E parte para um ousado ataque ao BE, o qual deve estar completamente à nora com o flanqueamento do exército russo.
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Problemas na mente

Na foto, professora exibe as suas competências pedagógicas em prol da elevação do debate político e do respeito pela honorabilidade alheia.
Manuela Ferreira Leite aprovou uma campanha da JSD que chama mentiroso ao Primeiro-Ministro. Disse que era uma expressão da irreverência. E uma forma de fazer oposição. Ora, a senhora está a mentir. Por um lado, mente porque a campanha da JSD apenas pretende suavizar o discurso da líder, tentando que ela conceda abandonar o radicalismo de expressões como coveiro da Pátria ou as bem esgalhadas teses sobre a honra dos profissionais da LUSA, entre outros exemplos da verdadeira irreverência. É que esse estilo talvez seja ineficaz, suspeitam os miúdos da JSD; mas não há motivo para alarme, desde que se evite dar alguma importância às sondagens, explica o povo. A estratégia dos jotinhas passará, então, pela imitação das infantilidades favoritas dos comunas, entretanto validadas pela classe docente. Por outro lado, a senhora mente porque esta não é uma, antes a única forma do PSD fazer oposição: indo a reboque do folclore da esquerda imbecil e chafurdando na política acéfala.
Facto é que o consulado da Manela tem inovado em duas áreas decisivas, a gestão do silêncio e a protecção das propostas. Os analistas confirmam a supremacia da táctica, pois nunca antes se tinha visto esse fenómeno de um chefe partidário ser mais popular calado e sem propostas do que a comunicar e com ideias. Os laranjinhas vêm agora consagrar a originalidade, provando que podem ser tão broncos como os adultos (ou seja, estão prontos para ocuparem uns lugares no Parlamento; já a sabem toda, os maganos).
Tem razão o cada vez melhor Santos Silva. O problema mental da oposição pede malho.
Brevíssima história do Aspirina B
Era uma vez o Blogue de Esquerda, é assim que começa a história do Aspirina B. O BdE foi um dos mais importantes blogues na História da blogosfera portuguesa; mas não tenho nem a memória, nem a autoridade, para lhe fazer aqui justiça. Quando acabou, uma das suas notáveis figuras, o Luis Rainha, agregou novo grupo: João Pedro da Costa, José Mário Silva, Júlio Roriz, Luis Rainha, Nuno Ramos de Almeida e Valupi. Era um dream team de consagrados bloggers e pujantes intelectos, se excluirmos a minha humilde e estreante pessoa. A recepção foi a melhor possível, tanto dos leitores como dos críticos.
Participar num blogue colectivo é uma experiência de cidadania, aconselho-te a passar por esse curso rápido de iniciação ao mistério humano. Especialmente se não existirem laços pessoais anteriores, como foi o meu caso. Muito mais do que da tertúlia, é do kibutz que um blogue colectivo é análogo. Escrever é lavrar a terra, a blogosfera o território da identidade e conquista. Começa-se com um espírito comunitário de cariz religioso, a tal paixão dos inícios onde reina a fraternidade e se simula a confiança. Um por todos e todos por um, vamos a eles. Esta fase durará entre duas a quatro semanas. Depois regressa a normalidade do quotidiano dos normais.
Em Janeiro de 2006 mexeu-se na equipa. Entraram ainda mais, e mais desvairadas, vedetas: Daniel Oliveira (com o Rui Tavares às cavalitas), Fernando Venâncio, Jorge Mateus, António Figueira, Vanessa Amaro, Afixe, Rodrigo Moita de Deus, Gibel. Foi o período de maior popularidade do blogue, porém destinado a uma efémera existência nesse pico de fama. Em Março e Abril a debandada estava consumada, a equipa reduzida ao Fernando, eu, Jorge Mateus, um Rainha semi-demissionário e um Zé Mário ausente. Em Junho entraram o Jorge Carvalheira e o TT. Em Outubro começou a colaboração do José do Carmo Francisco. Em Dezembro regressou o João Pedro, ausente desde Fevereiro. Em Janeiro de 2007 saem, definitivamente, o Rainha, Mateus, Gibel e Afixe. Em Março entra a Soledade Martinho Costa. Em Julho entrou a Susana e saiu a Soledade. Em Setembro entra o Daniel de Sá. Em Outubro mudámos para a rede Tubarão Esquilo, deixando cair aqueles que nunca mais deram notícia nem responderam aos apelos, o Zé Mário e o TT. Em Janeiro de 2008 entra a Isabel. Em Março saiu o Fernando. Em Abril saiu o Daniel. Em Novembro saíram a Susana e a Isabel. Em Dezembro saiu o João Pedro. Restam dois autores no activo.
