Arquivo da Categoria: Fernando Venâncio

Pele e lombada

Para o Z, nosso fiel e querido compagnon de route (conhecemos a sua identidade, mas não a daríamos nem a um pelotão de arma em riste), e isso por ser São Valentim, e por ele ter levado para longes ilhas (conta ele) o Spinosa de Deleuze, mais o Fédon de Platão, mais uns belos livros de matemática, e acabar distraído pelas belezas físicas locais – para ele, pois, este poema que sabemos apreciará:

É sempre o mesmo o que persigo:
Um belo moço, um belo livro.
Acaricie pele ou lombada,
Tocarei sempre e só fachada.

Gerrit Komrij, Contrabando, Assírio & Alvim, 2005, tradução do neerlandês de fmv.

[O autor, que vive em Portugal, e é um dos mais conceituados poetas holandeses, além de conhecido ensaísta, colunista e tradutor]

Carta a Marina por causa do galego – 2

Cara Marina,

Falando-lhe do galego, tenho de falar-lhe também, e muito, do castelhano. Não é por acaso. O castelhano, não obstante ser idioma mais jovem que o nosso (e, para ser sincero, um tanto mais abrutalhado também, se comparado com o refinamento do galego e do português), o castelhano, dizia eu, cedo ganhou grande prestígio por cá. De tal modo que encantou, e deslumbrou, a quantos em Portugal escreviam e liam.

Estamos aí por 1450. Inicia-se então – já lho contei – uma vasta castelhanização do português. Nos dois séculos e meio seguintes, os nossos escritores apoderaram-se de milhares, sim, fartos milhares, de palavras que a Meseta tinha formado de raiz, ou aproveitado do grande tesouro que era o latim. Eles liam muito em castelhano, os nossos escritores. Narrativas, poesia, tratados. Usavam dicionários latim-castelhano, que eram, para a época, os melhores no mercado. Mais importante ainda: eles mesmos escreviam em castelhano. Centenas o faziam. Muito das suas narrativas, da sua poesia, dos seus tratados, saía-lhes na língua vizinha. Porque sim. Porque o castelhano era prestigioso, e era rico em novas noções, e era lido na Europa e mais Mundo. Até as grandezas de Portugal eles cantavam em castelhano, como hoje a gente, para divulgá-las, faz, se somos espertos, em inglês.

Ora, quando depois escreviam em português, esses escritores aproveitavam – e faziam eles muito bem – todos esses novos materiais castelhanos, toda essa frescura neolatina, toda essa vigorosa expressividade. O mesmo faziam, entretanto, os dramaturgos. O povo queria teatro, e teatro em castelhano. Conhecemos centenas de peças de autores portugueses, para o público português, escritas em… adivinhe que língua. Compreende-se. As melhores companhias de teatro de Castela faziam constantemente tournées em Portugal. E os nossos não queriam ficar atrás.

Depois, havia a corte. Dos reis. Sobretudo das rainhas. Durante séculos, foi comum termos rainhas espanholas. Uma delas, Catarina de Áustria, aguentou por cá 53 anos. E nunca disse uma palavra, nunca escreveu uma linha, que não fosse em castelhano. Já está a ver.

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Carta a Marina por causa do galego – 1

Cara Marina,

Informa-me você de que é galega, e que até passou uns anos numa faculdade em Santiago. Pede-me, depois, que reproduza um texto de Daniel Castelao («Un ollo de vidro», um dos seus mais conhecidos), e isto «para que toda a gente perceba», diz você, «que galego não é castelhano, e muito menos, português». Eu vou fazer-lhe essa vontade. Mas a sua última afirmação incita-me a alguns esclarecimentos.

Galego não é castelhano? Claro que não. O galego é, até, mais antigo do que o castelhano, porque mais evoluído, e portanto com uma história mais longa. Galego não é português? Claro que não, também. Mas houve um tempo em que galego e português eram, sem espaço para dúvidas, uma só língua. Simplesmente, o português sofreu, entre 1450 e 1700, uma drástica remodelação, feita sobre o figurino castelhano. O galego conservou por mais tempo a feição medieval comum, e só mais recentemente acabou minado pela língua do Estado. Já vê: estas duas profundas castelhanizações, primeiro a do português, depois a do galego, ainda por cima bem diferentes uma da outra, criaram entre galego e português um fosso que muitos consideram já intransponível. Eu não. Mas não nos apressemos.

