«As palavras poupadas» de Maria Judite de Carvalho
Alguém no dia 17 de Maio de 1963 comprou este livro e escreveu a tinta azul «de 1962» ao lado das palavras impressas «Prémio Camilo Castelo Branco». Folheio devagar as suas páginas e recordo com emoção o dia (já lá vão uns anitos) em que fiz parte o júri do 1º Prémio Nacional de Crónica instituído pela Associação Portuguesa de Escritores e patrocinada pela Câmara Municipal de Beja. Os outros elementos do júri eram a escritora Maria Regina Louro e o Dr. Cortez (do Instituto do Livro) e o prémio foi entregue me Beja na Biblioteca Pública local.
É um belo livro ainda hoje, passados tantos anos, conforme já na altura Óscar Lopes, Álvaro Salema, João Gaspar Simões e José Palla e Carmo tinham afirmado.
Um exemplo: «Aos amigos… Mas a que amigos? Fora sempre um doente e as crianças e os jovens não gostam de doentes. Pelo menos durante muito tempo. Cansam-se, irritam-se. E são extremamente cruéis. Por isso os detestava a todos. A todos.»
Lembrei-me também da Ana Teresa Pereira, escritora hoje de nome firmado mas que há vinte anos eu ajudei com a minha teimosia a descobrir no prémio Caminho Policial. Claro que não se sabia «quem» era mas foi o texto que me prendeu a atenção. Bati-me por ele e houve mais bolos secos e licores do que o habitual até que por fim lá surgiu o consenso.
As minhas intuições não me costumam deixar ficar mal. Ana Teresa Pereira pertence a uma geração diferente mas a verdade é que são dois casos aos quais estou ligado: num deles outorguei um prémio de consagração, noutro ajudei a descobrir um talento guardado numa gaveta de uma casa num Rua do Funchal.

