Os funcionários e os públicos

«É uma remodelação eleitoralista a par de um orçamento eleitoralista? Talvez, mas é preciso olhar o momento. Não creio que alguém esteja preparado para comparar o que conhecemos hoje e o que vai ser apresentado amanhã com o aumento de 2,9% que José Sócrates ofereceu aos funcionários públicos em 2009, numa altura em que o mundo colapsava à nossa volta.»


Paulo Tavares

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Tenho uma boa impressão do Paulo Tavares graças ao seu papel no “Bloco Central” da TSF ao longo de muitos e bons anos – e vou lutar desalmadamente para a manter tal a carência de jornalistas decentes em Portugal. Todavia, quando passou para o DN, achando que tinha de opinar sobre o que os outros andam a opinar, começou a borrar a pintura porque se tornou mais um a contribuir para o sectarismo e o berreiro. Isso surpreendeu-me, mesmo se o seu caso não é o mais chocante no grupo de jornalistas que transita entre a TSF e o DN. Surpreendeu-me porque não entendo o que leva alguém que parece não ter sido obrigado a ser jornalista para ganhar o pão a passar por mentiroso ou estúpido.

Estamos em Outubro de 2018. Este amigo vai para o teclado largar sentenças em modo displicente e soberbo sobre ministros que saem e que entram. Tudo bem, é lá com ele e com quem lhe paga. No final da prosa, recua 10 anos e tira Sócrates da cartola. Porquê, foda-se caralho? Por ser mentiroso? Por ser estúpido?

Em 2008, ano em que o Governo propôs esse aumento de 2,9% para os funcionários públicos, diz-nos este amigo que “o mundo colapsava à nossa volta“. Ai, colapsava? Era mesmo assim? Acontece que o Governo previa um défice de 2,2% para esse ano em que o rating da República portuguesa estava no máximo e a dívida pública era de 68% do PIB. Mais: com uma previsão de 2,5% para a inflação em 2009, o aumento dos funcionários públicos seria só de 0,4% face ao custo de vida. Função Pública essa que estava desde 2000 a perder poder de compra e que tinha visto esse mesmo Governo congelar as carreiras dos funcionários públicos logo após ter tomado posse em 2005. Se, porém, ao usar a imagem do mundo a colapsar o jornalista se refere ao Lehman Brothers e consequências internacionais da sua falência, será que ignora ter sido opção dos Governos afectados, a começar pelos EUA e UE, a urgente recapitalização da economia? Ou seja, a partir de Setembro de 2008 e até à crise grega em Janeiro de 2010, a estratégia europeia para impedir que uma recessão mundial se transformasse numa nova depressão mundial foi a de gastar dinheiro para manter os bancos, os empregos, a produção, as trocas comerciais, o nível de vida e a segurança de centenas de milhões de pessoas que tinham ficado na corda bamba.

Sim, o mundo colapsou à nossa volta. Bem verdade, pá. Só que não foi em 2009, muito menos por causa do aumento fajuto dos funcionários públicos. Foi a partir dos idos de Março de 2011. Foi por causa de certos funcionários de certos públicos.

6 thoughts on “Os funcionários e os públicos”

  1. A verdade é só uma e ainda andam todos sem saber o que fazer ou dizer. Vai daí passaram as últimas horas ou a dizer coisas ou a dizer merda. A verdade é que António Costa volta a apanhá-los todos com as calças na mão. A verdade é que ninguém julgava possível uma remodelação deste calibre sem ninguém sonhar nos dias de hoje. E dói muito. Com uma agenda tão boa…

  2. ainda está para aparecer o momento mais eleitoralista que aquela cena do simulador de devolução da sobretaxa do irs inventada pelo mito urbano de massamá e alimentatada com pilhas marilú. vergonha na cara é cena que não lhes assiste.

  3. Onde estão os posicionamentos de Paulo Tavares, e de todos os que zurzem em JS, em 2009, contra os aumentos dos funcionários públicos?

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