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Adeus Líbano

Os bacanos do PSD e arredores são especialistas em espiões. Já foram espiados em jantares na Madeira, foram espiados nos jardins do Palácio de Belém, foram espiados nos computadores do Público, vão espiando em Aveiro e espiolham a blogosfera à procura dos celebérrimos assessores anónimos que assinam o que escrevem. Com base nesta vasta experiência, sabem bem o que está em causa nas declarações de Santos Silva: arriscamo-nos a perder o Líbano.

A existência de um serviço de informações militares era segrego guardado com juras de sangue e ameaças de aumento de impostos; até lhe chamavam a secreta militar, assim indicando que se devia falar baixinho do assunto. Agora, tal vantagem desapareceu graças à incúria do Ministro da Defesa. A partir deste momento, todos os nossos inimigos no Líbano já receberem telefonemas, faxes e pombos-correio de familiares com a revelação avassaladora: Portugal tem espiões!

O perigo não pode ser maior, como é óbvio, até porque são conhecidas as dificuldades orçamentais dos serviços secretos, o que só aumenta a sua lenda heróica. Para o Hezbollah, saber que Portugal pode enviar dois ou três agentes até ao Líbano para tirarem fotografias à arquitectura local e ficarem à coca nas esquinas a galar as moçoilas é fonte de terror. Eles não vão tolerar tamanha ameaça ao seu modo de vida regido por estritos códigos de conduta antidesportiva. É que se adivinha o que irá acontecer, sem margem para dúvidas: assim que a população perceber que está frente a um espião português, começará logo a fazer perguntas acerca do vernáculo queiroziano, da invisível e indolor lesão do Nani, do método de treino do Paulo Sérgio ou falta dele, das formas de empandeirar o Roberto e de tantos outros assuntos queridos dos libaneses. Isto seria o caos, levando milhares ao abandono do combate militar contra Israel só para ficarem a ouvir as infindáveis histórias do futebol lusitano.

Conceda-se, pois, razão às brilhantes inteligências sociais-democratas: o Líbano vai ficar a ferro e fogo para impedir a chegada dos nossos coscuvilheiros e bigodudos espiões. E a culpa é do estouvado Santos Silva.

Não, a direita não pode ser isto

Que misteriosos infortúnios levaram Francisco José Viegas a juntar-se ao coro de indigentes cognitivos que escolheu esta segunda-feira para provar, pela bilionésima vez, que a direita portuguesa abalou para parte incerta, décadas atrás, e deixou no seu lugar uma confraria de zerinhos? Atacar Santos Silva por fazer inócua e normal referência a operações dos serviços de informação militar começa por dar vontade de rir. Rapidamente, porém, o riso fica nervoso e acaba-se aterrado: uma parte da suposta elite portuguesa não sabe o que fazem os serviços de informação. Estes desassombrados conterrâneos imaginam que os Talibã acabaram de ler a entrevista do Ministro da Defesa e foram a correr afiar navalhas para preparar a recepção aos temidos operacionais portugueses que vão a caminho de Cabul com as suas barbas postiças. É estúpido de mais, inacreditável. -> Ler o Miguel.

A confraria dos zerinhos também se entusiasmou com a possibilidade de chamar mentiroso a Sócrates, esse ritual quotidiano de manutenção do contacto com os outros à sua volta. Se passa um dia sem espetarem uma agulha no boneco, acaba-se o vodu e entram num estado catatónico. -> Ler a Isabel.

Consta que Pinto Monteiro quer esclarecer o que se passou no Ministério Público com o processo Freeport e seu desfecho irregular. Consta que esta decisão já vem de Fevereiro. E consta que ela era previsível desde finais 2008, quando o caso voltou à cena e todos se perguntaram a respeito do que se tinha passado com o andamento da investigação. Finalmente, consta que a confraria dos zerinhos não está interessada no normal funcionamento da Procuradoria, só naquelas partes que cabem nos títulos porno-sensacionais do Sol e do Correio da Manhã.

O Zé Manel, que alguns garantem ter sido director de um outrora jornal de referência, serve-se da literatura nazi para emitir opinião acerca da política nacional. Que pena não ter começado a escrever em blogues há 5 ou 6 anos, não se teria gastado tanto tempo com um caso perdido.

Não, a direita não pode ser isto, esta confraria de zerinhos.

