Arquivo da Categoria: Valupi

O PCP ficou à beira do abismo em Janeiro, e depois veio Fevereiro

«O PCP não cedeu perante uma má proposta e o Orçamento foi rejeitado em novembro.»

António Filipe

Até 24 de Fevereiro de 2022, o PCP era o partido que mais eclécticas simpatias congregava em Portugal. Esse fenómeno começou com Carlos Carvalhas, uma escolha surpreendente para suceder a Álvaro Cunhal por não possuir as características leninistas que tinham estilizado a liderança do partido até então. Estávamos nos anos 90 e Carvalhas, com a sua retórica macia e resignada, simbolizou a “perestroika” possível na Soeiro Pereira Gomes. Depois chegou Jerónimo de Sousa, em 2004, e o partido rendeu-se estrategicamente a um novo marketing adequado ao absurdo do seu programa: começaram a apelar ao voto num comunismo pragmaticamente reduzido à sua expressão folclórica e a vender competência tecnocrática e integridade militante para manterem posições no mercado autárquico. Jerónimo foi uma escolha perfeita graças ao seu carisma hollywoodesco de “operário-agricultor”, era um português castiço com quem apetecia beber um copo e largar umas gargalhadas. Uma antítese de Cunhal para um novo posicionamento mediático nascido da dialéctica eleitoral. Os elogios correram fáceis e abundantes desde 2005, reconhecendo-se até a importância do PCP para conter extremismos e manter a paz social – muitos desses elogios vindos da direita que adorava o bloqueio do sistema partidário à esquerda e que, numa altura de desespero com a força política de Sócrates, chegou a admitir ir para o poder numa aliança com os comunistas. Pelo meio, a Festa do Avante evoluiu para ser uma etapa excêntrica do calendário e negócio dos festivais onde os direitolas faziam questão de ir como quem vai pela primeira vez ao jardim zoológico.

A seguir a Jerónimo, João Oliveira e António Filipe foram durante muitos anos igualmente o rosto da afabilidade e normalização do PCP, transformado numa peça indispensável de um regime que os comunistas vituperavam entre portas. O primeiro, reforçando o aceno rural, até missionário, adequado à envelhecida demografia eleitoral. O segundo, exibindo o heroísmo do trabalho, no caso parlamentar, que alimenta a mitologia da “pureza” do “povo comunista”. Mais recentemente, João Ferreira foi lançado para a ribalta de uma eventual sucessão de Jerónimo para se continuar a tentar estancar a perda de votos recorrendo a critérios que nada têm a ver com a ideologia ou um renovo programático e tudo com factores de apelo estético e atracção comunicacional. A aposta nele nasce de conseguir simular ser competitivo com eleitores que não queiram votar PS por razões conjunturais e hesitem entre o BE e o PCP. Foi assim que obteve um resultado anómalo nas últimas autárquicas, recolhendo votos só pelo boneco ser agradável à vista e da sua boca apenas saírem clichés que não assustavam ninguém.

Portanto, a forma como estas vedetas dos amanhãs que cantam se afundaram no putinismo extremo causou um choque que ultrapassa a questão da invasão russa da Ucrânia e põe em causa a relação de décadas entre o partido e a sociedade. Mais do que nos indignarmos com o espectáculo de obscena cumplicidade com o agressor, importa descobrir qual a causa para tão bizarro acontecimento, isso de ver o PCP a marchar ao lado do maior financiador de grupos da extrema-direita antidemocrática no mundo. Proponho como pista de investigação que se olhe para o dilema que o PCP enfrentou na votação do Orçamento para 2022. Lendo o artigo do António Filipe, de que cito o sofisma a que se agarraram bovinamente, percebe-se o que já se tinha percebido em Outubro: os comunistas foram para eleições porque não resistiram à pressão do BE, o qual com a sua visibilidade nos impérios de comunicação da direita conseguiu minar e destruir as frágeis resistências ao sectarismo que tinham permitido ao PCP ficar isolado na viabilidade de um Governo PS minoritário. Foi só isso, nenhuma de nenhuma preocupação com o “povo” e os “trabalhadores” contou para colocarem o interesse nacional acima e à frente do pânico identitário. Preferiram a irresponsabilidade de abrir uma crise política no meio de uma pandemia sem qualquer razão atendível. Daí, nessa ressaca – e no trauma eleitoral que se seguiu em Janeiro onde se materializou o começo da extinção parlamentar – terem entrado numa trágica deriva radicalizante, de sobrevivência em trincheira.

