Arquivo da Categoria: Valupi

Joelho

Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho

Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio

Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo

Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo


Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo

E os lençóis desalinhados
como se fosse
de vento

Volto então ao teu
joelho
entreabrindo-te as pernas

Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas.

Maria Teresa Horta

Discursologia

A discursologia é uma área de estudos que acabo de inventar para ajudar os portugueses a lidar melhor com os discursos presidenciais de Ano Novo. Está em causa conseguir identificar padrões, enunciar leis e reduzir a ambiguidade na interpretação desses objectos oratórios tão estranhos.

Comecemos com um exercício: em que ano, e por que Presidente, terá sido comunicada ao País esta curial reflexão?


[…]
Portugueses,

No início de um ano tão importante para nós, quero dizer-vos que devemos empenhadamente reforçar a coesão e a unidade nacional, sem o que tudo se tornaria mais frágil, precário e difícil. Não percamos a consciência de que quaisquer que sejam as legítimas divergências de pontos de vista ou os conflitos de interesses, o que nos une é sempre mais importante do que aquilo que nos divide. O que nos une faz de nós uma comunidade sólida e em movimento, herdeira de uma história e de uma cultura de que nos orgulhamos, portadora de valores comuns e segura da sua identidade, possuidora da vontade firme de construir um futuro melhor para todos os portugueses.

Temos razões para acreditar que vamos vencer os desafios, por mais complexos que se apresentem. A nossa história recente mostra que, por entre dificuldades e riscos, conseguimos consolidar e aperfeiçoar a democracia, desenvolver e modernizar o País, dinamizar a sociedade e a iniciativa individual. Nada autoriza, por isso, o pessimismo e a lamúria ou que cultivemos uma imagem negativa de nós próprios. Já Fernando Pessoa advertia para esse perigo, quando escreveu: «Uma nação que habitualmente pensa mal de si mesma, acabará por merecer o conceito de si que anteformou. Envenena-se mentalmente. O primeiro passo para uma regeneração, económica ou outra, de Portugal é criarmos um estado de espírito de confiança — mais, de certeza — nessa regeneração.»

Saibamos, pois, conciliar o saudável e necessário exame crítico do que está mal com a vontade optimista de fazer melhor e de vencer num mundo cada vez mais aberto e competitivo.
[…]

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You 2.0

Se um psiquiatra diz para confiares nos químicos, um psicólogo dirá para confiares em ti. Ambos estão certos, embora isso não garanta que acertem. Entretanto, passa aqui um bocadinho.

Entrada:
You may feel bound to your timid demeanor, your stifling job, or your rancorous relationship, but there is one realm over which you unquestionably have control: your own head. Herein, five principles of change to turn you into a self-starter.

Receitas:
You or Your World?

Overcome Your Fear of Failure

Embrace Risk and Novelty

Create a New Internal Vision

Expect (and Enjoy) Discomfort

Tempo previsto para a consulta:
10 a 15 minutos

Benefícios:
Diz-me tu.

Adler, Masoch, Homero

Ricardo Costa foi acintoso na entrevista a Sócrates. O cúmulo, de vários exemplos, e exemplo especialmente imbecil, foi quando lhe disse O banco é seu, referindo-se ao BPN. Não fazendo a menor das mais pequenas ideias de como seja a sua relação pessoal, estou à vontadex para especular. Imagino-os íntimos. Amigos de farra, de bebedeiras, de confidências. Percursos brilhantes, no topo das carreiras, estilos de vida sofisticados, conforto e segurança vindos do conúbio com o poder político e económico. O mano Costa braço-direito de Sócrates, e o mais seguro sucessor para a chefia do PS aquando do inevitável salto do actual líder. Impecável e fodido: como simular a isenção, visto esta ser impossível? Talvez através da simetria: se gostam um do outro, vão tratar-se mal, para telespectador ver, na exacta medida da proximidade. Foi essa a escolha do Ricardo, a qual recebeu de Sócrates uma atitude de santa paciência, tolerância e até cumplicidade divertida. Mas o Ricardo tem outro problema: o excesso de informação, e as dinâmicas familiares, criaram-lhe um complexo de inferioridade. No fundo, inveja o mano e sabe que não tem o seu peso, literal e figuradamente, nem virá a ter. Resultado? Passa o tempo todo a pôr-se em bicos dos pés. O modo como o faz é através das previsões. O Ricardo está convencido de que consegue adivinhar o futuro com maior acerto do que aqueles que o rodeiam, e tem um especial prazer em anunciar essa sua putativa capacidade. Terá isso algum mal? Não. Terá isso algum interesse? Não.

