Arquivo da Categoria: Valupi

Dominguice

O que vemos do mundo é um fragmento. Esse fragmento está em devir, condenado a desaparecer no instante mesmo em que aparece. Mas quem testemunha o fragmento destinado ao desaparecimento é também apenas e só um fragmento de si próprio. Não sabe de onde veio, para onde vai, porque devém aqui e agora. As profundezas caóticas de nós próprios são-nos inacessíveis, fatalmente fantasiadas com histórias e delírios, som e fúria.

Os deuses choram de inveja desta liberdade, desta alegria.

Sem o Zelensky era tudo mais fácil

«No mesmo dia 9 de Maio, Zelensky resolveu responder à parada da Praça Vermelha desfilando sozinho numa das principais avenidas de Kiev. A cena foi patética: vestido com o habitual uniforme militar, o herói de nenhuma batalha travada, o Churchill da Ucrânia, pop star de todos os Parlamentos e descrito como um génio da comunicação, dizia a Putin que em breve iria ter dois dias da vitória para celebrar contra nenhum do russo. Há um mês, Zelensky desdobrava-se em ofertas de negociações, dizia já ter abdicado da Crimeia e da NATO e acusava o Ocidente de estar a prolongar a guerra à custa da destruição da Ucrânia. Hoje mudou radicalmente: diz que não cederá nem um centímetro de território, que está a lutar contra nazis e que só a vitória lhe interessa. O que mudou, entretanto, foi que a NATO o convenceu de que, com o apoio que não lhe faltaria, ele iria derrotar os russos e entrar para a História como o homem que venceu o Exército Vermelho, mesmo que à custa da destruição da Ucrânia.»


Os bem informados

Prefere ser cúmplice de racistas, xenófobos e salazaristas

«O candidato à liderança do PSD Luís Montenegro promete não descaracterizar o partido ou ultrapassar “linhas nucleares” em relação ao Chega, mas avisa que não será “cúmplice da perpetuação do PS no poder”.

Na proposta de estratégia global entregue esta quinta-feira na sede nacional, intitulada “Acreditar”, o antigo líder parlamentar do PSD refere-se expressamente ao partido Chega no capítulo dedicado ao posicionamento político do PSD.

“Nesse trabalho, de ampliação da nossa base eleitoral, nunca ultrapassaremos as linhas nucleares dos nossos valores e princípios. Mas não contem connosco para distrair o PSD com discussões estéreis a propósito de um imaginário e extemporâneo diálogo com partidos como o Chega. Fazê-lo é fazer um frete ao PS”, afirmou, na única passagem da moção de 66 páginas em que se refere expressamente ao partido liderado por André Ventura.»


Montenegro sobre Chega: “Não vou ser cúmplice da perpetuação do PS no poder”

Negociações à moda de Estaline

Porquê dar importância ao que na Soeiro Pereira Gomes se vai pensando e dizendo acerca da invasão da Ucrânia pela Rússia? Por duas principais razões: (i) o PCP é um partido que já contribuiu e pode (potencialmente) continuar a contribuir para a qualidade da democracia e (ii) porque qualquer manifestação de fanatismo por um partido com representação parlamentar deve ser criticada e combatida.

Neste comunicado – Nos 77 anos da Vitória sobre o Nazi-fascismo – Pela Paz! Não à escalada de confrontação! Não à guerra! – tropeçamos em 15 parágrafos que narram o (quase solitário) triunfo da União Soviética contra os nazis, os quais (ficamos a saber) tinham sido apoiados pelo Reino Unido, França e Estados Unidos da América em ordem a que acontecesse o “ascenso do fascismo, que os grandes grupos económicos e financeiros viam como um instrumento para levar mais longe a sua política de exploração, opressão e domínio.” e também para que Hitler acabasse com a URSS, garante o PCP. 77 anos depois, os comunistas portugueses olham para a Ucrânia e vêem a repetição da História: eis os capitalistas-fascistas ocidentais a apoiar os nazis ucranianos com vista a conseguir destruir a Rússia, a qual tem então de se defender recorrendo a uma “intervenção militar” preventiva em nome da luta contra o imperialismo.

