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Saber perder

Saber perder é um dom. Porque liberta. Esta mal-amada sabedoria não consiste numa passividade, numa resignação face ao desaire ou infortúnio. Isso não seria mais do que atrofiamento, e nova derrota para cima dos derrotados. Nadinha de nada disso. Saber perder é, antes, um movimento de abertura. Começa pelos olhos. Uns olhos que tudo querem ver, olhos desavergonhados, luciferinos. Depois vai para a inteligência, atiça-a à realidade. E ela agarra-se à crina, não a larga. Por mais pinotes e coices que dê, a inteligência acompanha a realidade desembestada até aos confins do mundo ou até aceitar ser montada. Por fim, saber perder é conseguir abrir os portões do coração. E lá dentro fazer um banquete. Estão convidados os que não têm a boa sorte de se saberem vencidos da vida. Os únicos que merecem compaixão.

Sonho com uma época em que os estádios aplaudam os adversários à entrada e à saída, sejam eles quem forem e seja qual for o resultado. Sonho com adeptos que saibam que o desporto não é um divertimento, mas uma alegria, uma iniciação aos mistérios. Sonho com equipas onde todos os jogadores tenham a sorte de amar a camisola. Enquanto isso não acontece, consolava-me que não existissem treinadores nesta galáxia (nem na galáxia de Andrómeda, a qual irá marrar de cornos com a nossa não tarda) que deixassem um jogador como Vukcevic no banco. E por esta singela razão: é que os deuses também gostam de ir à bola, e quando se deparam com imbecilidades desse calibre ficam chateados, com toda a razão, podendo-lhes dar para castigos de 5-0 e cenas foleiras dessas assim.

Lusco-fusco

Grande português, o nosso Maltez. É de uma outra estirpe, cada vez mais rara. E só a miséria anti-franciscana da actual direita explica a reduzida influência da tradição que ele representa e exprime. Claro, é também um romântico, para além de erudito, o que devia ser visto como vantagem; escusado será dizer.

ESTACA, não faço ideia se és cliente deste senhor, mas ele é uma leitura que tem o que é preciso para te deixar a babar para cima do teclado, todo o santo dia.

Aviso à navegação

De vez em quando, mas raramente, acontecem acidentes aos comentários que, por diferentes razões, ficam retidos para aprovação. O mais frequente é ficarem retidos por terem links, mas pode ser também por qualquer outra razão que o sistema anti-spam tenha como critério.

Acaba de perder-se um, salvo erro do Salão Ramalho, apenas por distracção da minha parte. As minhas desculpas, espero que repitas o envio.

Epílogo: problema resolvido, comentário recuperado.

Homogeneidade

O debate, ontem, no Prós e Contras foi um belo momento político, cívico e cultural. Os que se opõem ao casamento homossexual (ou entre pessoas do mesmo sexo, satisfazendo o preciosismo jurídico) entraram vencidos e saíram derrotados. Nem de outra forma poderia ser; tanto pela profundidade e complexidade da questão, que não dominavam, como pelo ar do tempo, que os domina. As declarações finais, de Isabel Moreira e de Miguel Vale de Almeida, foram particularmente felizes e complementares, num composto de intencionalidade emocional e assertividade intelectual – e até taxativas nisso de apelarem àquele mínimo de bom senso que suporta a existência mesma de uma dada comunidade. Posto que a homossexualidade não é crime nem doença, como o século XX ocidental acabou por estabelecer, decorre que a igualdade antropológica obriga à igualdade de direitos.

Não há nenhuma clivagem na sociedade a este respeito. O individualismo tem feito o seu caminho e não podem ser os mais fragilizados pela ignorância, ou pela decadência mental, a moldar o futuro. É por isso que o argumento de a questão não se justificar face à premência de outros problemas, ou que ela não passa de manobra de diversão do Governo por pérfidas razões, é especialmente velhaco e canalha. Quem foi por aí passou um atestado de imbecilidade a si mesmo ou assumiu que não é pessoa de bem. A verdade irrompe simetricamente oposta: é por existirem outros problemas que não sabemos ainda como resolver, ou que exigem maior esforço e colaboração, que temos de tratar daqueles que já só esperam uma decisão política, uma instituição legal. Porque tudo está ligado, tudo tem uma origem comum, como sabe qualquer amante da sabedoria ou mero leitor de Darwin. E contribuir para nos acolhermos nas nossas diferenças foi sempre apanágio do melhor que a Humanidade criou nos seus 150.000 anos de crescimento em direcção ao infinito.

