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Vida académica

É cada vez mais difícil antipatizar com o Paulo Bento Sérgio, agora que já começa e acaba os jogos com o Vukcevic, o mais importante reforço para esta época. E a equipa está cada vez melhor, como se vê pelo facto de Liedson e Djaló ficarem nos balneários logo ao intervalo. É disto que o Sporting precisa, criatividade. Só falta um pequeno acerto e temos a equipa pronta para iniciar um longo ciclo de vitórias. Trata-se de conseguir deslocar o Vuk mais para cima e para esquerda, mais, mais, mais um bocadinho, vá lá, aí, está bom – isso, mesmo em frente da baliza. Agora, há que montar a equipa desta vanguarda para trás. Do que é que ele precisa? De um tipo qualquer ao seu lado: Liedson, Postiga, Saleiro, Tiago, o roupeiro Paulinho, tanto faz. E precisa de dois habilidosos para lhe passarem a bola sempre que puderem: o Matías e o Valdés.

É só isto, Sérgio. Podes continuar o treino.

La haine

Para discutir e negociar é preciso estar-se entre gente de palavra. A grande questão neste momento é se vale a pena negociar com Sócrates. É se ele é confiável. Pessoalmente acho que não. Ele irá ao fundo mas leva o país atrás e deixa-nos a todos cobertos de lama.

Helena Matos

Passos Coelho parece que percebeu o tipo de personagem que tem pela frente. E disse o óbvio. Isto é, que não volta reunir com o dito cujo a sós. O mesmo é dizer: o personagem é um mentiroso compulsivo. O que é do domínio público. Só é pena os passistas terem andado tanto tempo a criticar aquilo a que chamaram “ataques de carácter”. É que agora o problema não é só de carácter: é já de higiene mínima. Senão apodrece tudo à volta. E fede.

Zé Manel

Pluralismo

Foi com muita estupefação que ouvi a reacção do primeiro-ministro e nunca pensei ter que dizer o que vou dizer: não haverá nenhuma outra ocasião, no futuro, em que o líder do PSD volte a conversar em privado com o primeiro-ministro sem que existam outras pessoas, que possam testemunhar a conversa.

Passos

Tomo as declarações do líder do PSD pelo que são: um agravo pessoal absolutamente inadmissível e injustificável. Das conversas que mantive com o líder do PSD revelei apenas e só o que ambos concordámos que fosse tornado público. As suas declarações são impróprias de um líder político com responsabilidades.

Sócrates

Menoridade

Para se entender a posição do PSD em relação ao Orçamento, há que ter consciência de ser esse partido algo mais parecido com uma cooperativa do que com uma empresa. Obviamente, as suas palavras e actos o demonstrando todo o santo dia, Passos é apenas o boneco de um grupo que não pode, em caso algum, ficar colado com o seu consentimento ao que se passar em 2011 nas finanças portuguesas e dos portugueses. Isso levaria à impossibilidade de defesa quando a concorrência interna avançar com um candidato de peso, algo que pode acontecer assim que a janela de eleições legislativas voltar a abrir após as presidenciais. Veja-se como o fantasma do FMI é usado em registo de deboche só para a pateada, ninguém acredita que a União Europeia deixasse abrir mais um rombo com consequências sistémicas. Solução? Ficar colado sem consentimento. Daí a reunião com Cavaco, o qual também ganha se aparecer como a autoridade que acabou com o impasse e salvou Portugal.

Passos já não precisará de voltar a pedir desculpas, a culpa é do papá.

O belo é difícil

Na morte de Teresa Lewis, culpada de ser mandante do assassinato do marido e enteado, a questão do QI permite iluminar a aberração de se depositar num critério científico a decisão de se retirar a vida a um ser humano. Neste caso, trata-se da diferença de dois pontos, 72 para 70, num qualquer formato de quantificação da inteligência escolhido pela Justiça local ou federal. A inteligência aqui medida, por sua vez, é um objecto empírico que escapa ao consenso científico, podendo ser alvo de contrastantes definições – já para não falar que a mesma definição pode originar variadas métricas e tipologias de teste. Estamos a lidar com uma questão que é, inerentemente, multidisciplinar, interdisciplinar e transdisciplinar. Como é que se admite a lotaria dos testes de inteligência quando está em jogo uma realidade irrecuperável?

