Arquivo da Categoria: Luis Rainha

Onde é que já vimos isto?

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Israel ameaça destruir 10 edifícios libaneses por cada novo ataque de foguetes.
Há uns anos, duas aldeias checas foram arrasadas como represália por um outro ataque. Mudam-se os tempos, permanecem as vontades de mais sangue.
O que vale é que os jornalistas lusos encontraram um lenitivo para mais este degrau na descida rumo à barbárie: os edifícios assim condenados estão, ao que parece, em “bastiões do Hezbollah”. É por certo uma espécie de “efeito Helena Matos”: se morreu, devia ser terrorista. Mesmo que, por exemplo, apenas tivesse cometido o crime de viajar de carrinha; hoje em dia, tal basta para atrair a fúria justiceira da “única democracia da zona”.

Sem olhos em Gaza

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No Knesset, já há quem peça a “obliteração” de Gaza. Enquanto estes extremistas não passam a maioria, toda a população da Faixa de Gaza vai sendo castigada pelas acções de outros fanáticos. E a vida de milhões permanece sequestrada pelos que julgam só poder contentar os seus usando a violência à mínima oportunidade.
O soldado raptado continua longe de casa; entretanto, seu exército persiste nos raids contra a “infra-estrutura civil do Hamas”; incluindo orfanatos e lojas de brinquedos.
Aos homens de bom-senso, pouco mais resta que continuar a fazer propostas já desesperadas que ninguém ouvirá. E actualizar a contabilidade mais funesta.

Decomposição artística

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A peça de Damien Hirst que há pouco se aproximou do recorde de preço para obras de um artista vivo está a apodrecer. O tubarão que habita The physical impossibility of death in the mind of someone living, encomendada em 91 pelo publicitário Charles Saatchi, apresenta claros sinais de decomposição. Pouco atraído pela perspectiva de poder ver o espectáculo de 9 milhões de euros a desfazer-se na sua sala de estar, o infeliz proprietário está a tratar, com o artista, de substituir o inquilino da precária obra por um espécimen mais resistente.

Como é simples o mundo de quem vive entre estereótipos…

Luciano Amaral continua a partilhar connosco a sua singela visão do Mundo. Para ele, qualquer um que não partilhe a sua sageza, além de por certo pertencer à Esquerda, essa infame turba, é um néscio incapaz de largar «o keffieh (sabem, é o lenço palestiniano) e a boina do Che, para além dos cartazes habituais: “Bush=Hitler”, “Bush Go Home”, “Terrorista Mundial n.º 1”, “Assassino em Massa” e restantes mimos da ordem»; um dos «guevaristas e racistas» que poluem as ruas europeias a cada visita de George Bush.
Este intelecto ponderoso explica-nos hoje que antes de se fechar a vergonha de Guantánamo será «preciso saber o que fazer com aqueles 500 prisioneiros, que ninguém quer propriamente ver por aí à solta.» Ou seja, mesmo sem julgamentos, culpa formada ou grande informação sobre eles, o bom do Luciano já os sabe armados com os chifres do demo. E, para a sua mente iluminada, haveria uma saída bem desejável: «porque não deixar a Europa tratar do assunto?» Mas claro: os EUA que os detenham e sujeitem sabe lá Deus a quê, em flagrante fuga a todas as disposições legais americanas e internacionais; agora, o mais lógico seria a Europa tomar conta da ocorrência e limpar o lixo. Claro.
A teoria geral deste colunista é que mais vale fazer qualquer coisa, mesmo que às cegas e à bruta, do que investir em maltosa como a da ONU, ineficaz no «Ruanda, no Congo, no Darfur ou em Timor.» Como se estivéssemos na presença de dois blocos antagónicos e mutuamente exclusivos: os EUA e as Nações Unidas. Como se os primeiros não fizessem também parte dos problemas (e das parcas soluções) da ONU.
A derradeira frase deste texto é uma definição lapidar deste pequeno mundo a preto-e-branco: «É fácil e sempre dispensa de se pensar e fazer qualquer coisa.»

PS: nem de propósito. Hoje mesmo, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos tratou de demonstrar qual será o caminho para Guantánamo: a sujeição às leis americanas e às garantias constitucionais, escapando aos inflacionados e auto-atribuídos superpoderes de Bush II.

