Já nem a Holanda é o que era?

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Uma visita de 15 dias, há um ror de anos, e algumas conversas com o nosso Fernando Venâncio deixaram-me com uma excelente impressão da Holanda e dos holandeses. Malta afável, cosmopolita, comunicativa e hospitaleira. Assim uma espécie de portugueses, mas em bom (e sem fado, para melhorar as coisas).
Ontem, ao almoçar com um amigo que também é por lá professor, chegou a desilusão. Descobri que também os holandeses têm a sua “bible belt”; áreas pejadas de gente que se agarra ao Santo Livro em busca de instruções detalhadas para cada aspecto da sua vida quotidiana. Uma região sobretudo rural, onde até poderemos topar, segundo este meu amigo, sinais no meio dos campos relembrando aos passantes que por ali é proibido praguejar.
Proibido; isso mesmo. Vilas existem na Holanda que aprovaram regulamentos a interditar o uso de objurgações com linguagem menos apropriada e, claro está, a invocação a destempo do nome do Senhor. Mas um criminoso apanhado em flagrante com a boca suja só será multado se se provar que não estava a exercer o seu direito de expressão, garantido pela constituição. Presumo que ninguém tenha sido multado até hoje…
Quem quiser importar este salutar tendência, fica aqui com o contacto do que parece (não entendo mais que duas ou três palavras em todo o site) ser uma associação dedicada à limpeza da oralidade dos cidadãos holandeses.

10 thoughts on “Já nem a Holanda é o que era?”

  1. Luís,

    De repente, tive um profundo estranhamento. Não estava num site holandês? Mas depois foi pior: «PROIBIDO PRAGUEJAR», lia-se, de facto. Aonde tinha eu ido parar?

    Pois é. O ‘Bible belt’ faz parte do folclore risonho holandês. Ninguém os toma a sério, a esses milhares de cidadãos docemente fundamentalistas protestantes, numa zona interior do país. As mulheres já podem votar (o que foi uma conquista recente), mas não podem ser… votadas. Sim, eles têm um partido político, com assento no parlamento. (Pela perfeita proporcionalidade, cada 30.000 votantes, em qualquer lugar do país, dá um deputado. Nunca há, nem haverá, por este andar, um partido com maioria absoluta). Esse partido fundamentalista cristão não tem, pois, mulheres deputadas, ou vereadoras, ou senhoras na assembleia municipal.

  2. Fernando, mas eu suspeito (por já ter ouvido dizer) que a Holanda não é, feliz ou infelizmente, o “paraíso” do liberalismo de costumes que alguns turistas esperam encontrar … corrija-me se eu estiver a meter água.

  3. Fernando, falamos de umas zonas na Friesland? Uma área onde as correntes religiosas locais defendem que não se está neste mundo para a diversão? Em que mesmo as festas de casamento devem terminar cedo porque são… divertidas?

    Luís Oliveira, a Holanda continua a ser o país do liberalismo, mas há uma coisa que as pessoas tendem a confundir: só porque os holandeses acreditam nele não significam que o pratiquem. Lá porque liberalizam sexo, casamentos homossexuais, etc, não significa que tenham obrigatoriamente de ir a correr para a Red Light em busca de um parceiro do mesmo sexo para um casamentosinho.

    É mais na lógica do: pagas impostos? Então está tudo bem. Ao resto não ligam muito. Depois cada um faz o que bem entender, muito frequentemente até de forma bem conservadora…

  4. Donde:
    Os holandeses são, em geral e pelos vistos, uns tipos civilizados! O seu quê de maçadores, mas cidadãos!

  5. Eu quando falo em em liberalismo de costumes não falo necessáriamente em “ir às meninas”. Eu acho que “ir às meninas” do ponto de vista do cliente ou do “dono” das meninas não tem nada de liberal, antes pelo contrário, vive-se frequentemente no limiar da violação.

    Mas nem só de sexo se fala quando se fala de liberalismo de costumes, fala-se por exemplo também de drogas.

    A questão que me intriga é se o Holandês médio por exemplo fuma o seu charrinho todos os dias. Se o Holandês A, B ou C na versão individual fumam ou não o seu charrinho todos os dias isso a mim já não me interessa nada. Eu tenho amigos que já mais fumaram um charro, e também já tive amigos que fumavam vários charros por dia.

  6. de qualquer das forma um povo que conquista território ao mar e vive de janelas escancaradas e sem cortinas impoem respeito. quem é que por cá se atrevia a viver assim, com essa leveza toda?

  7. João André,

    As coisas não se passam na Friesland (que nós chamamos Frísia, terra dos frisões, com língua e cultura bem mais antigas do que a ‘holandesa’, e que influenciaram o que depois foram a língua e a cultura inglesas…), passam-se, sim, na região do Veluwe, região linda, que talvez conheças, de urzeiras e largos horizontes. Pois é, a vida não foi feita para nos divertirmos. Por isso eles, até há pouco, não tinham televisão nem mexiam um dedo ao domingo. Agora já há tv, que lhes serve para cantarem hinos e falarem de alegrias interiores.

    Luís Oliveira,

    Acerca do liberalismo de costumes, o João André já deu umas boas pistas. Como essa de, se pagares impostos, te deixarem livre de fazeres o que te der na tola, ou noutros sítios. Mas é sobretudo uma sociedade organizada de cima a baixo, e para isso é preciso cálculo, reserva, cautelas. O que faz dela uma sociedade conservadora, nada revolucionária, nada descabelada, como a portuguesa foi (como mostrou poder ser) durante alguns tempos. E, para que eu seja conservador, para que eu possa continuar tranquilamente a ser conservador, tenho que tolerar-te, sejas tu como fores. É uma alta sabedoria de vida.

  8. “para que eu seja conservador, para que eu possa continuar tranquilamente a ser conservador, tenho que tolerar-te, sejas tu como fores”

    É um excelente enunciado, mais do que um enunciado pode ser um princípio de vida. Eu já dei por mim foi várias vezes a pensar que é mais fácil de de enunciar do que implementar.

  9. Luís, é um excelente enunciado que sempre vais sendo implementado por estes lados. Quanto aos charros há a curiosidade de o cheiro estar menos presente nas ruas que aquilo que se passa em Portugal. A menos que passemos ao lado de uma coffee shop (e sempre vão sendo bastantes) quando alguém abre a porta. Em todo o caso, pela minha experiência, são essencialmente estrangeiros a fumá-los. Claro que isto pouco quer dizer: vivo numa cidade universitária (população estrangeira jovem elevada, portanto) e fronteiriça à Alemanha (com muitas “excursões” dos jovens alemães), pelo que a amostra poderá ser fraquinha.

    Fernando, de Veluwe conheço realmente pouco, mas já por lá passei umas vezes (mesmo não me detendo muito) e realmente sempre vai fugindo um pouco às paisagens aborrecidas holandesas.

    Quanto aos palavrões, apenas a curiosidade de a língua holandesa, do que dela conheço, ser relativamente fraquinha nesse campo. A maior parte dos meus colegas considera o God Verdomme! forte e usa o inglês para muitas expressões mais… vernaculares. E quando se quer insultar alguém, os holandeses parecem gostar de adicionar maldições relacionadas com a doença, embora a mim me pareça algo fraquinho dizer “Apanha cólera!”…

  10. João André:

    Estou a ver que tens que ir a Londres, mais precisamente a Camden Town. Se precisares de contactos avisa.

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