Mas a mesma lógica, que pode aqui chocar muitos, é admitida na interrupção da gravidez e na eutanásia por outros tantos ou mais. Definir semanas, ou anos, para justificar a morte de um ser humano é igualmente uma aberração. Por isso, às descaradas no aborto e discretamente na eutanásia, racionaliza-se a destituição da humanidade a esses corpos a abater, reduzidos a agregados de células e tecidos inúteis. Os exemplos anedóticos de candidatos ao aborto que escaparam e viveram vidas iguais às de todos no seu mistério e glória, ou de comatosos que acordaram ainda a tempo de evitar a sentença dos impacientes, são postas de parte na abstracção que reduz o outro a um erro a corrigir, a uma doença de remédio fatal.

Sim, este assunto é difícil. E, também por isso, belo.

Curiosidade e perplexidade

Uma das maiores curiosidades na política nacional, aqui para o pilas, respeita à postura do PS quando for oposição. Estou, pois, a ousar presumir que o PSD poderá ser Governo num qualquer futuro, próximo ou longínquo; e isto apesar de todas as evidências em contrário, mas adiante. Para o exercício adivinhatório, uma fulcral variável aparece logo ao início: com ou sem Sócrates? O ideal, para quem gosta de política tanto como de cinema ou futebol, seria com. Ter o PS liderado por Sócrates na oposição, depois do que lhe fizeram no Governo, seria uma raríssima ocasião para se completar o retrato de um político que – e são os seus adversários e inimigos que o cultivam – é já reconhecido unanimemente como um estadista de excepção. Este atributo não diz respeito aos afectos e popularidade que desperta, que em muitos casos é puro ferruncho ou ódio, mas ao exercício do Poder em dadas circunstâncias e seus resultados eleitorais. Só que tal cenário é altamente improvável, sendo lógico que se mude de Secretário-Geral em caso de derrota nas legislativas. O que nos leva para a segunda variável, decisiva: quem se segue? Um PS de Costa será muito diferente de um PS de Seguro, um PS de Vitorino seria muito diferente de um PS de Assis. Uma única certeza: qualquer destes 4 proto-candidatos é preferível para o eleitorado a qualquer dos presidentes do PSD desde 1991.

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Tranquilidade

A escolha de Paulo Bento para seleccionador nacional só poderia vir da mesma moleirinha que queria Mourinho em fraction-time para dois jogos. São escolhas rigorosamente simétricas: o génio incomparável e a vulgaridade com génio, o favorito dos maiores clubes do Mundo e o que não treinou senão um clube em toda a sua mínima carreira.

Bento foi fazendo o curso de treinador em regime de trabalhador-estudante enquanto esteve no Sporting. Começou a treinar os juniores, mas só se aguentou uma época. Na seguinte, já dava ordens aos graúdos. Nos 4 anos em que acumulou classificações que deixariam o Belenenses em êxtase, conseguiu pôr a equipa a jogar o futebol mais feio dos últimos 30 anos leoninos. E foi um especialista em querelas com jogadores, preferindo ostracizar o talento a resolver problemas.

Bento passa uma imagem de operário fabril, honesto, frontal e abrutalhado. O seu moralismo calvinista espelha-se na monotonia táctica e na filosofia de ganhar com esforço, grão a grão, contando os tostões.

Pode resultar na Selecção? Claro que sim! É essa a beleza de ser dirigente e treinador de futebol: quem tiver sorte terá razão.

Good food for good thought

L’ombre historique du communisme pèse encore sur la gauche, et comment! Le fait que le socialisme au pouvoir ait pris une forme communiste, c’est-à-dire une succession de régimes tyranniques, misérables et criminels, reste dans toutes les mémoires. Surtout en Europe, où ce passé terrifiant ressurgit régulièrement au fur et à mesure que nous découvrons de nouveaux documents accablants sur cette époque, les agissements criminels des nomenklaturas, les mea culpa contraints des plus grands intellectuels.

En même temps, l’effondrement brutal et grotesque du communisme a signifié l’écroulement de quelques-uns des grands mythes de la gauche tout entière. L’idée qu’elle allait changer le monde par la “révolution“, que celle-ci fût violente, comme le voulaient les bolcheviques, ou graduelle, comme l’entendaient les sociaux-démocrates, a fait long feu.