Segredos das pirâmides

Conheces de ginjeira a pirâmide de Maslow (se não conheces, cala-te e finge). Tem sido abundantemente divulgada desde meados do século passado, tendo invadido tudo o que é manual de psicologia, relações públicas, marketing, publicidade. Para além de corresponder a um marco histórico na Psicologia – sendo uma das principais fontes da corrente humanista que centrou a abordagem terapêutica na compreensão do sujeito enquanto sujeito – o escalonamento que se dirige para a auto-realização individual, esse zénite e ómega do humano, estava de acordo com o zeitgeist existencialista e fenomenológico de um mundo em profunda transformação económica, política, científica e tecnológica. As ciências, naturais e humanas, ligam-se aos movimentos filosóficos e literários, culturais e sociais – e vice-versa – gerando a dinâmica criativa que explica a sucessão de inovações e divergências teóricas que constituem a civilização ocidental secular. Assim, nada mais lógico do que ver a Psicologia a validar um mundo fragmentado e atomizado, no qual Deus tinha morrido, Marx estava moribundo e Freud muito combalido. Que restava? A heróica realização pessoal, a terra prometida da eterna liberdade, e imarcescível maná, nos espaços interiores de cada ser humano.

(sim, este parágrafo é um mimo de simplismo e indulgência, segura lá o cavalo)

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Brincar aos treinadores

Vendo a dificuldade do Sporting em casa com o Marítimo, simpática equipa que não queria ganhar e quase marcava um golo sem querer, ficou claro que o clube deve cerrar fileiras para defender o 4º lugar como grande meta para esta época. É que vai ser muito mais difícil lá chegar, desta vez.

A não ser, claro, que alguém com alguma autoridade no clube, pode até ser o roupeiro, convença o Paulo Bento II a fazer contas de somar. Ele que comece a somar o número de remates, passes e movimentações ofensivas de Vuckcevic ao número de assobios que a sua substituição provocou. Depois, olhando para o resultado, só tem de o deixar jogar ao lado de Liedson para a conta ficar fechada. E como não há dois sem três, que meta o Matías Fernández atrás desta dupla de habilidosos; inventando-se o triângulo atacante que apagará as memórias penosas do losango defensivo. O que acontecer abaixo da linha avançada desta troika é indiferente, vale tudo, incluindo ir rodando o Carriço pelas variadas posições do meio-campo.

Paulo Bento II pode continuar a brincar aos treinadores desde que vá tendo explicações de aritmética.

Mestre Alves

Medina Carreira, Mário Crespo, Ferreira Leite, Pacheco Pereira, Campos e Cunha, et alii, que se ponham a pau: já têm séria concorrência. Este é o verdadeiro senhor do oculto, do qual as figuras gradas da inteligência social-democrata não passam de trapalhonas aprendizes.

Infelizmente, só temos uma parte das suas revelações. O PSD terá de reunir-se com o mestre para descobrir o que fazer até ao fim do ano.

Até sei quem o pode substituir

Quando Queiroz, no lounge VIP do aeroporto de Lisboa, a caminho do sorteio da fase de apuramento do Europeu de 2012 – portanto, ao serviço da Federação Portuguesa de Futebol; isto é, em representação do Estado – desatou ao soco a Jorge Baptista, jornalista e delegado da UEFA, não estávamos em condições de entender o problema na sua extensão e gravidade. Perder a cabeça pode acontecer a qualquer um, por inúmeras razões. Mas o episódio foi a 6 de Fevereiro, há perto de 7 meses. O que se passou entretanto obriga a voltar atrás com um novo olhar, levando à inevitável conclusão: Queiroz é chanfrado dos cornos.

Em todas as situações escandalosas e disfuncionais que protagoniza encontramos um padrão: nega a sua ilicitude ou imoralidade, declara a sua irresponsabilidade e mente. Ainda se acrescenta outra cena só dele, que nunca se viu a mais ninguém naquele cargo: as suas declarações públicas, acerca de dirigentes e jogadores, parecem de alguém que perdeu a capacidade de se avaliar e conter, largando bacoradas inacreditáveis.

Mesmo que tivéssemos vindo da África do Sul campeões do Mundo, seria urgente restituir a dignidade à Selecção Nacional. E aproveito para sugerir um substituto que não fará pior, o qual está pronto para pegar ao serviço já neste mês de Agosto: Paulo Sérgio, actual assalariado do Sporting Clube de Portugal.

Qual é o trunfo?

“Os portugueses precisam de políticos que falem com verdade”, acrescentou, lembrando que quando foi necessário “o PSD deu as mãos aos portugueses” e apoiou medidas difíceis exigidas por Bruxelas. “Ou o PS começa a governar ou então deixe outros governar”, desafiou Passos Coelho, em declarações aos jornalistas já depois dos discurso.

