Arquivo da Categoria: Fernando Venâncio

Fumigações e enigmas

Quando se tem um jornal e algum tempo pela frente, lê-se qualquer coisa. Quando se tem um jornal e muito tempo pela frente, lê-se bastante mais. Imaginem o que sejam dois jornais e muito, mas mesmo muuuito tempo pela frente. Sucedeu-me isso hoje.

Eu tinha já despachado o Público, quando o meu companheiro do assento adjacente deu por vasculhado o seu Correio da Manhã. Ah tempo, ah um jornal! suspirei. E, valente, sem a intelectualidade portuguesa o olhar-me por cima do ombro, fui indo, indo, e cheguei até ao «Desporto».

Num impulso de temeridade, li uma crónica desportiva. Era sobre o Pinto da Costa e a sua draconiana claque. E falava do treinador, o meu compatriota Adriaanse. Ora, e aviso, não vai ser questão nem do presidente nem do seu (se bem percebi) periclitante técnico. É pura questão de língua portuguesa, esta sagrada minha.

O autor da crónica, Rui Santos, exprimia-se assim:

«O problema é que Adriaanse não está nem na Holanda nem em Inglaterra. Co Adriaanse está em Portugal, num campeonato fraco, de pequena exigência…»

Até aqui percebo. Mas leiam comigo.

«…em que os jogadores não projectam uma cultura técnico-táctica e físico-atlética capaz de assimilar uma nova e fracturante conceptualidade».

Perceberam?

E depois, Valupi, a ti me queixo, a crítica literária do Expresso é que se exprime em enigmas e fumigações.

Aviso (amigo) para Virginal George

Começo por declarar que admiro João Pedro George. Direi mais: sinto-me feliz por ele existir. Se isto parecer uma declaração de amor, perceberam mal. Mas é uma declaração de amor à vida, que nos fez coincidir nesta zona e neste tempo de um tão vasto planeta.

Dito isto, direi também que a felicidade não é total, e que começou já a abrir gretas. Se é verdade divertirem-me as suas leituras de Filomena Mónica ou de Rodrigues dos Santos (fico pelos últimos visitados pelo doce olhar do lince), causam-me calafrios os seus organigramas da crítica literária. Já fui objecto de um deles, na Periférica, e pude apor-lhe um circunstanciado embora contido comentário (obrigado, Luís, por lembrá-lo).

Sejamos singelos: há um elemento de intromissão policial nesses divertimentos georgianos. Não é por alguém escrever sobre a obra de um conhecido, ou mesmo amigo, que se abre a porta à desonestidade. Lembrou-o já o Pedro Mexia. O efeito dos atidos controlos de George poderá ser, até, o criar de agora autênticas injustiças.

Vamos a um caso pessoal. Eu sinto-me inibido para escrever sobre José Rentes de Carvalho. Já o fiz há uns anos, no Expresso, e gostaria de voltar a fazê-lo. Os seus livros (depois de retumbantes sucessos em neerlandês), começaram a aparecer com mais regularidade em Portugal. Acontece que Rentes de Carvalho é um prosador primoroso e um efabulador de imensa força. E isso é raro – acreditem, por favor – entre autores portugueses actuais.

Ora, porque me proíbo eu de dizê-lo mais vezes e mais publicamente? Por isto: Rentes e eu vivemos na mesma cidade, a longínqua Amsterdão, e calha sermos dois de muito poucos escritores portugueses locais. Há-de ter-se a medida da minha frustração sabendo que não nos damos particularmente bem e que em 30 anos não tomámos um só café juntos.

Declaro-me, pois, vítima, e vítima consciente – portanto, e ainda por cima, vítima solidária -, do terror de observadores como João Pedro George. E considero que seria lamentável, seria péssimo, que o espaço literário português ficasse ensombrado pelas medonhas asas de uma harpia assim.