A certeza da incerteza

Vukcevic é um jogador quântico. O maioria dos golos que marca são o resultado de singularidades, pontapés repentistas, tabelas manhosas, efeitos marados. A esta capacidade acrescenta-se o lado artístico, o modo como resolve desafios com súbitas fintas e simulações brilhantes, ou passes geniais. Como no célebre Sporting-Benfica para a Taça, em Abril de 2008, onde é Vukcevic a virar o jogo aos 67 minutos, precisamente por se ter virado de modo completamente imprevisto. Ou como neste exemplo com o Belenenses, que até recolheu o favor dos deuses e levou Postiga a acertar com donaire.

Enquanto que Derlei gera incerteza destrutiva, e já devia ter abandonado os relvados há 2 anos, Vuk gera incerteza criadora. Durante alguns meses, Bento abdicou deste poder, mas logo que reintegrou o jogador ele começou a marcar golos, alguns decisivos. E para a glória ser completa, a sua atitude é sempre de entrega heróica. Por isso é amado pelos adeptos, é um exemplar da raça do Sá Pinto.

Resta saber se Bento aprendeu a lição. E se consegue reconhecer a química da dupla Vuk-Postiga.

Anti-cunha

Mais 3 minutinhos de higiene profissional e cívica graças à TSF e à Controlvelt. O que se ouve nesta peça é de bradar aos céus, mas em agradecimento. Chamo a tua atenção para os critérios de selecção, mais a respectiva explicação. É um raciocínio tão simples e óbvio que até os pêlos do cu batem palmas. Se fosse a norma em Portugal, há muito que estaríamos todos ricos.

Síndrome do Gozo

A Selecção com Queiroz é um festival, sim, mas da risota. O desconchavo táctico só é ultrapassado pela mímica desesperada e desesperante do treinador no banco de suplentes. Embora seja certinho que alcançaremos o apuramento para a África do Sul, dando uma desvairada alegria à diáspora lusitana, e permitindo uma eventual vingança do Professor caso nos calhe a equipa da casa, esse caminho será feito com as mãos na barriga e o coração na boca. É que não vamos ter uma equipa, vamos ter uma rapaziada que vai jogar à fuçanga e ter sorte, muita sorte. De resto, o futebol não passa da sorte, o mais sendo aparato e contingência. Pode é haver equipas que facilitem a sua chegada e outras que a dificultam. Neste jogo com a Finlândia, voltámos a ver uma equipa que jogou à antiga portuguesa, tudo fazendo para enxotar a sorte. Que ninguém se iluda: falhar golos de baliza aberta não se consegue apenas por um qualquer tipo de inépcia ou inércia, é preciso ter a deliberada intenção de alterar a probabilidade natural desse tipo de eventos. Ora, quem consegue tais feitos mirabolantes, poderá também conseguir o seu contrário. Basta que se esforcem menos, que sejam menos criativos na altura da finalização. É só.

Síndrome de Gaza

A Síndrome de Gaza é uma patologia mental caracterizada por sintomas de forte identificação com o Hamas, o qual aparece como a parte boa do conflito israelo-palestiniano. A psicose opera através da recuperação das matrizes bíblicas, projectando-se nos palestinianos as estruturas das narrativas judaicas onde se fala de um Povo Eleito. Concomitantemente, transformam-se os israelitas em romanos, real e simbolicamente vistos como o invasor.

Cá pela terrinha, a vítima mais conhecida deste distúrbio psíquico é o Daniel Oliveira. O que ele escreve aqui é apenas um pequeno exemplo da distorção habitual. No entanto, os comentários respectivos merecem leitura exaustiva, repondo sanidade naquele ambiente. Confrontam o autor com as suas incongruências, contradições e cumplicidades. Dizem que pouco lhe importa saber dos crimes cometidos pelo Hamas contra o seu próprio povo e os planos de extermínio do povo vizinho, pouco lhe importa saber das mentiras e manipulações que diabolizam o exército israelita, pouco lhe importa a existência de uma verdadeira democracia que permite protestos públicos contra a política de Israel dentro de Israel e confere direitos cívicos e políticos aos árabes, pouco lhe importa a tirania nascida da ignorância e alucinação de grupo em Gaza, pouco lhe importa que a demência seja o alimento da luta que apenas consegue aumentar os sofrimentos dos envolvidos.