O Aspirina B já devia ter acabado há muito tempo, logo em 2006, a mando da lógica centrífuga reinante nos blogues colectivos. E assim teria sido se o Rainha, que era o líder tácito por ter tido a iniciativa e ter assumido o comando moral, não tivesse saltado fora com o comboio em andamento. Isso gerou uma situação de vazio de poder, o qual foi naturalmente preenchido por quem ficou. Serve esta resenha para fazer um especial agradecimento ao Fernando e à Susana, cada um a seu modo foram inexcedíveis na generosidade e entusiasmo com que participaram no espectáculo e no trabalho de bastidores. É que preparar as refeições e lavar a roupa é tão importante como semear e colher. Num blogue, num kibutz ou em qualquer lugar onde duas pessoas se encontrem e queiram estar juntas.
Vale a pena continuar a anotar o que acontece ao Pacheco
Pacheco Pereira está em alta. Conseguiu revitalizar a sua imagem de polemista através de um triplo estratagema: primeiro, estigmatizou a comunicação social no seu conjunto; segundo, criou uma classificação lúdica e provocadora; terceiro, explora vilmente o ritmo e perversão da campanha contra Sócrates. A lógica é a da política-espectáculo, o ganho mede-se em notoriedade para o artista. Pacheco investe em si, na sua marca, sabendo muito bem que esse é o único lugar onde quer estar. No campeonato particular com Marcelo Rebelo de Sousa e Vasco Pulido Valente, leva destacada vantagem.
Quais ideias reformadoras quais quê, ninguém lhas conhece. Qual projecto político e qual futuro do País, deixa-te disso ó pá. Quer ele lá saber da Manela para alguma coisa, era só o que mais faltava. Os chefes vêm e vão, esta lapa fica e fica. Aliás, gorada a possibilidade de fazer da senhora alguma coisa com pés e cabeça à frente do partido, Pacheco já só trabalha para garantir um poiso em Bruxelas, no bem-bom. A reforma quer-se dourada, platinada, e a vida de eurodeputado tem encantos irresistíveis para quem não suporta a choldra nacional.
O Índice do Situacionismo funciona através de um sofisma primário: sendo inevitável o acompanhamento da actualidade e a reciclagem dos conteúdos noticiosos, Pacheco infecta essa mudança com o vírus da conivência. Se algum órgão de comunicação social não corresponder ao farisaico critério que só se encontra definido na sua carola, passa a ser denunciado com factos: capas, títulos, textos, fotos, alinhamentos, minutos, segundos. Ninguém pode escapar. Ou melhor, só o Avante, no saudoso ódio contra Sá Carneiro, estaria conforme ao zelo com que chicoteia a deontologia e honestidade intelectual alheias. A inevitável ambiguidade do real, mediado segundo as idiossincrasias individuais e de grupo, é a matéria do labéu. Não contas a história à minha maneira? Então, não prestas, és filho da puta e estás feito com eles, com a situação.
Esta manha de vendedor de atoalhados funciona, porque é tóxica, terrorista. Mas o antídoto tem de ser encontrado no veneno. O que alimenta o demónio do Pacheco não é o amor à cidade, a qual está cheia de gentalha com quem ele não quer perder uma caloria. O que diz dos blogues é o exacto espelho do que pensa da comunidade, onde 99% dos seus concidadãos são do piorio. Naaa. O que faz correr o Pacheco é o pavor da responsabilidade. Por isso há muito que ele desistiu de vir a chefiar o PSD, quanto mais a governar o rectângulo. Quão melhor não é ficar na plateia, ou no camarote, mandando bocas, pateando, aplaudindo por capricho e vingança. E depois adormecer alucinando-se com a missão cumprida.
Enquanto Sócrates vai para a frente do exército, dando o coiro ao manifesto, Pacheco barafusta e agita as perninhas de longe, ao largo. Ninguém o pode atingir. Afinal, ele não assume qualquer responsabilidade pela situação.
