Cineterapia


The American President_Rob Reiner

Para uma genealogia das conspirações políticas, não vale a pena a longa viagem até à China das dinastias, nem visitar o bizarro Egipto dos faraós, muito menos entrar nas movediças areias bíblicas, fiquemo-nos pela Europa; com a acrescida vantagem de estarmos no berço da democracia nesse exacto momento em que esta dava os primeiros passos.

Anaxágoras, nascido há 2.510 anos na actual Turquia, foi para Atenas algures na sua idade adulta. Levava ideias nunca antes pensadas. Como esta:

Em todas as coisas, há uma parte de todas as coisas.

Parece coisa simples, coisa de somenos, mas pressupõe uma coisa do camandro: que não há dimensões absolutas na realidade, não existe algo que seja o mais pequeno ou o maior por comparação com o restante, e que a matéria é infinitamente infinita, que estamos cercados por uma multiplicação de infinitos. Vou-te poupar à explicação de como ele chegou aqui, até porque tens de ir a correr preparar o jantar, mas não admira que esta cabeça fosse alérgica ao sistema religioso, mitológico e supersticioso das geografias que atravessava. O que via com a sua inteligência fazia do Olimpo uma casinha de bonecas.

Já adivinhaste, as grandes cabeças gostam de conversar umas com as outras, especialmente quando se cruzam numa cidade mediterrânica servida por mobiliário urbano de estética aprimorada e jarros de vinho a preços módicos. Foi o que aconteceu entre Anaxágoras e um dos mais famosos cabeçudos da História: Péricles, o tio da Democracia (o pai foi Clístenes, Sólon o avô, toma e embrulha). Rapidamente ficaram amigos, o cientista genial e o genial político.

Ora, havia por lá um Tucídides (filho de Melésias, não confundir com a vedeta homónima, filho de Oloro) que chefiava o partido conservador. Como tal, opunha-se a Péricles e à sua política reformista, defendendo os interesses dos oligarcas, não os da democracia. Porém, para grande depressão do PSD e CDS locais, os debates na assembleia não lhe corriam bem, levava sempre nas orelhas do brilhante e aguerrido orador que o povo preferia a chefiar o Governo.

Vai daí, os neurónios não dando para mais, passou para o terrorismo político, a calúnia: acusou Péricles de prodigalidade, dizendo que ele gastava à tripa-forra em obras públicas – um argumento tão típico dos conservadores ressabiados que continua no auge da sua popularidade 25 séculos depois. Também apontou as baterias contra Anaxágoras a propósito de este declarar que as estrelas eram calhaus incandescentes, e que o Sol era metal fundido, não sendo deuses – ou seja, a propósito do seu avanço filosófico e científico para a época. A esta acusação de ateísmo juntou a de traição ao serviço da Pérsia, assim se confirmando que os caluniadores são sempre férteis nas pulhices.

A intenção era a de atingir Péricles, mostrando que ele privava com um inimigo da religião e dos Gregos. O facto de Anaxágoras ser só o intelecto mais poderoso e vanguardista em 500 milhões de quilómetros quadrados de Planeta não inibia os conservadores, deixava-os era a espumar de raiva. Obviamente, e pedindo a imagem emprestada a Agostinho da Silva, estes eram do tipo mais comum de conservadores: dos que pretendiam conservar a lata, mas que não se interessavam pela sardinha. Conservadores com muita lata, muita ganância, e pouca vergonha. Onde foi que já vimos este filme?

Falando do outro filme, aquele falado em inglês, variadas são as curiosidades. Começa pelo realizador, Rob Reiner, que iniciou a carreira aos 12 anos como actor e teve em All in the Family, no gozado Michael ‘Meathead’ Stivic, o seu mais popular e memorável papel. Enquanto realizador, não será lembrado por ter acrescentado algo de novo ao cinema, a banalidade competente é o máximo que consegue atingir, mas por ter feito um filme que marcou a cultura popular na entrada dos anos 90: When Harry Met Sally. Só que o mérito maior vai para a argumentista, Nora Ephron, e a feliz química dos actores, diga-se em abono da verdade cinéfila. E é também o argumento, e respectivo argumentista, o aspecto mais interessante deste medíocre The American President. Trata-se de uma obra do celebrado Aaron Sorkin, repleta de diálogos simultaneamente densos e acutilantes, onde se expressa uma paixão pela política e seus agentes. O filme, de 1995, pode ser visto como a prequela da série The West Wing, enorme sucesso de 1999 a 2006. Até alguns dos actores foram repescados; caso de Martin Sheen, que passou de Chefe de Gabinete a Presidente, o sortudo.