Isso para nada importa. A Síndrome de Gaza reduz toda a complexidade do presente, e todos os nós cegos da História, a uma faixa de percepção demasiado estreita para que lá caiba a coerência.

Patrões e bispos conspiram para garantir nova maioria socialista

É o que podemos inferir destes protestos: um patrão a malhar em Sócrates e no Parlamento, e um bispo a cascar no PS e na sociedade. Qual a intenção? Apresentar Sócrates ao eleitorado num apelativo posicionamento de esquerda, de modo a conter uma eventual erosão para PC e BE nas legislativas. A estratégia não tem como falhar, até Alegre (se tiver um grama de coerência) correrá em defesa de Sócrates.

Também convém começar a aceitar uma singela explicação para o que preenche a espuma dos dias: muito do que passa por ideologia, ideário, ideal, ou meras ideias, é apenas o resultado de limitações cognitivas individuais e de grupo. Que as há.

PSD, quem te viu e quem te vê

O Gabinete de Estudos do PSD mandou-nos esta carta, intitulada Desafios para Portugal em 2009:

Ex.mos Sr.s,

A economia portuguesa tem tido um desempenho muito insatisfatório. Desde há cerca de dez anos que o crescimento económico se mantém muito abaixo do que seria possível e desejável. Os problemas avolumam-se, a prosperidade estagna, o atraso relativo do País aprofunda-se.

Os problemas da economia portuguesa são de carácter estrutural e resultam de uma política económica profundamente errada, baseada numa total incompreensão do que é uma economia moderna, aberta ao exterior e competitiva, num mundo global, cheio de oportunidades, mas também de riscos. A actual crise internacional veio demonstrar de forma ainda mais evidente a fragilidade da nossa economia e a inadequação da nossa política económica.

Não é possível concretizar o enorme potencial da economia portuguesa e restaurar a prosperidade e o dinamismo empresarial enquanto se persistir na ideia de que é o Estado que deve tudo controlar, orientar e financiar. Esta visão dirigista da política económica não é compatível com a inovação e o progresso tecnológico, com a recuperação das nossas empresas no contexto internacional, com a criação de emprego à medida das nossas necessidades. Conduz apenas a um endividamento cada vez mais preocupante do País, sem que se veja para que serviu afinal tanto crédito externo.

Em paralelo, assiste-se a uma perversa concentração de riqueza e de poder económico nas mãos de muito poucos, a um aumento do grau de controle das empresas pelo governo, a uma administração pública incapaz de se modernizar e de responder às necessidades dos portugueses.

Este trabalho do Gabinete de Estudos do PSD documenta, para além de qualquer dúvida, o caminho desastroso que a nossa economia vem percorrendo, a injustiça gritante da distribuição de rendimentos, o peso crescente do endividamento externo. Os dados são objectivos e, na maior parte dos casos, de fonte independente.

Que cada um dos nossos concidadãos tire as suas conclusões.

Gabinete de Estudos PSD

Informações: gepsd@gepsd.org

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Vamos lá, então, tirar as nossas conclusões. Por exemplo, eu concluo pela impossibilidade de encontrar uma única proposta política nesta cacofonia de generalidades parcelares e adjectivação manhosa.

Obrigadinho, ó Crespo

O número dos que denunciam a opressão fascista em que vivemos não pára de aumentar. Eles estão em todo o lado: na comunicação social, na oposição, no PS, na bancada parlamentar socialista, nas escolas, nos blogues e na rua. Mário Crespo acaba de se juntar a esta maioria ruidosa, lançando o seu manifesto. E nele encontramos um elemento inovador. É que o costume estava a ser o da filha-da-putice rasteira. Esta modalidade, tão do agrado do filha-da-puta comum, consiste em fazer denúncias não explicitadas, vagas, apelando ao preenchimento perverso pela imaginação da audiência. Estes filhas-da-puta rasteiros expõem as suas teses conspirativas no curioso pressuposto da inexistência de autoridades: morais, políticas, judiciais ou policiais. Ao lê-los ficamos com a impressão de que vale tudo, de que se legalizou a infâmia, de que reina a impunidade nacional-porreirista. Mas com o Crespo, não. Veja-se:


Façamos de conta que o ministro da Presidência Pedro Silva Pereira não me telefonou a tentar saber por “onde é que eu ia começar” a entrevista que lhe fiz sobre o Freeport e não me voltou a telefonar pouco antes da entrevista a dizer que queria ser tratado por ministro e sem confianças de natureza pessoal.