Freeport começa finalmente a dar lucro
Terminado o Prós e Contras, eis o lucro do caso Freeport até agora:
– Os viciados em teorias da conspiração saltaram da toca assanhados e agora sabemos melhor quem eles são e do que são capazes. O problema desta gente não está no levantamento do problema, está no boicote da solução.
– Apenas para o País ter ficado a conhecer a qualidade técnica e política de Rui Gonçalves já tudo valeu a pena, passe a boutade. Como ele há milhares e milhares de portugueses. E é com eles que nos queremos governar.
– Cresce a fervura social que pode levar à reforma da Justiça, a mais importante das reformas a fazer, sob qualquer ponto de vista. Só por uma funda ignorância cultural e cívica, essência do salazarismo estrutural que tanto demora a passar, o povo não tem exigido aos partidos um decidido e transparente investimento no sistema judicial. O povo tem tido medo, tem sido cobarde, é miserável. Mas o poder continua na sua mão. Assim ele acredite na superioridade da democracia. Assim cada um acredite em si e queira viver com honra.
Why we do it
Esqueçam o Freeport, a crise e o Obama porque…
As Ruínas Circulares reabriram! João Pedro da Costa, o único blogger capaz de rivalizar (e superar, ou ser superado, uma dessas variantes) com o maradona, está de volta às lides.
Este é, para já, o acontecimento menos 2009 do ano.
Lembretes
– Mesmo que apareçam emails a revelar que Sócrates planeou o 11 de Setembro, fez a cabeça aos Távoras e foi uma muito má influência para Judas Iscariotes, Manuela Ferreira Leite continuará a ser um desastre.
– Dias Loureiro voltou a ser desacreditado por António Marta, desta vez com peso institucional máximo. Escusado será dizer que Dias Loureiro deve estar convencido de que nunca cairá sozinho, se é que alguma vez cairá. E é óbvio que este caso de corrupção, o da SLN, é só o mais grave no pós-25 de Abril, pela extensão do que está suposto – atingindo o centro executivo e ideológico do cavaquismo, mas também todo o tecido político e bancário pelas debilidades sistémicas expostas.
– Enquanto o PS tem várias figuras prontas para substituir Sócrates imediatamente, sem espinhas para o eleitorado, até capazes de recolher o apoio das franjas irritadas, o PSD não tem ninguém que prometa mais do que estancar a hemorragia. E à volta vegetam o Portas, Louçã e Jerónimo, três tristes tipos. É este o único problema da política nacional.
– A histeria dos ataques contra Sócrates, logo desde 2006, não se explica só pela política reformista do Governo. Mais fundo se encontra o casus foederis (tradução: aquilo que os fode): é uma luta entre gerações, modelos de conhecimento, práxis politica, estilos de vida. Os pançudos não perdoam a boa forma do corredor, e farão de tudo para lhe reduzir a passada.
– O desfecho do caso Casa Pia vem aí e será um importantíssimo momento de reflexão para a Nação, seja qual for o resultado.
– 2009 já só tem 11 meses para dar cabo desta merda toda.
O valor das ideias
Carlos Santos quer cravar-te 15 minutos de leitura para que te delicies com esta evidência: a economia é disciplina muito mais próxima da literatura do que da matemática.
Manel, larga o vinho

Manuel Monteiro é uma personagem trágico-cómica, como qualquer português very typical. O seu maior desejo era voltar ao CDS, regressar ao vaidoso corrupio dos jornalistas, ter poiso garantido na Assembleia, receber convites para brunches e almoços em hotéis de luxo, atravessar feiras com passo seguro e olhar confiante, desfrutar de momentos em que até ele acreditaria no que estivesse a dizer. O sonho é lindo, e nessa visão adormece embalado há anos, mas não teve Portas por onde entrar. Assim, arrastou-se pelo PND até ao dia em que a filial da Madeira introduziu a suástica na gesta do parlamentarismo insular. Esse foi precisamente o dia, horas depois, em que fugiu do hospício.
