmácia cinco escudos e por uma visita domiciliária trinta». As memórias são povoadas pelas figuras mais diversas: artistas plásticos como Bernardo Marques e Manuel Ribeiro de Pavia, políticos como Afonso Costa ou Sidónio Pais e tarrafalistas como Bento Gonçalves ou Alfredo Caldeira além de escritores, ensaístas e poetas: Manuel Mendes, José Gomes Ferreira., José Rodrigues Miguéis, Mário Beirão, Raul Proença, Afonso Lopes Vieira, Sebastião da Gama, Bento de Jesus Caraça, Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira, Tomás de Figueiredo, David Mourão Ferreira, João Gaspar Simões e Aquilino Ribeiro – entre outros. E Salazar, sempre: «Aos opulentos protegia mas haviam de lhe comer à mão. Ao povo rasteiro de que provinha desprezava-o. Perante a Igreja comportou-se sempre como um Papa autocrático e ao Bispo do Porto expulsá-lo-ia do País».

Vinte Linhas 389

Toma e embrulha ou Thomas no alto dos seus 3 anos

Do alto dos seus 3 anos o meu neto Thomas Francisco revela um certo fascínio pelo uso correcto da língua – nada de coisas mal amanhadas, confusas ou pouco explícitas. Vejo-o brincar com um grupo de carrinhos em miniatura e pergunto: «Isto o que é? É uma corrida?». Ele responde: «Não. Não vês que é uma confusão de trânsito?» E avança na explicação: «Estes carros são comuns, não são carros de corrida.» (Toma e embrulha).

Passado um bocado vejo os 12 carrinhos em miniatura arrumados em quatro correctas filas de três viaturas e pergunto: «E isto é uma confusão de trânsito?» Resposta imediata da criança: «Não vês que isto é um estacionamento?» (Toma e embrulha).

Um passeio com paragem em Azeitão para compra de tortas respectivas e de vinho Moscatel – como não podia deixar de ser. Um olhar mais demorado para a serra da Arrábida e a pergunta: «O que é isto?» Respondo eu: «Isto é uma floresta.» Arrancamos pela serra acima e quando estamos a chegar ao Portinho da Arrábida pergunta a criança: «Se isto é uma floresta onde é que estão os dragões e os monstros?»

(De facto as histórias de florestas que ele conhece estão repletas de monstros e dragões. Falta de lógica é que a criança não tem…)

À noite ao colo do pai, prestes a adormecer, ouve pela centésima vez uma história de uma floresta com leões e de tigres acrescentando ele numa rigorosa adversativa «mas também monstros e dragões».

Oxalá ele possa continuar a ser assim rigoroso e atento a todos os pormenores da língua, da linguagem e da vida. Para eu poder dizer feliz de mim para mim «Toma e embrulha».

Balada de Mateus Queimado em 1913

Meu tio, juiz de Direito

Comarca da ilha de Goa

Veio reformado a preceito

Era a bondade em pessoa

Da Índia eu nada sabia

Com tigres e palmares

Na Ilha era outra alegria

Touros em vários lugares

Na venda do Cambadinho

Cravo, pimenta e canela

Faço um recado sozinho

Espero o meu tio à janela

Entre lágrimas da mãe

Um suspiro mal abafado

Saímos mas não a bem

Despejados no mandado

Uma loiça de tons quentes

Foi sair duns caixotões

Eram colchas diferentes

Estampas, leques, cadeirões

No Mandovi ele insistia

Nós só tínhamos ribeiras

Um caudal só de um dia

Com lamas amareleiras

Um telegrama cifrado

Meio da aula de francês

De Lausanne enviado

Levou meu tio de vez

Pediu-lhe ajuda a filha

Para a fúria da mulher

Ele disse adeus à Ilha

São Francisco Xavier

Conversa interrompida

Do meu tio aposentado

Assim Goa saiu da vida

Do moço Mateus Queimado

Vinte Linhas 388

«Casas do Espírito Santo» de Carlos Lobão (coordenação)