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Chove en Santiago, meu doce amor

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*

Lorca enamorou-se por Santiago de Compostela, ou por alguém de lá, e compôs, num galego a pingar de casticismos (de «enxebrismos», termo local, mas corriam os anos 30), uma série de seis belos poemas. O mais conhecido é «Madrigal á cibdá de Santiago», que inicia com o celebérrimo verso «Chove en Santiago». Meteorologicamente exacto, porque é o que mais faz na capital galega.

Hoje, leio no Expresso um comentário de António Guerreiro a Doze Naus, um livro premiado de Manuel Alegre. Sempre senti alguma coisa por sonorosos vates. Mas não resta súvida: Guerreiro tem, aqui, todas as razões e mais algumas para deixar de rastos o livro, o autor e o júri (nada menos que Graça Moura, Júdice e Pinto do Amaral). Leiam, confiram.

Só destaco um pormenor. Alegre tem, no volume, um poema, «Adeus», onde se diz: «Quando vieram dizer-me que morreste/ eram onze da manhã e estava sol./ Não chovia no Porto como em Santiago/ há trinta anos quando mataram Allende.»

E eu pergunto-me quanta gente (os jurados, o crítico do Expresso, os comuns leitores) terá reparado naquela geográfica liberdade poética de pôr a chover, sem mais aviso, em Santiago de Chile. O «arquivo dos significados ‘poéticos’ cristalizados», que António Guerreiro diz enxergar em Manuel Alegre, é efectivamente bem provido.

A falta que fazem os mordomos ingleses

Da crónica, hoje, no Público, de José Pacheco Pereira:

«Peguem numa lupa e vão ver as fotografias dos “palácios reais”, as fotografias dos grandes e médios eventos desses anos finais da monarquia e podem continuar pela República e pelo Estado Novo dentro e vejam o Portugal que lá está ao lado da Família Real nos vasos partidos segurados com arame, nas louças com “gatos”, nos jardins pouco cuidados, nos espelhos com a prata gasta, nas roupas puídas e usadas, nas decorações erguidas de madeira e papelão, no tom de abandono, descuido e pouca limpeza, que nem a hierarquia do upstairs e do downstairs servia para funcionar bem, não porque não houvesse muita criadagem, mas porque faltavam os mordomos ingleses. Esse mundo que tomam por brilhante e cosmopolita era o mesmo Portugal que hoje pretendem esconjurar porque “feio, porco e mau”, o mesmo Portugal – oh sinistro adjectivo! -, “piroso”, de que pensam fugir conhecendo os vinhos de casta, comprando relógios Patek Philipe para entesourar, caçando vestidos de duendes verdes, fazendo subir o preço do Almanaque de Gotha nos leilões, e passeando-se por resorts e spas. Não, não estamos nos nossos melhores dias…»

Este homem está cada vez mais interessante.

O primeiro (e grande) romance de Jorge Carvalheira

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*

Por enquanto nada sabemos do destino do homem que ali vai, em extremo concentrado no andamento das passadas que dá. Vemos que marcha atento e cabisbaixo, no gesto de quem poupa energias. Porém não tanto que perca de vista o andador que lhe vai na dianteira, obra de poucos metros, nem tão pouco que possa este limpo luar de Fevereiro lavar-lhe de sombras a barbada face. Nada sabemos, e dobrada razão é essa para atentarmos no leve pormenor, na mesquinha minúcia.

Assim inicia As Aves Levantam Contra o vento, o primeiro romance do Jorge Carvalheira, que a Quasi acaba de publicar. É um livro excepcional. O que não pode espantar-nos, sabendo, os que o lemos aqui no Aspirina, quanto desvelo e quanta graça ele põe no que escreve. Quem é exigente a esse ponto é-o sempre também. 

As Aves Levantam Contra o vento é o retrato dum Portugal que foi mas ainda persiste em ser. Porque nós somos como somos – e aí está o nosso grande problema. Fique aqui, para amuse-bouche dum livro magnífico, este retrato de alguém que conhecemos de sobra.