João Pedro George é muito mais interessante, e muito mais útil, quando não nos observa por esquemas. Quando só mostra a forma bizarra, ou monstruosa, de alguns microclimas da nossa realidade. Logo que esquematiza, torna-se um aparelho de observação, algures num outer space. Asséptico e realmente virginal. E frio e inabitável.

O desassombro

Nunca tinha visto falar José Pacheco Pereira. Tinha-o avistado, há uns anos largos, em Vila Franca de Xira, num colóquio em que fui dizer umas coisas, já não recordo quais, sobre o neo-realismo. Mas só ontem o tive mais por perto e o ouvi.

Foi na livraria Bulhosa do Campo Grande, em Lisboa. Aí foi apresentada a mais recente obra de JPP, Quod erat demonstrandum, Diário das Presidenciais (Julho 2005 – Janeiro 2006), da Alêtheia Editores.

E gostei do que ouvi. JPP fez ele próprio a apresentação do livro e fê-lo de modo comunicativo, despretensioso, respeitando-nos a nós que o ouvíamos. E o respeito estava sobretudo na simplicidade com que se expôs, a si, e àquilo que pensa da política portuguesa e que prefere nela. «A política portuguesa é interessantíssima», afirmou a certo momento. A quem é que já ouvimos isto? A ninguém. O que é ‘correcto’ é chamá-la uma chachada, nunca um terreno de surpresas. Ora ela revela-se feita por medida para divertimento de JPP, e depois nosso. De vários temas o ouvimos afirmar: «Ninguém se lembra de dizer isto», «Está debaixo dos olhos e ninguém vê». Dir-se-ia parvoíce, mas é verdade: este país parece feito de gente que se recusa a ver, e acha muito mais engraçado congeminar, extrapolar, sonhar, enfim.

Encantou-me (não adoço o termo) aquele imenso desassombro, aquela nenhuma preocupação com a conveniência do que dissesse, a desarmante ausência de calculismo. Via-se que estaria disposto a levar o seu comentário até ainda mais inóspitas paragens, assim houvesse quem o estimulasse.

Um dia, haverá três anos, queixei-me da escrita de José Pacheco Pereira. Achei-o vago, confuso, desmazelado. Seguramente porque se deu, ele próprio, conta de que o seu público merecia melhor, a expressão revigorou-se-lhe e é hoje agradável, translúcida e feliz.

Três ou quatro indivíduos assim, e este País será logo outro.

Olha um livro!

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São narrativas curtas, argutas, maliciosas, estas Histórias e Morais, de JOSÉ ANTÓNIO FRANCO (Pé de Página Editores). Metem bichos mais ou menos domésticos, animais da selva, mouras encantadas, assassinos e ladrões. Acontece as personagens recusarem-se a entrar em cena, ou saírem dela deixando em grande atrapalhação o contador.

Um muito sumário aparelho gráfico dá, logo de entrada, um recado de descontracção e de jogo. E de vulnerabilidade. Veja-se esta versão muito apócrifa do «Capuchinho Vermelho».

o bosque e o jornalista

uma rapariga de saia castanha curta ia um dia num passeio pela floresta quando de repente um lobo alto e espadaúdo lhe saltou ao caminho uivando que nem um louco esfaimado assustada a rapariga escondeu-se atrás de uma árvore mas o lobo saltou para junto dela e perguntou-lhe quantos anos tens dezoito onde vais ao centro comercial comprar uma saia quem te deu o dinheiro ninguém é meu tu trabalhas não então onde o arranjaste foi a tia isaura que mo deu pelo natal então alguém to tinha dado para que queres tu a saia se já tens uma tão linda esta está muito velha e não tens mais nenhuma tenho muitas mais mas também estão muito usadas
estiveram assim a conversar durante algum tempo e acabaram por seguir cada um o seu caminho depois de uma cordial despedida
entretanto um homem que fazia reportagens e que andava por ali perto quando viu de longe os dois a conversar telefonou imediatamente para a equipa de segurança da floresta que apareceu momentos depois num veloz jerico treinado para perseguições
no dia seguinte a notícia no jornal era assim adolescente de saia castanha impedida de visitar a avó por lobo esfaimado e de ombros largos mais à frente dizia ainda não fosse a pronta intervenção acidental de um repórter do nosso jornal e a imediata reacção das forças de segurança e o caso poderia ter tido um desfecho bem trágico

