O “Choque Tecnológico”, versão de 1878

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Em Setembro de 1878, estreava-se a iluminação pública em Portugal, decorando a festa de anos do Príncipe D. Carlos. Meses depois, Sua Majestade oferecia ao Município de Lisboa os 6 inovadores candeeiros que importara de Paris. O Chiado iluminava assim as suas noites escuras quase ao mesmo tempo que a imperial Londres, com as novíssimas “velas Jablochkoff”; lâmpadas de arco voltaico com eléctrodos de carbono, alimentadas a corrente alterna.
Então como hoje, os senhores responsáveis esperavam que a invocação do santo nome de uma ou duas Entidades Modernas pudesse transformar de fio a pavio este triste pedaço de pântano disfarçado de país. Agora, são as miríficas “Tecnologias da Informação”; na altura, foi a Iluminação Pública.
A chegada do sumptuoso e bem-amado Progresso foi aplaudida da seguinte forma, por pena que não consigo identificar, em versos publicados no DN de 2 de Novembro do mesmo ano:

“Agora, sim, povo amado, / Que já tens um regabofe, / Vindo à noite no Chiado/ Ver a luz do Jablochkoff; / Luz, muita luz, luz imensa, / É da ventura o princípio, / Em ti, por fim alguém pensa, / Já tem luz o município./ Vai esconder-se o morcego,/ Vai sumir-se a trefa coruja, / Dos canos espero cedo/ Ver fugir a rata suja; / A luz descerá aos antros / Para as trevas dissipar,/ Dos pobres secando os prantos, / Nas covas sem luz, sem ar. / Lysia vai ter novas molas,/ Vão rasgar-se os boulevards, / Abrir-se asylos, escolas,/ Passeios, largos, bazares;/ Vai haver docas no Tejo, / Museus de estudo e recreio, / De gosos vasto cortejo, / Praças com repuxo ao meio; / Vai começar nova era,/ Vai surgir um tempo novo, / E há no bem que nele impera / Casas baratas p’ra o povo. / Até um homem escuro/ Disse com o ar mais franco : / – Esta luz traz bom futuro / Porque faz do preto branco. / E as românticas donzelas / Dizem amantes invalidas, / Com a luz parecem mais belas / Porque se mostram mais pálidas. / Gosa pois, ò povo amado, / Gosa o grátis regabofe, / vinde pasmar no Chiado/ Ante a luz do Jablochkoff.”

Como se vê, pouco mudámos em 128 anos. Continuamos nas mãos de autoridades convictas de que basta oferecer uns pós mágicos de Progresso ao indígena para que maravilhas mil aconteçam, sem a maçada de tratar primeiro do essencial. E já então atingíamos a excelência… no escárnio corrosivo.
Algo se salva desta história: a “vela” de Paul Jablochkoff veio a sofrer um melhoramento crucial quando a sua substituição se tornou automática, dispensando a intervenção contínua de serventes armados de escadotes. Foi um professor do liceu de Santarém, João Rodrigues Ribeiro, o inventor do decisivo “acendedor automático”.
De qualquer forma, a experiência do Chiado foi de curta vida: assustada pelos custos de manutenção do sistema, a Câmara Municipal logo tratou de o desligar.
Este desenlace parece-vos familiar?

27 thoughts on “O “Choque Tecnológico”, versão de 1878”

  1. muitissímo familiar: tal e qual os hospitais de provincía muito bem apatrecahdos e que nunca usaram os caros aparelhos porque não dispunham de médicos capazes de os usar, e as maternidades que se apatrecahram e agora se fecham em vez de se contratarem médicos e enfermeiros, tal e qual os famosos f16 que nunca sairam dos caixotes e que agora se vão, talvez , vender perdendo dinheiro. deve haver gente a safar-se muito bem com estas e outra negociatas, mas o povo ( funcionários públicos incluidos, que não passam, na sua maioria de escravos píblicos) é que não se safa de certeza…” a vaca é magra mas tem muitas e boas tetas…

  2. que saudades do de Comba Dão. no tempo desse as coisas não seriam boas, mas não eram, de certeza, tão más e feitas com tanta desfaçatez. mas o povo é burro e cada vez lhe dão mais futebol, estádios ( grande negócio) e menos cultura – um povo burro é mais fácil de enganar.Tão fácil que até envergonha.é como roubar um doce a uma criança…vocês que espiam estes sitíos, não têm vergonha?

