Gruppo Musicale Assurd ou A voz da Terra

Uma concertina e três pandeiretas fazem do quadrado negro do palco o redondo branco de uma eira.

A luz do campo na noite da cidade.

A voz das mulheres precipita o resto: faz subir do rés do pó a força da voz da Terra.

Essa mesma Terra que, a exemplo das mulheres, multiplica a vida numa sucessão de sementeiras e colheitas.

Neste palco negro os bailarinos e as vozes das mulheres do grande Sul lembram que a vida nasce de uma apoteose líquida de lágrimas, de água e de sangue.

Chegam de Itália e talvez não saibam que Fernando Pessoa nasceu neste largo de São Carlos, que os sinos da Basílica dos Mártires são os sinos da sua aldeia e que nos seus poemas as ceifeiras cantam, as pobres ceifeiras.

Os rapazes parecem recém-chegados de uma viagem breve ao outro lado do Adriático – uma cidade croata onde o preço da carne é mais baixo.

Depois entram na aldeia e apaixonam-se por aquelas raparigas da planície, levantam-nas no ar como quem segura uma bandeira, um pendão, uma imagem sagrada, todos os dias repetida na grande procissão da vida.

Entre cereais invisíveis, entre gestos de trabalho transparente, entre casamentos sonhados, a única verdade é a do amor. A única certeza é a dum vendaval de dúvidas. A única medida é amar sem medida.

A chuva de aplausos no final não veio apagar a memórias desses sons belos e terríveis, gritados em força, altura, extensão e timbre.

Eles, esses sons inesquecíveis, seguem lado a lado no eléctrico com os passageiros atónitos pela dádiva de uma alegria aqui tão orgulhosamente convocada.

É a voz da Terra para sempre guardada na memória de quem viveu estes momentos de canto e dança, entre uma concertina e três pandeiretas, numa eira recriada num palco negro no largo de São Carlos.

15 thoughts on “Gruppo Musicale Assurd ou A voz da Terra”

  1. Pois é Claudia contei apenas do meu espanto mas a força daquelas vozes de mulher é algo de absolutamente inesquecível. Tenho 58 anos e não é vulgar emocionar-me assim.

  2. Não vale a pena exagerar, como se diz num poema meu sobre as viúvas de Moura «Rua dos sete caminhos / onde nasce uma moral / Todos dormimos sozinhos / mesmo em cama de casal». Mas tu saberás melhor do que eu, cada caso é um caso. E já agora: hoje à noite (22h) elas repetem o espectáculo à porta do S. Carlos. Lá estarei…

  3. Que lindo o seu texto. Como é visceral aquele espectáculo. o cíúme traduzido nos ocrpos, os ocrpos rodopiando com ciúme, os corpos abandonados, os corpos amados, os corpos com dor e com alegria, os corpos a brincar – como são bonitos os corpos a brincar – os ocrpos espontâneos, os diferentes momentos que se sucedem nas noites de verão no largo do teatro de São Carlos. o eléctrico que parece parar para ver o espectáculo. As árvores. O céu. Os candeeiros nos rostos. A luz nos rostos atentos – tão atentos. A luz, quase sempre ténue, no palco. A concertina numa das mãos do sul que acompanha para todo o lado os corpos. As vozes belas do sul de itália, e os corpos a respirarem ao lado das vozes. Enchemo-nos de respirações. Enchemo-nos de corpos leves e cheios. O tom fúnebre, a dado momento. O que aconteceu aos corpos? A procissão num corpo. Um corpo que é um andor. Um corpo que leva o andor. Um corpo sobre outro corpo. sucessão de momentos e de estados. Surpresas constantes como se tudo fosse o fim, mas a metamorfose acontece. E de um silêncio faz-se grito. E os corpos fechados abrem-se de par em par como as janelas do largo do teatro de São Carlos com espectadores caseiros. E os corpos abertos de par em par estão eufóricos. Parecem corpos do Kusturica. Pareço ouvir a banda sonora do filme gato preto, gato branco.

  4. ò Claudia, ó Cláudia, tenho uma boa resposta para ti: aproveita e vai lá hoje às 22 horas em frente ao São Carlos. É grátis e vais ver que não é preciso fumar o que quer que seja para ter o usufruto daqueles momentos. Eu não fumo e como sabes na Grácia antiga não havia tabaco. É uma treta isso de dizerem que o cigarro ajuda a escrever: conheço uma jornalista jovem que fumava muito mas escrevia sempre «Os pupilos de…» quando se referia a uma equipa de futebol. Repetia isso três vezes numa crónica pequena. Hoje continua a fumar e a escrever mal. É uma pobre. Nunca vai sair da cepa torta.

  5. Se estivesse em Lisboa, talvez ponderasse assistir ao espectáculo, mas, estando no Porto, com tantos afazeres e merdices, acho que bem posso adiar as minhas horas de lazer.
    Sabes o que ajuda a escrever? A liberdade. Não é o cigarro ou a ganza ou seja lá o que for. É a pessoa sentir-se livre. Tudo está na cabeça.

  6. Concordo inteiramente com o José do Carmo Francisco, Cláudia. Melhor será aproveitar para ir ver o espectáculo. Sugiro-lhe, por isso, que experimente, tal como o M ou a M, “fumar”, evidentemente a vida -expressão sua, Cláudia. Esclareço-a,no entanto, de que só alguns seres munidos de certos ingredientes têm essa possibilidade. É como o berço. Ou se tem ou se não tem. Na ausência de berço torna-se difícil ser elegante. Procure encontrar esses ingredientes dentro de si, provavelmente fora de si, trabalhá-los diariamente – condição fundamental para perceber e sentir os textos do JCF ou do M.
    Pedro

  7. Que texto belo, jcfrancisco, sobre a aldeia de Pessoa (e a minha) no Largo de S. Carlos, em noite de Verão.
    Jnascimento

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