Obviamente, é inútil tentar discutir com quem exibe este grau de delírio. O interesse está antes em aprendermos como pensam os actuais dirigentes do PCP. E eles pensam, e proclamam, que as democracias que ajudem a Ucrânia a defender-se do invasor e a cuidar da sua população massacrada, oprimida e em fuga são – exactamente por isso – entidades que devem ser catalogadas como “nazi-fascistas“. Daí, apesar de não gramarem o Putin, ficarem de peito cheio ao lado do agressor da soberania ucraniana pois a sua violência destrutiva e inumana está dirigida contra o inimigo comum, o “imperialismo“. Os fins a justificarem os meios, portanto.

O PCP não perde uma caloria a lamentar que a Rússia de Putin não tenha optado por negociações e apelos à paz em vez de ter começado os bombardeamentos e mandado avançar os tanques. Pelos vistos, compreende e aceita que Moscovo tenha cagado d’alto nos “princípios da Carta das Nações Unidas e da Acta Final da Conferência de Helsínquia“, coisa só para ocidental cumprir. E agora, já que os russos estão lá dentro, o PCP faz claque para que a malta aceite o facto consumado e ofereça o que der na gana de Putin reclamar. São as “negociações” à moda de Estaline, um dos bravos que manteve uma parte do Mundo a salvo do “imperialismo“.

Como seria um Governo português só com ministros deste PCP? Quantas horas levariam, após a tomada de posse, a ameaçar os “nazi-fascistas” da União Europeia e dos EUA com “intervenções militares” preventivas em nome da “cooperação e amizade entre todos os povos do mundo“?

Linchamento de regime

«Igualmente indiciado está, para o Tribunal da Relação de Lisboa, que foi por solicitação de Carlos Alexandre que Maria Teresa Santos fora transferida para o "Ticão", por ter mais experiência e não por, como alega José Sócrates, ser "próxima" daquele juiz.

Para Jorge Antunes, nada mais ficou indiciado, incluindo uma "atuação dolosa" e o alegado"conluio" entre os arguidos com "a intenção de prejudicar" o antigo primeiro-ministro. "A versão do assistente [José Sócrates] não se mostra minimamente fundada, sendo aliás incongruente e inconciliável [com o que foi apurado]", acrescentou o magistrado.

O juiz desembargador decidiu, por isso, não mandar Carlos Alexandre e Maria Teresa Santos para um julgamento, que, no seu entender, só poderia culminar numa "absolvição". "Perante o acervo probatório recolhido, não é de todo provável que o tribunal de julgamento se convença, para além de toda a dúvida razoável, dos factos imputados pelo assistente aos arguidos", concluiu Jorge Antunes.»

Tribunal rejeita pedido de Sócrates para Carlos Alexandre ser julgado

Para este juiz, Jorge Antunes, é irrazoável admitir que pudesse existir em Carlos Alexandre uma “intenção de prejudicar” José Sócrates, mesmo apesar de ser factual, extenso, profundo e ostensivo o real prejuízo causado por Carlos Alexandre a José Sócrates, assim violando o seu dever, a deontologia e o Estado de direito.

Já com Sócrates, todo o sistema judicial, todo o sistema político e toda a comunidade considera razoável a violação dos seu direitos e a sua condenação na praça pública por corrupção quando ninguém de ninguém é capaz de provar o mínimo acto de corrupção.

O silêncio de chumbo que se impõe na comunicação social sobre esta parte da Operação Marquês, em que se expõe um dos mecanismos pelos quais a Justiça foi fonte de injustiça, inscreve na História que se fez de Sócrates o alvo de um linchamento de regime.

Revolution through evolution

This kind of flirting works best
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Higher Antioxidant Levels Linked to Lower Dementia Risk
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Cutting calories and eating at the right time of day leads to longer life in mice
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Researchers’ tools show who is most easily duped by “financial bullshit”
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Skeptics of welfare schemes don’t increase with more immigrants
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There’s a reason why aliens haven’t visited Earth yet, say scientists
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Putin’s invasion miscalculation could result in a coup
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Dominguice

A escola ensina-nos a ser inteligentes? A família ensina-nos a ser inteligentes? As empresas ensinam os trabalhadores a serem inteligentes? Não, não e não, apesar do sim, sim e sim. Sim, porque qualquer forma de socialização é ao mesmo tempo um processo de aquisição de informação e treino de comportamentos adaptativos, factores que aprofundam e aumentam a inteligência. Mas não porque a inteligência não equivale exactamente ao acrescento de informação e à adaptação a um qualquer meio. Informação errada não gera conhecimentos válidos, por exemplo. Informação correcta não gera conhecimentos aplicáveis, sem método. E conseguirmo-nos adaptar a um meio racista, xenófobo e fanático implica a destruição da inteligência própria.