E calhou ser Putin a oferecer-lhes essa barricada, para a qual saltaram alucinados e dispostos a defenderem a bandeira até ao último homem (ou mulher, mas o mais certo é que o último comunista seja macho, né?).

A ética nunca alimentou ninguém

No último Governo Sombra, tanto Ricardo Araújo Pereira como Pedro Mexia deixaram remoques acerca de dois artigos seguidos do caluniador profissional pago pelo Público: ISCTE – O braço universitário do Partido Socialista (14 de Abril) + João Leão financiou com cinco milhões o seu novo emprego (16 de Abril). O Ricardo foi sarcástico a respeito da “coincidência”, afirmando que se tratou de um embuste onde o caluniador foi avisado de ir rebentar o caso (daí o primeiro artigo tendo todo o PS como exclusivo alvo). E o Pedro foi explícito no seu protesto contra o que designou como “suspeitas genéricas”, culminando numa enfática declaração de princípios a separá-lo de quem alinha em tais práticas.

A forma como o caluniador profissional respondeu aos seus colegas de programa, tanto na linguagem verbal como na expressão corporal e facial, não carece de intérprete. Trata-se de um agente político que recebe dinheiro de órgãos de comunicação social para atacar – a coberto do estatuto de “independente” e “jornalista” – o PS e personalidades socialistas de forma sistemática. Igualmente sem surpresa e interesse foi o registo displicente do Ricardo, embora tenha valor positivo a sua breve e superficial referência. Está na posição do Pedro algo que importa desenvolver só para satisfazer a curiosidade analítica. E que é o seguinte: este licenciado em Direito, supinamente culto, sabe de ginjeira que ao escolher os vocábulos “suspeitas” e “genéricas” está a recorrer a uma fórmula hiper-eufemística para se relacionar publicamente com o que são evidentes difamações e/ou calúnias.

Ora, que aconteceria na cabeça do Pedro Mexia se lhe acontecesse ver uma figura altamente influente no espaço público como comentador, com presença constante em vários dos mais poderosos meios da imprensa, que se estivesse especializado em lançar difamações contra o PSD, o CDS, agora também a IL, e demais personalidades dessas áreas? Que pensaria vendo esse modus operandi ao longo do que já conta com 13 anos ininterruptos? Que diria se esse fulano, exclusivamente por se prestar a esse papel, tivesse recebido o prémio de ser escolhido para presidente da comissão das comemorações do 10 de Junho? Que diria o filho de João Bigotte Chorão, o consultor de Marcelo Rebelo de Sousa, o colaborador do CDS para a feitura do programa eleitoral de 2019, de uma farsa e deboche desse calibre montados na comunicação social para despachar caudalosos assassinatos de carácter e apelos ao ódio contra a sua família política, contra os seus amigos?

Pois é, Pedrinho. Servir a dois senhores pode fazer-te muito bem ao bolso e ao ego mas não te julgues acima do caluniador profissional. Estás literal e moralmente ao seu lado.

Revolution through evolution

Women’s earnings drop after childbirth, study finds
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Girls Excel in Language Arts Early, Which May Explain the STEM Gender Gap in Adults
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Stop the clocks: Brisk walking may slow biological aging process, study shows
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Fewer smartphones, more well-being
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Praising essential workers — nurses, grocery workers, corrections officers — is not just a good thing, it’s critical to their recovery from burnout
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Prehistoric humans turned their campfires into makeshift movie theaters
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Brazilian study finds COVID-19 cases and deaths higher in areas with electoral support for President Bolsonaro
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Dominguice

Ser humano é ser animal e fingir que não se é animal. Fingimos porque o animal em nós está incompleto, desligou-se do ecossistema de que é uma emanação e um súbdito. Fugiu, ou foi expulso, desse paraíso. E agora o ser animal que é ser humano sente-se perdido, só, com medo dos animais à solta. Com medo da animalidade soberana.

Estamos, nós humanos, a tentar criar um novo ecossistema adequado a animais mutilados e disfuncionais. Chama-se civilização.

António Costa e a Aura Mediocritas

Foi publicado, e não desmentido pelo próprio, que António Costa considerou ter sido “aldrabado” por Sócrates a respeito das heranças que a mãe deste teria recebido, afirmações feitas em Julho de 2021 para a actualização de uma biografia de Mário Soares. Também nessa ocasião terá declarado a Joaquim Vieira que Soares foi instrumentalizado com a finalidade de assim impedir o confronto de Costa com Sócrates na prisão de Évora.

