Arquivo da Categoria: Valupi

Deficitários

A ideia de que Sócrates e Teixeira dos Santos cometem erros crassos atrás de erros crassos, que promovem uma cultura de irresponsabilidade e que preferem a bancarrota às medidas que salvariam a economia de um Governo para o outro, é sintoma de um défice muito maior, e muito mais grave, do que o da dívida soberana.

E mais dois

Mourinho pode treinar Portugal (isto é, fazer a convocatória ao calhas e montar a equipa pelo telefone), Portugal pode ganhar os dois jogos, toda a minha gente pode ficar feliz e contente, até o futebol pode ser bonito de ver. Isso em nada alterará a natureza efémera, provinciana e burlesca da solução. Na verdade, estará a criar-se um novo problema para o seleccionador seguinte, visto como mero recurso por não se poder contar com Mourinho para mais dois jogos, e mais dois, e mais dois, e mais dois, e mais dois, e mais dois, e mais dois, e mais dois, e mais dois, e mais dois, […]

[…]

[…]

[…]

e mais dois.

Lições do Vasquinho

O dr. Cavaco está em aflições e alguns dos ministros do dr. Cavaco estão em grandes aflições. Essas aflições não têm remédio e vão fatalmente aumentar nos próximos anos. Ora sendo certo que o dr. Cavaco é um mau político e os ministros que escolheu à sua imagem e semelhança execráveis políticos, a causa do já visível fracasso deste governo de incompetentes não se deve atribuir à incompetência. Mesmo com outros ministros, um pouco menos pecos e pedantes, o governo não podia deixar de falhar pela simples razão de que prometeu fazer e se propõe fazer o que em toda a evidência não há maneira de alcançar.

Só não percebe quem não quer: as forças armadas precisam de mais dinheiro, o ensino precisa de mais dinheiro, a saúde precisa de mais dinheiro. Como também a habitação social, os transportes, os tribunais e a cultura. E os reformados, e as câmaras, e o ambiente. A dívida pública incha e o dr. Cadilhe rebusca os nossos bolsos com minhota diligência. Apesar disso, o dinheiro não chega. Nunca chega. Nunca irá chegar.

Vasco Pulido Valente, in O Independente, 17 de Fevereiro de 1989

Assim, sim

Se o PSD quer servir para alguma coisa, e deixar de ser parte do problema por ser incapaz de se regenerar e reformar, tem de fazer sua esta lucidez. Luís Menezes Leitão é uma voz isolada, mas sólida. Se ganhar balanço, teremos algo de interessante a nascer no PSD, finalmente.

Cineterapia


The American President_Rob Reiner

Para uma genealogia das conspirações políticas, não vale a pena a longa viagem até à China das dinastias, nem visitar o bizarro Egipto dos faraós, muito menos entrar nas movediças areias bíblicas, fiquemo-nos pela Europa; com a acrescida vantagem de estarmos no berço da democracia nesse exacto momento em que esta dava os primeiros passos.

Anaxágoras, nascido há 2.510 anos na actual Turquia, foi para Atenas algures na sua idade adulta. Levava ideias nunca antes pensadas. Como esta:

Em todas as coisas, há uma parte de todas as coisas.

Parece coisa simples, coisa de somenos, mas pressupõe uma coisa do camandro: que não há dimensões absolutas na realidade, não existe algo que seja o mais pequeno ou o maior por comparação com o restante, e que a matéria é infinitamente infinita, que estamos cercados por uma multiplicação de infinitos. Vou-te poupar à explicação de como ele chegou aqui, até porque tens de ir a correr preparar o jantar, mas não admira que esta cabeça fosse alérgica ao sistema religioso, mitológico e supersticioso das geografias que atravessava. O que via com a sua inteligência fazia do Olimpo uma casinha de bonecas.

Já adivinhaste, as grandes cabeças gostam de conversar umas com as outras, especialmente quando se cruzam numa cidade mediterrânica servida por mobiliário urbano de estética aprimorada e jarros de vinho a preços módicos. Foi o que aconteceu entre Anaxágoras e um dos mais famosos cabeçudos da História: Péricles, o tio da Democracia (o pai foi Clístenes, Sólon o avô, toma e embrulha). Rapidamente ficaram amigos, o cientista genial e o genial político.

Continuar a lerCineterapia

Na veia

Salazar é quem nos vai salvar. Para isso, precisamos de acabar com dois tabus: aquele criado pelo PCP, para efeitos de apropriação e exploração da lenda antifascista; aquele criado pela Democracia, quando preferiu varrer para debaixo do tapete o lado criminoso do anterior regime. Em ambos os casos, por mitificação e ocultação, cortava-se o acesso à realidade histórica.