O que nos ensina a ser inteligentes é a inteligência – ou seja, a consciência da nossa insidiosa e tirânica ignorância.

Beliscões

«“De repente, passamos a viver em troika?” A pergunta é do Presidente da República, foi proferida esta semana, em conversa com jornalistas no Palácio de Belém, e não saiu por acaso. Depois de ter aproveitado a guerra na Europa para assumir, como Chefe Supremo das Forças Armadas, as dores do sector da Defesa que há muito se arrastam e que escolheu para tema único no 25 de Abril, Marcelo Rebelo de Sousa sabe que a frase que libertou a propósito das promoções dos militares não só se ajusta como uma luva a outros sectores da Administração Pública como belisca o Governo de António Costa, que anda há semanas a fugir da palavra “austeridade”.»

Ângela Silva

Temos um Presidente da República que recorre a jornalistas para “beliscar” o Governo de António Costa, garante uma consagrada especialista nessa mesmíssima função: servir de altifalante para os beliscões, empurrões, caneladas, sopapos, cabeçadas e/ou apalpões de qualquer direitola que ocupe o Palácio de Belém.

Deve ser uma vida santa esta que a Ângela leva. Vai ao chá com bolachinhas na Casa Civil e despacha os recados marcelistas em 20 minutos (ou menos) a teclar. Depois, no resto do tempo livre, pode usufruir do circuito artístico da Velha Lísbia e descontrair da feérica profissão de “jornalista” nas esplanadas da Marginal. Enquanto não a chamam de volta ao chá com bolachinhas para mais uma encomenda, coitada.

Belisco-me de inveja.

Revolution through evolution

Study finds that males are represented four times more than females in literature
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How your breath could reveal your sexual attraction
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Study shows sharing behavior among young children may be related to their counting skills
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Seven hours of sleep is optimal in middle and old age, say researchers
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Being in nature: Good for mind, body and nutrition
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Home sweet home: Pet cats rarely stray far
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Educate to Indoctrinate: Education Systems Were First Designed to Suppress Dissent
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Dominguice

Nenhum de nós saberá o que é ter o poder de acabar com as vidas de milhares de pessoas, de um dia para o outro. Milhares? Podem ser imprevisíveis milhões. Dos outros, dos seus. E de caminho destruir cidades, sistemas de protecção e cuidado das populações, obras de arte, partes da cultura humana e suas memórias. Nenhum de nós se irá deitar, e conseguir dormir, na véspera de tomar tal decisão.

A banalidade protege-nos do grau último da desumanização.

O eterno retorno de Sócrates

«Já se esqueceram do que aconteceu ao aumento salarial de 2,9% decretado pelo governo de José Sócrates em 2009? Resultou em cortes salariais de 3,5 a 10% dois anos depois. Quem tudo quer tudo perde. Seria de esperar que as diferentes corporações e as pessoas que delas fazem parte tivessem memória, mesmo que a memória seja curta, não há como ter esquecido o que aconteceu no início desta década.»


Paulo Baldaia, 2017

«Lembram-se no que deram os aumentos de 2,9% do governo socialista de José Sócrates em 2009? Cortes progressivos em 2011, que iam dos 3,5% aos 10%.»