Ontem discursou no 4ª Congresso do PND. Aproveitou a ocasião para mostrar o que Portugal está a perder ao ignorar as suas ideias. Eis o raciocínio: os partidos com representação em São Bento são corruptos e/ou incompetentes, o Primeiro-Ministro é suspeito de crimes vários, o Presidente da República está a ser irresponsável, os militares só não fazem um golpe de Estado por carência de recursos não especificados (munições? gasóil?) e, algures em 2009, os patrícios irão para a rua fazer mal uns aos outros. Que fazer? Demitir o Governo, diz ele. E para quê, se tudo à volta é uma desgraça e ninguém irá escapar? Isso já não explicou, talvez por falta de tempo.
O Manel faz parte da legião dos zangados, a qual vive com a certeza de que alguma coisa no seu quotidiano está completamente errada. Mas que será? O sentimento de confusão e insegurança aumenta com o declínio cognitivo, a ansiedade torna-se angústia, desespero. Algo está errado, e alguém tem culpa, mas nunca os zangados. Claro. A zanga só é possível num estado de narcisismo e projecção, não em abertura e renovo. A intensidade deste rancor justiceiro é a exacta medida da sua impotência política. O verbo solta-se cristalizado, lancinante, e substitui a acção. Aparecem as matrizes do social, os emblemas do poder, as forças coercivas a prometer a salvação. Quando o seu mundo parece ruir, os zangados acabam invariavelmente a chamar pela tropa. A tropa-fandanga.
Saturday Press Fever
Sol, Expresso, Público, Correio da Manhã, 24 Horas, Visão, Sábado, TVI e SIC dão trabalho a profissionais responsáveis pelas notícias, editoriais, direcção e administração. Toda essa minha gente tem nome e família (isto é um supónhamos). Não será também exagerado antecipar que possuam algumas noções básicas de moral, ética, deontologia, direito, jurisprudência, cidadania, civismo, dignidade e bem comum. Estas são as minhas suspeitas, pelo que me permito elaborar a hipótese de este pessoal saber o que faz e achar bem que se faça assim. Já tenho menos suspeitas (aliás, nem uma) de que eles se consigam aguentar à bomboca caso a sua privacidade entre em regime de devassa pública.
Entregar a chefia da investigação aos noticiários, como advoga o Pacheco, corresponde à anulação do Estado de direito. Quero só lembrar que estamos perante um dos principais temas tratados por Ésquilo, um gajo que escrevia tragédias.
As putas das hormonas
Portuguese primary school reforms bearing fruit, says independent report
Para além de arrogante, mentiroso e corrupto, não esquecer que também é rabeta
O caso Freeport vai conhecer alguns dias de alívio, pelo que recomendo ao Sol, à TVI, ao Zé Manel e ao Pacheco que recuperem a não menos apelativa suspeita de paneleirice. Deixo aqui uma pista em forma de pergunta, inspirada na escola jornalística do Mário Crespo: existe algum DVD onde se veja Sócrates no truca-truca com o Diogo Infante? Se existe, queria pedir o favor de não mo mostrarem. Mantê-lo em segredo será um elementar acto de justiça; mas isto é apenas o meu critério, não quero ferir susceptibilidades. Aliás, se der para encontrar um outro DVD – ou mesmo VHS, que se lixe, a vizinha do 4º andar tem um leitor desses a funcionar ranhosamente, aproveito e vou lá a casa ver o filme; e ainda levo uma garrafa de ginja, é só do que ela bebe, a estouvada – com duas bifas, daquelas mesmo muito corruptas, bifas com fotos no Hi5 e cadastro na Praia da Oura, a dar à língua em zonas de protecção especial de bordas indefinidas, e pelo meio levantando a cabeça só para culpar Sócrates por não passar dum rabeta que as deixou ali abandonadas sem outro modo de ocupar o tempo, eu gostaria de pedir emprestada essa prova incriminatória por 2 ou 3 dias. Em nome da verdade nua e crua.
Os básicos
Noventa minutos distam entre dois emails que permitiram à oposição acreditar, por breves instantes, que existe e serve para alguma coisa. A tonteira alastrou, conseguindo envolver o Primeiro-Ministro. Fernanda Câncio explica.