Nesse sentido, a biografia política de Salazar que Filipe Ribeiro de Menezes escreveu promete ser a inauguração de uma nova era onde os académicos, ufa!, começam a fornecer à comunidade elementos objectivos e detalhados para uma nova compreensão do século XX português a partir do seu mais importante estadista. Inevitavelmente, a polémica nascerá – e ainda bem, significa que estamos a fazer caminho.

Leia-se, pois, a crónica de Fernanda Câncio – e respectiva discussão na caixa de comentários – onde ela pega numa ideia veiculada pelo autor em entrevista, nem sequer esperou para ler o livro. Isto diz bem do melindre da problemática. E leia-se, na sequência, Irene Pimentel, num texto que alia a minúcia de investigadora com a síntese e simplicidade de pedagoga.

Venham mais polémicas. Quão mais conhecermos Salazar, e a estrutura social que lhe permitiu o mando, mais nos iremos conhecer como comunidade.

É impressão minha ou…

Uma das situações mais encaralhantes da realidade portuguesa está aqui subsumida. Duarte Levy, jornalista freelancer, pôde publicar no DN uma notícia causadora de alarme público por atingir o cerne da credibilidade do Ministério Público precisamente num caso de gravíssimas implicações e consequências políticas. Seguiu-se a usual exploração do boato pelos trastes do costume e, 3 dias depois, os magistrados em causa publicaram uma declaração formal que estancou a sangria. Finalmente, o próprio Serious Fraud Office confirma a falsidade do documento que fundamenta a notícia de Duarte Levy, publicada pelo DN. A isto tudo responde o autor com um ataque à agência inglesa e a insinuação de ter mais informações em seu poder que comprometem as declarações e honorabilidade dos visados.

É impressão minha ou o DN não poderá, sob pena de ficar igual ao Sol e ao Correio da Manhã, continuar em silêncio num episódio a que deu a sua chancela sem validar as informações publicadas, tornando-se ainda mais responsável do que o próprio jornalista? Se Duarte Levy tem razão, façam o favor de publicar os restantes documentos que o senhor alega ter em seu poder. Se não tem razão, afirmem-no inequívoca e urgentemente.

Não pensaste nesta, Darwin

Sempre haverá quem se sinta vingado com o terrorismo, justificando com a assimetria, os mortos das guerras causadas pelas potências ocidentais e a longa tradição do ataque a civis para fins políticos e militares. No fundo, dizem que o terrorismo pode ser uma justa reacção, uma legítima defesa, uma questão de sobrevivência de causas, povos, soberanias.

E essa é uma das mais fortes provas de que descendemos dos macacos.

O País é que não presta

Não sei, porque nunca me aconteceu, mas suponho que deva ser tramado: passar meses, anos, numa desvairada campanha de assassinato de carácter, num constante boicote ao Governo apenas porque estão lá os outros, num berreiro imparável contra a colossal inépcia e irresponsabilidade de Sócrates, declarar todos os dias que o abismo onde Portugal se afundará chega amanhã, e depois termos de nos levantar, ir ao banho e ao papo-seco, sair à rua e enfrentar esta sondagem nos idos de Setembro. Terrível, não gostaria nada que me acontecesse.

Claro que os zerinhos não o vão entender, nem ficando a tentar explicar até que o Estoril-Praia ganhasse a Champions, mas aqui segue por descargo de consciência: se Sócrates é tão mau como vocês o pintam, se é esse monstro de incompetência e corrupção, talvez esteja na altura de reconhecerem que há mais onde ocuparem o vosso tempo sem ser a coleccionar humilhações desta magnitude.

Portugal, decididamente, não merece o vosso titânico esforço, a vossa admirável inteligência e, acima e antes de tudo, a vossa salvífica verdade.

Blogosfera, modo de usar

O nosso amigo GiróFlé, companheiro de longa data e de vários carnavais, fez um comentário ao seu estilo: sulfúrico, irrelevante, alucinado e divertido/patético (riscar o que não interessa). O típico espasmo gerôntico, injecção de cinismo calejado, que ajuda a suportar os dias (os dele). A essa prosa respondeu o nosso amigo José Albergaria, sempre com contributos que acrescentam informação e ideias, que suscitam discussão e pensamento.

Ora, a blogosfera é precisamente o resultado dinâmico, mas poucas vezes dialéctico, destas duas polaridades, a egoísta e a altruísta. Aceitar a inevitabilidade da primeira e a raridade da segunda, eis o caminho da sabedoria digital.