A primeira reacção que esta notícia provoca é de atarantação. Não por existir alguém que considere Sócrates mentiroso, sequer por existir alguém que ache verosímil Soares ter sido manipulado para (cônscia ou inconscientemente) alinhar com uma artimanha indigna e vexante. Isso são banalidades irrelevantes. A perplexidade, a raiar o estado comatoso, vem da pessoa que permite (e que o permite nesta altura) ficarmos a saber que tal pensa, em tal (pelos vistos) acredita. Como é possível ser-se tão imbecil?

Comecemos por este cenário: um dia, de uma maneira qualquer, será provado que Sócrates mentiu a respeito das heranças familiares e que Soares foi uma vítima, ou um cúmplice, do ardil que impediu Costa de esclarecer lá o não sei quê que alega ter ido a Évora para esclarecer. Problemazinho: esse dia não é hoje, não será amanhã e, aposto os 10 euros que tenho no bolso, a acontecer só virá um mês depois do dia de São Nunca. Isto porque a matéria das heranças está documentada junto das autoridades e é, no seu conteúdo, assunto que se esgota na privacidade de Sócrates e da sua família. Que importa, seja para o que for com estatuto de interesse público, que as heranças tenham sido assim ou assado, e que o pecúlio tenha sido gasto desta ou daquela maneira, e que o homem tenha publicitado ao longo dos anos isto ou aquilo a seu respeito? Importa como eventual indício em foro de investigação judicial, claro que sim, mas fora desse âmbito é uma problemática estritamente moral e mesquinhamente polémica. Ter um primeiro-ministro a envolver-se com a Operação Marquês, na qual Sócrates está como inocente pois ainda de nada foi condenado, para atacar – recorrendo à subjectividade – aspectos de personalidade do principal arguido fica como um registo quase tão abjecto como o de Carlos Alexandre na infame entrevista em que condenou em público um cidadão à sua guarda constitucional.

Continuemos com este cenário: nunca se saberá ao certo o que se passou para que Soares tivesse aparecido em Évora ao mesmo tempo que Costa mas, lançada a lebre, vão começar a aparecer versões, relatos, teorias da conspiração. Primeiro efeito, indelével, a memória de Soares fica inacreditavelmente maculada por uma das mais importantes figuras da história do PS e da política nacional, António Costa, primeiro-ministro em funções. O alvo do que é tecnicamente uma colossal difamação não se pode defender, e só por este aspecto as declarações de Costa são um monumento ao despudor e à chungaria. Parece conversa de tasca, um vale tudo etílico, ou então o planeado intento de fazer o assassinato de carácter a Soares. Hipótese irracional? Não tão irracionalizante como o facto consumado, ter feito as declarações na berlinda e logo para ficarem inclusas numa biografia de Mário Soares. No outro lado da ladeira, o prestígio de Costa não surge mais bem tratado. Ao querer ficar colado à imagem de não ter conseguido interromper o “comício” de um Soares incontinente verbal (cheché, como deixa sugerido) para encostar o vilão às grades e sacar-lhe a confissão dos seus homéricos crimes, vendo-se assim obrigado a regressar a Lisboa a chuchar no dedo, esta consciência revela ter perdido por completo a noção do ridículo. Espero, em nome de todos quantos lhe queiram bem, família e amigos, que a passagem do livro onde se cobre de alcatrão e penas seja desmentida.

Mas não será, né? O que nos leva para o último cenário: Sócrates foi corrompido, o dinheiro do amigo era dele, enganou este mundo e o outro, a mielas com o Salgado serviu-se do PS e do cargo de primeiro-ministro para se encher de milhões, de fatos caríssimos, de férias luxuosas, de droga e sexo. Um monstro, portanto, e um génio do crime como nunca houve outro no Planeta pois conseguiu fazer isso tudo sozinho e nos intervalos do expediente. Ora, sendo esse o retrato, como é que Costa se revela tão falho de curiosidade em ter uma conversinha com o fulano logo em 2014? E se não conseguiu em 2014, por via da tal armadilha com o idoso que não se calava, que o impediu de continuar a tentar em 2015? Ou 2016? 2017? 2018? 2019? 2020? 2021? E 2022, que ainda nem vai a meio? Aliás, por que raio não aproveitou a presença do patriarcal e heróico Mário Soares para lhe imitar o exemplo e confrontar na sua presença Sócrates com tudo o que lhe quisesse perguntar e dizer? E por que caralho não fez como Guterres, que visitou Sócrates mais do que uma vez e, milagre, ainda conseguiu ser eleito secretário-geral da Organização das Nações Unidas? Das duas uma: ou Costa sabia que as suspeitas de corrupção não passavam de tangas, ou Costa… o quê? Como caracterizar a atitude de indiferença que o próprio assume em relação ao que o Ministério Público berra ser o maior crime alguma vez cometido em Portugal e que, a ser provado, envolve directamente o PS e todos os que integraram o partido e os Governos quando Sócrates era o líder?