“Raptados pelas emoções”

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Os jornais israelitas e de todo o mundo continuam a encher-se com os passos frenéticos da última corrida para o abismo no Médio Oriente: agora, é a Síria a visada, com caças israelitas a sobrevoar o presidente Assad. Em Gaza já não há electricidade e várias pontes foram bombardeadas pelos aviões israelitas. Até onde irá chegar mais esta escalada insana, ninguém pode calcular.
Mas ainda se fazem ouvir por ali ouvir mais do que gritos de guerra e pedidos de sangue. E talvez ainda haja tempo para que alguém repare na justeza deste texto do colunista Akiva Eldar; ali são relembradas palavras de um antigo vice-primeiro ministro de Israel, há pouco mais de um ano: “estamos cansados de lutar, estamos cansados de ganhar, estamos cansados de derrotar os nossos inimigos. Queremos ser capazes de viver com relações totalmente diferentes com os nossos inimigos. Queremos que eles sejam nossos amigos, nossos parceiros, nossos vizinhos”.
Agora, esse antigo “vice” já é primeiro ministro e tratou de esquecer a promessa de bom senso e o cansaço do sangue: “todos na Autoridade Palestiniana estão entre os responsáveis e nós não lhes daremos qualquer imunidade”; “o mundo está farto dos palestinianos. Até agora, as nossas respostas têm sido comedidas. Isso acabou.”
O que acabou mesmo foi a promessa de acalmia na zona. Emboscada por extremistas, executada pelos mísseis de outros extremistas. E claro que não é por acaso que o ataque aos soldados israelitas que serviu de pretexto para a presente crise aconteceu justamente quando se discutia o “Documento dos Prisioneiros” (que aliás já fora recusado pelos mais radicais).
Como bem pergunta Eldar: “será possível que um estadista sábio mude a sua doutrina por causa de um bando de lançadores de foguetes? Será imaginável que um líder esqueça a sua visão por causa de um falhanço militar que custou as preciosas vidas de dois soldados e a captura do seu colega? Ainda não aprendemos que, na relação entre nós e os nossos vizinhos, a força é o problema, não a solução?”
A resposta, infelizmente, é uma só: quando os violentos se sentem com poder para esmagar os seus vizinhos, tratarão de o fazer à mínima oportunidade. Quer sejam loucos a enviar os filhos dos outros para o martírio ou estadistas que já souberam anunciar sonhos de paz quando tal lhes convinha. Todos se deixam raptar pela febre da guerra com gosto. E ai de quem seja apanhado no meio.

Crítica, tomates e outros inchaços

Desta vez, Augusto Manuel Seabra colocou o dedo na ferida. E ousou ofender, imaginem, a vaca sagrada EPC. Sei que o “Público” está offline para não-pagantes, mas o Google dá uma ajuda (não digam a ninguém como, por favor).
E ainda há uma pungente nota de rodapé neste drama em que a expressão “débil mental” aparentemente chegou mesmo às impressoras: a mini-polémica com a “Bomba Inteligente”. Se querem uma actualização da história da rã que inchou sem mesura porque se achava fadada a boi, não percam estas pérolas: «o parágrafo de Augusto M. Seabra nada mais é do que um exemplo de cobardia (…) O que Seabra não percebe é a qualidade de leitura nos blogues, nomeadamente de alguns, como é o caso deste», «Quanto ao comentário de desconhecer se sou Bomba, poupe-me a essa conversa pobre de blogue anónimo com três visitas diárias». Como exemplo de solipsimo blogosférico incapaz de sonhar que existe alguém sem um blogroll sempre à mão, é difícil imaginar melhor.
Polémicas menores à parte, foi para mim agradável constatar que o bom Augusto M. Seabra os tem bem no sítio. E nós temos homem.

Bolhinhas e racismo

O rapper e produtor Jay-Z lançou há dias uma cruzada contra o champagne Cristal. O motivo? O presidente da casa produtora teria afirmado que a elevação do seu produto à categoria de ícone do hip-hop era “atenção indesejada”. Jay-Z reagiu ao ultraje berrando “racismo!” e apelando ao boicote: “I view his comments as racist and will no longer support any of his products through any of my various brands, including the 40/40 Club, nor in my personal life”.
Que ninguém gostaria de se ver associado à cultura “bling-bling”, com a sua hedionda acumulação de seios extravasantes, veludos foleiros, Rolls Royces cor-de-rosa e jóias a rodos, parece-me evidente. Que tal seria verdade mesmo se a malta em questão fosse composta por metaleiros loirinhos do Alabama também tem ar de coisa óbvia. E o pior vem quando se lê que a expressão “unwanted attention” nem sequer foi proferida pelo gestor da casa Roederer. Mas o boicote continua de vento em popa. Já devemos ter chegado à silly season.
Ah, é verdade: cada garrafita de Cristal custava, nos bares de Jay-Z, entre 450 e 600 dólares.