Os que saíram à rua em ceroulas e entraram felizes no berreiro, protestando contra a mentira e propaganda miserável que nos oprime, devem ser louvados. Consciente, subconsciente, inconsciente ou asininamente, esta malta imagina que o Governo, ou parte dele, quis mesmo enganar a populaça. E que não teria encontrado melhor área para o fazer do que a da Educação, nem melhor forma do que através dum estudo que ficaria ao dispor de qualquer mariola para ser analisado e servir de prova condenatória. Parece que os estou a ver, os olhares malignos desses diabólicos governantes soltando fagulhas, a congeminar o genial plano. Primeiro, mandar um email onde se diga que o estudo é da OCDE. Depois, esperar hora e meia para enviar a versão corrigida. Pronto, ’tá feito. Mais uma brilhante manipulação do grande mentiroso – o qual, como é óbvio, óbvio e evidente, do que precisa é de repetidas situações onde se veja confrontado com insultos e ataques à sua imagem. Especialmente agora, particularmente na Educação e precisamente com peças propagandísticas com a tipologia do relatório em causa.
Parabéns, estais aptos a frequentar o ensino básico.
O tapete voador
Os mecanismos comunicacionais vivem da “novidade”. A lógica do seu desenvolvimento depende de haver novas informações todos os dias. Se não for assim, o caso Freeport (como qualquer outro) conhecerá um pico e depois cairá progressivamente no esquecimento, até ao dia em que as mesmas informações já esquecidas aparecerão como nova “novidade”, ou quando haja mesmo “novidades”. Este mecanismo pouco tem a ver com a substância da questão, quando esta existe fora da sua mediatização, como é o caso Freeport. O seu relançamento não se deveu a qualquer fuga processual para os jornais (como sugeriu falsamente o Primeiro-ministro), mas sim a um dia de buscas da PJ e às informações relevantes (declarações de familiares de José Sócrates) que se lhe seguiram. Agora, manter ou não a questão na agenda dos media, cada vez mais depende da orientação editorial desses mesmos media. O situacionismo ou a independência vão ser mais nítidos agora do que nos dias de brasa destes fins de semana, em que era impossível ocultar que havia um “caso” em curso (e mesmo assim a RTP nalguns noticiários e o Jornal de Notícias procederam assim). O que se sabe, informações, contradições, declarações, são de uma gravidade que não pode ser ignorada nem esquecida. No passado, em relação a muitos outros casos de menor importância, a comunicação social manteve-os como “escândalos”, dando-lhe sequência investigativa e persistência editorial, fazendo exigências de clarificação e não deixando que haja esquecimento. Este caso, talvez o que mais gravemente afecta o centro do poder (o único precedente idêntico foi o “caso Emáudio” e houve aí uma deliberada desvalorização para não atingir Mário Soares), não pode ser escondido debaixo de um tapete. Já se sabem coisas a mais para perceber que ele não cabe debaixo de um tapete.
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João Miranda aconselha longa memória para estes dias marcados pelo nevoeiro de guerra. Por razões contrárias às suas, dou-lhe absoluta razão. Quem dera que o caso Freeport permanecesse na memória de todos por muitos e bons anos. Porque, de facto, a sua gravidade pede consequências, pede responsáveis e pede castigos. Neste momento, eu sou um dos derrotados, porque assisto a um ataque ao regime democrático usando-se como arma o que o regime tem de melhor: a liberdade.
Constate-se o que um passarão do calibre de Pacheco Pereira se permite afirmar. No parágrafo citado encontramos as seguintes mensagens:
- O caso Freeport só sobrevive na comunicação social com recurso a "novidades".
- As verdadeiras "novidades", porém, ainda não apareceram.
- O caso Freeport existe para além dos mecanismos mediáticos.
- O que está na origem do caso Freeport é matéria de justiça e investigação policial.
- O Primeiro-Ministro mentiu quando referiu o papel da comunicação social.
- É naturalíssimo que algum jornalista conheça previamente, ou simultaneamente, as buscas efectuadas.
- O trabalho dos jornalistas não está sujeito a escrutínio, podendo-se confiar no que publicam (uma entrevista truncada, por exemplo).
- Entrámos numa fase em que cada órgão de comunicação social irá revelar as suas linhas editoriais.
- Os órgãos que deixarem cair o caso provarão a sua conivência com os interesses do Governo e do PS.
- Antes deste Governo PS, e em relação a outros casos, a comunicação social manteve certos casos como "escândalos", fazendo exigências e impedindo o esquecimento. Por isso, é o que deve voltar a acontecer, no mínimo.