Incapaz de ver os erros do passado, só restava a Portugal passar a vida a repeti-los. Um dia tomou conta do governo um professor de Finanças, bisonho camponês que a igreja modelou num espirito de frade, austero, ardiloso, agudíssimo, implacável. Conhecia como ninguém a alma dos portugueses, era ele a sua mais perfeita imagem. Desdenhava da fatuidade dos salões e desprezava as multidões primárias, era um deserdado que só acreditava em elites. Não apreciava indústrias, por tanto se temer do ruido dos operários a sair do bojo das fábricas, proibiu a coca-cola para que não houvesse exemplos de sociedades eficazes, sonhava-se ministro dum rei absoluto deslocado no tempo, um Pombal despótico e tirano a quem sobrava a manha e faltava o esclarecimento. Governava o país do fundo duma cela, e, milagre supremo, pôs em ordem as finanças, pelo cálculo mais elementar. Domesticado o povo pela inanição e o silêncio, mourejavam três quartos dum pais infantilizado há séculos, para que o restante quarto vivesse à tripa forra. Era esta a lei universal do mundo.

Futebol de quarta-feira

Tenho na mão um livro brasileiro dum português. Não acontece muitas vezes. Este chama-se Mansões abandonadas e é uma antologia da poesia do José do Carmo Francisco. Tem organização de Floriano Martins, ilustrações de Sérgio Lucena e introdução de Nicolau Saião. Edita-o a Escrituras, de São Paulo.

A recolha inclui algumas das melhores produções do poeta. Mas não esta, de Jogos Olímpicos, livrinho de 1988. Que aqui transcrevo. Por gosto estritamente pessoal.

*

Futebol de quarta-feira

Para quem janta a correr e sai de casa mais cedo
para perder tempo na bicha do «36» no Rossio
não custa suportar nem o vento nem o frio
nem a dúvida do resultado que se transforma em medo.

O autocarro saiu completo e já vai na Avenida.
Daqui de cima vejo melhor a cara de quem espera.
E vejo melhor o condutor quando ele acelera
como se também fosse sua esta nossa corrida.

O resultado que vai sair em todos os jornais
nunca pode testemunhar o jogo, a sua história.
Daqui por alguns anos ficarão apenas na memória
os números, sem golos a menos nem golos a mais.

Agora sonho com os comentários de amanhã.
E sei que me vai custar mais a levantar.
Dói-me a garganta depois de tanto gritar
e para a próxima compro um cachecol de lã.

ilusos lusos

Um dos melhores blogues portugueses (por mais bem feitos, mais úteis) é este, de nome atormentado: Letratura, de Helder Guegués. (O patronímico é inabitual, mas o possuidor é portuguesíssimo). Nesse blogue se examina e comenta o nosso idioma com erudição, com gosto, com leveza.

Um dos últimos temas é a súbita florescência em jornais do vocábulo lusos a designar os portugueses.

Devo dizer que já o tinha advertido num programa de televisão. E suponho – com um faro que cada vez menos se engana – ser o uso provindo de média espanhóis, onde, para variar com «los portugueses», frequentemente se nos chama «los lusos».

Se isto tiver vindo «desde España», temo que venha para ficar. Mas, para a nossa já deprimida auto-imagem, é arrepiante que passemos a designar-nos – mesmo só para variar – com um nome que o grande vizinho nos arranjou. Teremos de aceitar que se nos trate por «los lusos». Mas é pataratice copiá-lo, e dizer também «os lusos» de nós próprios.

Terei de dizer, uma e outra vez, que admiro profundamente a Espanha? E terei de dizer, outra e outra vez, que isso casa bem com uma infinita desconfiança da sua percepção a nosso respeito? E com uma viva repulsa por este tipo de sugestões?

óPtimo, não é?

Se vamos passar a escrever só (mas também sempre) os «c» e os «p» que pronunciarmos, há uma forma muito simples de conservá-los:

é passarmos a pronunciá-los sempre.

Até hoje, nunca pronunciei «espeCtadores», ou «caraCterística», como ouço tanta gente fazer. Pareceu-me parvoíce. Ah, como eu estava enganado!

O livro que queimava nas mãos

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Clique na imagem.

