Não foi uma surpresa que Putin quisesse invadir a Ucrânia em 2022 porque já o tinha feito em 2014. Surpresa foi não ter sequer conseguido ameaçar entrar em Kiev tendo umas forças armadas 100 ou 1000 vezes mais poderosas do que as ucranianas. A esse fiasco inicial, seguiu-se uma guerra de atrito, de destruição e matança insana, onde nem com o apoio financeiro da China e da Índia, e com o material militar fornecido pelo Irão e Coreia do Norte, as forças russas conseguem ganhos estratégicos contra um país drasticamente limitado nos seus recursos demográficos face ao invasor.
A segunda grande surpresa desta guerra vem da incursão ucraniana na região de Kursk. É surpreendente porque as notícias dos últimos meses dão conta do crescente desgaste das linhas da frente da Ucrânia, com pequenos avanços russos. Mas é ainda mais surpreendente porque ninguém entendeu a lógica da coisa. Que raio vão fazer os ucranianos nesse território onde só parece existir um aparente alvo civil com eventual valor para ser destruído? É simples de perceber ser cada vez mais difícil manter linhas de abastecimento à medida que o tempo passa e as forças avançam não se sabe com que finalidade. Donde, para quê isto, senhores? A incompreensão foi o sentimento prevalecente nas reacções mediáticas nos primeiros dias.
Acontece que já passaram 9 dias. E isso configura a terceira grande surpresa, pois não se vê a Rússia anular a presença ucraniana no seu território, sequer a impedir o seu avanço. Pelo contrário, estão a deslocar civis noutras áreas, assim provando que não têm resposta militar adequada à situação.
Obviamente, é provável que Zelensky não esteja com grande fé de ver os seus soldados ocupar a Красная площадь com armamento “ocidental”. E alguma coisa está a ser planeada pelos generais russos que resolverá a crise de modo decisivo. Obviamente.
Dito isto, não poderia existir surpresa maior nesta guerra do que ver Putin a assinar um acordo de paz. Fosse quando fosse.