- O que se sabe do caso Freeport impossibilita o seu silenciamento, como se tem feito noutros casos.
Ou seja, o Pacheco declara-se possuidor de conhecimentos e critérios que lhe conferem uma autoridade moral para julgar com radicalidade a conduta de toda a comunicação social. Quem não se conformar ao seu entendimento da questão, estará a servir os interesses do inimigo. Isto não é discurso de comentador, publicista, crítico, não. O que vemos e ouvimos é um militante, um agitador, uma cheerleader que puxa pela claque. Ele afirma que algo de muito grave aconteceu, algo que Sócrates, Governo e PS querem esconder. Daí a necessidade de lutar, lutar pela manutenção do caso na agenda diária. Estamos no reino do maniqueísmo, não se admitem neutralidades nem se fazem prisioneiros.
Ora, quem alinhar com o Pacheco precisa de ter consciência de que se está a alistar no exército dos pulhas e dos imbecis (é escolher). Porque, nesta altura, não pode haver ninguém mais interessado na completa investigação do caso do que o PS, os seus militantes, os seus eleitores e, foda-se!, todo e qualquer cidadão com um pingo de vergonha na cara. O pior que pode acontecer à democracia é retirar-se este caso da atenção mediática, pois isso levaria a que o mal espalhado não pudesse mais ser reparado. Pelo contrário, a investigação tem de bater célere no fundo e, sem uma pausa, continuar a escavar. Está a ser feito um assalto à dignidade do regime. E ver esta questão como um problema de segurança nacional não será exagerado. Das duas, uma: ou o Primeiro-Ministro – e sabe-se lá que outros altos quadros governativos, partidários e políticos – é culpado do mais grave caso de corrupção em Portugal, tendo de ser imediatamente exonerado; ou há portugueses (pelo menos estes) que se dispõem a destruir o Estado de direito, a Constituição e a democracia representativa através da infâmia sobre os seus legítimos representantes.
Eis a suprema ironia: admitindo a hipótese de ter razão, e Sócrates ser culpado, Pacheco continuará a ter agido como uma reles figura. Porque para ele não há presunção de inocência, bastam as percepções, boatos e suspeitas para fazer campanha contra a honra de alguém. As suas afirmações repetem a ideia de que o interesse de Sócrates está em que nada se investigue para além das questões legais (entretanto dilucidadas publicamente ao mais ínfimo pormenor, como talvez nenhuma outra decisão governativa na contemporaneidade); adivinhando-se a sua desilusão por nada de errado ter sido descoberto nesse plano, até apareceu uma autoridade como Freitas do Amaral a validar o processo. Nenhuma prova abonatória o satisfaz ou sossega, e não se coíbe de envolver centenas, e milhares, de pessoas nessa cumplicidade que denuncia impiedoso – jornalistas, deputados, comentadores, militantes, cidadãos. Todos a trabalharem para o encobrimento, o esquecimento, a mentira. Todos contra o Pacheco, pairando por cima de nós no seu tapete voador.
Demasiado Crespo
De um lado tínhamos um dos ministros mais irritantes do Governo, rival em agrado público do apatetado Pinho, protótipo de amanuense governativo e clone de Sócrates. Não se lhe conhece uma ideia política, filosófica ou artística, nem isso parece fazer falta para o cumprimento das suas funções. Do outro tínhamos a coqueluche do jornalismo português, ícone e figura de culto que congrega simpatias transversais. O destino estava traçado, o Ministro perfilava-se na parede de fuzilamento enfrentando espingardas, metralhadoras, granadas e morteiros. Antes mesmo da primeira questão, entravam na entrevista com o resultado em 10 a 0 a favor do jornalista.
Depois, as supostas fraquezas dum e forças doutro intensificaram as forças daquele e as fraquezas deste. Pedro Silva Pereira esteve impecável, até na pequena parte em que se deixou tomar pela natural emoção. E Mário Crespo falhou espectacularmente, até nas partes que lhe correram melhor. E porquê? Porque enquanto o Pedro se manteve dentro da responsabilidade institucional e política que se exige no seu cargo, o Mário foi para a entrevista como se fosse juiz num tribunal sem advogados. A informação ao seu dispor, a sua lista, não lhe deixava dúvidas: havia merda da grossa. A quantidade de escabrosas suspeitas, fundadas em semanas de crescente pressão na comunicação social que culminaram com declarações de familiares e intervenção policial e judicial, tinham atingido um volume que tornava inaceitável qualquer outro desfecho que não fosse o de uma confissão em directo. Daí veio o permanente acinte, o contínuo preconceito, que se transformou em ofensa na famigerada pergunta: Era possível, no ambiente governativo que se vivia, obter favores por dinheiro?