Espantoso, inexplicável, misterioso episódio. O silêncio que se seguiu à imediata resposta de Sócrates, com uma frontalidade à prova de pulhas, só adensa o absurdo criado por Costa. Um Costa que, para supina sorte deste país, é primeiro-ministro desde 2015 e acaba de ganhar uma maioria absoluta que não poderia ter vindo em melhor altura dado o novo ciclo de crises internacionais imprevisíveis e potencialmente catastróficas. Um Costa que merece um lugar no panteão dos melhores políticos da nossa democracia por ser um oceano do tal bom senso que alimenta e protege o bem comum. E um Costa capaz de se aliar a um caluniador profissional, servindo-se das instituições e instalações da República para um número político-mediático onde se exploraram menores. Contrastes de quem talvez nunca tenha tido a ambição de chegar onde chegou, e que disso fez uma força que lhe deu os merecidos triunfos políticos.

Eis a aura mediocritas daquele que continua sem rival no horizonte para se fazer melhor em S. Bento.

Exactissimamente

O putinismo e a boa-fé

«Que a responsabilidade da guerra é da Rússia é um facto inegável; que a NATO cercou a Rússia é outro: não sei como é que alguém de boa-fé pode negar qualquer um deles.»

Miguel Sousa Tavares – “Para acabar de vez com este sufoco”

Este amigo, uma das mais importantes celebridades do comentariado (e por excelentes razões ao longo de décadas, vai sem discussão), condensa na frase citada o mecanismo psicológico que leva os putinistas para a radicalização que ostentam. O argumento começa por fazer uma concessão à evidência mas de imediato aproveita o balanço para perverter esse acordo inicial com a realidade recorrendo à ficção: “a NATO cercou a Rússia“.

Como é que a NATO cercou a Rússia, o maior país do Mundo e tendo fronteiras com Finlândia, Georgia, Ucrânia, Bielorrússia, Azerbaijão, Cazaquistão, Mongólia, Coreia do Norte e China, nenhum destes países pertencendo à NATO? Tal em nenhuma parte do seu texto se explica, nem um mero guardanapo com nódoas de tinto e gatafunhos geográficos é apresentado para ajudar a perceber. Em vez disso, serve-se uma chantagem: quem diga que a Rússia é responsável pela guerra tem de concordar que antes a NATO tinha cercado a Rússia. Os que recusarem levam com o carimbo de trafulha, avisa o tonitruante Miguel.

Ora, é decisivo para um putinista que haja fantásticos casus belli para agitar frente às audiências e, especialmente, para entorpecer a consciência própria na hora da deita. Pode ser o “cerco da NATO”, ou o “genocídio no Dumbass”, ou os “nazis ucranianos”, ou os “laboratórios secretos de armas químicas e biológicas que os americanos montaram na Ucrânia”, ou dois deles à escolha, ou três ao gosto do freguês, ou todos ao molho mais os que forem sendo lançados pela boa gente que aplaude os crimes cometidos por Putin na Ucrânia. Munido dessas “verdades” , bastando uma como a citação ilustra, o putinista constrói axiomaticamente um bastião inexpugnável. Ele passa a dispor de um nexo causal que o defende das “mentiras”, a “propaganda” e “lavagem cerebral” que o persegue e ataca a mando do imperialismo americano. A tal “operação militar” que apenas pretende “libertar” a Ucrânia e devolvê-la ao seu ancestral dono torna-se uma questão pessoal, íntima, para o putinista militante. Porque é também a sua identidade como ser pensante, essa mixórdia de teorias da conspiração onde enfiou a inteligência, que está a ser ameaçada pelas armas dos americanos e pela comida dos europeus que é entregue aos ucranianos para se defenderem. Daí concordar com os bombardeamentos russos, a destruição das cidades, o massacre dos civis. E quantos mais melhor, para que mais rápido se chegue ao desejado fim putinista: que os ucranianos se rendam ou que sejam exterminados.