Ver os actuais directores do Público e do Expresso a falarem sobre Sócrates é penoso. Mas vê-los juntos, seja qual for o assunto abordado, é perigoso. O perigo é o de acabar por aceitar tamanho sofrimento. Porque há um conflito insanável entre a importância histórica desses dois jornais e a inenarrável miséria intelectual e política dos seus directores, a qual condiciona fatalmente a qualidade do jornalismo praticado pelas equipas. Que se passará com Balsemão e Belmiro? Será a idade, a casmurrice de fim do caminho? Ou haverá um prazer secreto em sentir a dor da crescente decadência?

Augusto Santos Silva é o maior. Esteve só contra todos e terminou fresco como se tivesse acabado de sair do banho. Portugueses como ele são raros; tão raros como aqueles que aprenderam a fazer política – ou a amar, que é o mesmo – com a Ilíada.

Clube das bolinhas

A partir de hoje, este blogue entra no clube dos que atingiram 1 milhão de visitas (atenção: contadas pelo Sitemeter). Tal deve-se a dois factores: ao extraordinário elenco de autores que por aqui passaram desde Novembro de 2005, onde se incluem algumas das maiores vedetas da blogosfera, e à atípica resistência ao efeito dissolvente das forças centrífugas, comuns num blogue colectivo.

Influenciado pela repto presidencial de Ano Novo para que se fale verdade, devo explicar que este milhão terá 90% de registos que não correspondem a leitores, apenas a buscas de toca e foge à procura de imagens e palavras. Sobram 100.000 visitas para 3 anos e 2 meses, e estou a ser generoso. Média de 33 mil por ano. Ou seja, pouco mais de 2700 por mês. Isto é, à volta de 80 pessoas por dia. Vamos ainda admitir que alguns utilizam o computador de casa e o do emprego, duplicando o seu registo de visita, e restam 40. Ou menos.

Sim, apertando as bolinhas, ficam 20 amigos que se encontram nesta tertúlia diariamente. Obrigadinho Al Gore.

Trânsitos solares

Interrogações que transitam de 2008 para 2009:

– Aquilo no BCP, quem é que roubou o quê a quem e quanto?
– António Marta continua incomunicável?
– Tirando Cavaco Silva, haverá algum português que tenha acreditado nas declarações do Dias Loureiro?
– Quem foram, afinal, os deputados do PSD que se baldaram à votação e que raspanete Ferreira Leite terá passado aos miúdos?
– Se Carlos Cruz for condenado por pedofilia continuará a aparecer na RTP Memória?
– Pinto da Costa é mesmo mais forte do que o Ministério Público?
Quo vadis Paulo Portas?
– Sem o Louçã, quantos minutos demora até o BE desaparecer em guerra civil?
– Se um militante do PCP entrar numa floresta, e ficar por lá até ter a certeza de não haver ninguém por perto, continuará a acreditar no comunismo?
– Há algum político português que consiga fazer-se respeitar pelo Jardim?
– As casas dadas pela Câmara Municipal de Lisboa, ao longo de décadas, para pagar favores políticos e pessoais vão permanecer com os beneficiários?
– A corrupção que grassa nas autarquias, seja nas licenças de construção ou nos concursos de admissão de pessoal, vai continuar impune e desavergonhada?
– Será que há alguém na TVI que convença alguém da TVI a nunca mais, mas nunca mais, convencer o Eduardo Moniz a entrar em brincadeiras promocionais da Gala de Natal?
– Apesar da merda toda que tem feito com disciplina e afinco, irá o Bento papar o título e ainda ficar a pensar que teve sempre razão?
– Assistiremos ao merecido despedimento de Scolari antes de acabar a sua primeira época no Chelsea?
– Quando é que veremos um preto retinto a singrar num qualquer cargo de responsabilidade na política portuguesa, ou na administração pública, ou no empresariado, ou na investigação?