Mas que filha da puta de pergunta! Que se pode responder? Vamos imaginar que o interrogado respondia com Ora, deixa cá ver… bom… Agora que penso nisso… sim… Acho que sim! Esta seria a ocasião para o interrogador poder gritar Ah! Eu não disse? Apanhei-te! Posturas primárias e infantilóides à parte, o que a pergunta de Mário Crespo pretende é desqualificar a resposta negativa. De facto, responder negativamente é sempre tautológico quando se reclamou previamente a inocência. Para se inquirir da possibilidade de corrupção é necessária uma de duas intenções: ou sair do contexto e circunscrever a pergunta a uma abstracção (do género: Acha que os sistemas políticos são imunes à corrupção?); ou disfarçar uma tese dando-lhe a forma de interrogação (passando a mensagem de que o visado detém informação relativa ao tópico, logo aumentando a probabilidade tanto da possibilidade da corrupção como de o interrogado ter sido cúmplice no caso em discussão). Este sofisma, onde se introduz um subtexto inextricavelmente ligado ao contexto, é particularmente canalha, tóxico, e não se distingue de um ataque que ultrapassa todos os limites deontológicos do jornalismo.
Acontece que não é crível que Mário Crespo seja um canalha. A explicação para o seu erro será antes do foro cognitivo, pois ele revelou ter ido para a entrevista genuinamente convencido do sentido do que ia ouvir; a entrevista era uma mera formalidade e o entrevistado não tinha como escapar aos factos. A sua taça estava cheia, o que viesse de novo iria escorrer para fora. E não seria um badameco dum ministro de terceira categoria, industriado para vir mentir ao público, que lhe iria dar a volta. Logo a ele, o grande Crespo! Por isso perdeu por completo o pé, na sequência do justíssimo protesto pela sua perfídia, e deu neste diálogo:
– O tio era, ou não, tio do Primeiro-Ministro?
– O tio era… Está-me perguntar se o tio era, ou não, tio do Primeiro-Ministro?!
– Era ou não? Ou não? É?…
– Ó Mário Crespo… Está-me a desiludir profundamente…
– Temos casos… Desculpe, desculpe…
– Está-me a perguntar se o tio era tio, e se a prima era prima…
– Não, não… Não brinque com palavras comigo que eu não brinco com certeza.
Este jornalista que não brinca com palavras chegou ao fim da entrevista cabisbaixo, nervoso e a falar em realidades que são matéria de investigação. E, last but not least, ainda levou a estocada final – terminou com voz de falsete a agradecer a entrevista, dizendo que esta tinha sido um prazer. Do outro lado veio uma resposta que me obriga a colocar Pedro Silva Pereira no pódio dos ministros favoritos: Foi uma obrigação.
Espada ou pistola?
No jornalismo, em casos como o do Freeport (ou do BPN), há quem valorize o que acusa e há quem valorize o que iliba. O que não se pode fazer é, em casos como o Freeport (no que diz respeito a Sócrates por exemplo) valorizar o que iliba, e no caso do BPN (no que diz respeito a Dias Loureiro por exemplo) valorizar o que acusa. Como não se pode exigir responsabilização ética (para além da legal) nuns casos e noutros não. No comentário passa-se o mesmo, mas o comentário é opinativo, enquanto que se supõe que o jornalismo é informativo.
