Navegar é preciso

A presente campanha foi uma das melhores e mais entusiásticas de sempre. Eis o que há de mais revolucionário para dizer nos dias em que os revolucionários se aliam aos reaccionários e se afundam ambos numa depressão colectiva. E é também verdade nessa dimensão em que passamos por um período de convulsões inauditas na política nacional, com a decadência atroz do PSD, o crescimento imparável do BE e um PS que ousou combater o salazarento marasmo económico e social. Sócrates tornou-se o alvo obsessivo e delirante para a fúria da direita e da esquerda, que despejaram as armas que tinham, mais as que pediram emprestadas, em cima dele. Agora, até a Presidência da República se juntou à festa, cumprindo-se, para lá da conta, a profecia do Pacheco quanto a irmos viver tempos interessantes. É um rapaz bem informado, este marmeleiro.


O clássico símile da nau do Estado continua tão útil hoje como o foi para Platão na República, 488a-489b. O que nessa passagem se escreve retrata na perfeição o que tem sido a actividade da oposição em Portugal e noutras democracias. A oposição, passados 2400 anos, continua a repetir as disfunções que boicotam a governação, a pilotagem do navio. E tem de ser assim, por só assim ser democrático? Não, não e não. O que fazemos nasce da nossa curta inteligência, do nosso imaturo civismo. Os indivíduos colocam os desejos próprios e de grupo à frente do bem comum. Por isso, mesmo depois da escolha do comandante do navio para o período acordado, eles continuam com as injúrias, empurrões, ataques os mais pérfidos. Não admira que muitos navios andem em círculos ou não evitem as tempestades, porque quem vai ao leme tem de dividir a sua atenção entre os perigos externos e os internos. Os internos podendo ser muito maiores do que os externos. É um desperdício trágico de recursos, selvajaria disfarçada de liberdade, porque apenas satisfaz a gula dos que conspiram. Ora, podemos conceber outro navio, muito mais inteligente e corajoso. Neste, a luta pelo privilégio de pilotar seria intensa e implacável. Todavia, assim que estivesse escolhido o comandante, os opositores acabariam a luta e participavam na navegação ajudando na lida. Uns ficariam de vigia na gávea, outros estudariam os mapas e as estrelas, e outros ficariam a olhar para o comandante. Se ele adormecesse, se distraísse ou disparatasse, eles anotariam e pediriam explicações, avaliariam o problema. Em caso de extrema gravidade, alertariam todo o navio e juntos julgariam da necessidade de interromper o acordo estabelecido. Mas, caso o piloto estivesse concentrado no seu rumo ou nos problemas da viagem, a oposição estaria ao seu lado para que fosse mais forte e capaz. Assim fariam, porque seria do seu interesse que o navio fizesse caminho, por um lado, e para que quando fosse a vez deles, também as condições dentro do navio fossem as melhores para a melhor navegação, pelo outro. Esta possibilidade só poderá aparecer como impossível àqueles que ignoram donde viemos ao longo da História, por isso não imaginam aonde podemos chegar.

Muitos dos que se encontram aqui no Aspirina B têm blogues, estão no Facebook, Twitter e sei lá que mais, frequentam outros grupos onde convivem apenas lendo ou também interagindo. São pessoas de Norte a Sul do País, Continente e Ilhas. Ou seja, de repente, com a Internet, voltaram as tertúlias. Estamos imersos num oceano de informação e capacidades de comunicação. Que vamos fazer com estas desvairadas possibilidades? Pouco, ou nada, se ficarmos pela repetição do que Platão, magistralmente, deixou como aviso à navegação. Nestes 4 anos e meio de Governo PS, a oposição não foi apenas paupérrima, foi também contrária ao interesse nacional. Não pela sua actividade, mas preciosamente pela sua inactividade. É que se chegou às eleições sem que houvesse correspondência entre a toxicidade dos seus ataques e a química da nossa adesão. Pura e simplesmente, a oposição não foi credível. Isso implica que não pudemos confiar no poder fiscalizador do Parlamento, pois o mais das vezes não era claro se as acusações eram de boa ou má-fé. Os partidos da oposição, de resto, não promovem a crítica racional, antes preferem a retórica emocional e assassina de carácter. Esta desgraçada situação promove maus Governos e degrada a cidadania.

Assim, ganhe quem ganhar estas eleições, o que mais desejo é uma oposição de que me possa orgulhar. Para o resto, navegar é preciso.