Carlos Lobão é o grande entusiasta das edições do Clube de Filatelia O Ilhéu da Escola Secundária Manuel de Arriaga na Horta. Este livro sobre o Espírito Santo é resultado desse labor. São 120 páginas com muitas fotografias e um título feliz – «Casas do Espírito Santo». Na verdade as casas do Espírito Santo em Santa Maria e São Miguel chamam-se teatros, na Graciosa e na Terceira são impérios, em São Jorge, Pico e Faial são ermidas ou capela e nas Flores e Corvo são casas. Muitos impérios têm anexos (local onde se preparam as sopas além de espaço onde se guardam as varas, os lampiões, os estandartes, as bandeiras e os utensílios de cozinha) que ganham nomes diferentes de Ilha para Ilha: casa das sopas (São Jorge), talho (Flores), copa (Faial), despensa (Terceira) e copeira (Santa Maria e Flores). Página a página cada fotografia com as suas cores e as suas mensagens («Deus é Caridade, União e Caridade») ou as suas abreviaturas (DES – Divino Espírito Santo) vai comovendo o leitor. Todas são especiais e diferentes entre si (há umas que até são amovíveis) mas o Império dos Outeiros na Agualva apresenta uma pauta musical gigante nas suas paredes. Convite óbvio a que das paredes saltem as notas para serem cantadas na alegria convocada dum encontro feliz. Em Santa Maria o Império do Santo Espírito tem a particularidade de o azulejo referir «Triato de Nossa Senhora da Piedade construído em 2002 pela Junta de Freguesia do Santo Espírito». Esta aliteração prova a ingénua diferença entre língua e linguagem, entre cânone e prática. Para fechar com chave de ouro fica a quadra da contracapa do livro: «Império é casa serena / Onde se entra por bem / Em tamanho a mais pequena / E a maior que o mundo tem».

Um livro por semana 130

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«A irresistível voz de Ionatos» de Vítor Oliveira Mateus

A irresistível voz a que se refere o título deste livro é a de Angélica Ionatos que canta a poderosa massa sonora de Mikis Theodorakis e de toda a música popular da Grécia.

O ponto de partida deste livro é a Ilha, seu tempo e seu espaço: «Azul que em azul te desdobras. / Cerco de baías. Moldura de espuma. / De penhascos afagados pelo vento. / É na linha do fogo que te desenho / ò insubmissa de vagas e fulgores! É em ti que me renovo, Cítera, / a dos amores. / E por ti diariamente renasço».

Numa ilha grega o poema revela que o Turismo nada tem a ver com a Poesia: «A mulher da loja em frente traz consigo / algo das antigas deusas. / Reforça a perigosidade dos poetas / sempre a infectar gentes, ilhas, rotas / ancestrais. E que o bem houvera sim / na ditadura dos generais, onde a ordem / fora ordem, sem abcessos a estorvar o destino».

O Turismo é um negócio e por isso o viajante é sempre visto como um invasor: «Nunca soube lançar o pião / como os rapazes do terreiro / entre os contentores: aprendizes / de ladrões, de proxenetas / arrumadores. Nunca soube lançar o pião. Lancei / a minha vida, os meus / anseios. E foi tudo.»

Entre a viagem («a viagem é uma cisão absoluta») e a rotina («com o seu debrum de gangas que nem conheço») o amor é a linha dum rosto e o rumor de uma voz: «Tenho saudades da tua voz / desse rendilhado de sílabas/ a desaguar lento no alvoroço / da tarde. Tenho saudades / da tua boca onde eu – náufrago / de antigas visões – todas / as noites ouvia a límpida melopeia / da ilha».

(Editora: Labirinto, Capa: Manuel Carneiro, Prefácio: Posfácio: Cláudio Neves, Nota de contracapa: Olga Savary)

Vinte Linhas 387

As décimas são uma roubalheira

Quando tinha cinco anos ouvia o meu avô dizer «as décimas são uma roubalheira». Elas vinham em postais das Finanças das Caldas da Rainha. Havia também uns postais do Banco Raposo de Magalhães de Alcobaça que tinham um selo de dois tostões. Eram avisos de reformas de letras de 500 escudos. Hoje, passados 53 anos, percebi o alcance da frase do meu avô. Uma jovem arquitecta paisagista iniciou a sua actividade em Outubro de 2008. Até Dezembro recebeu 1.225 euros mas na sua declaração das Finanças alteraram o valor para perto de 3 mil euros. Fui saber do caso a uma repartição e responderam-me que isto foi feito porque há mínimos. Ou seja: paga mínimos não por aquilo que efectivamente recebeu e declarou mas por um valor que alguém abusivamente resolveu colocar no documento por si assinado. Então uma pessoa inicia a sua actividade em Outubro e é como se tivesse começado em Janeiro. Mas se de Outubro a Dezembro são 3 meses então os chamados mínimos deveriam ser um quarto do tal valor. Tudo isto é uma mentira, tudo isto é um absurdo, tudo isto é uma vergonha. Custa acreditar que há gente que faz isto e depois deita-se e dorme como se não se passasse nada. Apetece dizer: «Meu rico Agostinho da Silva que conseguiu morrer sem ter tido número de contribuinte». Eu queria e não posso. Comecei a trabalhar em Setembro de 1966 e fui logo «filado» pelo sistema tributário. Por isso é que os portugueses que fogem ao fisco são admirados e muita gente os inveja e os venera. Eles são capazes de fazer o que nós não fazemos mas gostaríamos de fazer. Quem é que vai explicar isto a uma miúda de 24 anos a quem uns trambolhos sem rosto adulteraram a declaração de IRS?