Como é timbre de Sorkin, vinga nas duas obras um ideal que se funda no carácter individual e seu confronto com as dilacerantes decisões inerentes aos conflitos e ambiguidades da acção política. O propósito é o de realçar que a complexidade fragmentária exige complexidade unificadora. Daí uma equipa governativa ser apresentada como uma equipa de alta competição desportiva, ou grupo de heróis sempre demasiado humanos, repleta dos melhores talentos em matérias de conhecimento, discernimento, deontologia, integridade e força de vontade. Só neste nível se resiste à corrosiva acção do Poder e dos contra-poderes, essa dinâmica dissoluta que alimenta o pessimismo e gera alheamento e decadência cívica. O esforço artístico de Sorkin é um tour de force cívico e antropológico, fazendo-nos acreditar que o poder nem sempre corrompe, que a democracia é o melhor dos regimes por ser aquele que exige o melhor dos governantes para se manter e realizar. Ou seja, e de acordo com a boa filosofia política aristotélica, a possibilidade mais alta da democracia será a de atingir o estádio em que se transforma numa aristocracia mantida pela excelência dos representantes eleitos. Lirismo? Se o for, é daquele que nos faz bem.

As curiosidades continuam no enredo. Sendo de 1995, a acção pega na problemática do aquecimento global para fazer avançar a narrativa. Este é um elemento que nos alerta para a memória política e sociológica que o cinema também conserva. De facto, o fenómeno das alterações climáticas já vem sendo alvo de preocupação da comunidade científica desde os anos 80 (quem se lembra da badalada Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, no Rio de Janeiro, em 1992?). Podemos comparar com a situação actual, 15 anos depois, e constatar, desconsolados, que nada de substancial se alterou na relação dos países mais desenvolvidos com o imparável e crescente aquecimento das temperaturas e suas previsíveis catastróficas consequências.

Ainda mais curiosa é a principal linha de conflito do argumento, consistindo numa tentativa de assassinato de carácter a partir da deturpação de elementos biográficos de terceiros. O Presidente, sendo viúvo, apaixona-se e inicia uma relação amorosa. Os Republicanos aproveitam para denegrir o carácter da sua namorada de modo a atingirem a credibilidade do Presidente e, consequentemente, denegrirem a sua imagem junto da opinião pública. Nada de novo, claro, e há dezenas de filmes, muito mais antigos, que retratam os mesmos processos na política americana. Em comum, a manipulação dos dados e da imprensa, intoxicando o eleitorado com campanhas negras. Este aspecto do filme, ao desmontar os mecanismos logísticos e retóricos dos ataques de carácter, funciona como uma iniciação divertida à obra de Pacheco Pereira desde 2006.

Last but not least, apesar do filme não ambicionar ser algo mais do que uma comédia romântica enquadrada pela trama política, estou grato ao Rob Reiner por ter escolhido Annette Benning. Aqui com 37 esplendorosos anos, esta actriz corporiza uma das mais elegantes expressões da feminilidade segundo os critérios do meu palato. O seu encanto não depende dos destaques erógenos, nem do teatro da submissão ou da inacessibilidade, antes nasce da atitude de frontal igualdade com o adversário, o macho. Igualdade intelectual e afectiva, uma irmandade cívica para o acasalamento. Em diferentes papéis ao longo da sua carreira, a lúbrica sofisticação da sua pose no jogo amoroso foi eficazmente aproveitada por alguns realizadores: Valmont, The Grifters, Bugsy e American Beauty, por exemplo. Sendo casada com Warren Beatty, um mangas que deve ter dormido com 3 milhões de fãs, talvez isso signifique que só consiga viver com um homem que goste mesmo de mulheres, que prefira a companhia das mulheres à da solidão, um homem que celebre o mistério de haver dois sexos – isto é, um homem com quem dê tesão estar a falar.

