Na veia

Salazar é quem nos vai salvar. Para isso, precisamos de acabar com dois tabus: aquele criado pelo PCP, para efeitos de apropriação e exploração da lenda antifascista; aquele criado pela Democracia, quando preferiu varrer para debaixo do tapete o lado criminoso do anterior regime. Em ambos os casos, por mitificação e ocultação, cortava-se o acesso à realidade histórica.

Nesse sentido, a biografia política de Salazar que Filipe Ribeiro de Menezes escreveu promete ser a inauguração de uma nova era onde os académicos, ufa!, começam a fornecer à comunidade elementos objectivos e detalhados para uma nova compreensão do século XX português a partir do seu mais importante estadista. Inevitavelmente, a polémica nascerá – e ainda bem, significa que estamos a fazer caminho.

Leia-se, pois, a crónica de Fernanda Câncio – e respectiva discussão na caixa de comentários – onde ela pega numa ideia veiculada pelo autor em entrevista, nem sequer esperou para ler o livro. Isto diz bem do melindre da problemática. E leia-se, na sequência, Irene Pimentel, num texto que alia a minúcia de investigadora com a síntese e simplicidade de pedagoga.

Venham mais polémicas. Quão mais conhecermos Salazar, e a estrutura social que lhe permitiu o mando, mais nos iremos conhecer como comunidade.

10 thoughts on “Na veia”

  1. Já tive oportunidade de ler (e guardar) o post de Irene Pimentel que me parece de uma clareza ímpar e sobretudo esclarecedor e didáctico.
    Não devemos, de facto, “deitar para debaixo do tapete” esse período (negro) da nossa história colectiva e analisa-lo na perspectiva dos ensinamentos que devemos tomar para os tempos actuais (especialmente se tivermos em conta os factos histórico-políticos que a Irene Pimentel nos refere no seu excelente post).
    São discussões destas e não tanto uma espécie de “Porto-Benfica” que nos devem fazer crescer enquanto seres pensantes.

  2. Palminhas, Valupi, foi a aprimeira vez que vi dares uma bengalada na Fernanda Casseteira (som). Continua assim que vais bem. De facto, o mais importante é o livro do homem e a senhora, pois, parece que nunca vai lê-o. Típico.

    Eu não estou com meias medidas: O Cristianismo, pelo menos de cúpula e seus arrabaldes, é a continuação do Judaísmo, pelo menos de cupula e seus arredores, por outros meios. Muito embora eu reivindique direitos de originalidade para esta opinião, uma leitura da história completa da chafarica italiana Propaganda Due (P2) fornece material mais que suficiente para se fazer um juizo similar ao meu. Lá, para além dos inevitáveis aventalizados, que o eram, todos, havia de tudo, fascistas, democratas, prelados, banqueiros, vigaristas, ciaeiros, mossadeiros e mafiosos. Só lá faltava o Salazar, mas não estou certo se o seu espírito andava por lá ou não.

    Já tenho entrado em farmácias menos fornecidas.

    Estranho: a claque do costume ainda não apareceu por aqui.

  3. No meu blog, “Mainstreet”, já comentei o post de Irene Pimentel, publicado no Jugular, a entrevista do historiador Filipe Ribeiro de Menezes à jornalista Ana Sá Lopes e, de algum modo, zurzi naqueles, encartados, ou não, comentadores de ocasião ou mesmo jornalistas conhecidos que (os exemplos são mais que muitos…) sem lerem a entrevista, menos ainda o livro do historiador, desataram numa berraria de estrondear contra o tal titulo “Salazar foi um democrata cristão convicto”.
    Portanto, sobre o tópico Fernanda Câncio…não direi mais do que ela merece pelos disparates que escreveu: nada.
    Abro uma excepção para assinalar um traço de união (salvo seja…) com Giroflé: temos o mesmo “gosto” em relação a Fernanda Câncio.
    J. Albergaria

  4. MARGARIDO TEIXEIRA, exactamente.
    __

    GiróFlé, larga o tintol.
    __

    josé albergaria, a polémica lançada pela Fernanda parece-me legítima e útil. Ela referiu-se apenas à entrevista, agarrando pelos cornos o conceito de “democrata-cristão”. Isso, independentemente da querela doutrinária, favorece o debate. É uma forma paralela, mesmo se involuntária, de promover o livro.