Andei com ele cinco, seis horas. Não na mão, não no bolso, mas entalado entre as calças e peça mais íntima. Sabia que ele era valioso, muito valioso. Para falar mais claro: era caríssimo.

Eu já o lera. E até sabia dele coisas de cor, como «O mostrengo que está no fim do mar», e «Deus quer, o homem sonha, a obra nasce», e «Ó mar salgado, quanto do teu sal…», e «Cadáver adiado que procria», e «Tudo vale a pena / Se a alma não é…», e nem me atrevo a rimar. É a colecção dos nossos lugares-comuns, quando as palavras nos faltam ou nos vemos mais preguiçosos.

Mas o livro era caríssimo, caríssimo. Quanto? Tratei de sabê-lo. Não porque quisesse aliená-lo (ele nem era meu), mas porque queria dizer, a quem o entregasse, quanto a oferta de outro valia. Eu era só o transporte. Entre um amigo falecido e um amigo vivo.

A Mensagem de Fernando Pessoa, numa primeira edição, exemplar impecável e, para mais, com dedicatória, data e assinatura do autor, vale hoje cerca de € 5.000. É o mínimo que se paga por ele a um antiquário. Mas, levado a leilão, pode facilmente render € 10.000, ou dois mil contos. Se não mais. Há sempre uma universidade americana que não olha a dinheiro.

Eu mantinha-me quieto quanto podia, naquele comboio, para não estragar o material. Ninguém sonhava o que eu ali tinha. Mas um percalço ferroviário, um assalto a carteiras e telemóveis, uma súbita loucura colectiva em meu redor, qualquer coisa igualmente horrível e imaginável, teria de encontrar-me preparado.

Cheguei vivo ao destino. Entreguei o livro. Ele queimava-me nas mãos e já no corpo todo. Mas tudo vale a pena, se… Não, por favor. Tudo menos isso.

Terra nostra

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Olivença é território nacional? É, diz o Ministério dos Negócios Estrangeiros. Pode ser mas não me interessa, faz perceber o Primeiro-Ministro, chamando ao tema «parte do folclore democrático».

Ora, nós sabemos – porque Sócrates dixit – que «não há uma política dos ministros, há uma política do Governo». O que, aqui, é lamentável.

Todos os 27 países da UE têm entre si Acordos de Fronteiras. Todos, menos um. O nosso, com a Espanha. Está bem feito. Mas, entretanto, um bocado, uma lasquinha, um bracito de Portugal continua em mãos estranhas.

‘Gatunos’ é um castelhanismo em português. Do adjectivo espanhol gatuno (relativo a gato) fizemos o que se sabe. É, talvez, o momento de devolver o vocábulo à procedência. Em voz alta e bem sonora.

*

Comunicado do Grupo dos Amigos de Olivença

www.olivenca.org

Reagindo à iniciativa do Grupo dos Amigos de Olivença que, no decurso da XXIII Cimeira Luso-Espanhola, levantou publicamente a questão de Olivença, o Senhor Primeiro-ministro, em entrevista à RTP, em 19-01-2008, veio dizer que o assunto «não foi discutido» na Cimeira (1).

Tal afirmação, que em si mesma nada traz de novo e só surpreende pela franqueza com que se admite e confessa publicamente uma prática política nada louvável, embora adoptada por sucessivos governos, deve ser sublinhada pela exuberância com que o Senhor Primeiro-ministro assume publicamente a existência do litígio, a sua relevância e a profunda perturbação que provoca no relacionamento político dos dois Estados.

No mais, a referência – aparentemente desdenhosa – à intervenção de tantos portugueses que em elevada manifestação de cidadania têm lembrando as responsabilidades que cabem ao Governo na sustentação dos direitos de soberania sobre uma parcela do território nacional, como fazendo «parte do folclore democrático», só pode ser entendido como um momento de infelicidade, decerto resultante da tensão a que o Senhor Primeiro-ministro estivera sujeito, traduzindo também alguma desatenção ou inabilidade políticas.

