Arquivo da Categoria: Luis Rainha

Paris ainda está a arder?

Os motins em França podem bem ter sido coisa simples. Obra de miúdos divorciados da realidade por horas demais frente à Xbox. Quem sabe? Já há décadas foram armadas experiências nas quais alguns voluntários demoliam automóveis à marretada numa rua penumbrosa; não tardava até que inocentes transeuntes, atraídos pelo clamor da destruição e pela aparente impunidade, desatassem também a escaqueirar as pobres viaturas. A alcateia não precisa de fome nem de instinto; por vezes morde apenas porque sim. Quem sabe?
Ou talvez seja mesmo verdade que outro estudo, bem mais recente, tenha revelado que em 100 respostas a anúncios de emprego, 14 franceses com nomes árabes conseguem entrevistas, enquanto que citoyens de nomes puros, mas com as mesmíssimas qualificações, despertam o interesse de 75 empregadores.
Não vos parece rastilho suficiente para todos os ódios, para incêndios mil? Claro que não. A resposta não está no racismo encapotado, mas sim na inadmissível cobardia, no suicida laxismo de quem recebe e acarinha malta apenas interessada em drogas, Islão e subsídios de desemprego: o terrível “multiculturalismo” é que tem mesmo a culpa. O mal não está em recusarem-lhes emprego; está em não os obrigarem a uma integração perfeita — escondendo, se preciso for, apelidos exóticos e peles pouco francesas (seguindo a prudente receita de um emigrante português, entrevistado há dias pela SIC, que não permitiu que a filha meio argelina herdasse qualquer nome da sua mãe).
Olhem que há gente que acredita nisto. Talvez a mesma gente que aplaude como profeta um analista que ainda há um ano nos garantia que “à sombra do multiculturalismo, discute-se seriamente hoje em dia em França a possibilidade de ser introduzida no ordenamento jurídico nacional a lapidação para certos crimes, embora restrita à comunidade muçulmana”. A atmosfera em Urano aparenta ser algo intoxicante. Ou talvez seja apenas mais um caso de dedicação excessiva a jogos de computador, daqueles que nos deixam incapazes de distinguir ficção e realidade…

Volta a velha rotina dos Sábados…

Pego no “Expresso” e a namorada irrompe furibunda pela sala adentro:
— Mas já estás a ler o jornal? E o jantar, quem é que o faz?
Resposta honesta e apaziguadora:
— Não o estou a ler, amor meu. Estou só a espreitar as partes mais cómicas à procura de inspiração para um postzito. E sabes bem o jeito que o Espada e o Saraiva dão…

Eça agora…

O Jorge Palinhos, num dos derradeiros posts do BdE, aponta certeiro às meninges sempre febris da malta que gasta os seus dias a maldizer a “choldra” que é Portugal. Depois de inventariar as litanias preferidas das lusas carpideiras, conclui: “criticar sem ideias ou convicções ou acções, pelo simples fundamento de que Portugal não é a França e Lisboa não é Paris, não é colocar-se acima dos burgessos ou apresentar-se como uma elite aristocrática. É apenas ser um burgesso que cita Eça.”
É impossível não concordar. Mas resta um curioso e desconcertante paradoxo: o fulano que melhor cultivou uma certa postura hiper-crítica e luso-céptica — e que até citava Eça como ninguém — veio, apesar de tudo, a transformar-se num verdadeiro tesouro nacional. É hoje um farol que ilumina os caminhos brumosos do rarefeito orgulho pátrio que por aí ainda ande perdido.
Falo, claro está, do próprio Eça.

Um Discurso de Inauguração falhado


É fado repetido: quantos mais planos cuidadosos congemino, mais doloroso se revela o trambolhão no momento decisivo. Para hoje, tinha planeado dois ou três posts magistrais, daqueles em que a economia de recursos se une ao fulgor estilístico para deixar a malta leitora muda de assombro e prenhe de iluminação espiritual (não que alguma vez tenha conseguido produzir semelhantes teofanias, mas sonhar não custa…). Pois. A semana começou logo de forma aziaga: uma intoxicação atirou com metade do familiar agregado ao tapete. E, depois de febres, hospital e tormentos vários (que incluíram ficar fechado no meio da rua em roupão, depois de receber um estafeta que os chupistas aqui do escritório me enviaram com trabalho, sem qualquer consideração pela minha enfermidade), os pendentes laborais amontoaram-se de forma terminal. Concluindo: está aí o dia da Grande Inauguração e não tenho nada que se mostre. Népia.
Assim sendo, vou ter de adaptar alguns argumentos que enderecei ao Valupi para tentar aquietar as suas naturais apreensões. Ele por certo que me desculpará a inconfidência; e terá tempo para revelar o seu lado desta estranha conspiração…

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O Sumiço

Fico eu sem expressões que pelo menos suspirem por reproduzir no espírito do bondoso leitor o meu desgosto com este momento: o nosso BdE finou-se. De modo bruto e definitivo, no more posts, no more comments; em frente, somente o zero onde se reduzem em pó os frutos de gloriosos e longos meses. Infindos esforços, minutos em multitude: primeiro gloriosos, hoje só devolutos.
E fico eu mudo por virtude de dispositivo conhecido: o homem submerge-se em criteriosos desígnios e Deus, no fim, impõe o seu definitivo direito de dispor desses pobres sonhos de poder. O efeito? Micróbios teimosos, clientes infelizes, HTML rebelde… todos unidos no grupo de escolhos em pleno percurso do meu Norte predilecto.
Dos mil e um posts previstos e queridos, o que pode resistir? Elejo o custoso repto do nosso ZM: um momento de respeitoso preito pelo glorioso OuLiPo. Efemérides existem que impõem respeito e honesto suor de esforço.
Júbilo sim; o desespero é que é proibido. Deste termo, muito promete sobreviver: de novo nos veremos por esses novelos de blogues e outros sorvedouros do nosso tempo livre. Disso fico certo.

Em simultâneo com o hoje moribundo BdE, ficou aqui um minúsculo lipograma para comemorar o aniversário do OuLiPo de Perec e de muitos outros génios da palavra constrangida. Tem o seu quê de justiça poética que o meu primeiro post aqui seja o meu derradeiro na minha antiga casa, agora condenada à demolição…