Isto não tem grande ciência. Se a ninguém, dos ignorantes que somos quase todos, passava pelo estreito que a nomeação de Dias Loureiro como conselheiro de Estado algum dia seria ocasião de escândalo, sequer de incómodo, para o Presidente, agora, que conhecemos muito melhor a peça, estamos estupefactos. E estupefactos ficámos com o espectáculo que Oliveira Costa deu na Assembleia da República, onde informou a Nação de que o Loureiro era um escroque:
Veja lá como me trata, olhe que eu quando me hostilizam não sou para brincadeiras – Dias Loureiro para Oliveira Costa
Assim, Cavaco tinha escolhido para conselheiro de Estado alguém cujo pivete a casa de banho era insuportável. Ingenuidade? Impossível, o Presidente já declarou não ser ingénuo. E nisso podemos acreditar, porque Dias Loureiro era uma figura de risota há muitos e muitos anos. Fazia parte do anedotário do PSD, os próprios militantes contavam as suas peripécias desde os sortudos tempos de Coimbra até ao fulminante estrelato político. Pois bem, já temos dois cromos, e também duas siglas onde os enfiar, BPN e SLN. Altura de juntar outro castiço, Luis Filipe Menezes, o qual numa golpada populista afasta o sóbrio Marques Mendes. Só que era areia a mais para a sua camioneta, passados dois meses da chegada à presidência do partido já tinha a guia de marcha assinada. E, ao ir embora, declara:
O partido está muito doente.
Altura de chegarmos à Madeira, pois a ninguém, dos ignorantes que somos quase todos, passava pelo estreito ter o conflito entre Cavaco e Sócrates começado antes da crise dos Açores, em Julho. Ora, o email obscenamente Público coloca o conflito em Abril. Abril mudanças mil, com a saída do Menezes e a entrada em cena da Manela. E que mais podemos recordar nas proximidades desse período? Por exemplo, em Fevereiro tinha Oliveira Costa saído do BPN. Um mal nunca vem só, pois logo a seguir separa-se da esposa e dos bens. Este infortúnio assinalava que o pior já estava a caminho. E era coisa para chegar ao terceiro arquipélago desta história, Cabo Verde.
São demasiadas coincidências a deixar-nos estupefactos com o que as pessoas da maior confiança de Cavaco Silva fazem nas suas santificadas costas. Ainda por cima, este mestre de finanças, economia e moral enfiou a mão no pote de mel, ele e família. Ignorava o que se dizia no meio político, jornalístico e financeiro dessa entidade em 2002 e 2003? Será esse estado de ignorância não ingénua que explica a conivência com a actividade conspirativa do jornal Público em Agosto deste ano, para não irmos mais longe? Se sim, se é apenas ignorância, incapacidade para perceber o óbvio e suas consequências, tudo bem. Mas não em Belém.
Sr. Procurador-Geral da República, honre Portugal.