  3. O p´ogresso é imparável. Se há coisas feitas, nós compramos!
    Basta sair à rua e ver a quantidade de estrelinhas, argolinhas e duplos v a ornamentar na língua alemã, o nosso parque automóvel circulante.
    Basta passar em qualquer montra eléctrica e ver as pantalhas planas e de grande superfície para ver os jogos.

    Passando para a alta roda:

    Que significam os projectos de TGV e de aeroportos excendetários e as Expos e demais Centros Culturais para abrigar Berardos?

    Parolice. Dantes, como agora.

    PS. Até gosto da estético do CCB. O que me parece é que custou demais para o que serve.

  4. Realmente, josé, que estupidez esta de comprar coisas feitas. Uma pessoa sai à rua e só vê carros alemães, ainda para mais já feitos. É lamentável, mas não se vê ninguém a construir o seu próprio veículo. E a quantidade de montras eléctricas que por aí pululam? Que raio de sociedade, a nossa. Que porcaria, o prograsso. Esse josé deve ser de josé fernandes, não? Há cada bruto…

  5. F. Com essa perpicácia analítica, será caso para perguntar:

    Está por aí alguém?
    Referindo-se ao processador que usa para pensar, claro…

  6. A Aurora tem saudades de quê, do Tarrafal, do Aljube, de Caxias de Peniche, da tortura, do assasinato de quem se opunha ao ditador, da Pide, da Censura, do Maltez e dos seus policias cães e dos seus cães policias.

    É que convém sempre dizer do que se tem saudades.

    Eles comem tudo e não deixam nada, parece que já esqueceu, estes versos do inesquecivel José Afonso

  7. Eu acho que assim não vale. Luís compara o que não pode sofrer comparação, qualquer que seja a perspectiva ideológica.
    Uma coisa é o gadget de dois candeeiros eléctricos que SM importou de Paris, para iluminar no jardim uma festa; outra coisa são opções e decisões tomadas por qualquer governo, tentando atingir um objectivo geral.
    Os candeeiros foram parar ao Chiado, não porque fossem um ensaio de progresso colectivo. Mas porque SM os ofereceu, querendo desfazer-se deles. Eram fruto dum capricho deletério dum senhor, não um passo de progresso. Aqui, estavam nesse tempo tecnologicamente desfasados, por isso apagaram-se.
    É esse capricho real que o obscuro vate escavaca na redondilha. E só me admira que não apareça nela um par de caralhadas, que vinham a propósito.
    De facto o país ainda é um pântano. Quem sabe se irremediável. Mas em 128 anos alguma coisa mudou nele. E o progresso tecnológico, uma economia algo séria, administração pública um poucochinho racional e uma cultura geral de alguma cidadania são, como sabe, o mais difícil de fazer. Sobretudo num país que passou séculos perdido com quimeras, a viver de equívocos históricos, alienado de si mesmo, à procura do portão dum 5º império mítico. Houve figurões que se governaram com isso, mas o país desgovernou-se.
    O governo actual, que eu não elegi, parece estar a fazer o que sabe fazer, em vários sectores. Isso já não é pouco, se olharmos ao que se tem passado.
    O meu cepticismo é certamente maior e mais dorido que o seu. Mas baralhar os dados não vale, Luís. Com todo o respeito.

  8. Aurora:
    No tempo do seu extremado senhor de Santa Comba, toda a gente sabia que o povo era burro. De resto, essa era a única função que tinha no regime. Ser burro, trapaceiro, irresponsável, calão.
    Hoje sabe-se mais alguma coisa. Sabe-se que tais atributos não são exclusivos da plebe. Sabe-se que são também ‘virtudes’ dos políticos, dos doutores, dos empresários, dos senhores. De agora e daquele tempo.
    Mas sabe-se, porque há democracia e liberdade de informação. Se não se soubesse, o mundo continuava em sossego eterno. Sabendo-se, talvez se possa mudar alguma coisa.

