Saber perder é um dom. Porque liberta. Esta mal-amada sabedoria não consiste numa passividade, numa resignação face ao desaire ou infortúnio. Isso não seria mais do que atrofiamento, e nova derrota para cima dos derrotados. Nadinha de nada disso. Saber perder é, antes, um movimento de abertura. Começa pelos olhos. Uns olhos que tudo querem ver, olhos desavergonhados, luciferinos. Depois vai para a inteligência, atiça-a à realidade. E ela agarra-se à crina, não a larga. Por mais pinotes e coices que dê, a inteligência acompanha a realidade desembestada até aos confins do mundo ou até aceitar ser montada. Por fim, saber perder é conseguir abrir os portões do coração. E lá dentro fazer um banquete. Estão convidados os que não têm a boa sorte de se saberem vencidos da vida. Os únicos que merecem compaixão.
Sonho com uma época em que os estádios aplaudam os adversários à entrada e à saída, sejam eles quem forem e seja qual for o resultado. Sonho com adeptos que saibam que o desporto não é um divertimento, mas uma alegria, uma iniciação aos mistérios. Sonho com equipas onde todos os jogadores tenham a sorte de amar a camisola. Enquanto isso não acontece, consolava-me que não existissem treinadores nesta galáxia (nem na galáxia de Andrómeda, a qual irá marrar de cornos com a nossa não tarda) que deixassem um jogador como Vukcevic no banco. E por esta singela razão: é que os deuses também gostam de ir à bola, e quando se deparam com imbecilidades desse calibre ficam chateados, com toda a razão, podendo-lhes dar para castigos de 5-0 e cenas foleiras dessas assim.