Um livro por semana 129

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«As amantes de D. João V» de Alberto Pimentel

Este livro de Alberto Pimentel (1849-1925), não se limita ao universo do seu título. Muito para além das aventuras do Rei com Filipa de Noronha, Maria Ana de Áustria, Soror Paula, Margarida do Monte, A Flor da Murta e a actriz Petronilha, há nestas páginas a memória viva dum certo tempo português. A época e o tempo de D. João V: «Era ágil, desembaraçado e robusto. Dotado de uma certa viveza natural, de um certo engenho penetrante, tinha, para as mulheres a qualidade preciosa de as compreender sem hesitações e de se fazer compreender sem delongas». A rainha que veio da Áustria «falava latim, italiano, francês e espanhol, tinha muita piedade e muita religião e gostava de caçar». A propósito de um incidente em que a condessa de Vila Nova de Portimão, ao ser agarrada por D. João V, uma noite lhe deu um bofetão enquanto gritava «Que é isto! Pouca-vergonha!», comenta o autor: «Era forte e desembaraçada além de guapa. Devia ser pois deu cinco filhas ao marido e um bofetão ao Rei». O clima geral é dado numa frase: «Havia dois espectáculos predilectos da corte e do povo: eram os autos-de-fé e as touradas». Sobre o amor uma ideia: «Fidalgos, frades, poetas, velhos, moços, ardiam em incêndios de volúpia. O Rei, cônscio de sua elevada posição, não lhes queria ficar trás. Não foi outra coisa». Para o final da vida o Rei procurou cura nas Caldas da Rainha. Logo os frades de Alcobaça lhe enviaram 69 vitelas, 194 presuntos, 182 queijos, 210 perus, 692 galinhas, 12 cargas de fruta, 36 paios e 333 caixas com doce. D. João V quase morria de fartura mas repartiu o presente com a família dispersa na (hoje) cidade termal.

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Revisão: António Bárcia)

Vinte Linhas 386

«Caderno de areia» de Luís Maçarico

Os poemas deste livro de 50 páginas forma escritos na Tunísia entre 1991 e 2007 e poderiam estar reunidos sob o título de «Entre terra e mar». De facto no primeiro poema (Le Kef) o autor afirma «A terra canta» e no último (Amina) regista «O mar é uma incógnita…» Entre os dois discursos (inicial e final) fica o método: «E os dias derrama-se / no caderno de versos».

Mas os poemas, para o serem de facto, não podem ser apenas registos dum olhar («Entre dunas e olivais») sobre a Natureza. Há, na sua respiração, um diálogo com as História, o mesmo é dizer com a Cultura: «Escutarás o velho mar / onde Ulisses viu sereias / sozinho no areal / saboreando a divina carícia / do silêncio».

A autobiografia também é convocada; nascido em Évora (1952), o poeta exclama: «Tudo me diz que estou longe / mas não é verdade! / O deserto sempre foi o lugar / da minha infância!» Entretanto o poema é, acima de tudo o mais, o lugar dos outros: «Quem são? Gente onde a / terra em brasa crepita / para florir nos olhos de fogo / Passam como nuvens / parecem a impetuosa / corrente de um rio / ansioso por chegar à foz / mas que se perde / na aridez dos caminhos / da sede».

