No Eixo do Mal da semana passada voltou a falar-se de Sócrates. Digo “voltou” não por ser raro falar-se de Sócrates nesse programa mas porque ele esteve ausente num período recente. Período onde na comunicação social quase toda (sobram dedos numa só mão para as excepções televisivas) se aplicou censura editorial absoluta sobre Sócrates e o motivo pelo qual ele fazia parte da actualidade política e judicial. Nessa altura, o Eixo do Mal alinhou com o ostracismo e ninguém por lá soltou meia vogal acerca de um ex-primeiro-ministro que acusa um juiz de ter feito aquela que, a ser provada, seria a mais grave violação do Estado de direito em Portugal de sempre dada a autoria (um juiz, e logo aquele) e a importância, dimensão e consequências da Operação Marquês. É que o assunto não dá para rir nem para continuar o linchamento, percebe-se. A pulharia está calada à espera que outros juízes arquivem e enterrem a pequena chatice para voltarem a pegar nos archotes e nas forquilhas.
Mas na semana passada, sim, risota solta e muita pilhéria gostosa, feliz. Aurélio Gomes, exalando jovialidade, lançou o número: “Bom, deixei para o fim esta coisa sumarenta: Sócrates-Costa. Luís Pedro Nunes…“. A coisa sumarenta foi espremida pelo bronco com a usual bronquite crónica que o ódio de estimação lhe desperta, e até o Pedro Marques Lopes se juntou à festa para tornar ainda mais lamentável a cena. O lamento não vem de se gozar com Sócrates, de o procurar ridicularizar, insultar, ofender, humilhar. Essa agressividade automática nos comentadores, e essa violência já sedimentada como cultura mediática, são forças incontroláveis, sistémicas. Não, pá, fogo à peça. O que fica a pairar como odor nauseabundo é assistirmos a Aurélio Gomes e Pedro Marques Lopes a deixarem-se nivelar pelo deboche infantilóide e inane do Luís Pedro Nunes quando os mesmos alinharam no interdito a respeito de Carlos Alexandre ter sido constituído arguido por suspeita de crimes de abuso de poder, falsificação de funcionário e denegação de justiça. Pura e simplesmente, não é possível dar qualquer justificação lógica para o seu silêncio a não ser a de se recusarem a falar em público do assunto.
E porquê? Vou especular e vou acertar. O editorialismo e o comentariado calaram-se a respeito da acusação de Sócrates a Carlos Alexandre porque estamos perante a explicação mais simples – portanto, mais verosímil, Ockham dixit – para radiografar os acontecimentos suspeitos. Não se tratando da Operação Marquês, aquilo que o próprio Conselho Superior da Magistratura já reconheceu terem sido indesmentíveis ilegalidades na atribuição do processo a Carlos Alexandre teria imediatamente gerado um escândalo homérico num qualquer outro caso. O que se sabe sobre tal, materialmente estabelecido, é mil vezes mais factual do que qualquer suspeita de corrupção que tenha Sócrates como alvo, e isto depois da reunião de 14 milhões de ficheiros informáticos na investigação ao engenheiro. Daqui vem uma evidência: se porventura se levasse a julgamento Carlos Alexandre, e mesmo na hipótese de não ser condenado, tal seria suficiente para estabelecer a Operação Marquês como uma golpada política. As razões para tal estão inscritas na biografia do Calex, como obsceno e ostensivo cúmplice de um Ministério Público que pretende violar os direitos e garantias dos arguidos sempre que lhe convenha. E foram confirmadas por Ivo Rosa, ao ter detalhado e explicitado a farsa que lhe foi parar às mãos. Donde, quando Joana Marques Vidal aceitou avançar para a detenção de Sócrates – sem possuir prova alguma de corrupção e na urgência de queimar Costa que acabava de substituir Seguro e partia para um ano eleitoral – precisava de ter um “super juiz”, estrela-mor do justicialismo e da indústria da calúnia, que garantisse o domínio completo da narrativa de culpabilidade e aceitasse oprimir, assustar, devassar e castigar os arguidos de forma maximalista. E isso, precisamente, foi feito logo a partir do espectáculo no aeroporto para assim fazer desaparecer do espaço público – e do ecossistema judicial – qualquer presunção de inocência.
Está à vista de todos, todos sabem que a Operação Marquês foi um circo de indignidades e abusos de poder, de crimes cometidos por magistrados. E todos aceitam que assim seja e assim fique. Há que salgar (pun intended) o solo do auto-de-fé. A alternativa é impossível, pôr no banco dos réus a Justiça, o sistema político, o regime, a comunidade miserável que somos. Esta coisa sumarenta.