  9. jagudi,

    Também não exageremos na real maluquice. Os seis candeeiros, mais o respectivo gerador, sempre foram destinados à iluminação pública de Lisboa. A experiência na Cidadela de Cascais foi mesmo uma experiência…
    D. Luiz tinha um amor desmedido pelo progresso científico e acreditava que era possível plantá-lo de estaca por aqui.
    Que não se tenha acautelado a verba necessária para o seu funcionamento no chiado, isso já faz parte do fadário luso.

  10. “Electrificante” é o adjectivo que me vem imediatamente à cabeça quando penso no impacto deste post sobre os comentadores e as melancias em flor. Para alguns pelo menos. Salta a Aurora de Direita, toda desfeita em lágrimas de saudades do célebre Professor, a revelar uma falta monstra de humor e baterias muito fracas. É que nem agradece a delícia de ficarmos a saber que existiu um senhor chamado Fonseca Benevides, digno Professor de Artilharia da Escola Naval e responsável pelo ensino da Physica no Instituto Industrial da Lisboa desses tempos.

    Depois temos o Zaguti, de escarradela em riste e picha na mão, muito útil para quem não pode passar sem “caralhadas” bem dadas, a menosprezar uma razoàvelmente comparada situação. Cheio de espuma, trata de aliviar o peito do excesso de amores pelas missões e medidas de equilíbrio justificadas em nome do progresso pelo actual governo dos lampiões. Governo que, se pensarmos um pouco sobre isso, anda a abarrotar com políticos que continuam a viver de plasmas que sobraram do anti-monarquismo que ainda se canta em dias de festa e de recordar pelas tabernas e lojas da modernidade – espécie de banha resistente aos ranços do tempo.

    Faço um apelo desinteressado aos responsáveis do Aspirina: vá-se já à verba para estas coisas, e pespegue-se nos peitos deste casal duas lindíssima medalhas. É gente desta que dá alegria a este blogue. Bom investimento. Acho.

  11. A Iluminação Pública em Lisboa é muito anterior a 1878. O Luis Rainha quer dar uma de intelectual e não passa de um burro!

  12. Eu apresento desculpas a Luis, pelas imprecisões e ignorâncias e excessos do meu comentário.
    Já o Anónimo que aí veio fazer demonstrações de sobranceria pimpona, faça favor de ir com ela pentear os seus macacos.

  13. Tété
    tenho a certeza que O Luís Rainha sabe disso, e o meu comentário não pretendeu fomentar qualquer tipo de insulto. Aliás acho triste a facilidade com que se insulta alguém nos blog’s. Distanciando-me de um polémico post de JPP acerca desta coisas, tenho a certeza que se a Tété (esta palavra nunca teria dois acentos) estivesse frente a frente com as pessoas não desataria a insultar ninguém.

  14. JVC

    Primeiro – mantenho os dois acentos, estamos numa Democracia, ou não ?

    Segundo – Quando se quer dar uma de Intelectual de referência, que é o caso do Rainha, não se podem dar erros destes.

    Terceiro – Mantenho a classificação de “Burro”.

    Quarto – Um frente a frente. Quando quiserem. “Burro” é uma classificação , que o Rainha costuma usar com muita frequência.

  15. É por isso que eu sou contra a Democracia: com ela temos o povinho ignorante – Tété – e os Chicos espertos da esquerda (mas também burros) – o JVC.

  16. Meus Senhores,

    “Tété” pode escrever-se assim.

    Artigo 7º, alínea 3 do Acordo Ortográfico.

    Informem-se antes de escreverem asneiras!

  17. tenho saudades de Portugal ser o que era com Ántónio de Oliveira Salazar: um país com uma moeda forte, respeitado até pelos inimigos, com um excelente sistema de ensino, um bom sistema de saúde ( para a época), onde a corrupção era muitissímo menor, um país verde e sem incêndios ( e interesses inconfessáveis a eles ligados), um país onde existia muito mais mobilidade social e que se fazia pelo mérito e ligada ao conhecimento ou empreendedorismo), um país com muito menos diferenças entre pobres e ricos, um país cujas estradas faziam inveja a espanha, um país cuja moeda competia em estabilidade com o dólar, um país livre e independente capaz de enfrentar uma guerra contra as maiores potências mundiais( URSS e EUA e inglaterra), um país onde a maioria da população ( não toda, é verdade, infelizmente) e, de acordo com Chesterton e a doutrina social da Igreja, a maioria das pessoas viva simplesmente em auto-suficiência, plantando os seus próprios alimentos e liberta da servidão do salário, um país onde as mulheres não eram exploradas como hoje, mas respeitadas como mães e esposas e que por isso se podiam dar ao luxo de ter filhos e de ter tempo para os amar e educar, um país onde o honra e a palavra dada valiam tudo e o dinheiro pouco ou nada, enfim essa amada pátria de quem M. Yourcenar afirmou:
    ” este país é um poema”
    Ha´! mas parece que consta por aí que yourcanar também era de direita.
    eu tenho saudades da pátria que me roubaram e roubaram a todos os jovens portugueses.