Entre o «eu» e o «Mundo», o poema liga de novo o que o «Tempo» separou: «Guardo o breve aroma / da efémera flor / do destino. Sei que o tempo / evapora jasmim e rosa. / Os passos no oásis / ainda há pouco já são / memória. Atravesso / nuvens. Transporto / visões, silêncios, sedes, / um deserto de afectos / e um chá de estrelas / para acordar sem mágoa…»

(Edição de autor, Design e grafismo: Marta Barata, Apresentação: Ana Machado)

Re-Intermitência

 

 

 

 

 

“Acho que é a altura de colocares a mão na consciência”, diz-me, pose circunspecta, C. “Tens toda a razão”, corroboro. “Vou fazê-lo agora mesmo”, acrescento, perante a satisfação, evidente, dela. E, de imediato, coloco a mão direita, com toda a pujança, no meu escroto.

 


Vinte Linhas 385

«Lábio cortado» de Rui Almeida

Sabe-se (Erich Fromm) que o homem é o único animal para quem a própria existência é um problema do qual não pode fugir e que só ele pode solucionar pois só ele pode aborrecer-se, ficar descontente e sentir-se expulso do Paraíso. Este livro de Rui Almeida venceu o Prémio Manuel Alegre 2008 da Câmara Municipal de Águeda e reflecte sobre essa circunstância: «O homem que se olha ao espelho sabe / que vai morrer. Não sabe quando ou como / mas reconhece a finitude da vida / – da sua vida, de cada vida.»

Poeta jovem (n. 1972, Lisboa) Rui Almeida sabe que o corte («É o lábio cortado que molha o ventre») pode ser lido em sentidos vários – desde um corte real provocado pela escaramuça de um quotidiano de luta e hostilidade ao corte figurado entre duas maneiras de fazer poesia. De um lado a canção; do outro a reflexão. Sem esquecer a filosofia à volta do poema enquanto objecto: «À pequena raiz do poema / chega a memória como um centro / Algo mais do que o ruído metódico das sílabas / e desaba paulatinamente na mão / que molda a frase, pousada na caligrafia.»

Num primeiro livro o poeta fala sempre de si: «Esta coisa de estar parado a assistir a nada / consciente da cor de cada objecto à minha frente / enquanto a visibilidade se fecha dentro de um candeeiro». Um poema regista a violência como banalidade («Quando o mundo nos entra com violência / para dentro do peito soluçamos») mas outro poema já advoga o encontro e o amor: «Tudo será dito sem memória nem futuro / Sujeito à solidão das vagas / Porque só as pessoas se amam».

(Editora: Livro do Dia, Capa: Inês Ramos)

Vinte Linhas 384

«Chave de ignição» de Ruy Ventura

«Chave de ignição» (Editora Labirinto) é o mais recente livro de Ruy Ventura (n. 1973) e organiza-se entre dois pólos – Natureza e Cultura.

O ponto de partida é a Natureza: «O cabelo recolhe a temperatura / da terra. Dissolve tudo / neste caminho virado a poente. / a mão segura as asas. / tenta encontrar o sono, a respiração – da montanha – e uma gota de água. / em silêncio, tenta encontrar uma gota de água / para dissolver este sal / que vai queimando a carne – e essa memória.»

A viagem faz-se num mapa de citações literárias: José Régio, C. Ronald, Maria Gabriela Llansol, Fiama Hasse Pais Brandão e um texto do evangelho de São Lucas. Se juntarmos as palavras de Fernando Guimarães e Pedro Sena-Lino na contracapa, o prólogo de Gonçalo M. Tavares e o óleo da capa de Nuno de Matos Duarte, temos a provável chave de ignição para viajar neste livro.

Trata-se de uma viagem entre a Morte («sem voz, sem terra, sem sombra – estes ossos e / estes músculos limitam-se a fotografar / um tráfego de sombras e revelá-lo entre os poros / enegrecendo a pele, tornando roxas as unhas, encanecendo o cabelo, / eliminando-se assim as poucas palavras / que permitiriam atravessar a fronteira») e o Amor: «desenho no poema os recantos / dessa casa que habitamos / abro a porta quando menos espero / entro com a sede de quem viu nessa noite / o fogo devorando o sol e a alma / morro e ressuscito / como quem visita um santuário.»

Entre a Morte e o Amor, a viagem da Vida: «a árvore estabelece o eixo e o caminho».

Re-Intermitência

 

 

 

 

 

 

 

 

“Como sua cliente, só tenho a dizer-lhe que você é mas é uma puta de uma advogada”, vocifera, agressiva, a mulher irada na direcção de C. “Sim”, intrometo-me. “As palavras que usou são, efectivamente, correctas. A ordem é que não”, explico. “Ela é, na realidade, a advogada de uma puta”, finalizo.