Ir a votos

Votos de um 2009 com saúde, alegria e o dinheiro suficiente para serem clientes regulares da FNAC e da AMAZON, são os meus desejos para todos os que aqui passam. Especial saudação para os nossos amigos Nik, Z, ramalho santos, Marco Alberto Alves, M, Aires, zazie, claudia e MFerrer. (se esqueci alguma mensagem, mereço o inferno)

Votos para 3 eleições: europeias, legislativas e autárquicas. Vai ser um ano muito rápido, animado, divertido. Os milhões de portugueses que odeiam Sócrates poderão tirar a barriga de misérias e cascar forte e feio nesse tirano, correr com ele sem piedade. O meu desejo é o de que essas pessoas não falhem nenhuma das eleições, que se envolvam nas campanhas, conheçam os programas dos partidos, interessem-se pelas biografias e ideias dos candidatos e tentem convencer aqueles à sua volta da importância de ir votar. Também alimento a fantasia de Sócrates não se recandidatar e deixar o lugar vago no próximo congresso. Adoraria ver o PS entregue ao Alegre e ao Seguro, rodeados pela Ferreira Leite, Jerónimo de Sousa, Francisco Louçã e Paulo Portas. Que despautério, que alucinação. Que circo.

Votos de que a democracia seja cada vez mais, e para mais, uma paixão e um destino. Está na altura de adaptar o celebérrimo dito de Churchill ao século XXI: A democracia é a melhor forma de governo, apesar de todas as outras que possam vir a ser testadas de tempos a tempos. Os elitistas servem-se da democracia, não a promovem nem protegem. Simulam desavenças entre si só para manterem secretos os mecanismos da repartição dos bens públicos, por isso não há renovação na classe política desde os anos 80. As mesmas caras rodam pelas mesmas cadeiras, é uma perfeita oligarquia que apenas altera os elencos pela morte, doença ou quezília pessoal insanável entre os artistas. Não há escândalos que tenham consequências, é um fartar vilanagem perante a monstruosa ineficácia da Justiça. Quem ama a democracia são os aristocratas. Estes podem ter estudos ou apenas instrução, mas comungam da mesma cultura e querem a mesma civilização. Eles sabem que a democracia é o mais difícil dos regimes porque é aquele onde a confiança tem maior valor. Os democratas confiam na inteligência alheia e seguem uma aritmética básica: aumentando o número de indivíduos inteligentes, aumenta a inteligência da comunidade. Essa inteligência que faz da ética a sua casa, e da coragem o seu caminho. É por isso que a democracia é o regime que depende dos aristocratas para poder nascer e crescer – porque um aristocrata é aquele cidadão que dá o melhor de si para ajudar qualquer outro a ser melhor.

Vamos a eles.

Melhor de 2008

Apareceu no Verão esta maravilha recolhida directamente de vacas alimentadas exclusivamente com chocolate belga (verdade verdadinha). Todos os dias começo o dia a virar de penalti um quarto no quarto. Agora é só esperar que apareça a versão chocolate preto, com mais cacau e menos açúcar. Se vier, Portugal fica na vanguarda da civilização (e cá com um vigor, ó pá…).

Pior de 2008

Pacheco Pereira representa aquilo que de pior aconteceu na sociedade portuguesa em 2008. Funciona como uma lente gravitacional, amplificando com a sua galáxia de opiniões os vícios, fraquezas e disfunções da classe política, da direita, do PSD, da oposição e da intervenção cívica profissional.

2007 tinha acabado muito bem para o Pacheco. Era a cara da resistência interna à gaia demência, a esperança de regeneração do PSD, e em Dezembro teve a coragem de publicar esta meia-denúncia sobre uma situação escabrosa. O silêncio geral que se seguiu confirma a dimensão do que deixou entrelinhas, poço sem fundo de cumplicidades que fazem parte do regime paralelo onde a corrupção e o crime ditam as leis. Infelizmente, 2008 veio desbaratar pecúlio tão promissor, num crescendo de fulanização, distorção e depressão.

O modo como este gabiru da análise política falhou o entendimento do papel histórico de Sócrates é, sob qualquer ponto de vista, espectacular. Em 2005, estava claro que Santana encerrava em desgraça o ciclo começado com a fuga de Cavaco, em 1995; primeira traição a Portugal por desresponsabilização após a entrada dos fundos europeus, e a qual levou a uma sucessão infame de governantes e líderes partidários. Não se poderia piorar, não havia nada mais radical do que a destituição de um Governo com apoio parlamentar, pelo que algo diferente começaria necessariamente após a inaudita decisão de Sampaio. E, de facto, o Governo PS saiu melhor do que a encomenda, obviamente com o contributo decisivo da maioria. Mas a grande, enorme, diferença estava na cultura altamente profissional daquele grupo governativo, apesar das naturais diferenças individuais entre ministros. A ambição reformista de Sócrates atacou um inimigo com décadas, ou séculos, de atavismo cultural e marasmo cívico, brilhantemente diagnosticado pelo José Gil pouco tempo antes. Ninguém sabia até onde se conseguiria chegar nem quais as consequências sociais das reformas. Apenas se tinha consciência, cheios de raiva e nojo, que não se podia esperar mais.