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Não há comparação entre os casos Freeport e BPN. No primeiro, estamos perante uma suspeita que cruza um Ministro, vários Secretários de Estado, inúmeros técnicos, autarcas, advogados e familiares de políticos. A gravidade do que está aqui suposto, envolvendo de forma cúmplice as figuras do Conselho de Ministros e a do Presidente da República, é inaudita e incomensurável. A ter acontecido o duplo chumbo ambiental do projecto de modo a que os promotores aceitassem pagar fosse o que fosse, as implicações atingem os próprios fundamentos do regime. E mais: a ter acontecido neste caso, presume-se que tenha acontecido em muitos outros. No segundo, trata-se de uma suspeita que recai sobre um administrador de uma entidade privada. De resto, foi o próprio que aumentou o peso da dúvida ao revelar bovinamente o modus operandi interno: ninguém reunia com ninguém, e Oliveira e Costa reunia com cada um em separado. Isto que foi dito publicamente já é assunção de corrupção, mesmo que mais nada seja apurado que incrimine Dias Loureiro. E se a logística da corrupção no Freeport parece inverosímil pela quantidade e perfil dos políticos responsáveis, já no BPN ninguém estranha que os negócios conduzidos por Dias Loureiro possam encobrir falcatruas.
Pacheco Pereira nivela os casos, equipara-os, diz que é farinha da mesma saca. É uma espantosa ofensa, mais uma, de alguém que afirma não acreditar na palavra de Sócrates – logo, que também não acreditará na palavra de Rui Gonçalves, Pedro Silva Pereira e seja quem for que diga alguma coisa que desmonte a suspeita-certeza que o desvaira. Em tempos idos, tal afronta seria imediatamente resolvida com um duelo.
Don Rickles on Sammy Davis Jr.*
É a família, estúpido
A brigada dos imbecis exultou com um facto que nem os deuses podem alterar: a família é a família é a família e volta a ser a família. Quem é que, uma única vez que fosse, não se serviu da família, ou serviu a família, em matéria de favores? Estranho, impiedoso, cruel seria aquele que recusasse ajudar um familiar em Portugal. Afinal, vegetamos numa sociedade pobre, de extremos de poder e estatuto, onde as instituições são disfuncionais, a cultura é provinciana, a cunha vale mais do que o carácter. Os que já concluíram pela culpa de Sócrates, pois, foram rápidos a transportarem-se para uma situação análoga onde se aproveitariam ao máximo das oportunidades. Ter um sobrinho ministro numa área que interfere em negócios milionários de terrenos? Ui, ui, só um acabado taralhouco é que não trataria da vidinha. E quem seria o político tão otário que recusasse 4 milhões? É óbvio que os aceitou, concluem os imbecis explicando como teriam eles feito a coisa. A projecção egóica corre solta, pintam o apetecido bode expiatório com as troca-tintas que guardam em casa.
Ora, as relações familiares distinguem-se de todas as outras pelo facto de serem apriorísticas e necessárias. Ninguém escolhe a família, à excepção dos cônjuges. E a família implica, ou suscita, as mais melindrosas promiscuidades. Não há função onde a família possa ser mais perigosa do que no exercício de cargos políticos. Quão maior a responsabilidade do cargo, maior a carga explosiva potencial. Neste caso, um tio e um primo arrivistas chegam e sobram para salpicarem de nódoas indeléveis o Primeiro-Ministro. Vários serão aqueles que, perante os factos já conhecidos, não precisarão da verdade para nada, pouco importando que Sócrates esteja completamente inocente. Esses irão até ficar indispostos e violentos calhando a investigação confirmar que o suspeito não passa de uma vítima. Dirão que a declaração de inocência é prova da sua culpa. A inocência será vista como a prova que faltava, a prova final. Esta patarata patologia já tem nome: Síndrome Pacheco Pereira. Caracteriza-se por uma alternância de estados eufóricos com estados depressivos sendo, tecnicamente, um distúrbio bipolar de origem ideológica. É o que justifica, por exemplo, um completo apagamento da ofensa de Manuela Ferreira Leite a um jornalista, a uma empresa e ao Governo. Estes são os sintomas de uma funda depressão. Simetricamente, considerar que as autoridades policiais, judiciais e autárquicas que investigaram (ou investigam) os casos da licenciatura e casas de Sócrates, juntamente com os responsáveis académicos e técnicos respectivos, e ainda o próprio, estejam todos a mentir, eis um sintoma de euforia. O entusiasmo com que se desabona a honra de tanta gente, e de tantas instituições, exprime um napoleónico delírio de grandeza.
Seja como for, pelo menos de uma coisa Sócrates não vai conseguir escapar: aquele tio e aquele primo não podem ser demitidos nem despedidos. É ter esperança que voltem a atacar.