Qui veut encore la révolution aujourd’hui, et pour mettre en place quel régime? Quant aux grands discours sur “la lutte des classes“, ou même “la haine de classe“, nous savons bien qu’ils mènent à la guerre civile et au despotisme.

La notion de “progrès” et de “progressisme“, qui veut que la gauche défende un futur meilleur, aille dans le sens de l’histoire et de la libération de l’homme, vacille aujourd’hui après les révélations des livres noirs du communisme comme suite aux effets désastreux de nos industries et du progrès technique sur l’écologie de notre planète.

De même, l’incapacité intrinsèque de la planification socialiste à développer une économie prospère et éviter la paupérisation générale, son dirigisme rétif à tout esprit d’initiative ont ruiné les rêves d’une économie tout étatique et redistributrice, et montré les avantages du libre-échange et du marché, en dépit de ses crises et de sa brutalité.

Malgré cela, il reste encore des “intellectuels de gauche” pour justifier l’époque socialiste et l’étatisme forcené. Des hommes de gauche ou de l’ultra-gauche qui persistent à diaboliser le marché et se définissent comme “anticapitalistes” ou “antiaméricanistes“, montrent des sympathies dangereuses envers des régimes dictatoriaux comme le Cuba de Fidel Castro ou le Venezuela d’Hugo Chavez, font preuve d’une négligence coupable envers l’islamisme ou le terrorisme, qu’ils “comprennent” ou “excusent“.

Raffaele Simone : “Pourquoi l’Europe s’enracine à droite”

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Sugestão da nossa amiga Penélope, selecção minha.

Queiroz forever

Queiroz não estava a brincar no aviso de que só sairia da Selecção depois de morto. Como sabemos, ele já se apresentava num estado zombie quando tirou o Hugo Almeida contra a Espanha. E os dois meses seguintes só agravaram a situação. Agora, resolveu apresentar queixa-crime contra quem fez o processo que levou aos castigos e subsequente rescisão de contrato. Vamos continuar a ter Queiroz na Selecção por mais uns anos, portanto. Se isto não der em nada, o Professor avançará para a greve de fome junto ao Estádio Nacional.

Oportunidade para sugerir o estudo que o nosso amigo Júlio Pereira fez da personagem.

Άνθρωπος

A entrada da extrema-direita no parlamento sueco, obtida por um partido que começou por atrair neo-nazis e anti-semitas, é uma boa ocasião para a esquerda pensar um bocadinho. Porque, nos últimos anos, o Sverigedemokraterna conquistou eleitores comuns, sem fanatismo e densidade ideológica. Que se terá passado, pois?

A resposta parece estar na problemática da imigração. Uma oposição radical às políticas que permitem a entrada de imigrantes desqualificados gera, no contexto de um longo ciclo de ameaças e restrições económicas, popularidade positiva – naturalmente. Isto, como fenómeno sociológico, é inevitável. Explica-se com o recurso a manuais básicos de antropologia. Qual deve ser a resposta?

Toda menos aquela que está a passar-se no caso francês com a expulsão de certas comunidades de ciganos, onde se fazem analogias com a Alemanha Nazi e a França de Vichy. Essas comparações – num certo sentido – são mais graves do que o próprio problema, por terem consequências vastas e duradouras. Infectam a discussão com um maniqueísmo que despreza e ofende pessoas que não se reconhecem como racistas, antes como vulgares cidadãos cumpridores da lei ou temerosos pela sua segurança e bens. Serem acusados de que a sua posição não passa de uma monstruosa falha moral é mais uma potencial razão para se barricarem à volta do populismo da extrema-direita. A desmesura do anátema destrói as frágeis vias para o diálogo e a racionalidade civilizacional. A cura da esquerda, pois, aumenta a doença da direita.