Fonte

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A crise do PSD, a confrangedora incapacidade de se apresentar como alternativa desejada, nasce da inanidade intelectual dos seus quadros, a qual é o fruto da decadência cívica do seu tecido sociológico. Não há talento nem amor nos sociais-democratas, por isso são os primeiros a detestarem o que representam: a provinciana gula material e honorífica. As alianças entre eles são sanguíneas ou volúveis e cínicas, desasadas. Nenhum ideal os une, tão-só o calculismo e oportunismo. A existir quem pudesse recuperar a credibilidade deste partido, não estão à vista. Talvez prefiram os confortos profissionais e privilégios sociais sem exposição pública, talvez não acreditem na possibilidade de regeneração partidária. O que vemos, nos dirigentes e publicistas, e independentemente da idade das figuras, é velho e relho.

Tome-se o exemplo supra. A estupidez de Passos Coelho é mastodôntica. Da asinina cassete da verdade que volta ao baile, passando pela patética recolha de louros por se ter dado as mãos aos portugueses em caso de necessidade (pasmai com a misericórdia que nos salvou, ó gentes!), até à declaração de impotência para derrubar o Governo e ter, portanto, de esperar que o PS decida quando vai a eleições, não é possível disparatar mais em tão curto espaço de tempo. Fica a clara ideia de que ninguém pensa no que lhes aconteceu, acontece e poderá acontecer com a persistência numa oposição de bravata à doidivanas.

A política feita por estes melros tem a sofisticação de uma jogatana de sueca, mas eles não contam as vazas e há fundadas suspeitas de que nem sabem qual é o trunfo.

Errou a profissão, mas ainda vai muito a tempo de refazer a carreira

No final do jogo com o Brondby, Paulo Bento II disse estar satisfeito com o facto de os assobios à equipa só terem vindo após o apito final. Ele entendeu como manifestação de apoio a crescente apatia que tomou conta dos adeptos durante a 2ª parte.

Calhando o Sporting ter um presidente, nesta segunda-feira, logo pela fresca, estaria reunido com este senhor para lhe oferecer um novo emprego: cheerleader.

Na veia

João Pinto e Castro recomenda este superlativo espectáculo de inteligência oferecido por Nicholas Christakis.

Aproveito para indicar duas curtidas infografias descritivas das redes sociais na Internet, seu poder e mudanças constantes: 2007 versus 2010
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Fernanda Câncio continua a desembrulhar o novelo de pulhices contra Sócrates que tem medrado no Público desde que o accionista jurou vingança e o Zé Manel se dedicou, celerado, à sua execução. Os efeitos continuam a sentir-se, porque pouco mudou naquela casa onde manda o mesmo senhor.

Sportings

Grande vitória do Braga. E o segundo golo esteve por um triz. Mas o que mais me agradou, porque os resultados nascem da sorte, foi ver os jogadores do Paciência a pensar antes de passar a bola. Não sempre, nem sempre bem, todavia como manifestação do treino. Sem craques e pernas, é esse o máximo da competência a que pode chegar uma qualquer equipa: a inteligência do passe, a qual pede a geométrica inteligência da posição e do movimento para se realizar. Confiança e humildade, dar e receber. O passe vence a solidão.

Estás a prestar atenção, Paulo Bento II?

Bloqueados

Lembro-me bem de ter votado PSR e Bloco de Esquerda. Não só por causa de Louçã e da sua alegria política nesses tempos, mas ainda mais pela abertura aos independentes e às independências. Durante a segunda metade da década de 80, e ao longo de todo o Cavaquismo, esta esquerda ágil e leve (na aparência) era um balão de oxigénio para quem se iniciava nas lides da cidadania ou dela tinha uma amarga experiência. Complementavam a oferta disponível à esquerda, o cinzentismo bélico e granítico do PCP e as ambiguidades generalistas do PS, com uma promessa anti-sistema que sugeria credibilidade e relevância. Conseguiram vencer o folclore dos partidos da extrema-esquerda, pardieiros de românticos e lunáticos. Para aderir às suas principais causas bastava estar sintonizado com os anseios de crescimento e libertação da sociedade, não carecia de aparato ideológico para se consumir o excelente marketing do PSR e BE.

Com o crescimento eleitoral veio a diminuição da inocência na comunicação. O horizonte já não era o de serem ouvidos, estarem no Parlamento, dominarem o nicho dos comentaristas políticos mais apaparicados da comunicação social. A luta tinha de continuar, the show must go on, e Louçã ia ficando cada vez mais ambicioso – ou ia revelando cada vez mais o pleno da sua ambição. Gradualmente, em especial com a instrumentalização dos professores e de Alegre, a meta declarada passou a ser a fractura do PS, primeiro, e o domínio eleitoral de toda a esquerda, por fim. A este plano correspondia o pináculo do azudeme nas intervenções de Louçã, entregue em desvario a um duelo de galos com Sócrates. A procura de novidade estava morta, ficava um general obcecado pelas visões da sua coroação.
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