O seu a sua dona

Anda por aí meio mundo a tentar escolher a Grande Figura do jogo com a Holanda e poucos procuram no lugar certo. Não falo do árbitro que arruinou o que poderia ser um jogo excelente, nem da inenarrável cabeçada de Figo, nem na falta de desportivismo exibida nas fitas, no teatro e no anti-jogo descarado (não que tenha sido a nossa equipa a única a pecar).
Segundo opiniões abalizadas, é sim hora de entregar os louros devidos à Nossa Senhora de Caravaggio. Já o li em vários sítios. Deve ser verdade.
Mas fico sem perceber como é que a pobre senhora, com o fraco ar que ostenta, pode ter ajudado no que quer que fosse. Não percebo mesmo grande coisa de futebol.

Para onde quer que vá, o bravo português leva consigo as suas atiladas competências técnicas (2)

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Atrás de uma notícia do Público, segui para o Luxemburgo, onde o mundial de futebol está a dar que falar entre a nossa comunidade emigrante, e não só pelo desempenho da nossa selecção. Em dois jornais luxemburgueses, apareceu gente muito incomodada com a omnipresença de bandeiras portuguesas — por vezes com o tamanho “de lençóis” — nas ruas e janelas do Luxemburgo. Isto para nem mencionar as turbas apinhadas em carros igualmente enfeiados pelos nossos trapos verde-rubros e as hordas de ébrios cambaleantes mas vitoriosos. Ainda para mais, este pessoal desrespeita uma lei que impõe a presença do estandarte luxemburguês a acompanhar bandeiras alienígenas.
Claro que um comportamento intolerável deste jaez só podia vir de gente mal integrada e quase sub-humana. E a culpa nem é do pobre desporto: “O futebol devia ser pura felicidade. Temos de recusar deixar que ele se transforme num elemento de segregacionista”. É que esta maltosa só se civilizará “Quando eles estiverem realmente integrados no nosso país, quando os seus televisores não ficarem perpetuamente ligados à RTPi”. Claro que não tardou até surgir uma boa alma a recordar a taxa de insucesso escolar “horrivelmente elevada dos estrangeiros”. Tudo no meio de acusações de “patriotismo malsão” e de “chauvinismo”, prontamente contra-atacadas por denúncias de racismo e xenofobia.
É linda a forma como o desporto une os povos.

Lepidópteros de Verão

Dois dos mais notórios trânsfugas do Aspirina B mancomunaram-se com mais uns quantos elementos de má nota. O resultado só vai durar 60 dias, dizem eles. Assim sendo, o Caderno de Verão é apenas o feio (que fizeram vocês ao pobre template?) casulo de onde vai em breve emergir uma linda e original borboleta. Eu já lá fui deixar alguns comentários insultuosos; por que esperam vocês?

Falta de auto-estima? Aonde?

O “Record” de ontem resumia a nossa vitória contra o Irão com qualquer coisa no estilo de “Até já damos baile!” Isto depois de um jogo medíocre contra um adversário que patentemente não tinha ideia do que fazer quando se via com a bola nos pés. Falando de uma vitória que se solidificou com um penalty ingénuo cometido segundos depois de uma jogada em que só a inépcia terminal de um avançado iraniano evitou o empate.
Hoje, na TSF, ouvi o moderador da famosa “Bancada Central” entrevistar um comerciante turco, adepto do Sporting (!), colocando as suas questões num Inglês macarrónico. A fechar a peça, o jornalista não resistiu a comentar com condescendência o “Inglês deficiente” do entrevistado.
Fico sem saber se estes episódios autistas são um sintoma de doença colectiva ou apenas tontice banal. Não esqueçam que é a esta malta da imprensa que cabe dar voz ao sentir da alma lusa, amplificar as nossas idiossincrasias e dar antena aos estados de espírito que nos vão dominando. O que explica muita coisa.

Vender saúde

Os bons frades fabricam e vendem o milagreiro tónico: uma mistura de aloé vera com mel e sabe lá Deus mais o quê. Eles não são avaros na promessa: a tal planta — que hoje em dia já infestou detergentes para a roupa, cosméticos, iogurtes, sabonetes, etc. — parece ter “poderes curativos” capazes de erradicar o cancro, pelo menos numa “grande percentagem de casos”.
Passei por lá em plena hora de ponta. Casais, velhos sozinhos, jovens de olhar furtivo; um corrupio de gente a sair dali com as preciosas garrafas. Quase todos corriam, sabe-se lá contra que adversários temíveis. Todos agarravam os seus sacos de plástico com ambas as mãos. Estão agora, mais do que nunca, lembrados de como a esperança é frágil.

“Vista” com banda sonora

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Robert Fripp, o enorme compositor e guitarrista por detrás dos King Crimson e de milhentas outras coisas louváveis, gravou há pouco alguns temas que em breve estarão na sua secretária: o ambiente sonoro do novo sistema operativo da Microsoft, o “Windows Vista”. Assim, é certo que aquele terá pelo menos uma característica aproveitável que não foi copiada dos Macintosh. Aqui, podem encontrar um fascinante documentário sobre a excursão de Fripp ao “campus” de Redmond.