9 thoughts on “Navegar é preciso”

  1. Estava a ver que não aparecia “ninguem” a escrever em”lado” nenhum…
    sorrindo…
    Abraço e obrigado
    por esta cavalgada, sobressalto, civico civilizacional
    que representou toda esta luta
    contra o reaccionarismo, o retrocesso social
    dos novos “conservatives”…
    abraço

  2. Val
    É verdade tudo o que diz. Anda-se com um nervosismo miudinho, as vinte horas nunca mais chegam.
    Para aliviar as pessoas vou contar um conto e o direito de escolher a melhor quadra.
    Um dia três amigos encontraram um lobo morto e prontificaram-se o que fizesse a melhor quadra, os outros pagavam o jantar.

    João

    Este lobo
    Enquanto vivo
    Tudo crú comeu
    E nada cozido.

    António

    Este lobo
    Enquanto pelo mundo andou
    Tudo comeu
    E nada pagou.

    José

    Este lobo
    À sua sesta
    Nunca dormiu
    Tanto como esta.

    Todos chavam que a sua era a melhor. Aceita-se juri para ver quem é o vencedor.

  3. Caro Val, os textos da República são muito inspiradores e o que afirmas é muito bem observado, mas “o aviso á navegação” dá pano para mangas, como aliás se pode inferir do teu texto.

    Com a devida vénia, permito-me propor-te que revisites os textos do Livro VI 485c onde se observa que:”aversão à mentira e a recusa em admitir voluntariamente a falsidade, seja como for, mas antes odiá-la e pregar a verdade”…..”Ora, poderá encontrar-se algo de mais relacionado com a sabedoria do que a verdade?”.

    Meu caro, considerando de mérito o teu bom raciocínio, por mim penso que os portugueses o que vão julgar nestas eleições é o que imaginam ser o mais verdadeiro, o mais sábio, o que possivelmente os possa levar a bom porto.

    E assim sendo, esperemos para ver.

    A frase feita mais perversa e nula “o que for se verá” é bem aplicada.

    Um abraço

  4. aires, toma lá um grande abraço.
    __

    Manuel, voto na do José.
    __

    ARMANDO, concordo: os portugueses vão escolher quem querem para os levar a bom porto. Nem mais. Mas, atenção, tal não tem nada a ver com a verdade, pois a verdade é apanágio dos deuses. O que está em causa é a confiança.

    O filósofo, e precisamente, é aquele que sabe não possuir a verdade. Um saber que não sabe, portanto.

  5. Val, há aí qualquer coisa menos ajustada, “pois a verdade é apanágio dos deuses”, “pregar a verdade” está então fora da realidade humana e Platão é um borro?

    Ver op.cit. pag.263/4 (Livro V 480a )

    – Por conseguinte, devemos chamar amigos da sabedoria, e não amigos da opinião, aos que se dedicam ao Ser em si?
    -Absolutamente.

    Em pé de pag, philodoxos (“amigos da opinião”).

    Boas

  6. ARMANDO, os que se dedicam ao ser em si não o possuem, é por isso que estão a ele dedicados. Ou seja, eles sentem o apelo para o estudar, precisamente porque sabem quanto o ignoram. Eles sabem que nada sabem, pois. Eles sabem que não têm a verdade (sofia), embora a amem (filo).

    Qual é a parte menos ajustada?

  7. Val, Livro VI 484b-“uma vez que os filósofos são aqueles que são capazes de atingir aquilo que se mantém sempre do mesmo modo, e aqueles que o não são, mas se perdem no que é múltiplo e variável, não são filósofos, qual das duas espécies é que deve ser chefe da cidade?

    Essa de “Eles sabem que nada sabem”, é muito radical. Deve ser, eles sabem quanto o pouco que sabem quanto mais sabem.

    OK.

    Só assim se compreende a procura, não impede o dever de evitar a mentira.

  8. Sim, estás certíssimo: é uma afirmação, e postura, radical. Por isso, considera-se ser a filosofia também uma procura de si própria. A frase do “só sei que nada sei”, atribuída por Platão a Sócrates, é uma expressão da procura radical do saber. Ora, posto que se sabe que não se sabe, nenhum filósofo se pode arrogar a posse da verdade.

    Questão diferente é a de saber quem deve governar, e o que Platão defende é este modelo em que os doutos ignorantes governam. Ou seja, em que o governo se torna científico e não passional.

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