Na verdade, Sarkozy, involuntariamente, provocou um teste à saúde política da Europa. Pela resposta de Viviane Reding e Barroso, entre outras individualidade e partidos em diferentes países, podemos constatar da impossibilidade de se imitar qualquer tipo de violência que tenha a menor relação com a patologia suprema do Nazismo. Não se concebe que tal possa ser repetido neste espaço da União Europeia quando meras situações avulsas e ambíguas geram tamanho alvoroço – o que torna a retórica inflamatória ainda mais abominável. Mas existir uma forte e emocionada reacção às decisões do Eliseu, sendo bondosa na sua finalidade, não resolve problema algum. Só a integração económica e cívica dos marginais, de qualquer origem, pode acalmar as populações que estão dispostas a defenderem-se do que consideram – com toda a legitimidade – uma ameaça à sua qualidade de vida e segurança.

Para anular o discurso xenófobo da extrema-direita, a qual imita a estratégia da extrema-esquerda quando esta cresce através da agenda ao centro, a esquerda terá de reaprender a ouvir o povo.

Uóte?

Tive a mesma reacção da Ana quando ouvi o presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, Miguel Oliveira e Silva, declarar, em modo enfastiado-descontraído, que sabe da existência de ilegalidades das quais não tem provas. Ora, essa peculiar intervenção cívica, em que se presume a existência de ilícitos sem carência de justificação válida da denúncia, não será estranha à prática da enorme maioria da população. O que origina o espontâneo uóte, então, é a suspeita de não sermos todos presidentes de conselhos nacionais de ética. Uma suspeita com algum fundamento, salvo melhor informação.

Mas isto, lá está, é a malta a presumir que a ética terá alguma relação com a definição do Bem para uma dada comunidade, num dado tempo, dadas certas circunstâncias e finalidades. Claro, podemos estar é muito bem enganados.

Um partido a vapor

Ferreira Leite nunca associou o TGV ao problema do financiamento externo pela simples razão de esse problema só ter surgido em 2010. Primeiro, saiu-se com o fantasma de que o TGV não iria dar lucro, depois que seria um encargo que não permitiria baixar os impostos, a seguir que ficaria como despesa a pesar durante os próximos 30 anos, por fim que o Governo devia adiar a decisão para depois das eleições em Setembro, não comprometendo um eventual Governo do PSD. E isto sempre em relação com o novo aeroporto e restantes grandes obras públicas. Era algo que tinha para dizer, prontos, faltando algo que valesse a pena ser dito.

Foi isso, e só isso (se esquecermos a internacionalista alusão aos cabo-verdianos e ucranianos), que a Manela andou a papaguear sem ter alguma vez explicado o que faria para além de parar tudo. Não espanta, então, que a sua claque – comentando agora uma decisão tomada e publicitada em Maio – venha mentir à boca cheia. Os proprietários da verdade são sempre os maiores mentirosos, isso é sabedoria banal de conto infantil. De resto, não existe nenhuma correlação entre as notícias acerca do TGV e do aeroporto e as flutuações no risco da dívida – quem quiser perder tempo, que faça quadros cronológicos comparativos. O mercado reage num misto, indiscernível, de estratégias individuais de ganhos, e de reacções colectivas, a certas fontes de informação seleccionadas pelo seu valor de referência para o cálculo de curto prazo. Se alguma autoridade europeia de topo se pronuncia, seja de que forma for, acerca da economia nacional, o mercado ouve e age no imediato. Se o Governo anuncia que faz obras públicas, seja qual for a dimensão do investimento, o mercado tem mais em que pensar. Não se ganha dinheiro, num sistema onde os agentes são especialistas em volatilidade, fazendo cálculos a 15, 10 ou 5 anos. Isso é para os pacholas animais domésticos dos governantes e comunidades locais, não para os felinos e abutres da alta finança global.

Aliás, se o mundo não mudou no princípio de 2010, que mal fizemos ao PSD para não nos ter avisado do que vinha a caminho? Não podiam ter explicado logo, um mês ou dois antes das eleições, que a Grécia andava a fazer maroscas com as suas contas públicas? E que a União Europeia seria atabalhoada na resposta aos ataques à sua moeda, fragilizando os países que mais precisavam de investimento público para acelerar e robustecer a recuperação económica? Isso teria muito maior impacto nos resultados eleitorais do que a aposta na Moura Guedes, Pacheco Pereira e pastéis de Belém. Seria como um TGV em direcção ao Poder, em vez do barulhento, poluidor e lentíssimo comboio a vapor com que foram a votos.