Aliás, não poderia ser de outra forma pois que, conforme afiançou recentemente o Senhor Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, em carta dirigida a esta associação em 12 de Novembro, p. p.:

«O Estado português é rigoroso na prática de actos externos, quanto à delimitação constitucional do seu território, em observação do que estipula o artigo 5.º da Constituição: “1. Portugal abrange o território historicamente definido no Continente europeu […] 3. O Estado não aliena qualquer parte do território português ou dos direitos de soberania que sobre eles exerce […]”. A política que o Ministério dos Negócios Estrangeiros tem seguido, e as orientações que tem dado […] tem sido de que nenhum acto, acordo ou solução em torno desta questão deve implicar o reconhecimento por Portugal da soberania espanhola sobre Olivença» (2).

O Grupo dos Amigos de Olivença faz notar que a sua actuação reproduz a posição político-constitucional portuguesa e, lamentando as palavras menos felizes e inapropriadas do Senhor Primeiro-ministro, reafirma a sua determinação em prosseguir os esforços que vem desenvolvendo pelo reencontro de Olivença com Portugal.

OLIVENÇA É TERRA PORTUGUESA!
VIVA OLIVENÇA PORTUGUESA!

O Presidente da Direcção
Lisboa, 20 de Janeiro de 2008.

(1) Pode consultar-se em : mms://195.245.128.30/rtpfiles/videos/auto/telejornal/telej_2_19012008.wmv (aos 27 min e 48 seg do vídeo)

(2) Pode consultar-se a Carta do MNE em: <http://www.olivenca.org/imagens/MNE_7905.pdf>

Rua Portas S. Antão, 58 (Casa do Alentejo) -1150-268 Lisboa
www.olivenca.org – olivenca@olivenca.org – Tlm. 96 743 17 69 – Fax. 21 259 05 77

Comboio da noite para Lisboa

Comecei a ler Comboio da noite para Lisboa. Escreveu-o Pascal Mercier, romancista austríaco. Comecei-o ontem, num comboio já nocturno, a caminho da Suíça.

É a história (longa, 400 páginas em letra pequena) dum exemplar professor de línguas clássicas, de Berna, que um belo dia lê um livro (fictício) dum pensador português e larga tudo para ir a Lisboa. Dizem, e acredito, porque já o estou vendo, que é um livro colossal. Só o pus de lado porque a vida não é só literatura.

Leio-o em tradução neerlandesa. Não acho rasto de edição em português.

Citados

A revista Os Meus Livros de Janeiro de 2008 traz uma citação do Aspirina. Trata-se de uma frase de José do Carmo Francisco, de 21-11-2007 : «Sei que nunca foi tão fácil publicar livros, mas também nunca foi tão difícil colocá-los no leitor». Humaníssimos – por pouco que possa parecer -, gostamos de ver-nos citados.

Grandes planos

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Quarta: descer o mapa, subindo o Reno. De comboio, «por causa do chique».

Quinta: mostrar como a História da Língua Portuguesa teve sempre, e só, uma leitura: a nacionalista.

Sexta:  ouvir surpresas de outros e descansar das minhas.

Sábado: olhar em volta e reparar que estou em Basileia.

Domingo: descer, subindo. De comboio. Arre, que é chique a mais.

Auf Wiedersehen.

Poetas

– Não te passa pela cabeça – disse ele – o que é andares fugido. Porque não tens papéis, porque arranjaste dívidas que nunca, mas nunca, conseguirás sanar, porque andam à tua procura para matar-te. Não, não te passa pela cabeça.

Eu sabia que uma vida humana não era fácil. Que a invenção do Planeta tinha desembocado num cenário, este nosso, que jamais pôde estar no programa. Mas aquilo, dito assim por sobre o tampo de mármore duma mesa de café, olhos acerados fitos nos meus, aquilo meteu-me respeito.

– Andas fugido?

Não cheguei a perguntar-lho. Eu não poderia dar-lhe os papéis, nem dinheiro que chegasse, nem um esconderijo. A minha pergunta seria curiosidade pura, e por isso tanto mais ofensiva. O que ele percebeu bem.

– Acredita, já me habituei. Agora há-de ser sempre assim. Nunca sei se chego livre, ou vivo, à noite de cada dia. Ou ao dia de cada noite. Nem isto é andar livre. Nem andar vivo.

Veia poética, depreendi. E lamentei-o mais ainda. Os poetas, ao saberem dizer tão bem de que sofrem, ainda mais se atormentam.