Paulo Baldaia, 2022

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Os funcionários e os públicos
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Esta coisa sumarenta

No Eixo do Mal da semana passada voltou a falar-se de Sócrates. Digo “voltou” não por ser raro falar-se de Sócrates nesse programa mas porque ele esteve ausente num período recente. Período onde na comunicação social quase toda (sobram dedos numa só mão para as excepções televisivas) se aplicou censura editorial absoluta sobre Sócrates e o motivo pelo qual ele fazia parte da actualidade política e judicial. Nessa altura, o Eixo do Mal alinhou com o ostracismo e ninguém por lá soltou meia vogal acerca de um ex-primeiro-ministro que acusa um juiz de ter feito aquela que, a ser provada, seria a mais grave violação do Estado de direito em Portugal de sempre dada a autoria (um juiz, e logo aquele) e a importância, dimensão e consequências da Operação Marquês. É que o assunto não dá para rir nem para continuar o linchamento, percebe-se. A pulharia está calada à espera que outros juízes arquivem e enterrem a pequena chatice para voltarem a pegar nos archotes e nas forquilhas.

Mas na semana passada, sim, risota solta e muita pilhéria gostosa, feliz. Aurélio Gomes, exalando jovialidade, lançou o número: “Bom, deixei para o fim esta coisa sumarenta: Sócrates-Costa. Luís Pedro Nunes…“. A coisa sumarenta foi espremida pelo bronco com a usual bronquite crónica que o ódio de estimação lhe desperta, e até o Pedro Marques Lopes se juntou à festa para tornar ainda mais lamentável a cena. O lamento não vem de se gozar com Sócrates, de o procurar ridicularizar, insultar, ofender, humilhar. Essa agressividade automática nos comentadores, e essa violência já sedimentada como cultura mediática, são forças incontroláveis, sistémicas. Não, pá, fogo à peça. O que fica a pairar como odor nauseabundo é assistirmos a Aurélio Gomes e Pedro Marques Lopes a deixarem-se nivelar pelo deboche infantilóide e inane do Luís Pedro Nunes quando os mesmos alinharam no interdito a respeito de Carlos Alexandre ter sido constituído arguido por suspeita de crimes de abuso de poder, falsificação de funcionário e denegação de justiça. Pura e simplesmente, não é possível dar qualquer justificação lógica para o seu silêncio a não ser a de se recusarem a falar em público do assunto.

E porquê? Vou especular e vou acertar. O editorialismo e o comentariado calaram-se a respeito da acusação de Sócrates a Carlos Alexandre porque estamos perante a explicação mais simples – portanto, mais verosímil, Ockham dixit – para radiografar os acontecimentos suspeitos. Não se tratando da Operação Marquês, aquilo que o próprio Conselho Superior da Magistratura já reconheceu terem sido indesmentíveis ilegalidades na atribuição do processo a Carlos Alexandre teria imediatamente gerado um escândalo homérico num qualquer outro caso. O que se sabe sobre tal, materialmente estabelecido, é mil vezes mais factual do que qualquer suspeita de corrupção que tenha Sócrates como alvo, e isto depois da reunião de 14 milhões de ficheiros informáticos na investigação ao engenheiro. Daqui vem uma evidência: se porventura se levasse a julgamento Carlos Alexandre, e mesmo na hipótese de não ser condenado, tal seria suficiente para estabelecer a Operação Marquês como uma golpada política. As razões para tal estão inscritas na biografia do Calex, como obsceno e ostensivo cúmplice de um Ministério Público que pretende violar os direitos e garantias dos arguidos sempre que lhe convenha. E foram confirmadas por Ivo Rosa, ao ter detalhado e explicitado a farsa que lhe foi parar às mãos. Donde, quando Joana Marques Vidal aceitou avançar para a detenção de Sócrates – sem possuir prova alguma de corrupção e na urgência de queimar Costa que acabava de substituir Seguro e partia para um ano eleitoral – precisava de ter um “super juiz”, estrela-mor do justicialismo e da indústria da calúnia, que garantisse o domínio completo da narrativa de culpabilidade e aceitasse oprimir, assustar, devassar e castigar os arguidos de forma maximalista. E isso, precisamente, foi feito logo a partir do espectáculo no aeroporto para assim fazer desaparecer do espaço público – e do ecossistema judicial – qualquer presunção de inocência.

Está à vista de todos, todos sabem que a Operação Marquês foi um circo de indignidades e abusos de poder, de crimes cometidos por magistrados. E todos aceitam que assim seja e assim fique. Há que salgar (pun intended) o solo do auto-de-fé. A alternativa é impossível, pôr no banco dos réus a Justiça, o sistema político, o regime, a comunidade miserável que somos. Esta coisa sumarenta.