moral no bosque ande sempre com a avó

República Socialista dos Países Baixos

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Há perguntas bizarras, e facilmente irritantes. Na Holanda perguntam-me, há mais de trinta anos: «Não trouxeste casaco?» E por ‘casaco’ querem dizer muita coisa: blusão, gabardina, sobretudo, samarra, capote alentejano. Quase nunca tenho, pois não sou friorento. Ou sou só descuidado.

Em Portugal, a pergunta irritante é outra: «Como está a Holanda?». E eu digo «Fria» ou «Tranquila» ou «Na mesma». Mas, agora, descobri uma variante para ‘Na mesma’. É mais longa, faz mais conversa e pode ajudar a mudar o mundo. Eu explico.

O chefe de estado holandês é uma senhora. A profissão da senhora é ‘rainha’. Não governa, existe só. Sabe-se que tem influência política, mas tecnicamente é ‘irresponsável’: é o governo que responde por ela. Da mãe dela se sabia que era socialista, desta supõe-se que ande no centro-direita. Por coincidência (deveras, por uma mão-cheia de votos), o governo actual é, desde há uns anos, de centro-direita também. Em suma: a senhora tem as atribuições do presidente português, só está no lugar algum tempo mais. Pensando bem, ela é uma presidente e este país é uma república.

A câmara faz, agora, um travelling do palácio para a choupana.

Num bairro pobre da chique Haarlem (a holandesa, a original), vive uma jovem senhora com o rendimento mínimo garantido. Cursou direito, mas detesta o foro e as secretarias, e ficou por ali. Faz uns biscates, umas coisas. Periodicamente, tem de apresentar contas ao município dos seus parcos réditos. Para a controlarem? Longe disso. Para lhe oferecerem cursos, todos gratuitos, cada um deles mais atraente. Para lhe perguntarem se não estará precisando duma nova máquina de lavar, ou de uns agasalhos melhores para o inverno. Que eles lhe oferecem, claro. Eu soube isto há dias, e fiquei fascinado. Se isto não é socialismo, então sou eu que sou parvo.

Está visto. Daqui em diante, quando me perguntarem «Como vai a Holanda?», vou mostrar-me um melhor apóstolo do paraíso terreal, e passarei a dizer: «Qual? A república socialista? Lá se vai arrastando».

O castelo de Palmela e a felicidade

Uma vez, entrei em casa de uma amiga minha. Já era amiga há uns tempos, mas não lhe conhecia a casa. Era uma zona chique de Lisboa oriental, com vista para o rio, e ela vivia ali há mais de vinte anos. Cheguei-me a uma das janelas e disse, excitado: «Olha o castelo de Palmela». E era um facto: ele recortava-se, nesse fim de tarde, com uma nitidez que feria. A minha amiga veio até à janela, num desassossego: «O castelo de Palmela? Onde?»

Fiquei sem palavras, é bem de ver. A minha amiga, que não é parva, até escreve livros e assim, nunca se tinha perguntado o que pudesse ser aquele acidente, de recorte estranho, na paisagem dos seus dias. Ora, para mim, num segundo, aquilo havia-se tornado numa completa topografia, num discreto GPS a orientar-me o corpo no vasto mundo.

Sou mais feliz eu? É mais feliz ela? Eu sinto-me feliz assim. Tenho a certeza de que ela o era já também. Não entendo nada da felicidade dela. E ela não perceberá jamais o que o castelo de Palmela, a vinte quilómetros, pode fazer feliz.

Isto da felicidade é um mistério.