Mas vamos imaginar que a NATO tinha mesmo “cercado” a Rússia, após convencer todos os países à sua volta a entrarem para a organização. Qual seria o problema, sendo a NATO uma organização defensiva? Que raio de cerco é esse onde não se invade o vizinho e apenas se pretende viver em paz com ele e fazer negócios que também sejam vantajosos para os próprios russos? Gostava que algum putinista “de boa-fé” (passe a tautologia) respondesse.

Revolution through evolution

Women worldwide underrepresented in economics
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Exercise May Protect Brain Volume by Keeping Insulin and BMI Levels Low
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Feline familiar: Pet cats know their humans’ names, say scientists
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Innovation at Work: Unconventional methods help boost rural quality of life
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Recalled experiences surrounding death: More than hallucinations?
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Lies that ‘might’ eventually come true seem less unethical
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Former partners-in-crime likely to violently turn on one another – UK crime gang study
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Dominguice

Sem a força da gravidade não haveria estrelas. Sem estrelas não existiriam elementos mais pesados do que o hélio. Sem elementos mais pesados do que o hélio não apareceria a vida. Por causa da vida há genes. Por causa dos genes existe evolução. Por causa da evolução aparecem seres conscientes.

A consciência é um análogo da força da gravidade. Pode gerar um buraco negro de narcisismo e delírio. Pode explodir o egoísmo, espalhando elementos de inteligência, coragem e liberdade.

Da asfixia putinista

«Porém, e desde sempre, a minha tese (se é que me permitem ter uma) é esta: com excepção de Macron, ninguém, entre os países ocidentais, tentou seriamente evitar a guerra ou pôr-lhe termo, uma vez iniciada. Neste momento, é verdade que Putin já não parece nada interessado num acordo de paz, embriagado pelo sinistro grito de “viva la muerte!” já deixou de pensar como alguém razoável ou mesmo humano. Mas houve momentos antes em que isso pareceu possível e em que ninguém no Ocidente se mostrou disponível para ajudar.»


Miguel Sousa Tavares – “Para acabar de vez com este sufoco”

Este amigo, que foi um dos que andou a gozar com os avisos americanos sobre a invasão iminente, chegou encostado às tábuas ao quinquagésimo dia da destruição e carnificina na Ucrânia a mando de Putin. Aquilo que enviou para o Expresso desta semana é o patareco “segurem-no senão vou-me a ele” de quem está embrutecido pela ofuscante realidade: escolheu mal a trincheira e depois não teve coragem de assumir o erro, acabando a fazer das vítimas e de quem as apoia e protege o seu principal adversário. Em abono da verdade, não é caso isolado, há uma epidemia de putinismo que está a ser letal para o prestígio de muitos que muito estimávamos para lá das diferenças ideológicas.

O putinismo é o delírio à solta e nó cego na lógica que a citação acima ilustra. O homem imagina-se possuidor do conhecimento suficiente acerca dos neurónios de Putin para garantir que a invasão podia ter sido evitada, bastando-lhe ver uns quantos noticiários depois de um jantar bem regado para se tornar omnisciente acerca do que se passa no Kremlin. Ele topou que Putin queria a paz, que a paz era tão fácil de manter ou de obter, e que são os malvados “ocidentais” quem se deve culpar pelas ordens dadas ao exército russo. É ainda a repetição do que pensava antes da invasão, que ela não iria acontecer, e que seria uma aposta segura encher a pança de riso com os insistentes alertas acerca do regresso da guerra à Europa. O Sousa Tavares filho prefere defender a sua figura de urso numa vexante obsessão consigo próprio à humildade de passar por tolo.

Se, como afiança do fundo da sua calada vergonha, Putin “já deixou de pensar como alguém razoável ou mesmo humano“, estará este articulista em condições de explicar em que data tal fenómeno começou? Se não estiver, poderá ao menos indicar quais foram os “países ocidentais” que deixaram Putin chegar a essa lastimosa condição? Ou talvez ainda melhor, poderá o preclaro MST dizer à malta por que raio os “países ocidentais” resolveram colocar Putin em cima do arsenal nuclear russo?

Eu sei que tu sabes, Miguel. Não deixes que essa alucinação te sufoque, conta-nos tudo.