Bom, e terá esta longuíssima, e divagante, Cineterapia alguma coisa a ver com Sócrates? Mas, claro que sim! Pois não é evidente?… Presta atenção. Anaxágoras foi mestre de Arquelau, um discreto filósofo que se limitou a repetir os outros que estudou. Todavia, esse pode ser um altíssimo destino, desde que se transmita o que mais importa. E, no caso, algo de decisivo pode ter transmitido ao seu mais famoso discípulo; nada mais, nada menos, do que a super-estrela da filosofia de todos os tempos, o nosso querido Sócrates.

Vês? Isto anda tudo ligado, e não é de agora.

14 thoughts on “Cineterapia”

  1. Anaxágoras de Clazómenas, nascido no ano 500 aC na jónia grega da Ásia Menor, foi para Atenas em 460, levado pela fama da filosofia helénica que nesse tempo alí concentrara a discussão das várias escolas pré-socráticas.
    Em Atenas entra em contacto com o circulo ilustrado dos amigos de Péricles e conhece Aí as doutrinas pitagóricas, o pensamento da escola eleáticae provavelmente os poemas de Empécocles de Agrigento e a recém-nascida sofística. Sua influência fez-se sentir sobremaneira sobre Eurípedes e também junto de Péricles.
    Precisamente, sua amizade com o estadista Ateniense, o tornou alvo dos inimigos deste que o acusaram de impiedade, isto é, a mesma acusação que anos mais tarde condenaria Sócrates à morte.
    A acusação invocava que Anaxágoras afirmava que o Sol era uma pedra incandescente, o que contrariava a crença oficial de que o Sol era um deus. Foi condenado e exilou-se em Lámpsago (432) onde continuou a sua actividade filosófica e foi apreciado e admirado em vida e lhe prestaram grandes honras na sua morte em 428.
    Foi o introdutor da ideia de espírito “nous” que pôe em movimento as substâncias e transforma o caos em cosmos.
    Sobre a percepção disse:”Devido à debilidade dos sentidos, não somos capazes de distinguir a verdade”.
    Há 2500 anos que andam a dizer que não é possível conhecer a verdade, contudo por cá há quem tenha a verdade na boca cada vez que fala.

  2. Parabens pelo post. Muito interessante e aplicavel, fizemos um bom percurso pela Grecia clásica.

    O nome de Anaxágoras, de forma automática produz en min que tenha que repetir os de Anaximandro e Anaximenes, e depois engado a Heráclito e Parménides. Não tem nada que ver co pensamento, tem relação com a forma de estudo da época de aulas de bacharelato que foi assim como ficou na minha mente os presocráticos. Não poderia fazer um relatorio claro do seu pensamento embora os seus nomes como da alineação duma equipa se tratara assim ficaram. São formas diferentes de estudar en cada época, melhor ou pior, isso é dificil de saber.

    Isso sim do Heráclito recordo sempre o de que todo muda, todo está en movemento como se da agua dum rio que estasse a mover sem que uma seja igual que a anterior.

    Concordo que tudo fica muito ligado e não de agora.

  3. Por falar em filmes, está aí de volta a Mila Jovovitch, o ser perfeito no V elemento. Nunca mais tinha ouvido falar nela, mas revi o V elemento duas vezes no entretanto, por aqui. Vem a disparar por todos os lados, mas bela: resident evil.

  4. Grande post. Ligar Anaxágoras a Aaron Sorkin é um grande esticanço, e está magistralmente bem feito. E já agora, concordo contigo: o filme é medíocre, mas daqueles medíocres muito bons, e como se pode ver pelo actual líder dos Republicanos, o guião é perfeitamente certeiro e actual.
    Já agora, aproveito a deixa, se me quiseres ajudar: estou com curiosidade sobre Agostinho da Silva. Por onde é que começo?

  5. Valupi, És um barra, de ferro, concreto, ou outra coisa qualquer excessivamente dura!

    Olhando furtivamente para dentro da tua marmita bem provida, que vemos nós? Bom, vemos o teu governo Ideal, ainda por cima americano, made in Hollywood, Ca. (pelo saduceu, le seducteur, parfois le comedien), clinically clean in every way:

    “Daí uma equipa governativa ser apresentada como uma equipa de alta competição desportiva, ou grupo de heróis sempre demasiado humanos, repleta dos melhores talentos em matérias de conhecimento, discernimento, deontologia, integridade e força de vontade. Só neste nível se resiste à corrosiva acção do Poder e dos contra-poderes, essa dinâmica dissoluta que alimenta o pessimismo e gera alheamento e decadência cívica”.