  18. Sombra,

    Se bem vejo a coisa, essa tua saudade só nasce da distância. Ainda me lembro desses dias, e Portugal era mesmo uma grande merda, falando curto e grosso. Só para pegar numa pequena extremidade do teu discurso, lembra-te que em 66 morreram 38 pessoas a combater um incêndio na Serra de Sintra. O rublo também era estável à brava. As nossas estradas ainda hoje são a inveja do Togo. A mobilidade social era então ligada mais aos “conhecimentos”, no plural. E a nossa “auto-suficiência” na província deixava a malta de lá tão feliz que iam espalhar a boa nova para Paris, para a Suíça, para o Luxemburgo. Só queu depois se esqueciam de voltar; gente mal agradecida por tanta fartura, suponho.

  19. A minha alma está parva! Esfrego os olhos para ver melhor… e não consigo descobrir, se esta Sombra está a dizer o que sente, ou se está a produzir a ficção irónica mais espantosa que li nos últimos tempos.
    Realmente é preciso ter latosa e descaramento.

  20. O senhor UFO revela uma grande dificuldade para encontrar, e aceitar, a sua identidade. Um bocadinho de meio-termo talvez o ajude a sair do buraco: o prazer de tentar melhorar a vida com paciência e perseverança. Uma das facetas mais curiosas desta personalidade , é o seu masoquismo, que cheira a remendo de mau pagador. Os seus artigos têm sempre um tom de arruaça e provocação chocarreira, que reflecte o que tem sido a boçal prática dos blogues de esquerda.

  21. NÃO.NÃO ESTOU A BRINCAR. o pORTUGAL DE SALAZAR ERA MUITISSÍMO MAIS JUSTO, MAIS BELO E EM QUASE TUDO MUITO MELHOR DO QUE O QUE AGORA NOS OBRIGAM A ENGOLIR!

  22. caro pacheco pereira ou qualquer outro,

    hoje há muitos tarrafais neste país. há muitas formas de destruir pessoas que este governo está a usar de forma consisa e aplicado. tão metódica e aplicada que parece de doentes mentais, daqueles tipo serial killer. os métodos de destruição estão em curso e são tão ou mais sádicos que os do tarrafal.há muitas formas de torturar e destruir pessoas. as de hoje são bem mais injustas…
    voto? o que vale o voto? não é representativo de nada porque ganham-no defendendo posições muito diferentes das que depois aplicam. se se tratasse de um contrato comercial era imediatamente anulado por incumprimento. mas a estes temos que os aguentar no seu despótico e ilegitímo poder.
    é igualmente um poder ditatorial e muitissímo mais corrupto.não existe qualquer democracia, legitimam-se com o voto para depois governarem contra os direitos e interesses da maioria que os elegeu. governam apenas a favor de uns quantos amiguinhos…é uma falsa democracia. é uma mera manipulação. ao menos o de santa comba era verdadeiro e nunca viveu de expoliar a nação, serviu a nação o melhor que soube e pode. no tempo desse havia uma coisa, hoje em desuso, chamada ” vergonha na cara” e que fica sempre bem a quem a tem. hoje somos governados por gente sem qualquer moral, um conjunto de oportunistas ao serviço de obscuros interesses. e só eles é que ganham com isso, já nem sequer é pelos ” superiores interesses da raça e da nação”. não.nada disso, é só pelos seus pequenininhos interesses próprios. já nem a pátria nos querem dar. apenas isto: mão de obra barata e descartável a qualquer momento!
    que nojo!

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