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No president is an island

Por que é que a Assembleia da República não alterou o Estatuto apesar de vozes, vindas dos mais variados quadrantes, terem apelado para que o fizesse, considerando que as objecções do Presidente da República tinham toda a razão de ser?

Principalmente, quando a atenção dos agentes políticos devia estar concentrada na resolução dos graves problemas que afectam a vida das pessoas?

Foram várias as vozes que apontaram razões meramente partidárias para a decisão da Assembleia da República.

Pela análise dos comportamentos e das afirmações feitas ao longo do processo e pelas informações que em privado recolhi, restam poucas dúvidas quanto a isso.

A ser assim, a qualidade da nossa democracia sofreu um sério revés.

O problema do Estatuto dos Açores, relativo ao berbicacho que o paupérrimo discurso presidencial da noite passada vem mais uma vez confundir, entra directamente para o grupo das clássicas questões bizantinas. Os sábios bizantinos viviam bem, pachorrentos e anafados, pelo que tinham muito tempo livre. Discutiam problemas abstrusos como o de se encontrar a causa principal pelo facto de um homem ter sido atingido na cachimónia por um tijolo. Possibilidades: foi atingido porque ia a passar no momento em que o tijolo caiu ou teria sido atingido porque o tijolo caiu no momento em que ele ia a passar? E assim se divertiam e consolavam. No nosso caso, estamos perante uma querela jurídica, a qual na sua abstracção máxima dá razão à posição presidencial. Porém, caso a Assembleia da República anuísse, estaríamos, pela mesma lógica invocada pelo Presidente, a desequilibrar o regime a favor da Presidência – logo, em detrimento do parlamentarismo.

O Presidente da República não tem feito outra coisa senão errar neste processo, desde o começo. Até parece que foi de propósito, tanta a estupidez: não envia para o Tribunal Constitucional todas as passagens problemáticas; assusta o País em Julho com uma comunicação críptica que deixou meio Portugal perplexo e o outro meio estupefacto; não consegue expor convincentemente a sua posição nos 5 meses seguintes; promulga o Estatuto, mas exibe-se ressabiado a disparar em todas as direcções. Ao menos que o discurso fosse bom, mas nem medíocre conseguiu ser:

– Que cena é essa das vozes, vindas dos mais variados quadrantes? Vozes?! O Presidente anda a ouvir vozes ou acha que a política é o reino da vozearia?…
– Que maluquice é essa de sugerir que a atenção dos agentes políticos devia estar concentrada na resolução dos graves problemas que afectam a vida das pessoas? Quer dizer que não está? Então, que se digam os nomes e se apontem os prejuízos. Mas, vejamos, que se está a propor? Será uma reedição do deixem-me trabalhar agora em versão deixem-me ser eu a mandar? Esta passo arrisca-se a ser aviltante, transmite a ideia de uma desejada capitulação da vontade democrática face aos desígnios presidenciais.
– Que raio são razões meramente partidárias? Ou serão as razões meramente partidárias, para o Presidente, de si e em si, politicamente insuficientes e moralmente ilegítimas? Serão os próprios partidos demasiado partidários para o gosto do Presidente?
– O Presidente faz análise de comportamentos, o que faz dele um psicólogo ou um etólogo.
– O Presidente faz análise de afirmações, o que faz dele um linguista ou um hermeneuta.
– O Presidente recolhe informações em privado, o que faz dele um espião ou um coscuvilheiro.
– O Presidente admite ter poucas dúvidas quanto a isso. Tudo bem, mas quais são elas? Sabemos que serão pelo menos duas dúvidas, talvez três ou talvez trinta, mas se ainda tem dúvidas como é que pode vir falar ao País? Não seria melhor esclarecer totalmente o assunto em vez de despejar insinuações birrentas?
A ser assim, a qualidade da nossa democracia sofreu um sério revés. Dizes bem, Presidente, usando o condicional. Já quanto à tua prestação na ida à Madeira, onde foste humilhado, e no caso do Parlamento Regional da Madeira, onde a Constituição foi ofendida, não restam quaisquer dúvidas: a nossa democracia sofreu, e vai continuar a sofrer, um sério revés.