    O poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente. Esta tua variação está corrigida e melhorada, assim como que uma garantia de que o preço o preço da pescada não vai aumentar at]e Dezembro:

    “o poder nem sempre corrompe, que a democracia é o melhor dos regimes por ser aquele que exige o melhor dos governantes para se manter e realizar”. Realizar é palavra de caixa: cuidado com isso.

    Aqui, nesta coisinha de duas linhas, ateias e eneias a fogueira cerobrolavadora da Nova Ordem Mundial e julgas, em anticipação do que virão a ser os comentátrios que já te fizeram, que é lindo e na moda, sem nunca teres lido nada ou zero sobre a opinião do outro lado do pão nosso de cada dia:

    “a acção (no filme) pega na problemática do aquecimento global para fazer avançar a narrativa…o imparável e crescente aquecimento das temperaturas e suas previsíveis catastróficas consequências”. Chame-se os bombeiros que o Pacheco Pereira também tem o cu a arder! Já são dois.

    E depois:

    “Este aspecto do filme, ao desmontar os mecanismos logísticos e retóricos dos ataques de carácter, funciona como uma iniciação divertida à obra de Pacheco Pereira desde 2006”.
    Aqui só te peço que me digas o que entendes por “mecanismos logísticos”, nesse contexto filmico em que o Pacheco Pereira funciona como um extra a 100 dolares por dia numa cena a andar de bicicleta.

    Diz-me se assumo correctamente que sendo o Sócrates Péricles, tu serás Anaxágoras, portanto. Era o que eu pensava e não vou contestar isso.

    E outra coisa, onde é que tu andas a meter o palato quando vês uma mulher bonita? Wicked…

  6. reis, tens toda a razão: os pré-socráticos formam uma família, precisamos de os conhecer a todos para compreender cada um.
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    ⅀, Anaxágoras até tinha essa alcunha, a “Inteligência” (Nous).
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    josé albergaria, espero que sim, que apareçam mais 5, e mais 50, e mais 500. Faz-nos bem o cinema.
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    Vega9000, a melhor via de acesso ao Agostinho da Silva é pela oralidade. Há vários vídeos na Net que podes ver, e há DVD’s variados. Em especial, recomendo a série das Conversas Vadias. No plano bibliográfico, há muitos livros – tanto dele, como sobre ele. Mas nenhum livro se compara à sua presença corporal que o vídeo e o áudio conservam.

    Agostinho é um mestre vivo, da palavra-acontecimento.
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    GiróFlé, lá vens tu com o copy/paste. Esse é um recurso que disfarça muito mal a desvairada confusão que te baralha a caixa registadora. Tens as brancas no lugar das pretas e as pretas no lugar das brancas. Por isso te enganas tanto a dar o troco.

  7. Valupi,

    Porque te incomodam tanto os copy-paste, meu filho. Nunca é de demais reimprimir as tuas santas e doutas palavras. É que ás vezes podes esquecer-te das barbaridades enciclopedicas que escreves na esperança (vã, quanto a mim) de seres convidado a assistir a cinco minutos de filmagens do próximo film do Spielberg.

    E não tens vergonha: agora até queres levar o Vega para “oralidades”, “conversas vadias” e “presenças corporais”. Acaba com isso meu degenerado! Se eu fosse gajo grande no Vaticano nunca mais punhas os pés na Universidade Católica.

    José Albergaria,

    O Valupi percebeu, espero. Mas o esforço que fez para demonstrar a minha “desvairada confusão” roubou-lhe a energia para se meter nisso.

  8. giroflé, nada perdeste do teu cunho. continuas reconhecível ao primeiro parágrafo e eu já nem me lembrava de ti. louvo-te a consistência.

  9. ahahah, Giroflé, estiveste bem agora. Obrigado pela gargalhada. És a prova viva que a garrafeira do Pingo Doce é de boa qualidade, e que tens aproveitado a promoção “leve 6 pague 5” da melhor maneira.

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