Que temos aqui de anómalo? Não faço ideia. Pelo que está relatado, o Ministro interroga um jornalista quanto a uma interacção futura, o qual é livre de lhe responder como lhe der na gana. Para além disso, o Ministro pede profissionalismo no trato; o que se recomenda, aliás. Do que eu faço ideia, clara e distintamente, é da absoluta vantagem em saber o que foi dito, por contraste com a denúncia usual dos filhas-da-puta comuns quanto a esconsos, crípticos e tenebrosos telefonemas de ministros e autoridades variegadas…

Portantos, ó Crespo, obrigados pá. Também alinhaste na filha-da-putice reinante, apanágio dos pulhas, mas tiveste estilo. E o estilo faz o homem, ó Crespo.

Mulher feliz

O texto mais popular do José do Carmo Francisco, aqui no blogue, está quase a fazer dois anos: Coisas infelizes numa revista chamada Happy. É um pinga-pinga de comentários, ontem mais um, e isto sem qualquer envolvimento do autor no polémico ambiente.

Acontece que a revista tem mesmo problemas no que concerne à expressão escrita. Atente-se nalguns exemplos inclusos na edição de Fevereiro do corrente, no artigo SEXO: TUDO O QUE DEVE EXPERIMENTAR PELO MENOS UMA VEZ (com os seguintes subtítulos: Salto da fantasia para a realidade num baptismo erótico e Conheça a check list das experiências sexuais que nenhuma mulher deve perder). Comecemos por este:

Entre num bar, seduza os homens presentes e convide para ir consigo para a cama o mais atraente deles.

Se entrar num bar não merece reparo, já seduzir todos os homens presentes levanta alguns problemas morais e logísticos dignos de nota. Porém, o que escandaliza é a artificial construção convide para ir consigo para a cama em vez da natural versão convide para ir para a cama consigo ou a económica opção convide para a cama. Isso que publicaram, caras amigas, é mau português, é de evitar, tira a tesão.

Outro exemplo:

Faça o seu próprio filme erótico, com direito a striptease e masturbação, e envie-o por correio ao seu companheiro. Vai ser uma surpresa muito excitante.

Estamos perante um caso de léxico equívoco. Afinal, o termo correio a que se refere? A menos que esteja pressuposto o uso de película Super-8, raríssima e demasiado dispendiosa nos tempos que correm, a ideia de enviar um filme digital por envelope será realmente uma surpresa muito excitante, mas pelas mais anacrónicas razões.

Mais um:

Experimente a dupla penetração com dois homens desconhecidos. A excitação será ainda maior.

Este é um exercício de escrita formalmente irrepreensível, mas com graves falhas informativas. Às leitoras não é revelado que a prometida maior excitação assim obtida resulta, afinal, de um inevitável desastre – aquele que advém de se tentar proeza tão técnica, tão carente de longo treino e especial cuidado, logo à primeira e logo com dois desconhecidos. Por favor, não enganem as senhoras em matérias tão sensíveis.

E finalmente:


Ofereça ao seu parceiro um vibrador. E quando ele lhe disser que o vai usar para lhe dar prazer, surpreenda-o dizendo-lhe que o brinquedo é para ser utilizado nele.

Ora bem, não sei quem é que manda mesmo na revista, no sentido de ter o poder para dar uns berros e ameaçar com despedimentos, mas importa que essa pessoa, seja mulher ou homem, tenha maior respeito por uma indústria em franco crescimento e capaz de, por si só, vencer a crise financeira internacional. É que se esta moda pega, isto das mulheres forçarem os amantes a utilizar os vibradores em si mesmos, o negócio pode entrar em colapso. Estou a avisar.

Em suma, continuam a escrever-se coisas infelizes numa revista chamada Happy.

As vacas também têm sentimentos

É o que este estudo sugere. As vacas a que se dá nome, e com as quais se estabelece uma relação personalizada, produzem mais leite. E a quem interessará a notícia, para além dos produtores leiteiros? A todos nós, inevitável resposta. A maior parte dos problemas na vida são o resultado do esquecimento do nome próprio e do nome de família. Algo que até uma inteligência bovina percebe.