    Agora, há que ler a obra e continuar a fazer caminho. Há muito para descobrir no salazarismo, muito que também explicará parte destes 36 anos seguintes ao fim do “fascismo”.

  5. Caro Valupi,
    Os dislates de F. Câncio foram úteis ao debate e à promoção do livro? Não tenho de dúvidas disso.
    Mas foram-no por más razões para a jornalista, que exige, tantas vezes, esse rigor (que não teve) aos outros
    Contudo, repare você, o que o historiador em questão disse a Ana Sá Lopes, sobre o tópico que incomodou FC:
    «Nos primeiros escritos, Salazar aceita a democracia…

    Salazar era um democrata-cristão convicto. A ideia de democracia-cristã vai evoluindo ao longo dos tempos e graças à revolução russa vira mais à direita ainda, porque os perigos se tornam muito maiores. Dá uma guinada para a direita mais radical e Salazar acompanha. Salazar faz parte desta corrente, mas não é por ser um cristão-democrata que é chamado ao poder. É por ser o professor de Finanças, que vai endireitar as Finanças.»
    Acha que FC leu a entrevista com atenção? Ou não terá mesmo lido a entrevista e “trabalhou” somente o titulo do i? Como fizeram,também, de resto, o Eduardo Pitta, o Miguel Abrantes, mesmop o Paulo Pedroso.
    Citando a F.C. repare no disparate: («Facto: por mais que insulte todos os que sabem distinguir democracia e ditadura e por mais que injurie os democratas-cristãos verdadeiros, dos quais muitos lutaram contra Salazar (e quantos estariam nas ruas de Porto e Lisboa a gritar por Delgado), pode-se dizer, hoje, em Portugal, “Salazar foi um democrata-cristão convicto”. Pode. Não é proibido nem dá prisão. É só aviltante. É só estulto. É só falso.’»)
    O titulo do post de FC é mesmo grandiloquente: “Obviamente infame”.
    FC ataca o historiador com categorias morais, éticas, da honra, da honestidade…
    É sobre esta venalidade escriturária que se debruça, e bem, a minha muito estimada, admirada e, sobretudo, respeitada Irene Pimentel.
    Gsoto de me referir a isto: quando se abusa dos adjectivos, dos avérbios, normalmente, é por que nada se tem para dizer, ou se vai resvalar para o disparate. Foi o que aconteceu a FC.
    Neste assunto, peço-lhe desculpa pelo contraditório, considero que FC perdeu uma boa ocasião para estar calada e, por maioria de razão considerando que publicou o artigo no DN…e se encheu de ridiculo.
    Tirante a abordagem que faz de FC, tudo o resto que diz merece o meu acordo.
    Abraço,
    J.Albergaria

  6. Valupito,

    Voltas à carga com o teu argumento desnaturado em tempo de vinho abafado. Era de esperar, não o nego. Fale-se ao homem em pedreiros ou saduceus ou em tudo o mais que posssa pôr em causa os alicerces gregos da patética e carunchosa Democracia em todas as suas formas, e é vê-lo sacar do despacho curto do arauto que anuncia ao mundo, entre vários milhares doutras coisas, os grandes benefícios da polémica “legítima e útil”. Por “legítima” entenda-se, não vá alguem pensar que isto aqui é o da joana e que Portugal não pertence à Nato, a que está prevista na lei e não deixa corrimento – não apareçam por aí os gajos da bófia a cheirarem termos obscuros e suspeitos que podem ser boas pistas para trabalhos de futura espionagem no Líbano. Nunca se sabe, o tremoço incha quando é demolhado.

    Seja como for, tenho, a propósito disto tudo, imenso desgosto de informar-te que a Fernandita tua amada não é capaz de pegar coisísima nenhuma “pelos cornos”. Esta minha decisão é final, última e democrático-fascista.. E, não julgues que não, tomei em consideração o facto, que de certo modo a abona em circulos que a adoram, de ela ter vivido ou nascido na área de Vilafranca das largadas e de ter presenciado, em idade pre-pubertária, manifestações anti-fascistas, com plena consciência politica daquilo que se desenrolava à sua volta.
    E usas a palavra “pedagogo” com uma ligeireza pouco aconselhável na praça blogueira. As pessoas vão pensar que sabes quase tudo. E porque já foste um e continuas a ser, deverias saber que a palavra também significa “pedante”, ou, se preferires, alguem que alardeia erudição. Já para não falar de escravos mal pagos.