Infelizmente, a excepção

Como se pode ler neste texto – Lições mal aprendidas 1 – uma visão ortodoxamente marxista não impede que se faça uso da honestidade intelectual (leia-se: da objectividade imune ao sectarismo), expondo-se factos e suas evidências congéneres.

Infelizmente, este exercício é uma excepção porque o sectarismo da esquerda sempre foi um aliado da direita no ataque ao inimigo comum. Por essa razão, o editorialismo pôde e pode repetir à exaustão as balelas que o João Ramos de Almeida desmonta em três pinceladas, visto a direita dominar por completo o espaço mediático sem contraditório (não há editorialismo ligado ao PS). E no comentariado, cenário igual ou pior, com os esquerdalhos cujas afinidades estejam no BE e no PCP a deixarem as deturpações e puras mentiras da pulharia correrem soltas pois sempre contribuem para o desgaste e achincalhamento dos socialistas.

Isto acaba por gerar um fenómeno paradoxal, espelhado na surpreendente maioria absoluta do PS de Costa: direita e esquerda são vítimas da sua força e opressão no espaço público, acabando por se transformarem em desertos teóricos – como refere o autor olhando apenas para a direita. Pelo que podemos imaginar um presente alternativo onde graças a uma esquerda que não permitisse a maníaca chicana e baixa política da direita esta fosse obrigada a escolher líderes que a resgatassem da decadência e a trouxessem de volta à decência e ao bem comum.

Estaríamos todos muito melhor, inclusive para discordar uns com os outros.

Moedas, especialista em diabolizações

Deu que falar a exaltação de Carlos Moedas na reunião plenária da Assembleia Municipal de Lisboa, ocorrida nesta terça-feira. Acima no vídeo, Isabel Pires (BE) começa a falar às 3:45:56 e o presidente da Câmara de Lisboa começa a responder-lhe às 3:55:14. Não existe um nexo directo entre uma coisa e a outra, e nesse desconchavo Moedas expõe-se como a indelével fraude política que é.

A intervenção da deputada bloquista surge meramente técnica, tratando de assuntos correntes da CML próprios a uma sessão da AML. E desenvolve-se como uma intervenção politicamente banal, nisso de ser igual a milhentas doutras e não ter saliente agressividade retórica. Jamais seria notícia sem a reacção absurda – e mesmo arrogante – de quem farejou uma oportunidade para se vitimizar e, acto contínuo, engrandecer. Os direitolas adoraram, porque tudo o que detestam nos políticos rivais é exactamente o mesmo que querem ver nos seus líderes.

Donde, ficamos com este registo para amnésia imediata em que se vê Moedas deleitado a simular indignação, ainda se permitindo fazer um berreiro com a alegação de que os bloquistas andam a “diabolizar” a sua “humilde” pessoa. Isto vem de um tratante que fez campanha para as legislativas e foi ministro representando um partido que usou a mentira, os apelos ao ódio e a diabolização de forma sistemática e obsessiva. É, pois, matéria onde pode opinar com a autoridade de um tarimbado especialista.

Começa a semana com isto

Se só duas ideias, estas: (i) o trauma psicológico (qualquer que seja a causa) é um terramoto nas crenças definidoras da nossa identidade, o que nos leva a perder o sentido da vida e a entrar em profunda (por vezes letal) crise; (ii) para sairmos desse poço de paredes lisas e areias movediças, quem conseguir imaginar um futuro melhor vai salvar-se.

Revolution through evolution

Orgasm Gap Impacts How Much Women Want One, Rutgers Study Finds​
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Women seen as happy and men as angry despite real emotions
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People wrongly believe their friends will protect them from COVID-19
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People around the world like the same kinds of smell
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Millionaires more risk-tolerant and emotionally stable
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What came before the Big Bang? UB physicist’s new popular science book explains one leading theory
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Good News: People Can Recover and Thrive After Mental Illness and Substance-Use Disorders
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Dominguice

O Mundo estaria mais seguro sem armas nucleares? Não. Mata-se com uma pedra, duas mãos, três cogumelos. Para quem morre, é indiferente o meio utilizado. E pode-se admitir que para o Planeta, tendo em conta os próximos cinco mil milhões de anos disponíveis para gasto da Natureza local até o Sol rebentar, seja igualmente irrelevante que a Humanidade se extinga num apocalipse nuclear. Não é só a brevidade ridícula desta Civilização face aos calendários cósmicos que nos humilha, é também o número prodigioso de planetas à disposição da evolução da vida, da consciência e da inteligência.

O que torna o Mundo mais seguro é a lucidez implacável.