Já nem a Holanda é o que era?

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Uma visita de 15 dias, há um ror de anos, e algumas conversas com o nosso Fernando Venâncio deixaram-me com uma excelente impressão da Holanda e dos holandeses. Malta afável, cosmopolita, comunicativa e hospitaleira. Assim uma espécie de portugueses, mas em bom (e sem fado, para melhorar as coisas).
Ontem, ao almoçar com um amigo que também é por lá professor, chegou a desilusão. Descobri que também os holandeses têm a sua “bible belt”; áreas pejadas de gente que se agarra ao Santo Livro em busca de instruções detalhadas para cada aspecto da sua vida quotidiana. Uma região sobretudo rural, onde até poderemos topar, segundo este meu amigo, sinais no meio dos campos relembrando aos passantes que por ali é proibido praguejar.
Proibido; isso mesmo. Vilas existem na Holanda que aprovaram regulamentos a interditar o uso de objurgações com linguagem menos apropriada e, claro está, a invocação a destempo do nome do Senhor. Mas um criminoso apanhado em flagrante com a boca suja só será multado se se provar que não estava a exercer o seu direito de expressão, garantido pela constituição. Presumo que ninguém tenha sido multado até hoje…
Quem quiser importar este salutar tendência, fica aqui com o contacto do que parece (não entendo mais que duas ou três palavras em todo o site) ser uma associação dedicada à limpeza da oralidade dos cidadãos holandeses.

O “Choque Tecnológico”, versão de 1878

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Em Setembro de 1878, estreava-se a iluminação pública em Portugal, decorando a festa de anos do Príncipe D. Carlos. Meses depois, Sua Majestade oferecia ao Município de Lisboa os 6 inovadores candeeiros que importara de Paris. O Chiado iluminava assim as suas noites escuras quase ao mesmo tempo que a imperial Londres, com as novíssimas “velas Jablochkoff”; lâmpadas de arco voltaico com eléctrodos de carbono, alimentadas a corrente alterna.
Então como hoje, os senhores responsáveis esperavam que a invocação do santo nome de uma ou duas Entidades Modernas pudesse transformar de fio a pavio este triste pedaço de pântano disfarçado de país. Agora, são as miríficas “Tecnologias da Informação”; na altura, foi a Iluminação Pública.
A chegada do sumptuoso e bem-amado Progresso foi aplaudida da seguinte forma, por pena que não consigo identificar, em versos publicados no DN de 2 de Novembro do mesmo ano:

“Agora, sim, povo amado, / Que já tens um regabofe, / Vindo à noite no Chiado/ Ver a luz do Jablochkoff; / Luz, muita luz, luz imensa, / É da ventura o princípio, / Em ti, por fim alguém pensa, / Já tem luz o município./ Vai esconder-se o morcego,/ Vai sumir-se a trefa coruja, / Dos canos espero cedo/ Ver fugir a rata suja; / A luz descerá aos antros / Para as trevas dissipar,/ Dos pobres secando os prantos, / Nas covas sem luz, sem ar. / Lysia vai ter novas molas,/ Vão rasgar-se os boulevards, / Abrir-se asylos, escolas,/ Passeios, largos, bazares;/ Vai haver docas no Tejo, / Museus de estudo e recreio, / De gosos vasto cortejo, / Praças com repuxo ao meio; / Vai começar nova era,/ Vai surgir um tempo novo, / E há no bem que nele impera / Casas baratas p’ra o povo. / Até um homem escuro/ Disse com o ar mais franco : / – Esta luz traz bom futuro / Porque faz do preto branco. / E as românticas donzelas / Dizem amantes invalidas, / Com a luz parecem mais belas / Porque se mostram mais pálidas. / Gosa pois, ò povo amado, / Gosa o grátis regabofe, / vinde pasmar no Chiado/ Ante a luz do Jablochkoff.”

Como se vê, pouco mudámos em 128 anos. Continuamos nas mãos de autoridades convictas de que basta oferecer uns pós mágicos de Progresso ao indígena para que maravilhas mil aconteçam, sem a maçada de tratar primeiro do essencial. E já então atingíamos a excelência… no escárnio corrosivo.
Algo se salva desta história: a “vela” de Paul Jablochkoff veio a sofrer um melhoramento crucial quando a sua substituição se tornou automática, dispensando a intervenção contínua de serventes armados de escadotes. Foi um professor do liceu de Santarém, João Rodrigues Ribeiro, o inventor do decisivo “acendedor automático”.
De qualquer forma, a experiência do Chiado foi de curta vida: assustada pelos custos de manutenção do sistema, a Câmara Municipal logo tratou de o desligar.
Este desenlace parece-vos familiar?