    Cuidado com a jeropiga, mas mais ainda com o potássio.

  7. Caríssimo José Albergaria, eu é que agradeço o contraditório. É um prazer, e uma honra, poder discutir questões importantes com interlocutores que acrescentam inteligência ao debate, com quem aprendo. Vamos lá:

    – A Fernanda não fez uma notícia, emitiu uma opinião.

    – Eu não teria emitido aquela opinião, mas gostei de conhecer a dela.

    – O modo como exprimiu a sua opinião foi, inequivocamente, marcado pela emoção, mas esse é um recurso que está ao serviço da mensagem, marcando a sua gravidade para a autora.

    – Irene Pimentel, por outro caminho radicalmente distinto, coloca-se ao lado daqueles que não aceitam a associação de Salazar com um ideal e uma prática que possam ser descritos como representativos da democracia-cristã.

    Em resumo, e para mim, o que a opinião da Fernanda revela, e tal não será surpresa, é o melindre da problemática. Há variados interditos à volta da mera discussão de Salazar; também porque o tempo histórico ainda é insuficiente para evitar danos pessoais a muitos que colaboravam no regime anterior pelas mais diversas razões e nas mais diversas circunstâncias.

    Lembremo-nos de que a opção por não julgar os Pides, por exemplo, e fechar a sete chaves a sua documentação, esteve ao serviço da pacificação social, evitando vinganças e exposição da privacidade de milhares de pessoas e famílias. Com isso meteu-se o salazarismo numa gruta fechada a cimento, tendo-se entregado ao PCP o monopólio da sua exploração religiosa e comercial. O preço a pagar, porém, é este de, em 2010, ainda considerarmos Salazar como um estranho.

    Atenção: eu falo sem ter vivido como adulto, sequer adolescente, no Estado Novo – admitindo, sem qualquer dificuldade, a total irrelevância dos meus considerandos.
    __

    GiróFlé, patética e carunchosa democracia? Ensina-nos, então. Qual é o regime que advogas para o povoléu? Ou defendes a anarquia, desde que continues a poder ir à padaria comprar a carcaça matinal?

  8. Caríssimo,
    E fala muito bem.
    Contudo, nem eu, nem o meu amigo (presumo) temos a responsabilidade da visibilidade pública e mediática a que se alcandorou a jornalista Fernanda Câncio (parente da mulher do Soeiro Pereira Gomes, entre outras referências…).
    A mim, e a si, são permitidos estados de alma, banalidades, inépcias, dislates, tonterias…na praça pública.
    À FC, não.
    Eu entendo o seu argumentário, tentando distinguir a abordagem da FC daquela produzida por Irene Pimentel, historiadora.
    Não podem ser postas em linha, em minha opinião, por que se anulam.
    Só a bondade, a delicadeza, a amizade, o bom senso da historiadora, comparte no mesmo blog, prémio Pessoa 2008, a inibiu de conflituar com FC, Eduardo Pitta e Paulo Pedroso (pelo menos…).
    Depois, meu caro amigo, há a tese de Bento Spinoza:- A ignorância não é argumento.
    Esta tese vale para FC, como tão bem ilustrrou a competente historiadora, Irene Pimentel.
    Abraço,
    J. Albergaria

  9. Caro amigo, Irene Pimentel entende a dinâmica polemizante da entrevista, o seu gancho, e separa as águas: de um lado, a História como ciência; do outro, a política e suas paixões. Nesse sentido, está a caucionar a reacção da Fernanda, explicitando o óbvio: a sua opinião é uma resposta a uma afirmação intrinsecamente equívoca no plano político, mesmo que seja inequívoca para o historiador enquanto investigador.

    Assim, não vejo qualquer antagonismo de fundo com as opiniões exaltadas, ou galhardas, de figuras que prezamos por tantos motivos.

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